Abordagem de Questões Sociocientíficas como ferramenta no ensino de Desenvolvimento Científico, Globalização e Impactos Ambientais em uma turma do NEJA.
Vitória Beltrão Ribeiro, João Paulo Fernandes, Marcília Elis Barcellos Marcilia Barcellos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- Ensino, Aprendizagem E Avaliação Em Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Abordagem de Questões Sociocientíficas como ferramenta no ensino de Desenvolvimento Científico, Globalização e Impactos Ambientais em uma turma do NEJA
Vitória Beltrão Ribeiro 1 , João Paulo Fernandes 2 , Marcilia Elis Barcellos 3
- 1 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca - CEFET/RJ/Graduanda em Licenciatura em Física/vitoriabeltrao@gmail.com
- 2 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca - CEFET/RJ /Física/
joao.fernandes@cefet-rj.br
- 3 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca - CEFET/RJ /Física/ marcilia.barcellos@cefet-rj.br
## Resumo
Neste trabalho, serão apresentadas as características da abordagem por questões sociocientíficas (QSC) e sua relação com o método freireano de busca por uma educação crítica e emancipatória, e como podem auxiliar os professores em abordar assuntos de forma a possibilitar formar cidadãos ativos e reflexivos. O estudo foi realizado a partir de um estudo de caso em uma turma noturna de NEJA (Nova Educação de Jovens e Adultos) em uma escola com estrutura padrão de um CIEP, localizada em um município na cidade de Petrópolis, localizada na região serrana do Rio de Janeiro, por meio da disciplina "Desenvolvimento Científico, Globalização e Impactos Ambientais" e ocorreu no contexto póstragédia que atingiu a cidade, deixando aproximadamente 240 mortos e 4 mil desabrigados, cerca de um ano após o ocorrido. O projeto culminou em uma atividade principal (mesa redonda) com o protagonismo dos alunos, em que a sala de aula foi cenário de registros fundamentais para a análise a partir de conceitos freireanos.
Palavras-chave : Questões Sociocientíficas. Tema Gerador. Pedagogia Freireana.
## Introdução
A pesquisa foi desenvolvida com trabalho de campo em concomitância com o projeto 'Futurando com ciência' com apoio da FAPERJ (Projeto financiado pela FAPERJ que visa à integração entre universidades e escolas de educação básica por meio de metodologias horizontais). A escola em que a pesquisa foi realizada localizase em um distrito no município de Petrópolis e possui estrutura padrão de um CIEP (Centro Integrado de Educação Pública).
A proposta didática foi desenvolvida para uma turma do programa de Nova Educação de Jovens e Adultos (NEJA), que ocorreu no turno da noite em uma escola da rede estadual de ensino localizada no município de Petrópolis. No turno da noite, são oferecidas as turmas de NEJA com regime de módulos semestrais e com duração de dois anos. A disciplina foi ofertada em um novo contexto, o Novo Ensino Médio, em regime semestral presencial. Ela não fazia parte da grade curricular da Educação de Jovens e Adultos (EJA). A proposta do NEJA do Governo do Estado do Rio de Janeiro para o Novo Ensino Médio inicia-se em conformidade com a Lei nº 13.415/2017, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Esta legislação preconiza que os currículos do Ensino Médio sejam compostos por itinerários formativos, oferecidos por diferentes composições curriculares, que poderão ser selecionados conforme a diversidade e os interesses locais.
A disciplina em questão tem como tema 'Desenvolvimento Científico, Globalização e Impactos Ambientais' e está no itinerário formativo de Ciência, Tecnologia e Sociedade. A ementa foi desenvolvida por um grupo de pesquisa, composto por professores universitários da área de Física/Ensino de Física, professores de História e Geografia da escola, alunos de graduação em Licenciatura em Física e uma aluna de mestrado em Ensino.
A proposta tem como objetivo identificar problemáticas da realidade local de Petrópolis vivenciadas pelos alunos utilizando a abordagem de QSC (Questões Sociocientífcas) - em que se priorize as articulações entre as dimensões científica, tecnológica, socioambiental, política, econômica, ética, moral e cultural. Além de promover o debate de questões relevantes para a comunidade com o intuito de possibilitar a formação para a cidadania e incentivar a tomada de decisão consciente sobre escolhas individuais e coletivas, a iniciativa visa incentivar um engajamento com temas sociais.
A abordagem a partir das QSC se alinha com a pedagogia freireana ao fomentar um espaço de diálogo crítico e reflexivo, onde os indivíduos são encorajados a questionar, debater e desenvolver uma compreensão crítica das questões sociocientíficas e que essa compreensão crítica pode ser potencializada com a relação entre a Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS). Isso contribui para a formação de cidadãos conscientes e engajados, capazes de atuar na transformação de suas realidades e na mitigação das vulnerabilidades sociais e ambientais. Segundo Freire (2000), se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.
O principal foco das críticas de Freire ao processo educacional hegemônico foi direcionado ao que denominou de educação bancária, postulando e praticando, em substituição a ela, a educação problematizadora. A bancária constitui-se num ato de depositar e consumir ideias - concepção materializada, nas ciências naturais, conforme nossa análise, em depositar, em reforçar construções históricas sobre CT, contribuindo para o que Freire denominou de 'cultura do silêncio'. No nosso entender, tal problematização precisava chegar ao campo das ciências naturais, problematizando as referidas construções históricas. Em outros termos, uma reinvenção da concepção freireana deveria incluir uma compreensão crítica sobre as interações entre ciência-tecnologia-sociedade (CTS). (Auler e Delizoicov, 2015, p. 281)
Paulo Freire, em sua obra, destacou a importância da educação como prática de liberdade e transformação social. Segundo ele, não há saber mais, nem saber menos, e sim há saberes diferentes. Esta perspectiva freireana reforça a necessidade de valorizar o conhecimento local e a experiência dos indivíduos, promovendo um diálogo horizontal que respeite e integre esses saberes no processo educativo.
As ações, mediadas pelos docentes, foram planejadas em reuniões semanais do grupo de pesquisa e tiveram como foco o desenvolvimento de um letramento científico crítico e reflexivo dos alunos. Essa proposta oferece um contato - dos professores, licenciandos, mestrando e alunos - com uma nova abordagem de ensino. Durante todo o processo foi visível a melhoria no desenvolvimento e interesse dos alunos como também uma nova vivência para os docentes que buscaram a partir de um processo de ensino-aprendizagem fazer a diferença na vida do aluno.
As questões norteadoras desta pesquisa são: i) Como buscar um tema gerador no diálogo com educandos do NEJA?; ii) É possível chegar em questões sociocientíficas a partir dessa metodologia?
A análise será realizada a partir de dados provenientes de videogravações das ações desenvolvidas com os sujeitos que integram a pesquisa visando identificar o desenvolvimento crítico, o processo de letramento científico e as relações e
percepções que são estabelecidas entre a ciência e suas implicações sociais, culturais, tecnológicas e ambientais.
## Metodologia
As ações foram planejadas em reuniões semanais com os professores e licenciandos envolvidos no projeto, as primeiras reuniões antes do início das aulas para então planejar as primeiras ações e após o início das aulas, as reuniões semanais tinham como objetivo ajustar as atividades conforme as necessidades dos alunos. Todas as atividades propostas pelo grupo foram desenvolvidas com o objetivo de abordar temas relevantes para a comunidade escolar, incluindo problemas sociais e seus impactos ambientais e cotidianos.
A proposta surgiu com a oportunidade de trabalhar com o tema das mudanças climáticas, dado o significativo impacto enfrentado pela cidade de Petrópolis após a tragédia de 15 de fevereiro de 2022. Este tema foi considerado pelo projeto de pesquisa como socialmente relevante e agudo, apropriado para ser abordado na disciplina. Nas reuniões iniciais de planejamento, foi decidido que as primeiras aulas abordariam temas socioambientais locais, pertinente à disciplina. Assim, os tópicos "Meio Ambiente, Sociedade e Impactos Socioambientais, Aspectos Históricos e Geográficos Locais" foram tratados nas aulas iniciais para estabelecer uma base sólida. Essa abordagem inicial preparou o terreno para a atividade "roda de conversa", idealizada durante as primeiras reuniões de planejamento. A roda de conversa foi concebida como uma atividade central para o projeto, permitindo a identificação de temas geradores³ relevantes para os alunos. A partir dessa atividade, os encontros subsequentes foram organizados com base na escuta ativa dos educandos, garantindo que suas preocupações e interesses orientassem o desenvolvimento das aulas. No quadro 1, segue as etapas, tanto de planejamento quanto de ações na disciplina que culminaram na roda de conversa.
Quadro 01: Exemplo de um Quadro
A roda de conversa representou um momento significativo para a pesquisa, durante o qual emergiram os temas fundamentais da disciplina. Os participantes do projeto formularam questões orientadoras, destinadas a servir como referência para nós enquanto facilitadores dos debates potenciais. Essa abordagem está alinhada com os princípios da pedagogia freireana, que enfatiza a importância da problematização e da construção coletiva do conhecimento através do diálogo e da reflexão crítica. As questões foram: i) Por que você estuda aqui?; ii) O que você imagina que seja estudar no NEJA?; iii) Qual a sua motivação e o que você espera ao estar aqui?; iv) Qual o papel da escola na comunidade?; v) Você se sente pertencente a alguma comunidade e quais são os principais problemas e dificuldades na sua comunidade?; vi) Qual é sua relação com esse território?.
A aula foi realizada no auditório do prédio escolar do CIEP. Organizamos as cadeiras formando uma roda, literalmente. Para que todos os participantes se sentissem incluídos e a vontade para participar. Algumas falas, principalmente das pessoas que estavam longes do microfone, ficaram inaudíveis, e por isso não foram registradas. O que foi possível registrar, será apresentado abaixo, na transcrição da roda de conversa.
## Análise da roda de conversa com base na abordagem freireana
Neste tópico, relacionarei algumas falas e iniciativas provenientes da dinâmica de grupo com os princípios da abordagem pedagógica freireana, dado que se revelaram indispensáveis para o progresso e a elaboração estratégica das atividades no âmbito do projeto.
Paulo Freire, em suas obras, enfatiza a importância de a sociedade não se acomodar e aceitar passivamente os eventos que impactam diretamente suas vidas. Esse posicionamento fundamenta-se na necessidade de reconhecer a própria capacidade de ação como cidadãos. Tal perspectiva suscita uma reflexão crítica sobre a razão pela qual o tema das chuvas intensas não foi imediatamente abordado pelo grupo quando questionado sobre os problemas sociais, mesmo diante de um evento catastrófico recente na cidade onde a pesquisa foi realizada. Essa lacuna na discussão pode ser interpretada à luz da pedagogia freireana, que valoriza a conscientização crítica e a participação ativa dos indivíduos na identificação e solução de problemas sociais. Freire propõe que a educação deve empoderar os cidadãos, permitindo-lhes reconhecer e utilizar sua capacidade de agir de forma eficaz para transformar suas realidades. Assim, o questionamento sobre a omissão inicial do grupo evidencia a necessidade de um ensino que promova a reflexão crítica e a ação proativa, essenciais para a emancipação e o engajamento social. Em algumas falas, podemos identificar um ambiente que está sendo desenvolvido a partir dessas preocupações que se baseiam na abordagem freireana.
As questões levantadas ao decorrer da roda de conversa dialogam diretamente quando Paulo Freire diz que o educador é um facilitador do diálogo e da problematização da realidade. Essas questões criaram um ambiente favorável à reflexão dos alunos a fim de compreenderem sua realidade a partir de uma análise crítica do cenário socioambiental e, em paralelo, questionarem as ações desenvolvidas pelos agentes políticos na transformação da realidade. A partir das questões, os alunos levantaram diversos problemas vivenciados no cotidiano e foram estimulados a refletirem criticamente sobre eles, assim exercitando sua capacidade crítica e não somente identificando o problema sem que compreenda sua responsabilidade social enquanto cidadão. Assim uma situação limite pode se converter em um inédito viável, em termos freireanos.
No início da roda de conversa, apresentamos aos alunos o objetivo de construir a disciplina de forma conjunta com eles, enfatizamos a importância de sua participação no processo colaborativo. Para definir os temas a serem abordados, era essencial que os alunos estivessem ativamente envolvidos na construção do conteúdo. Começamos questionando os alunos sobre os problemas que enfrentavam em sua sociedade. Isto permitiu que surgissem temas relevantes e significativos para eles, garantindo que a disciplina fosse contextualizada e pertinente às suas realidades. Isso pode ser visto nas seguintes falas destacadas:
- J - Quais as principais dificuldades que vocês enfrentam para estar aqui? Aluno:
Cansaço, trânsito, não ter vontade de vir.
Aluno: Emocional, estresse.
Aluno: Para a gente que trabalha é muito mais difícil.
- V - Quais os principais problemas que vocês conseguem identificar na sua comunidade?
Aluno: Ônibus atrasado, quebrado, lotado.
Freire acreditava que os alunos devem ser co-criadores do conhecimento, participando ativamente na construção do currículo. Ao incorporar as experiências e preocupações dos alunos no processo educativo, estamos promovendo uma educação crítica e conscientizadora, onde os estudantes são incentivados a refletir sobre suas realidades e a buscar soluções para os problemas que enfrentam. Quando os alunos têm a oportunidade de escolher os problemas que desejam debater, isso os torna mais engajados e motivados no processo de aprendizagem, pois estão lidando com questões que têm significado pessoal e relevância para suas vidas, além disso, exercitam sua autonomia, desenvolvem habilidades de tomada de decisão. Por isso, era crucial que os alunos levassem suas questões para a roda de conversa, permitindo que os temas abordados sejam relacionados com suas vivências e interesses.
Os alunos levantavam as questões problemáticas que enxergavam na cidade, entretanto, se via apenas falas de apontamentos e não tendências de resolução ou hipóteses de possível resolução dos problemas mencionados, bem caracterizando uma situação limite. A fala de uma agente do projeto dialoga com a necessidade de estimular e incentivar a participação ativa dos alunos nas causas sociais que estão presentes na vida dos mesmos, e assim compreender a importância das ações de mobilização. Contudo, é nítido ver a falta de esperanças nos alunos de que suas vozes serão ouvidas e levadas em consideração para mudanças políticas e sociais.
Vocês conseguem perceber que os problemas que vocês estão levantando aqui na nossa roda de conversa, eles não são problemas fáceis de serem resolvidos, mas que se a gente enquanto comunidade começar a se mobilizar, fizer campanha de conscientização, talvez a gente consiga um pouquinho de mudança? Vocês entendem que todos esses problemas aqui levantados, a gente
consegue de alguma forma se mobilizar para tentar fazer alguma coisa diferente? (Agente da pesquisa).
Em um outro momento na roda de conversa:
Aluno: Se ela quer passar na calçada, mas eu quero e preciso consertar o carro no meu negócio, na minha enfim o que for, eu vou botar e ela que passe no meio na rua.
- M: Quais seriam as alternativas? Fechar a oficina então já que não tem espaço?
Aluno: Se fosse tão fácil como você quer que eu coloque que seja aí seria de outra forma. Está levando para que eu diga para fechar, então fecha, se para eu passar na calçada, onde eu tenho que passar e direito meu, que fecha a oficina.
M: Não, não to levando vocês a fecha, to querendo refletir é o seguinte, uma coisa é a gente achar que o problema tá no nível individual né, então é culpa de cada pessoa que não tem noção, que não se preocupa com os outros, que não quer dizer que seja mentira, é verdade, isso é um problemaço né, mas assim, você fala assim, uma cidade foi planejada para ter 50 pessoas e tem muito mais que isso, o que aconteceu? Porque aconteceu isso com a cidade?
Nesse trecho a aluna expressa uma visão de culpabilizar o indivíduo de classe social baixa pela situação adversa em que se encontra, tendo uma compreensão pouco complexa das estruturas sociais. É importante contextualizar a situação dentro de um quadro mais amplo de injustiças sociais e desigualdades estruturais, isso inclui examinar como políticas governamentais e práticas sociais contribuem para a marginalização e a falta de acesso a recursos básicos para determinadas comunidades. Nesse sentido, a educação desempenha um papel crucial no estímulo da consciência crítica e na capacitação das pessoas para se tornarem agentes de mudança em suas comunidades. Ao invés de reafirmar narrativas de culpabilização, é preciso incentivar o diálogo, a solidariedade e a ação coletiva para enfrentar as injustiças sociais.
Ao promover um ambiente onde a troca de ideias é valorizada, fortalece-se a relação horizontal entre os alunos e o corpo docente. Esse processo de diálogo aberto fomenta uma cultura de inclusão e compreensão, na qual cada indivíduo tem a oportunidade de ser ouvido e respeitado. Além disso, a diversidade de perspectivas enriquece o aprendizado coletivo, proporcionando insights valiosos. A experiência com essa turma específica ilustra claramente os benefícios dessa abordagem. Nesse contexto, foi adotada a prática de questionar os alunos sobre suas preocupações com os problemas da sociedade em que viviam. Esta prática não só permitiu que os alunos expressassem suas opiniões e sentimentos, mas também promoveu um ambiente de reflexão crítica e empatia. Alguns exemplos de falas destacadas da roda de conversa:
- V - Quais os principais problemas que vocês conseguem identificar na sua comunidade?
Aluno: Ônibus atrasado, quebrado, lotado.
- J - Tem algum evento que acontece que, de certa forma, impede o trânsito de vocês, o ir e vir? Existe algum problema que preocupa vocês em algum momento, que vocês acham grave?
Aluno: Ônibus para na subida do morro e temos que subir a pé.
Aluno: Muitos carros estacionamentos na beira de rua, atrapalha o ônibus, atrapalha a gente.
- M - Vamos dizer que o prefeito viesse aqui amanhã, (inaudível) o problema do bairro de Corrêas é (inaudível) o que você iam falar para ele?
Aluno: A quadra do (inaudível) tá muito ruim.
Aluno: Falta creche.
Aluno: Não tem com quem deixar.
Aluno: Pouco (ônibus) 700.
Esta abordagem está alinhada com as práticas pedagógicas de Paulo Freire. Ele defendia uma educação dialógica, onde o diálogo é central para o processo
educativo. Ele acreditava que a educação deve ser um processo participativo e colaborativo, onde tanto professores quanto alunos aprendem uns com os outros. Através do diálogo, os alunos são encorajados a refletir criticamente sobre sua realidade.
É evidente que os alunos desta turma frequentemente baseiam suas falas no senso comum, sem relacioná-las a dados críticos e científicos. Esta observação revela uma lacuna significativa na preparação da sociedade para o exercício pleno da cidadania, especialmente na busca por soluções que possam mitigar os problemas enfrentados. Durante nossas discussões, os alunos compartilharam críticas e julgamentos sobre os problemas de sua sociedade, tendendo a culpabilizar os agentes mais frágeis do processo, a própria sociedade. Esta tendência reflete uma compreensão limitada das questões sociais, demonstrando a necessidade de uma educação mais crítica e fundamentada.
Esta situação se alinha com as práticas educacionais de Paulo Freire, que enfatiza a importância de uma educação libertadora, capaz de transformar a consciência ingênua em uma consciência crítica. Freire argumenta que a educação deve ir além da mera transferência de conhecimento e promover uma reflexão profunda sobre a realidade, capacitando os alunos a entenderem e questionarem as estruturas sociais e políticas que os cercam. Se inspirando nos princípios de Freire, é crucial fomentar um ambiente educacional onde os alunos sejam incentivados a analisar criticamente as informações e a desenvolver um entendimento mais profundo das questões sociais. Isso implica a adoção de práticas pedagógicas que valorizem o diálogo, a problematização e a contextualização do conhecimento, promovendo uma educação que não apenas informe, mas também transforme os alunos em agentes conscientes e ativos na busca por soluções para os desafios sociais.
Desde a proposta inicial da construção da disciplina do NEJA, procuramos criar práticas que se alinham com os princípios do diálogo freireano. Tivemos a oportunidade de propor uma disciplina que seguisse a ideia de educação consciente e ativa, centrado na participação dos alunos e na valorização de suas experiências e perspectivas.
## Conclusão
Ao permitir que os temas surgissem de forma orgânica e ao promover a escuta ativa, conseguimos criar um espaço educativo que valoriza a experiência e o conhecimento prévio dos alunos, alinhado com o conceito freireano de que a educação deve ser um processo de co-construção do conhecimento. Essa abordagem não só fortalece a aprendizagem, mas também capacita os educandos a se tornarem agentes transformadores em suas comunidades, promovendo uma educação que vai além da sala de aula e que tem um impacto real na sociedade.
Inicialmente, acreditávamos que as tragédias causadas pelas chuvas seriam um tema central nas discussões. No entanto, este assunto foi brevemente mencionado por uma aluna e não ganhou destaque, sendo rapidamente substituído por outros tópicos. Não é possível determinar com precisão o porquê deste tema, que consideramos socialmente relevante, não se destacar como esperávamos na discussão. Apesar de o tema das chuvas não ter emergido com a força esperada, outros tópicos surgiram e se mostraram bastante pertinentes para a vida em sociedade. Isso confirma a potência da busca por temas geradores na condução das discussões e na relevância para a disciplina. Este fenômeno pode ser compreendido
à luz da pedagogia de Paulo Freire, que valoriza a espontaneidade e a relevância dos temas emergentes diretamente das experiências e preocupações dos alunos. A ausência inicial do tema das chuvas sugere que, embora relevante do ponto de vista externo, pode não ter ressoado de maneira significativa para os estudantes no contexto da roda de conversa. Este resultado destaca a necessidade de estar atento aos interesses genuínos dos alunos, que são os verdadeiros protagonistas do processo educativo. A emergência de outros temas relevantes demonstra que os alunos estavam engajados em questões significativas para eles, reforçando a importância de uma pedagogia que valoriza a voz e a experiência dos educandos.
## Referências
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AULER, D.; DELIZOICOV, D. Investigação de temas CTS no contexto do pensamento latino-americano. Linhas Críticas, vol. 21, núm. 45, mayo-agosto, pp. 275-296. Universidade de Brasília, Brasília, Brasil, 2015.
FERNANDES, J. P.; GOUVÊA, G. A perspectiva CTS e a abordagem de questões sociocientíficas no ensino de ciências: aproximações e distanciamentos. Revista de Educação, Ciência e Tecnologia, Canoas, v. 9, n. 2, 2020.
FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 23ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 20a. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
FREIRE, P. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. Editora UNESP, 2000.
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