ANIMES COMO RECURSO DIDÁTICO PARA O CONTEÚDO DE ENERGIA NO ENSINO FUNDAMENTAL II
Nathalia Moura Moraes, Fábio Henrique De Melo Penco, Thiago Correa Lacerda
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- Ensino, Aprendizagem E Avaliação Em Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ANIMES COMO RECURSO DIDÁTICO PARA O CONTEÚDO DE ENERGIA NO ENSINO FUNDAMENTAL II
## Nathalia Moura Moraes 1 , Fábio Henrique de Melo Penco 2 , Thiago Correa Lacerda 3
- 1 II Colégio da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro/Divisão de Ensino de Campo Grande, nathalia.moraes@aluno.cefet-rj.br
- 2 II Colégio da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro/Divisão de Ensino de Campo Grande, fabiomelo@id.uff.br
## Resumo
Este estudo investiga a utilização do anime Dr. Stone como um recurso para o ensino de energia no 8º ano do Ensino Fundamental II. O objetivo principal foi avaliar a eficácia do anime como ferramenta pedagógica comparada ao método tradicional baseado no uso exclusivo do livro didático. Para tanto, duas turmas foram selecionadas: a turma 801, que recebeu o conteúdo do livro didático e foi exposta ao conteúdo de Física por meio da visualização de episódios do anime, e a turma 802, que recebeu o mesmo conteúdo utilizando apenas o livro didático. Após a aplicação do recurso, ambas as turmas realizaram uma avaliação escrita composta por 10 questões objetivas e dissertativas para medir o entendimento dos conceitos científicos. Os resultados indicaram que a turma 801, que utilizou o anime como recurso didático, apresentou uma média geral de 8,33, superior à média de 7,20 da turma 802, que utilizou o método tradicional. A análise das notas revelou que o uso do anime facilitou a compreensão dos conceitos e aumentou o engajamento dos alunos, resultando em um desempenho mais consistente e elevado. No entanto, foi observada uma variação no desempenho individual, com alguns alunos da turma 802 alcançando notas elevadas, enquanto outros demonstraram dificuldades. Esse resultado sugere que, embora o anime tenha sido eficaz para a maioria dos alunos, a metodologia tradicional ainda pode ser eficaz para determinados perfis de estudantes. A pesquisa conclui que a incorporação de animes como Dr. Stone no ensino de Física pode ser uma estratégia valiosa para complementar o ensino tradicional, tornando o aprendizado mais acessível, envolvente e eficaz. No entanto, recomenda-se que essa abordagem seja integrada a um contexto pedagógico diversificado, que considere as necessidades individuais dos alunos e promova uma aprendizagem equilibrada.
Palavras-chave : Dr. Stone, Ensino de Física, Ensino Fundamental anos Finais
## Introdução
A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trouxe diversas mudanças para o Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano), principalmente no conteúdo de ciências da natureza que teve seu conteúdo dividido em três Unidades Temáticas - Vida e Evolução, Terra e Universo, e Matéria e Energia - visando oferecer uma estrutura ordenada e contínua no decorrer dos anos escolares. No entanto, conforme Penco (2021), há uma preocupação com à abordagem superficial e fragmentada desses conteúdos em cada ano, o que pode comprometer a compreensão integral dos alunos. Ao tratar os temas de forma resumida, há o risco de que os estudantes não desenvolvam uma compreensão aprofundada e coesa dos conceitos científicos, o que resulta em lacunas no aprendizado, dificultando o desenvolvimento pleno das competências científicas esperadas ao final do ciclo escolar.
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
Ademais o ensino de Física nos anos finais do Ensino Fundamental constitui um desafio significativo, tanto devido à formação dos professores quanto pela mediação dos conteúdos, que muitas das vezes são ministrados por professores de Ciências, cuja formação inicial é majoritariamente voltada para a Biologia e enfrentam dificuldades em ensinar conceitos de Física. Segundo Praxedes,
A maioria dos docentes de Ciências do Ensino Fundamental são formados em Biologia, e poucos possuem graduação em Física. E infelizmente, a maioria destes profissionais não gosta de lecionar conteúdos de Física para seus alunos, devido a alguns fatores que contribuíram para isso, como terem terminado o Ensino Médio sem compreender e entenderem a importância da referida disciplina, como também na própria graduação. (PRAXEDES, 2015)
Essa situação é intensificada pela necessidade de uma mudança metodológica exigida pela BNCC, que propõe uma abordagem interdisciplinar e o desenvolvimento do pensamento crítico e investigativo, áreas nas quais esses professores muitas vezes se sentem inseguros e despreparados para atuar.
Além dessas dificuldades, as pesquisas em educação e ensino de Ciências indicam a necessidade de uma mudança na atuação dos professores dessas áreas. Dessa forma, ciência e tecnologia podem ser incorporadas ao universo das representações sociais dos estudantes, estabelecendo-se como parte integrante de sua cultura (DELIZOICOV; ANGOTTI; PERNAMBUCO, 2011).
Uma forma de contornar essa questão, é a utilização de recursos midiáticos como os animes (derivados do termo inglês " animation " - animações japonesas), que podem surgir como recursos pedagógicos atraentes e eficazes para as aulas de Física, apresentando de forma visual e lúdica conceitos que muitas vezes são de difícil compreensão.
Autores como Vieira (2016) e Carrilho (2015) argumentam a favor do uso de animes como recurso educacional, tanto pelo seu apelo atrativo e à sua presença marcante na cultura visual dos jovens, mas também por seu valor educativo, que combina entretenimento com ensino, tornando o processo de aprendizagem mais envolvente. Dependendo do conteúdo abordado, os animes têm um potencial pedagógico em suas histórias, que pode ser explorado através de práticas educativas, com o objetivo de facilitar a compreensão de conceitos científicos.
Corroborando com Vieira (2016) e Carrilho (2015), Lopes e Carvalho (2019) empregaram o anime Pokémon como ferramenta didática no ensino de Botânica e Ecologia, com o intuito de estimular nos alunos a capacidade de observação e a elaboração de hipóteses, elementos essenciais para o desenvolvimento do conhecimento científico. Os autores aproveitaram as conexões que o anime estabelece com o mundo real. O objetivo era fazer a associação entre as estruturas análogas às plantas e os processos fotossintéticos representados no anime, conectando-os aos conceitos científicos relevantes.
Linsingen (2007) destaca que, uma das principais vantagens pedagógicas da utilização de mangás e animes no ensino ocorrem devido suas narrativas, que em sua maioria abordam temas relacionados ao destino da humanidade e à natureza. Narram histórias, combinam representações visuais impactantes, fundamentais para a construção de significados e compreensão de conhecimentos, com textos dinâmicos e de leitura agradável. Esse formato favorece a assimilação do conteúdo e o processo de ensino-aprendizagem.
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Em conformidade com as ideias de Linsingen (2007), o anime, Dr. Stone (Figura 1), objeto dessa pesquisa, se passa em um mundo pós-apocalíptico onde a humanidade precisa reconstruir a civilização usando ciência. O protagonista, Senku Ishigami, um jovem gênio, utiliza conhecimentos científicos que vão desde a química básica até a física aplicada, passando por biologia e engenharia para recriar invenções essenciais, explicando conceitos complexos de maneira acessível e envolvente. Sendo valorizado por sua capacidade de combinar entretenimento com educação, tornando-se um recurso eficaz para ensinar ciências e estimular o pensamento crítico e a curiosidade científica entre os espectadores.
Figura 1: Capa do anime Dr. Stone
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Diante do exposto, este estudo concentra-se na eficácia do anime Dr. Stone como recurso para ensino de energia, conteúdo de física presente no currículo do oitavo ano do Ensino Fundamental anos finais, explorando o impacto no desempenho acadêmico dos alunos. A pesquisa baseia-se em uma prova aplicada após a exibição do anime, comparando os resultados obtidos com as expectativas educacionais.
## Metodologia
A presente pesquisa adota uma metodologia mista (CRESWELL 2010), combinando abordagens qualitativas e quantitativas para a coleta, tratamento e análise dos dados, a fim de avaliar o impacto do anime Dr. Stone no ensino de Física para alunos do 8º ano do Ensino Fundamental. O processo iniciou-se com a seleção do episódio 9 do anime, que aborda conceitos relevantes como eletromagnetismo e geração de energia (Figura 2).
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Figura 2: Print screen do instante 18'38': obtenção do gerador de energia
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A turma 801 foi exposta ao conteúdo presente no livro didático e a visualização de episódios do anime Dr. Stone. Os episódios escolhidos abordavam conceitos como eletromagnetismo e geração de energia, que são temas essenciais para o currículo de Física do 8º ano. Após a exibição do anime, foi conduzida uma discussão orientada em sala de aula, onde os alunos foram incentivados a relacionar os conceitos apresentados no anime com o conteúdo teórico e averiguar se condizem com a literatura. Essa abordagem visava engajar os alunos dirigindo-os para uma discussão e contextualização dos conceitos científicos, com a finalidade de facilitar a compreensão dos conteúdos de forma visual e narrativa. Por outro lado, a turma 802 recebeu o mesmo conteúdo de Física, mas de forma tradicional, utilizando exclusivamente o livro didático.
As aulas seguiram em ambas as turmas o formato convencional, com o professor explicando os conceitos diretamente do livro, complementado por exercícios práticos baseados no material apresentado. Após, as turmas realizaram uma avaliação escrita composta por 10 questões sendo 2 objetivas e 8 dissertativas, (Quadro 1) projetadas para medir o entendimento dos conceitos abordados em cada metodologia.
Quadro 01: Exemplo de questão que compõe a avaliação completa.
Questão 1 Um imã é um corpo que gera campo magnético ao seu redor. Ele pode ser classificado de duas formas: Natural : quando se trata de óxido de ferro, um mineral encontrado na natureza que recebe o nome de magnetita; Artificial : quando é construído com ligas metálicas (ou materiais cerâmicos) que, ao serem submetidas a fortes campos magnéticos, adquirem propriedades magnéticas.
Senku utiliza ferro fundido para construir um pára-raios e dessa forma consegue energia para criar um ímã, e assim construir um gerador.
Com base no que estudamos sobre energia, responda:
Resolução: Geradores de energia são dispositivos que convertem vários tipos de energia
- a) O que se entende por gerador de energia? (VALOR 0,5) não elétrica (mecânica, eólica) em energia elétrica.
- b) Observe a imagem abaixo e responda que tipo de energia o gerador está convertendo? (VALOR 0,5)
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Resolução : Energia mecânica (cinética) em elétrica
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Fonte : Os autores
## Resultados e Discussões
Este estudo avaliou duas turmas do 8º ano, no primeiro trimestre escolar, período em que os alunos tiveram o primeiro contato com os conceitos de Física abordados. As turmas eram mistas em relação ao sexo, sendo a turma 801 composta por 22 alunos e a 802 por 23. A proposta é analisar a integração de diferentes recursos pedagógicos para favorecer o processo de aprendizagem. Neste contexto, foram comparadas as turmas 801 e 802, onde a primeira foi exposta a uma metodologia mista, combinando o livro didático e episódios do anime Dr. Stone , enquanto a segunda seguiu um método mais tradicional, utilizando apenas o livro didático como fonte de conteúdo. Essa abordagem pluralista permite que diferentes formas de representação e estímulos cheguem aos alunos, favorecendo uma compreensão mais profunda dos conceitos de Física.
Os resultados obtidos evidenciam a importância de combinar diferentes metodologias de ensino. Na turma 801, que utilizou tanto o livro didático quanto o anime, a média foi de 8,33, enquanto na turma 802, que utilizou apenas o livro, a média foi de 7,20. Essa diferença de 1,13 pontos sugere que o uso de mais de um recurso pedagógico teve um impacto positivo no desempenho dos alunos.
O Quadro 2, demonstra que a integração do anime Dr. Stone , no processo de ensino, pode resultar em um melhor desempenho acadêmico.
Quadro 02: Notas da avaliação
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A turma 801 apresentou uma maior concentração de notas elevadas, com três alunos atingindo a nota máxima de 10,00, enquanto a turma 802 apresentou maior dispersão de notas, incluindo algumas notas mais baixas. A análise da distribuição das notas reforça a eficácia dessa combinação de métodos. Sugerindo que a abordagem pluralista pode ter ajudado a engajar um número maior de estudantes, permitindo uma compreensão mais abrangente dos conteúdos, enquanto o método tradicional baseado exclusivamente no livro foi menos eficaz para engajar todos os alunos de maneira uniforme.
Esses dados reforçam a importância de diversificar os métodos de ensino, incluindo recursos audiovisuais, como forma de tornar o aprendizado mais acessível e atrativo para os estudantes. Dessa forma, a pesquisa sugere que um pluralismo metodológico, utilizando recursos variados, pode ser mais eficaz do que métodos tradicionais, proporcionando um ambiente de aprendizado mais rico e interativo para os estudantes.
## Conclusão
A utilização de animes, que integram elementos narrativos e visuais, contribui significativamente para a compreensão de conceitos abstratos ao contextualizá-los em situações do cotidiano. Essa metodologia não só enriquece a educação científica, tornando-a mais significativa e relevante para a vida diária dos alunos, mas também favorece o desenvolvimento de competências socioemocionais, como a capacidade de trabalhar em grupo e o incentivo ao aprendizado colaborativo, ao engajar os alunos através de uma mídia popular entre os jovens.
O emprego do anime Dr. Stone no ensino de Física, conforme evidenciado neste estudo, mostra-se um recurso pedagógico eficaz para intensificar o engajamento dos alunos e elevar o desempenho acadêmico. Os resultados indicam que, além de proporcionar uma compreensão mais aprofundada dos conceitos científicos, o uso de animes pode também motivar os alunos e tornar o aprendizado mais agradável e acessível. Entretanto, é essencial reconhecer que essa abordagem pode não ser igualmente eficaz para todos os estudantes, portanto, recomenda-se que os animes sejam utilizados como parte de uma abordagem pedagógica diversificada, que contemple diferentes estilos de aprendizagem.
Estudos futuros poderiam explorar a integração de outros animes e formas culturais populares em diferentes disciplinas, buscando avaliar a amplitude e a
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aplicabilidade dessa metodologia no ambiente educacional. Dada a crescente popularidade dos animes entre os jovens, seu uso como ferramenta educativa oferece uma oportunidade valiosa para inovar no ensino de conceitos científicos, adaptandose às demandas e interesses da nova geração de estudantes.
## Referências
CARRILHO, L. C. Trajetórias animadas na formação do pensamento conceitual no ensino de Ciências . 2015. 246 f. Tese (Doutorado) - Curso de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade de Brasília, Brasília, 2015.
CRESWELL, J. W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. 3. ed. Porto Alegre: Artmed. 2010.
DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J. A.; PERNAMBUCO, M. M. Ensino de Ciências: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2011.
LINSINGEN, V. L. Mangás e sua utilização pedagógica no ensino de ciências sob a perspectiva CTS . Ciência & Ensino, v. 1, número especial, nov. 2007. Disponível em:
<http://200.133.218.118:3535/ojs/index.php/cienciaeensino/article/view/125>. Acesso em: 02 set. 2024.
LOPES, S. J. A.; OLIVEIRA, S. A. C. Utilização do anime Pokémon para o ensinoaprendizagem de ciências naturais . CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISA EM ENSINO DE CIÊNCIAS, v. 1, 2019. Disponível em: <https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/57324>. Acesso em: 01 set. 2024.
PENCO, F. H. M. Desenvolvimento de uma sequência didática para o ensino de energia baseada na BNCC. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Ensino de Física na Educação Básica) - Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, 2021.
PRAXEDES, J. M. O. O estudo da física no ensino fundamental II: iniciação ao conhecimento científico e dificuldades enfrentadas para sua inserção. Anais II CONEDU... Campina Grande: Realize Editora, 2015. Disponível em:
<https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/16437>. Acesso em: 02/09/2024 00:00
VIEIRA, L. C. Caminhos da docência e possibilidades pedagógicas: um projeto de trabalho com animes e mangás. Eventos Pedagógicos , Jardim Imperial, v. 7, n. 2, p. 843-864, 2016.
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