POTENCIALIDADE DOS GRUPOS AMADORES NO ENSINO DA ASTRONOMIA SOB UMA PERSPECTIVA FREIRIANA
Milton Schivani, João Zanetic
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 07/06/2011
- Linha de pesquisa
- Física E Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não-Formais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## POTENCIALIDADE DOS GRUPOS AMADORES NO ENSINO DA ASTRONOMIA SOB UMA PERSPECTIVA FREIRIANA
## POTENTIALITY OF THE AMATEUR GROUPS IN THE TEACHING OF ASTRONOMY IN THE A PERSPECTIVE FREIRIAN
## Milton Schivani , João Zanetic 1 2
1 FEUSP/EDM - SP - Brasil, e-mail: schivani@usp.br
2 IFUSP/FEP - SP - Brasil, e-mail: zanetic@if.usp.br
## 1) Justificativa e objetivos
É patente o rico potencial educacional que a astronomia possui, permeando diferentes campos do conhecimento humano, assim como os aspectos motivacionais, axiológicos, os quais despertam, instigam e alimentam a curiosidade de diferentes indivíduos (GAMA & HENRIQUE, 2010). Dentre os múltiplos aspectos, a astronomia 'pode levar os alunos a compreender a imensidão do Universo e a necessidade da população participar nos destinos do planeta, ampliando a dimensão apenas acadêmica do ensino' (LANGHI & NARDI, 2004, p.5).
Entretanto, percebe-se que na cultura humana contemporânea, o espaço acima de nossas cabeças tem sido ignorado. Ao contrário de nossos ancestrais, que tinham um contato direto com a natureza e com as coisas do céu, uma intimidade vivencial, o homem moderno, especialmente aquele que vive nos grandes centros urbanos, tem se distanciado da experiência direta com o ambiente que nos cerca. Referimo-nos a uma experiência de contemplação, de indagação, redescobertas, de espanto perante as maravilhas e desafios que o cosmos nos impõe, 'vivemos em um mundo basicamente sem consciência da metade de espaço visível que está acima do nível de nossos olhos.' (AVENI, 1993, p. 20).
É pensando nesse quadro de desconhecimento que temos por objetivo principal investigar as ações desenvolvidas pelos grupos de astrônomos amadores e possíveis implicações didático-pedagógicas, especialmente aquelas que possam contribuir para sanar, ao menos em parte, o 'distanciamento' e 'contato' quase que inexistente das pessoas com as coisas do céu, especialmente nos grandes centros urbanos e na escola básica e média (SCHIVANI, 2010; LEITE & HOSOUME, 2007), bem como alimentar e nutrir a curiosidade inata imersa no contexto desse saber.
## 2) Marco Teórico
Identificamos nas leituras de Paulo Freire (1921-1997) uma fonte de referência para tratar o tema curiosidade , curiosidade essa enormemente detectável quando se trabalha tópicos astronômicos, independente do público. De acordo com Freire, essa curiosidade, num primeiro momento, caracteriza-se por ser um tanto simplória e sem profundidade, uma curiosidade ingênua . Mas essa curiosidade é de extrema importância no processo de aprendizagem, uma vez que ela pode tornar-se uma curiosidade epistemológica , seja no âmbito da educação formal ou informal.
'Não há para mim, na diferença e na 'distância' entre a ingenuidade e a criticidade, entre o saber de pura experiência feito e o que resulta dos procedimentos metodicamente rigorosos, uma ruptura, mas uma superação.
A superação e não a ruptura se dá na medida em que a curiosidade ingênua, sem deixar de ser curiosa, pelo contrário, continuando a ser curiosa, se criticiza. Ao criticizar-se, tornando-se então, permito-me repetir, curiosidade epistemológica, metodicamente 'rigorizando-se' na sua aproximação ao objeto, conota seus achados de maior axatidão.' (FREIRE, 2007, p. 31).
A curiosidade como inquietação indagadora, é pedra fundamental nesse processo educacional e, uma vez o indivíduo nessa inquietação, a curiosidade ingênua vai se tornando cada vez mais crítica. Segundo Freire, a própria consciência crítica é indicação da presença da curiosidade epistemológica, componente resultante da transformação da curiosidade ingênua ao se criticizar. Não seria um exemplo clássico dessa transição a ação de Galileu Galilei (1564-1642) em apontar sua luneta para o céu estrelado numa noite da cidade de Pádua (Itália) em 1609? Acreditamos que sim. Movido por sua curiosidade e inquietação, ele descobriu um mundo, até então, nunca antes visto sob aquela perspectiva, desenvolvendo vários estudos em seguida para compreender e explicar suas observações.
## 3) Metodologia e Análise de pesquisa
Adotamos como principal instrumento a abordagem qualitativa. Nessa abordagem, o ambiente a ser pesquisado é a fonte de coleta de dados [em nosso caso, três grupos de astronomia: Clube de Astronomia de São Paulo (CASP); Grupo de Astronomia Sputnik e a Associação Norte Rio-grandense de Astronomia (ANRA)], os dados coletados são predominantemente descritivos e sua análise tende a seguir um processo indutivo, o pesquisador, seu principal instrumento, e o foco principal de interesse constituem-se no processo como um todo e no 'significado' que as pessoas dão às coisas e à sua vida [em nosso caso, essas pessoas referem-se ao público e aos coordenadores e integrantes dos grupos] (LÜDKE & ANDRÉ, 1986).
## 4) Conclusões
Em mais de uma situação de atividade observacional promovida pelos astrônomos amadores dos três referidos grupos pesquisados, constatou-se que algumas pessoas pareciam não ter se dado conta de que a Lua estava visível no céu, foi somente quando perceberam o telescópio direcionado para ela é que exclamavam, olhando e apontando para a Lua Nossa! Como ela tá bonita . Conforme declara o coordenador e fundador do Grupo de Astronomia Sputnik , Osvaldo Souza, '[...] as reações são fantásticas. É como se as pessoas estivessem vendo a lua pela primeira vez, outra vez! '. Esse momento lúdico e de encantamento, aponta para o rico potencial educacional que essas atividades possuem, especialmente nos aspectos motivacionais e de curiosidade, onde o público/educando é motivado a conhecer mais, redescobrir o mundo ao seu redor, ver a lua pela primeira vez, outra vez .
Mesmo que a pessoa venha inicialmente com uma curiosidade ainda ingênua, ela possui rico potencial para criticizar-se, tornar-se epistemológica, especialmente com auxilio do educador via o diálogo problematizador , com questões que as levem a refletir sobre aquele ponto que as despertou interesse. Esse potencial e transição pode ser evidenciado por meio do seguinte relato, a saber:
Uma vez eu tava em Minas, porque eu tenho parente lá em Brasópolis, onde tem um telescópio, e ai tavam operando e me mostraram o céu. Eu não tinha contato, olhava só a estrela bonitinha. Ai ele pegou um livro e
mostrou - Ô, aquela é a constelação de orion onde tem o telescópio [direção em que o telescópio estava apontado] . Ai ele me mostrou Júpiter, Saturno ai eu fiquei apaixonada por causa desse contato. Então não foi nem... nem uma coisa formal... Ah! Vamos ler não sei o que... Foi, foi no telescópio mesmo, ver que era de verdade né? Então a gente falava: Nossa! Ver aquela bolotinha tão pequena. [...] Ai eu não consegui mais me desgrudar e sempre que passava alguma coisa na televisão ficava interessada... e comprava livros... ai todo mundo da minha família também incentivava, dava revistas. Então... foi a partir disso. (Diana Gama, coordenadora do Grupo de Astronomia Sputnik. Entrevista de 25/11/2009).
De um modo geral, motivar e possibilitar que a população e educandos tenham contato e despertem para as coisas do céu, essa vivência, esse reencontro com o mundo ao seu redor, uma re-leitura, surge como indicativo de ser um dos principais papéis e potencialidades desses ambientes no contexto do ensino da astronomia, estimulando a curiosidade ingênua na sua transição para uma curiosidade epistemológica. 'Neste contexto, os astrônomos amadores podem contribuir com ações que visam o ensino e a divulgação de Astronomia das mais variadas formas' (PERCY, 1998, apud BRETONES, 2008, p.8). Tais formas remetem as já referidas observações públicas (telescópios em praças e ruas), assim como palestras, oficinas e cursos (dentre eles, os cursos de práticas observacionais e de reconhecimento do céu). Esse quadro reflete também um importante cenário que favorece o desenvolvimento de uma educação continuada de pessoas das mais variadas faixas etárias e escolaridade.
Muito desse cenário ainda pode ser discutido e problematizado na perspectiva que adotamos, mas dado nossa limitação de espaço alguns aspectos serão tratados oportunamente. Esperamos ter contribuído com esse trabalho no surgimento de iniciativas/reflexões que auxiliem (re)aproximar as pessoas com as coisas do céu.
## 5) Referências
AVENI, A. (1993). Conversando com os planetas: como a ciência e o mito inventaram o cosmo. Tradução de Cecília Camargo Bartalotti. São Paulo: Mercuryo.
BRETONES, P. S. (2008). Astronomia na América Latina na Perspectiva da LIADA. Revista Latino-Americana de Educação em Astronomia - RELEA, n. 6, p. 7-19.
FREIRE, P. (2007). Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 36ª Edição. São Paulo: Paz e Terra.
GAMA, L. D.; HENRIQUE, A. B. (2010). Astronomia na Sala de Aula: Por Que? Revista Latino-Americana de Educação em Astronomia - RELEA, n.9, p. 7-15.
LANGHI, R.; NARDI, R. (2004). Um Estudo Exploratório para a Inserção da Astronomia na Formação de Professores dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. In.: IX EPEF - Encontro de Pesquisa em Ensino de Física.
LEITE, C.; HOSOUME, Y. (2007). Os Professores de Ciências e suas Formas de Pensar a Astronomia. RELEA, n. 4, p. 47-68, p. 66.
LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. (1986). Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas, São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária LTDA, 11ª Reimpressão.
SCHIVANI, M. (2010). Educação não formal no processo de ensino e difusão da Astronomia: ações e papéis dos clubes e associações de astrônomos amadores. Dissertação (Mestrado), Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP).
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