MENINAS CIENTISTAS: UMA PROPOSTA DE EXTENSÃO SOBRE EXPERIMENTO E TRANSFORMAÇÃO.
Cícera Carla De Souza Pereira, Virginia Santos Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Práticas Educativas Em Espaços Educativos Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## MENINAS CIENTISTAS: UMA PROPOSTA DE EXTENSÃO SOBRE EXPERIMENTO E TRANSFORMAÇÃO.
Cícera Carla de Souza Pereira 1 , Virgínia Santos da Silva 2 ,
1 Instituto Federal da Paraíba/Campus Monteiro/Laboratório de Física, cicera.pereira@ifpb.edu.br
2 Instituto Federal da Paraíba/Campus Monteiro/Laboratório de Física, santos.virginia@academico.ifpb.edu.br
## Resumo
Este artigo é um relato de experiência que apresenta o desenvolvimento e os resultados do projeto de extensão Meninas Cientistas. O objetivo foi contribuir com o ensino de ciência e tecnologia visando à diminuição das diferenças de gênero existentes nessas áreas, bem como, à desconstrução de estereótipos referentes à profissão de cientista, estimulando o interesse de alunas do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) - Campus Monteiro que atuaram no projeto como monitoras e alunas do oitavo ano de escolas públicas municipais da cidade de Monteiro-PB por meio de atividades experimentais de Física, Geografia, Robótica/Programação, Sociologia e Psicologia. O projeto foi desenvolvido por servidoras do IFPB - Campus Monteiro que atuaram nas suas respectivas áreas de formação, com o auxílio de estudantes da Instituição. Ao final das atividades foi possível notar que, entre outros resultados, as estudantes apresentaram maior interesse pela ciência e pelas demais áreas do saber trabalhadas ao longo do projeto. Além disso, percebemos um maior engajamento nos diálogos sobre Ciências e Tecnologias
Palavras-chave : Meninas cientistas. Ensino de ciências. Relato de experiência.
## Abstract
This paper is an experience report that presents the development and results of the "Meninas Cientistas" (Girls in Science) extension project. The objective was to contribute to science and technology education, aiming to reduce gender gaps in these areas, as well as to deconstruct stereotypes related to the profession of scientist, stimulating the interest of female students from the Federal Institute of Science and Technology of Paraíba (IFPB) - Monteiro Campus who acted as monitors and eighthgrade students from public municipal schools in the city of Monteiro-PB through experimental activities in Physics, Geography, Robotics/Programming, Sociology, and Psychology. The project was developed by IFPB - Monteiro Campus servers who worked in their respective areas of training, with the help of students from the Institution. At the end of the activities, it was possible to notice that, among other results, the students showed a greater interest in science and the other areas of knowledge worked on throughout the project. In addition, we perceived a greater engagement in dialogues about Science and Technology."
Key words : Female scientists. Science education. Case study..
## Introdução
O ingresso e a permanência de mulheres nas áreas científicas e tecnológicas sempre encontrou diversos obstáculos, muitos deles tem as mesmas raízes o machismo e a misoginia encontrado nesses espaços. Com base no censo da
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
educação superior do INEP de 2020, o percentual de mulheres ingressantes e concluintes no Brasil é de 56% e 59%, respectivamente. Onde os cursos mais procurados por essas mulheres ainda são referentes a profissões relacionadas ao cuidado, apresentando uma taxa de 88%, por exemplo, para a área de Bem-Estar, que incluem cursos como serviço social. Enquanto que a procura por áreas de Computação e engenharias estão em 13,3% e 21,6%, respectivamente. Apesar do ingresso de mulheres no Ensino superior, de modo geral, ser maior que o ingresso dos homens, assim como a conclusão dos cursos, quando se olha de perto, observase um esvaziamento referente ao número de mulheres que procuram e concluem os cursos de ciências exatas, tecnologias e engenharias, segundo Lima (2013), isso ocorre devido a auto discriminação de mulheres, que não fazem a opção pelo curso considerado como um reduto masculino. O que lhes é ensinado durante o processo de socialização é que "tecnologia é coisa de homem". É de extrema necessidade que mais mulheres surjam nessas áreas para servir de inspiração para que um número maior de meninas escolha as áreas de ciências exatas e tecnologias como carreira profissional (AGRELLO; GRAG, 2009).
Nesse relato de experiência mostramos a colaboração do IFPB-Monteiro na construção da igualdade de gênero através da divulgação científica, com o lançamento do projeto Meninas Cientistas nos anos de 2019, 2023 e 2024. Neste projeto as alunas das escolas parceiras do IFPB, puderam contar com a estrutura dos laboratórios, orientação e apoio de profissionais bem capacitadas não apenas nas áreas de ciências que serão trabalhadas (Física, Química, programação e robótica), mas também com outras profissionais do campus que participaram sempre que necessário. A discussão sobre o que é ser menina e mulher cientista é presente em todas as atividades do projeto, possibilitando a construção da ideia de que a ciência é feita também por mulheres e que ser cientista é uma opção para suas escolhas profissionais futuras, contribuindo efetivamente com o empoderamento científico das estudantes.
Alunas com empoderamento científico tem consequentemente a autoestima elevada, o que pode trazer como resultado: maior autonomia das suas vidas financeira e afetiva; facilidade em reconhecer e denunciar possíveis abusos, etc. Com meninas empoderadas esses riscos devem ser reduzidos consideravelmente.
## Fundamentação teórica
A divisão social através de papeis dos gêneros, feminino e masculino, é algo histórico e que impõe expectativas de comportamento distintos entre os gêneros. Por isso, de acordo com Cordeiro (2013), independente do passar do tempo, algumas ocupações ainda surgem como atividades masculinas, a política, os negócios e a ciência, enquanto outras, mais voltadas para o ato do cuidar, as domésticas, a enfermagem e a educação a nível fundamental, são relacionadas às atividades femininas. Resultando na marginalização das mulheres do mundo científico.
Mas é claro que quando as mulheres começaram a ter acesso à educação superior, como afirma Ignotofsky (2017), novas dificuldades foram impostas como a falta de espaço para trabalhar, disponibilidade de verba para desenvolver as pesquisas e falta de reconhecimento. Quando as reivindicações dos movimentos feministas ganharam força, na década de 1970, e obtiveram algumas conquistas das mulheres, foi percebido que ainda se tem muito a conquistar. Ações sociais fomentadas pelos governos têm ajudado a melhorar do número de mulheres cientistas. Infelizmente o processo de mudança e lento e novos obstáculos surgem
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com cada solução apresentada. "Compreender o choque histórico entre as culturas discrepantes da ciência e da feminilidade é crucial para entender o mal-estar que muitas mulheres sentem no mundo da ciência profissional" (SCHIENBINGER, 2001, p. 42).
Com o objetivo de contribuir para a redução da desigualdade de gênero no meio cientifico e tecnológico, apresentando uma nova perspectiva do que é a ciência e tecnologia para o máximo de alunas possível do Município de Monteiro - PB, vem sendo desenvolvido, nos anos de 2019, 2023 e 2024, o projeto de extensão 'Meninas Cientistas' no IFPB Campus Monteiro.
## Metodologia
Nos anos três anos (2019, 2023 e 2024) o projeto foi realizado nas dependências do IFPBCampus com alunas do oitavo ano de escolas públicas municipais da cidade de Monteiro. As escolas foram encarregadas de divulgar o projeto entre as alunas, distribuir os formulários de inscrição e as cientistas do projeto fizeram a seleção das estudantes que apresentaram melhor justificativa para fazerem parte do projeto. As atividades foram realizadas uma vez por semana no turno da tarde no período de agosto a dezembro. A equipe do IFPB-Monteiro, que realizou o projeto, foi formada por servidoras técnico administrativas, professoras, uma aluna do curso superior de Análise e Desenvolvimento de Sistemas (ADS), uma aluna bolsista, do curso superior de Tecnologia de Construção de Edifícios (TCE), alunas do 2º e 3º ano do Ensino Médio Integrado ao Técnico de Instrumento Musical e Manutenção e Suporte em Informática.
As servidoras, a aluna do curso de ADS e a aluna bolsista de TCE, desempenharam a função de cientistas, preparando e ministrando as oficinas, bem como capacitando as alunas do 2º e 3º ano do Ensino Médio Integrado ao Técnico do IFPB, para atuarem como monitoras nas oficinas. As mesmas recebiam a capacitação uma vez por semana e auxiliavam nas oficinas que eram oferecidas às alunas do oitavo ano, das escolas públicas municipais, também uma vez por semana.
Foram utilizados os laboratórios de Física, Química, Informática e miniauditório, escolhidos a partir das necessidades da oficina a ser realizada. As áreas trabalhadas nas oficinas foram: Física, Geografia, Eletrônica, Programação, Sociologia, História, Química, Matemática, Fotografia e Psicologia de acordo com a área de formação de cada cientista.
A maioria das práticas disponibilizou um guia experimental, composto por teoria contextualizando o experimento e questionário avaliativo sobre conceitos básicos aprendidos com a prática. Além da discussão científica do experimento, eram realizados debates sobre o 'que seria um cientista?'. Tal debate tinha o objetivo de discutir estereótipos atribuídos à profissão, que normalmente é determinada como algo realizado por homens, brancos e muito distante da realidade dessas meninas. Nas oficinas de Sociologia, Psicologia e cinema tal discussão foi mais aprofundada, e temas como racismo, feminismo, sororidade e autoestima também foram abordados.
Ao final do ano letivo, em um evento conhecido como a Semana de Tecnologia e Arte (TEAR), realizado no IFPB-Monteiro, as alunas envolvidas no projeto, puderam apreciar uma atividade pedagógica diferente que é desenvolvida anualmente nesse Campus e também puderam ver o projeto do qual faziam parte, ser apresentado pelas alunas monitoras, e estas ganharam premiações de 'Melhores projetos de comunicação oral' do evento. No mês seguinte, as estudantes de oitavo ano, com o auxílio da equipe do projeto, desenvolveram a própria prática experimental, partindo
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da pesquisa no computador, selecionando o melhor experimento, desenvolvendo-os e por fim apresentando-os no próprio Campus para os outros alunos e também para os seus familiares, finalizando assim do projeto.
## Resultados e conclusões
Os três anos do projeto Meninas cientistas possibilitaram, para todas as alunas envolvidas, a aproximação entre elas e as mulheres cientistas do passado e do presente resultando em uma inspiração para serem cientistas do futuro. Para as monitoras, foi possível notar que ocorreu uma desmitificação da ideia de que apenas ciências exatas possuem cientistas. Além disso as alunas também relataram que houve a diminuição do medo e da sensação de incapacidade em compreender os conteúdos abordados nas áreas de exatas, principalmente na disciplina de Física, a mais temida por elas.
As alunas do oitavo ano se mostraram bastante entusiasmadas com os temas abordados, como podemos ver na Figura 01, desde a parte experimental do trabalho até as discussões de cunho social destacadas ao longo das oficinas. O entusiasmo dessas alunas perdurou do início ao fim do projeto causando assim um baixo índice de evasão. Foi possível notar a ampliação dos conhecimentos em relação à participação feminina nas mais diversas áreas e o entendimento de conceitos básicos nas áreas de física, fotografia, programação, eletrônica, etc e até mesmo da compreensão de conceitos sobre relações de gênero, entre eles o conceito de sororidade.
As servidoras puderam ressignificar o seu papel como servidoras públicas, mulheres e cientista, devido a troca de ensinamento com todas as outras envolvidas. Além disso tiveram a oportunidade de assistir práticas de outras áreas do conhecimento que foram conduzidas pelas colegas de trabalho, proporcionando assim aprendizados e exercícios sobre todos os conceitos abordados no projeto.
O uso do jaleco, dos laboratórios e a inserção do termo específicos nas oficinas trouxeram para todas as alunas envolvidas no projeto o empoderamento acerca do que é ser uma menina e uma mulher atuando em determinada área de atuação mais masculina, reforçando que elas podem e devem ocupar qualquer espaço que desejarem, sem limitação de gênero.
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Figura 01: Mosaico de fotos que registram as atividades experimentais realizadas e a finalização do projeto.
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No ano de 2023, tivemos a oportunidade de vivenciar algumas alunas do oitavo ano de 2019 se tornando monitoras do projeto em 2023, pois se tornaram alunas do
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IFPB-Monteiro. Assim como uma aluna que foi monitora em 2019 se tornou cientista convidada para apresentar o que ela vem estudando na sua graduação de Engenharia de bioprocessamento na UFCG-Sumé. Todas muito orgulhosas em voltar para o ambiente que trouxe ensinamentos tão importantes e reconstrução de conceitos essenciais para a vida de uma cientista.
Em 2019 as estudantes do IFPB apresentaram este projeto em dois eventos do IFPB, o que trouxe um aprendizado científico excelente. E no ano de 2023 outras alunas que apresentaram esse trabalho foram premiadas em um dos eventos. Esperamos no mínimo, os mesmos resultados para essas estudantes no ano de 2024.
A luta pelo direito da inserção de mulheres em todas as áreas dos saberes sem limitações de gênero impostas pela sociedade, possibilitando condições para o ingresso e conclusão de seus estudos e seguimento na carreira acadêmica, é permanente, pois minimizar a desproporcionalidade entre homens e mulheres nos ramos de ciência e tecnologia é urgente.
## Referências
AGRELLO, D. A; GARG, R. Mulheres na Física: poder e preconceito nos países em desenvolvimento. Revista Brasileira de Ensino de Física , v.31, n.1, 2009.
BRASIL. CAPES/CNPQ. Mulheres bolsistas de produtividade em pesquisa conquistam direito, 2013. Disponível em: http://www.cnpq.br/web/guest/noticiasviews/-
/journal\_content/56\_INSTANCE\_a6MO/10157/909274 Acesso em: 02 jul. 2024.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). Censo da educação superior 2014 : resumo técnico. Brasília, DF: INEP, 2015. Disponível em: http://download.inep.gov.br/ /resumo\_tecnico\_censo\_educacao\_superior\_2012.pdf. Acesso em: 03 ago. 2024.
CORDEIRO, M. D. Mulheres e ciência. Revista Técnico-Científica do IFSC , v. 2, n. 2, p. 30, II SICT-Sul, 2013. Disponível em: https://periodicos.ifsc.edu.br/index.php/rtc/article/view/1468/858. Acesso em: 30 jun.
2020.
IGNOTOFSKY, R. As cientistas: Blucher,
50 mulheres que mudaram o mundo. São Paulo:
2017.
LIMA, M. P. As mulheres na Ciência da Computação. Revista Estudos Feministas , v. 21, n. 3, p. 793- 816, 2013.
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