AS CONTRIBUIÇÕES DA FORMAÇÃO DE GRUPOS DE ASTRONOMIA NA REDE BÁSICA DE ENSINO: UM OLHAR SOB A PERSPECTIVA FREIREANA DA EDUCAÇÃO
Thaiane Almeida De Melo, Tassiana Fernanda Genzini De Carvalho, Claudio Mateus Da Silva, José França De Andrade
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Práticas Educativas Em Espaços Educativos Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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## AS CONTRIBUIÇÕES DA FORMAÇÃO DE GRUPOS DE ASTRONOMIA NA REDE BÁSICA DE ENSINO: UM OLHAR SOB A PERSPECTIVA FREIREANA DA EDUCAÇÃO
Thaiane Almeida de Melo 1 , Tassiana Fernanda Genzini de Carvalho 2 , Cláudio Mateus da Silva 3 , José França de Andrade 4
- 1 Universidade Federal de Pernambuco, PPGECM, thaiane.melo@ufpe.br
- 2 Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico do Agreste, tassiana.fgcarvalho@gmail.com
## Resumo
O ensino de astronomia frequentemente é excluído da matriz curricular das escolas, levando alguns estudantes a buscarem alternativas para preencher essa lacuna. Este estudo tem como objetivo investigar as motivações por trás da formação de grupos de astronomia em escolas do interior de Pernambuco, com foco nos grupos "O céu não é o limite" e "As três marias". A pesquisa foi conduzida por meio de entrevistas com os membros fundadores dos grupos, analisadas sob a perspectiva Freireana, especialmente em relação ao conceito de curiosidade ingênua e epistemológica. Os resultados indicam que, embora os grupos sejam inicialmente motivados por uma curiosidade ingênua sobre astronomia, eles demonstram a capacidade de evoluir para uma curiosidade crítica, alinhada ao que Paulo Freire denomina curiosidade epistemológica. A pesquisa destaca a importância dos grupos de astronomia no ambiente escolar, pois eles não apenas contribuem para o desenvolvimento acadêmico dos estudantes, mas também promovem habilidades essenciais para o processo educacional.
Palavras-chave : Grupos de astronomia; Curiosidade ingênua e epistemológica; Paulo Freire.
## Introdução
Muitos estudos apontam que a astronomia é um ótimo recurso para a sala de aula em razão de despertar a curiosidade no ser humano, uma vez que a mesma tenta responder a grandes questões sobre a nossa existência. "Em todos os tempos e em todas as civilizações, essas perguntas sempre inquietaram a humanidade e receberam diferentes respostas" (Martins, 1994, p.7).
Com relação à astronomia, Langhi e Nardi (2014, p. 53), afirmam que:
'Sua educação e popularização podem contribuir para o desenvolvimento da alfabetização científica, da cultura, da desmistificação, do tratamento pedagógico de concepções alternativas, da criticidade sobre notícias midiáticas sensacionalistas e de erros conceituais em livros didáticos.'
Ademais, o tema tem potencialidade para a divulgação científica, contribui na visão de conhecimento científico, revela que ciência e tecnologia são acessíveis à sociedade e proporciona o fascínio e motivação (Langhi & Nardi, 2014). E, desse modo, justifica-se porque a astronomia tornou-se um assunto de grande interesse,
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
além do seu potencial em proporcionar a interdisciplinaridade entre as disciplinas da Educação Básica.
Todavia, entendemos que há dificuldades para implantação e permanência do ensino de astronomia nas escolas, seja por falta de formação dos professores, seja por falta de um bom material didático, ou simplesmente pela estrutura curricular da própria instituição escolar. Sendo assim, compreendemos que a inclusão da astronomia deve estar agregada de recursos que sejam considerados como facilitadores desse processo.
Uma dessas ferramentas são, ou podem ser, grupos/clubes e associações de astrônomos amadores, planetários e observatórios que se formam com o intuito de divulgar a ciência para as escolas carentes de informação nessa área, que é o caso de alguns grupos que se formam com o intuito de fomentar um primeiro contato com a astronomia, visto que em muitos casos, as universidades e as escolas não oferecem essas condições para o desenvolvimento dessas temáticas de maneira mais aprofundada.
Dentro do contexto educacional a curiosidade desempenha um papel essencial no processo de aprendizagem. Nos estudos de Paulo Freire (1921-1997) sobre curiosidade, ele diferencia dois tipos de curiosidade: a curiosidade inicial, chamada de curiosidade ingênua, que é aquela passageira, que acontece em um primeiro momento, e faz parte do instinto humano de conhecer as coisas ao seu redor; em complemento, o outro tipo seria a curiosidade epistemológica, que transcende a ingênua, vai além de um movimento passageiro e se constrói com base no propósito de aprender.
Paulo Freire define a curiosidade ingênua como aquela que 'resulta indiscutivelmente um certo saber, não importa que metodicamente desrigoroso, é a que caracteriza o senso comum' (Freire, 2021, p. 31), curiosidades essas que podem surgir quando assistimos ou lemos a um filme de ficção científica sobre vida em outros planetas, viagens no tempo, espaço-tempo, asteróides, ou até mesmo vendo notícias sobre estudos e foguetes sendo lançados. Entretanto, de acordo com os estudos de Paulo Freire, essa curiosidade só se mantém se ela se tornar epistemológica.
Assim, Paulo Freire defende que a curiosidade exerce um papel importante na formação, pois para ensinar e para aprender é necessário que ela exista, visto que o aluno só vai em busca do conhecimento quando é instigado por uma curiosidade. A valorização dessa curiosidade epistemológica impulsiona o processo educacional, levando o estudante a se aprofundar e a questionar com maior rigor os temas que lhe despertam interesse.
Dessa forma, a curiosidade pode ser utilizada no ambiente escolar, como uma busca por solução para participação e interesse dos estudantes, partindo de uma curiosidade ingênua, e, com as ferramentas corretas, é possível torná-la epistemológica. Assim, considerando o potencial que a astronomia tem em despertar a curiosidade nos estudantes, é possível imaginar que ela pode se tornar um meio para desenvolver a curiosidade epistemológica e promover a aprendizagem e o interesse científico por certos temas.
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É pensando nesse quadro que esta pesquisa tem como intuito investigar como as concepções de curiosidade apresentadas por Paulo Freire se desenvolvem em grupos escolares de astronomia, e como objetivo especifico: a) Discutir como as práticas pedagógicas e atividades dos grupos de astronomia estimulam o interesse dos estudantes, despertando a curiosidade inicial e b) Analisar os dados coletados à luz da perspectiva freireana, identificando evidências do progresso da curiosidade ingênua para a curiosidade epistemológica.
## Metodologia
Essa investigação se caracteriza como uma pesquisa qualitativa, de abordagem descritiva exploratória. Triviños (1987, p. 110) ressalta que 'o estudo descritivo pretende descrever com exatidão os fatos e fenômenos de determinada realidade', e de acordo com ele esses 'estudos descritivos se denominam [também] 'estudos de casos'. Estes estudos têm por objetivo aprofundar a descrição de uma determinada realidade' (ibidem, p. 111).
De posse dos dados, provenientes das entrevistas, o principal instrumento será 'qualitativa, o que se pretende, além de conhecer as opiniões das pessoas sobre determinado tema, é entender as motivações' (Fraser e Gondim, 2004, p. 8).
A pesquisa se concentrou em dois grupos de astronomia: 'O céu não é o limite', formado por três estudantes interessados em discutir eventos astronômicos, e o grupo 'As três marias', criado a partir de estudos para o Trabalho de Conclusão do Ensino Fundamental (TCF) e interesse pela vida e morte das estrelas. Ambos os grupos foram formados em escolas públicas do interior de Pernambuco.
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas com os líderes dos respectivos grupos, conduzidas via Google Meet, realizadas separadamente para cada grupo, utilizando uma abordagem semiestruturada, o que permitiu que novas perguntas surgissem durante a conversa, em resposta às informações fornecidas pelos participantes. Perguntas como: Qual era a dinâmica do grupo? Que tipo de atividades vocês realizavam? Como se preparavam e estudavam para elas? O grupo tinha ou tem um acervo do que foi ou está sendo produzido? Quais eram as temáticas de maior interesse?
Com os dados em mãos, as entrevistas foram transcritas de forma a permitir uma análise mais detalhada e criteriosa. Após a transcrição, elas foram lidas cuidadosamente e trechos relevantes foram destacados, especialmente aqueles que evidenciavam momentos de transição da curiosidade ingênua para a curiosidade epistemológica, conforme descrito por Paulo Freire. As falas mais significativas foram selecionadas para serem apresentadas e discutidas no trabalho, contribuindo para uma análise mais profunda.
Destacamos que os nomes mencionados neste trabalho são fictícios, adotados para preservar a identidade dos entrevistados. O líder do grupo 'O céu não é o limite' será referido como Neil Armstrong, em homenagem ao primeiro astronauta a pisar na Lua. Já as líderes do grupo 'As três marias' serão chamadas de Mintaka, Alnilan e Alnitak, em alusão às estrelas do cinturão de Órion, conhecidas como as Três Marias. Essas referências simbólicas agregam significado e enriquecem a identificação dos participantes, mantendo sua privacidade e confidencialidade. Por fim, este trabalho apresentará uma análise das respostas a algumas das perguntas feitas aos líderes dos dois clubes de astronomia entrevistados.
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## Surgimento das curiosidades ingênuas
Ao olhar para o céu em uma noite estrelada, somos encantados pela beleza da imensidão de pontinhos brilhantes acima de nós, esse olhar nos leva a questionamentos profundos sobre o universo: 'O que são esses pontinhos brilhantes? Por que estão ali? Qual o sentido de tudo isso?'. Essas indagações despertam nossa curiosidade e fascínio, mas até que ponto desejamos compreender esses questionamentos? Será que buscamos respostas rápidas e superficiais ou estamos dispostos a explorar respostas complexas e elaboradas? Essas questões são recorrentes e podemos encontrar uma variedade delas nas falas dos entrevistados das duas escolas, como será apresentado neste tópico.
Os aficcionados da astronomia geralmente surgem a partir de um estímulo ou fascínio pessoal, assim, quando os entrevistados são questionados sobre A partir de quando começou a se interessar pela astronomia? É possível notar a presença da curiosidade ingênua, pois é essa curiosidade que nos move a busca do conhecimento. Vejamos algumas respostas:
[Mintaka]: Quando eu era mais nova, eu via algum repórter ' Ah, vai ter um eclipse solar, vai ter uma lua de sangue', eu ficava fascinada pra saber o que era, pra saber como que isso funcionava, às vezes eu gostava de ficar do lado de fora buscando as três marias, eu gostava muito de ver as estrelas, então isso tipo me despertou uma curiosidade muito grande de saber o que são, porque que elas existem, mas principalmente os eclipses solares e lunares.
[Alnilan]: No meu caso, é uma história um tanto engraçada, eu sempre gostei muito de ficar observando céu a noite, eu sempre fui apaixonada pela lua, aí uma vez eu vi uma estrela,até hoje me falam que foi um satélite, mas na minha cabeça não foi, ele sumia, ele desaparecia, e eu fiquei, 'não, aquilo ali é um OVNI', e foi daí que me despertou, eu comecei a pesquisar tudo, sai descobrindo tudo, esse dia foi o dia que me despertou a estudar astronomia, depois daí eu não parei mais, era dúvida em cima de dúvida e eu não tinha uma resposta, e eu começava a ficar doida.
As respostas dos entrevistados revelam o impacto de experiências observáveis e eventos astronômicos em suas vidas, por exemplo quando Mintaka se refere ao eclipse lunar como 'Lua de Sangue', que é o nome dado socialmente para o fato da lua ficar avermelhada, o que o torna curioso, mexendo com o imaginário das pessoas. Já Alnilan menciona ter tido a experiência intrigante de observar um objeto no céu que desaparecia e reaparecia, suscitando a ideia de um OVNI, o que remete a um dos grandes questionamentos para o entendimento do cosmos: 'Estamos sozinhos no universo?'.
Essas falas mostram que a curiosidade ingênua é uma força motriz poderosa que nos impulsiona a explorar o desconhecido e compreender o mundo ao nosso redor. É interessante notar que essas perguntas e dúvidas, mesmo que inicialmente ingênuas, mas perduram no imaginário das pessoas, e portanto, podem ser um ponto de partida para o desenvolvimento do interesse científico genuíno.
Outra fala a qual podemos encontrar a curiosidade ingênua e que destaca o fascínio por assuntos misteriosos e complexos ocorre quando os integrantes do grupo que não chegou a ser formado são questionados: Se vocês fossem escolher um assunto para estudar no clube, quais vocês escolheriam?
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[Mintaka]: Eu acho que um assunto muito interessante seria buracos de minhoca, é um assunto que eu tenho dado uma lida e que eu tenho achado muito 'Meu Deus que loucura!'.
[Alnilan]: Buracos Negros, porque são tantas perguntas e nenhuma tem resposta, eu acho que é um dos assuntos que geram mais curiosidade.
[Alnitak]: Eu acho que seria muito interessante o big bang.
[Neil Armstrong]: Mistérios … corpos celestes , devido a formação e a história em si, que todos eles têm um determinado cada um tem uma força de estágio diferente.
A menção de 'Buracos negros' e 'Buracos de minhoca' demonstra o desejo de explorar temas que estão além do nosso conhecimento atual e do conhecimento que normalmente é trabalhado nas escolas. O interesse por tais temas revela a busca por compreender os mistérios do universo e reflete a curiosidade inata da humanidade em explorar o desconhecido, ainda que complexo. São assuntos que instigam a mente humana, levantando questões intrigantes como: "Será possível viajar no tempo?" ou "Imagine a possibilidade de visitar o passado e o futuro?". Essas indagações são enigmáticas e abrem portas para debates profundos sobre o cosmos e nossa própria existência.
A fascinação em torno desses temas vai além do campo da ciência e permeia também a cultura popular, encontrando espaço em obras de ficção científica, onde o imaginário se mistura com possíveis descobertas científicas. Ao inspirar roteiros de filmes, livros e séries, esses assuntos instigam o público a mergulhar em um universo de possibilidades e conjecturas sobre a natureza do espaço e do tempo. Essas interações entre a ciência e a cultura alimentam ainda mais o interesse da sociedade por esses mistérios cósmicos, tornando-os recorrentes em narrativas que cativam pessoas de todas as idades.
Essas obras de viagens no tempo desperta o nosso imaginário devido a essa 'previsão' de novas tecnologias que poderiam tornar essas viagens uma realidade mais palpável, assim a exploração de conceitos como os buracos de minhoca e buracos negros reforça ainda mais essa empolgação, pois são teorias científicas que sustentam a possibilidade teórica dessas viagens no tempo, ampliando a curiosidade e cativando a atenção e interesse da população em geral.
Já Alnitak, quando cita o Big Bang como um possível tema para discussão, que demonstra uma profunda curiosidade sobre as origens do universo e da própria existência humana, como: 'De onde tudo isso começou? De onde viemos? Para onde vamos?'. Esse tipo de questionamento filosófico e científico é fundamental para nossa compreensão sobre nossa conexão com o cosmos e a busca por respostas sobre a nossa origem e destino como seres humanos.
Além disso, o entrevistado Neil Armstrong expressa em sua fala um genuíno interesse pelos mistérios dos corpos celestes, enfatizando a sua formação e história únicas. Ele destaca a natureza cíclica desses corpos no universo, apontando que cada um deles tem um tempo específico para se desenvolver e evoluir. Sua menção à "força de estágio diferente" sugere uma apreciação pela diversidade e complexidade presente no cosmos. Essa reflexão revela uma curiosidade genuína sobre a origem e a dinâmica do universo, evidenciando a capacidade humana de buscar compreender os segredos do espaço além de nossa própria existência.
No relato do grupo 'O céu é o limite', quando responderam Qual a dinâmica que utilizavam nos encontros, que tipos de atividades faziam e como se preparavam
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para elas? O entrevistado relatou que eles discutiam as questões da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA), pegavam as perguntas de provas anteriores e estudavam na biblioteca. Nesse trecho da entrevista é possível entender um pouco mais essa dinâmica:
[Entrevistadora]: Então o foco de vocês era na OBA?
[Neil Armstrong]: Assim, a gente conversava, não era tão sério, antes das professoras realmente entrarem e fazer a gente focar, era mais a gente trocando informação, conversava sobre alguma novidade que saiu , só isso mesmo
[Entrevistadora]: Qual tipo de novidade vocês comentavam?
[Neil Armstrong]: A gente falava mais sobre descoberta , eu lembro que na época, teve uma descoberta da NASA que ela descobriu um cometa daí a gente falava, ai tinha sobre as estrelas, galáxias, a gente ia e falava.
[Entrevistadora]: E como vocês se preparavam para discutir esses temas? Vocês buscavam algum material sobre o assunto para discutir?
[Neil Armstrong]: Geralmente era mais informal assim se alguém soubesse ali na hora alguma coisa ia virando um tema.
Conforme constatamos no relato, inicialmente o grupo realizava encontros de forma mais informal, discutindo novidades e acontecimentos recentes na área da astronomia, discussão essa sem aprofundamento, e sem foco voltado para pesquisa, isso pode ser constatado quando o entrevistado conta que não usavam materiais para estudar determinado assunto, apenas trocavam informação, caracterizando o movimento integralmente como curiosidade ingênua, visto que informação é diferente de conhecimento.
No entanto, apesar dessa abordagem menos sistemática, o entrevistado relata com saudade as discussões e menciona os avanços significativos da astronomia desde o fim das atividades do grupo. Isso demonstra como a curiosidade ingênua, mesmo que não tenha resultado mais direcionado ao conhecimento, ainda influencia positivamente a disposição para aprender e acompanhar o progresso científico na área.
Desse modo, as falas dos entrevistados aqui discutidas neste tópico sobre curiosidade ingênua 'representam um indicativo do rico potencial educacional que essas atividades possuem'. (Schivani & Zanetic, 2011, p. 7), visto que essa curiosidade inicial motiva a busca por informações e conhecimento, levando os alunos a explorarem temas complexos e enigmáticos.
Por fim, é importante ressaltar que essa curiosidade ingênua é um ponto de partida para o desenvolvimento do interesse científico genuíno e pode ser um recurso valioso no processo de ensino e aprendizagem da astronomia, e de diversas outras áreas do conhecimento.
## A curiosidade epistemológica de Paulo Freire
Quando olhamos para o céu e surgem vários questionamentos sobre nossa existência ou a de outros objetos, e, quando vamos em busca de entender sobre determinados conceitos, estamos nos tornando epistemologicamente curiosos. Perceba que este movimento, de entender mais, não se dá na simples observação ou contato, mas requer do sujeito um movimento em busca de desvelar o objeto de sua curiosidade, ou seja, uma ação sobre o objeto de sua curiosidade.
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No decorrer das entrevistas realizadas podemos notar uma evolução na curiosidade dos entrevistados, que vai além da curiosidade ingênua e se aproxima da curiosidade epistemológica. Um exemplo disso é quando Mintaka ao ser questionada: Se interessa pela astronomia desde quando?, relata que tudo começou com uma curiosidade ingênua, a Lua de Sangue discutida anteriormente, mas sua busca por conhecimento a levou a pesquisar mais profundamente e a explorar outras áreas da astronomia. Essa transformação da curiosidade ingênua para a curiosidade epistemológica é evidente na forma como ela busca fontes de pesquisa mais confiáveis e se torna mais crítica em relação ao conteúdo que estuda.
[Mintaka]: Eu comecei a me interessar pela astronomia acredito que desde que eu tinha uns 12 anos de idade, mais ou menos que foi quando eu comecei pesquisar ver vídeo na internet, mas quando eu tinha 14 que foi quando a gente teve essa ideia de TCF foi aí que eu comecei a pesquisar bem mais e não só na área do nosso tema, mas em outras também, foi onde eu conheci mais fontes de pesquisa, eu conheci vários outros canais no youtube que me daria uma melhor explicação dos que as que eu tinha quando eu tinha quando tinha 12 anos, mas desde nova eu já me interesso, aquelas aulas sobre o sistema solar que eu amava.
De maneira análoga, o grupo 'O céu é o limite' passou por uma evolução em sua dinâmica, onde a curiosidade epistemológica se tornou evidente quando o entrevistado é questionado: 'Qual era a dinâmica do grupo? Que tipo de atividades vocês faziam? Como se preparavam e estudavam para elas?', e, a partir disso, ele responde que inicialmente, as discussões eram informais, focadas em novidades astronômicas, como mencionado anteriormente, mas que, posteriormente essa abordagem sem intencionalidade evoluiu para uma busca mais direcionada, com o objetivo de discutir questões específicas da OBA e entender o conteúdo para aplicá-lo nas provas. É importante ressaltar que nossa discussão não se concentra na avaliação da adequação do método ou no aprendizado contínuo da astronomia ao longo da vida do aluno, nosso foco está na análise da epistemologia, ou seja, na construção do conhecimento, na tomada de consciência e na intencionalidade das ações, que vão se transformando ao longo do desenvolvimento das atividades dos grupos.
Além disso, o grupo "As três Marias" foram questionadas sobre: 'Qual era a dinâmica que vocês utilizavam no grupo? Que tipo de atividades vocês gostariam de fazer no clube?', vejamos a discussão:
[Alnilan]: Através da programação a gente pudesse criar jogos e aplicativos voltados a astronomia para também envolver mais pessoas que tinham interesse.
Sendo assim, o grupo, com o tempo, demonstra uma curiosidade epistemológica ao planejar atividades mais estruturadas e consideram ligar a astronomia à programação, o que o qualifica como um estudo mais crítico, visto que os integrantes teriam que estudar esses conhecimentos específicos para programar os jogos e aplicativos, e de certa forma estariam produzindo - jogos ou aplicativos para a sociedade. Além disso, a ideia de criar jogos e oficinais e adquirir um telescópio evidencia a tentativa de ampliar o alcance do objeto de estudo do grupo, para que se torne objeto de outras pessoas também.
## Conclusão
As entrevistas mostraram que os grupos passaram por uma mudança significativa, evoluindo da curiosidade ingênua para a curiosidade mais crítica e
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reflexiva, como Paulo Freire descreve. No início, os participantes se interessavam por questões mais superficiais, muitas vezes ligadas ao senso comum, mas ao longo do tempo, eles começaram a questionar de forma mais profunda e a buscar explicações mais fundamentadas. Esse processo de transformação é essencial para o desenvolvimento do pensamento crítico, onde os alunos deixam de aceitar respostas prontas e passam a explorar as causas e implicações de cada tema.
Além disso, esses grupos se mostraram fundamentais no ambiente educacional, pois trouxeram à tona temas que geralmente são negligenciados nos currículos tradicionais, como a astronomia, abordando questões contemporâneas e relevantes. Ao discutir assuntos que vão além dos conteúdos convencionais, os participantes ampliaram seus horizontes, compreendendo melhor o mundo ao seu redor.
Sendo assim, a formação de grupos de astronomia dentro das escolas, portanto, destaca seu papel importante na democratização do conhecimento, pois conecta os alunos a temas atuais e de grande relevância, e assim esses grupos ajudam a criar uma ponte entre o conhecimento científico, o senso comum e as questões sociais. Eles não apenas despertam a curiosidade, mas também estimulam uma formação mais crítica e consciente, contribuindo para o desenvolvimento de cidadãos que sabem questionar e refletir sobre as mudanças e desafios do mundo em que vivem.
## Referências
FRASER, Márcia Tourinho Dantas; GONDIM, Sônia Maria Guedes. Da fala do outro ao texto negociado: discussões sobre a entrevista na pesquisa qualitativa. Paidéia (Ribeirão Preto) , v. 14, p. 139-152, 2004.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 71ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
LANGHI, Rodolfo; NARDI, Roberto. Justificativas para o ensino de Astronomia: o que dizem os pesquisadores brasileiros?. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , v. 14, n. 3, p. 041-059, 2014.
MARTINS, Roberto de Andrade. O universo: teorias sobre sua origem e evolução. São Paulo: Moderna , 1994.
SCHIVANI, Milton; ZANETIC, João. A curiosidade ingênua e o papel dos grupos amadores no ensino e difusão da astronomia. Anais do I Simpósio Nacional de Educação em Astronomia, Rio de Janeiro, 2011.
MELO, Thaiane Almeida de. As contribuições da formação de grupos de astronomia na rede básica de ensino: um olhar sob a perspectiva Freireana da educação. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Física) -Universidade Federal de Pernambuco, 2022.
TRIVIÑOS, Augusto NS. O positivismo. \_\_\_\_. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas , p. 33-41, 1987.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.