Contribuições para o Debate sobre Divulgação Científica a partir dos Filmes da Disney do Início da Guerra Fria
Felipe Sanches Lopez, Cristiano Rodrigues De Mattos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Ciência No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2025
Texto completo
## Contribuições para o Debate sobre Divulgação Científica a partir dos Filmes da Disney do Início da Guerra Fria
## Felipe Lopez 1 , Cristiano Mattos 2
1 Doutor em Ensino de Ciências, fsanches@outlook.com
2 Programa Interunidades em Ensino de Ciências, IFUSP, crmattos@usp.br
## Resumo
Este trabalho investiga o papel dos filmes de ciência produzidos pelos estúdios Disney durante os anos 1950 na construção de consensos sobre a importância da ciência, em um contexto marcado pela Guerra Fria e pela competição tecnológica entre os Estados Unidos e a União Soviética. Utilizando o conceito gramsciano de hegemonia, analisamos como a produção dos filmes atuaram como ferramentas de propaganda científica, moldando a percepção pública da ciência como essencial para o desenvolvimento e segurança nacional. Walt Disney, quando optou por não participar diretamente do Physical Sciences Study Committee, concentrou-se na criação de um ambiente cultural que promovesse a ciência como uma carreira atraente para o público jovem, utilizando o entretenimento como um veículo para disseminar valores pró-ciência. Este trabalho pretende contribuir para o debate sobre o papel da divulgação científica, mostrando que, embora os filmes possam ter desempenhado um papel significativo no despertar do interesse pela ciência, eles apresentaram a ciência de forma idealizada, sem problematizar as implicações éticas e sociais da atividade científica. Essa reflexão histórica nos leva a discutir a importância de uma divulgação científica crítica, que reconheça a ciência como uma construção social complexa e dinâmica, e que vá além da simples reprodução de discursos científicos. Para combater o negacionismo contemporâneo, é fundamental que a divulgação científica seja entendida como um processo educacional que promova o pensamento reflexivo, dialogando com as implicações sociais e políticas da ciência e capacitando o público para uma compreensão mais ampla e contextualizada da produção do conhecimento científico.
Palavras-chave : Divulgação científica, História da Ciência, Disney
## Introdução
A Segunda Guerra Mundial destacou o papel crucial da ciência na estratégia militar, com exemplos como a máquina Bombe, de Alan Turing, que foi essencial para decifrar códigos alemães (Bowen, 2017), e o desenvolvimento das bombas V-2 (Dungan, 2005) e da bomba atômica (Bernstein, 1995). O reconhecimento desse papel levou a iniciativas de cooptação de cientistas alemães tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Soviética, nas operações Paperclip e Osoaviakhim (Jacobsen, 2014; Neufeld, 2004). Essas operações reforçaram o controle científico e tecnológico nas duas superpotências, com figuras como Werner von Braun, que se tornou um dos líderes da NASA após sua contribuição ao desenvolvimento das V-2 para o regime nazista.
No entanto, após a guerra, o interesse do governo americano em ciência não se manteve, em parte devido a conflitos militares no início da década de 1950. Durante
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
este período, a ciência competiu por recursos com o setor militar, e seu financiamento não foi considerado uma prioridade nacional (Lopez; Mattos, 2024b). Somente mais tarde, com a percepção de que a ciência poderia impulsionar o desenvolvimento econômico, o investimento ganhou destaque. O ponto de virada foi o lançamento do satélite soviético Sputnik I, em 1957, que colocou o ensino de ciências no centro da segurança nacional dos EUA (Lopez; Mattos, 2024b).
Uma resposta organizada a essa crise foi a criação do Physical Sciences Study Committee (PSSC), liderado por Jerrold Zacharias (Lopez, 2024; Rudolph, 2002). O PSSC buscava modernizar o ensino de física nos Estados Unidos, respondendo à crescente preocupação pública com o fato de que a União Soviética estava formando mais cientistas e engenheiros do que os EUA (DeWitt, 1955; Kaiser, 2006). Sua abordagem inovadora incluía a formação de professores por cientistas renomados e o uso de materiais educacionais atualizados, visando despertar o interesse dos estudantes em carreiras científicas.
Paralelamente a essas iniciativas formais, outras estratégias foram exploradas para aumentar o interesse pelas ciências. Uma dessas foi a produção de filmes educativos pelos estúdios Disney, que foram vistos como uma maneira eficaz de despertar a curiosidade científica nas crianças. Embora Walt Disney tenha sido convidado a participar diretamente do PSSC, em sua resposta ao comitê fica claro o desejo de continuar trabalhando em outra esfera do conhecimento público:
- O Sr. Disney acreditava que poderia ser mais útil na disseminação de propaganda para crianças do ensino fundamental, criando uma atmosfera que tornasse a ciência atrativa como carreira. Isso é extremamente importante, mas o interesse nacional exige um aumento no número de cientistas mais cedo do que essa abordagem pode produzir. Esperamos que os dois possam funcionar simultaneamente e manteremos a organização Disney informada sobre qualquer coisa que possa ajudá-los no programa de ensino fundamental (Salmen, 1956, p. 1, trad. nossa).
Dada a resposta de Disney, fica claro que as estratégias de divulgação científica não estavam restritas ao âmbito educacional formal. Walt Disney reconhecia o potencial do entretenimento como meio de educar e influenciar, especialmente entre os jovens, e esse entendimento levou à produção de uma série de filmes entre 1955 e 1959 (Giroux; Pollock, 2010). Esses filmes não apenas ensinaram conceitos científicos, mas também contribuíram para o projeto hegemônico estadunidense de promover a ciência como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento nacional e a segurança do país.
Este trabalho tem como objetivo investigar o impacto desses filmes de ciência da Disney, lançados durante a Guerra Fria, na construção de consensos sobre o valor da ciência, utilizando o referencial gramsciano para analisar o papel da Disney como uma força cultural que contribuiu para a hegemonia científico-tecnológica dos Estados Unidos. Além disso, buscamos discutir criticamente as implicações educacionais e ideológicas da divulgação científica. Essa abordagem nos permite analisar como diferentes representações culturais da ciência, como filmes e programas de mídia, influenciam a percepção pública sobre a ciência.
## Referencial Teórico-Metodológico
Para realizar a discussão proposta neste trabalho, nos baseamos nos conceitos gramscianos de senso comum, bom senso, intelectuais e hegemonia
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
(Gramsci, 2001, 2019; Hoare; Sperber, 2016). Gramsci argumenta que os intelectuais desempenham um papel crucial como mediadores entre as classes dominantes e subalternas, ajudando a construir e manter uma visão de mundo que assegure a hegemonia. Essa hegemonia não é imposta apenas pela força, mas, principalmente, por meio da construção de consensos, onde a cultura e o conhecimento são ferramentas centrais para moldar as crenças e comportamentos das massas.
Gramsci (2001) destaca que as ações dos intelectuais são multifacetadas e se manifestam em diferentes esferas da sociedade. Para ele, os intelectuais não são definidos apenas por seu nível de educação, mas sim por seu papel na disseminação de ideias e na construção de hegemonias. Eles são responsáveis por moldar tanto o senso comum quanto o bom senso, dois conceitos que se referem a formas distintas de conhecimento e entendimento do mundo.
- O bom senso refere-se a um conhecimento mais estruturado e reflexivo, desenvolvido em espaços formais de educação, como escolas, universidades e centros de pesquisa. É o tipo de conhecimento que envolve análise crítica, rigor filosófico e metodológico. O bom senso emerge de atividades humanas organizadas e sistemáticas, sendo o domínio dos acadêmicos, cientistas e professores, que, como intelectuais do bom senso, guiam a sociedade em direção a formas mais complexas de conhecimento.
Em contraste, o senso comum refere-se ao conhecimento desestruturado que é desenvolvido nas experiências cotidianas e nas interações culturais de indivíduos. Ele é formado a partir do consumo de artefatos culturais como filmes, programas de televisão, livros e outros meios populares. O senso comum abarca percepções do mundo que, embora menos rigorosas, são aceitas e difundidas entre a população. Nesse sentido, os produtores de cultura popular, como cineastas, escritores e artistas, atuam como intelectuais do senso comum, moldando a maneira como o público entende e interpreta os fenômenos ao seu redor.
Ao considerar a ação dos intelectuais nessas duas esferas, podemos distinguir os intelectuais do bom senso dos intelectuais do senso comum. Os primeiros, como professores, pesquisadores e cientistas, agem principalmente no contexto de uma educação formal, desenvolvendo e disseminando conhecimentos mais profundos e sistemáticos. Já os segundos, como cineastas e produtores culturais, atuam no campo da cultura popular, influenciando as percepções cotidianas das pessoas por meio de mensagens amplamente acessíveis e disseminadas, como os filmes da Disney.
Essa distinção é essencial para a nossa análise, pois a Disney, ao produzir filmes sobre ciência na década de 1950, desempenhou o papel de um intelectual do senso comum, utilizando o entretenimento para moldar a visão de mundo das crianças e jovens. Enquanto isso, o PSSC, composto por educadores e cientistas, que seria utilizado em escolas, agia como um intelectual do bom senso, focando na reformulação da educação formal de ciências nos Estados Unidos.
Em outras palavras, afirmar que o PSSC se insere na esfera do bom senso significa que ele buscava transformar a ciência em um conhecimento organizado e estruturado a ser utilizado em instituições educacionais com o objetivo de fomentar o interesse pela ciência nos estudantes. Por outro lado, quando nos referimos aos filmes da Disney como instrumentos do senso comum, destacamos que sua abordagem focava na disseminação de uma visão específica de ciência por meio de divulgação
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
em massa, utilizando a cultura popular. Essa distinção é importante para mostrar como diferentes estratégias foram coordenadas para direcionar o país ao projeto de Estado desejado.
## Disney como Intelectual do Senso Comum
Embora o papel da Disney durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria seja amplamente reconhecido (Baxter, 2014; Giroux; Pollock, 2010; Mollet, 2017; Sammond, 2005), o impacto de seus filmes na divulgação científica enquanto peça central para os projetos de hegemonia dos Estados Unidos é menos discutido. O próprio Disney reconhecia a importância de influenciar a juventude americana a seguir carreiras científicas, e sua estratégia de usar o entretenimento para moldar a opinião pública era uma extensão de suas atividades de propaganda anteriores.
Em estudos anteriores sobre a influência da economia e da política dos Estados Unidos no ensino de ciências, identificamos três fases distintas ao longo da década de 1950. Inicialmente, o ensino de ciências não era uma prioridade, sobretudo devido à Guerra da Coreia. Posteriormente, passou a ser visto como uma ferramenta para o desenvolvimento econômico do país. Finalmente, após o lançamento do Sputnik I, o ensino de ciências foi diretamente relacionado à segurança nacional (Lopez; Mattos, 2024b). Esse cenário, combinado com a percepção de que a União Soviética estava formando mais cientistas e técnicos com uma educação de qualidade superior à dos Estados Unidos, pressionou o governo e instituições a buscarem soluções para a crise no ensino de ciências (Lopez; Mattos, 2024b, 2024a).
Os motivos que levaram Walt Disney a não se envolver diretamente no PSSC corroboram a tese de Giroux e Pollock (2010), segundo a qual o empresário via o entretenimento como uma poderosa ferramenta educativa, capaz de disseminar filmes propagandísticos para incentivar os jovens a seguirem carreiras científicas. Disney, ao recusar a participação no PSSC, preferiu concentrar seus esforços na produção de propaganda científica voltada ao público infantil. Ele acreditava que poderia, por meio do entretenimento, criar um ambiente cultural que promovesse a ciência como uma carreira atraente para as gerações futuras (Salmen, 1956).
A atuação de Disney na produção de peças de propaganda, no entanto, não começou na Guerra Fria. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Disney produziu uma série de filmes com o objetivo de moldar a opinião pública em relação à atuação militar dos Estados Unidos (Baxter, 2014). Filmes como 'Victory Through Air Power' (Victory Through Air Power, 1943) exemplificam essa fase, em que Walt Disney acreditava no poder do cinema para influenciar decisões estratégicas, como a adesão do governo de Franklin Roosevelt ao financiamento de bombardeios de longo alcance (Giroux; Pollock, 2010). Essa experiência consolidou a crença de Disney de que o papel educacional do entretenimento transcendia as escolas, integrando-se à cultura popular, sendo capaz de moldar opiniões.
Nos anos 1950, durante a Guerra Fria, os filmes da Disney continuaram a atuar como ferramentas ideológicas. Mais do que divulgar conhecimento científico, essas produções moldavam a imagem da ciência como essencial para o desenvolvimento e a segurança nacional dos Estados Unidos. Por exemplo, em filmes como 'Man in Space' (Man in Space, 1955), em que von Braun, cientista alemão cooptado pela Operação Paperclip, apresenta a exploração espacial como um empreendimento heroico e inevitável, destacando os benefícios da ciência para o
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
futuro da humanidade. A estética cuidadosamente projetada, com gráficos inovadores e narrações envolventes, cativava o público jovem, transmitindo uma visão otimista da ciência e vinculando-a diretamente ao sucesso dos Estados Unidos.
Outra produção, 'Nosso amigo o átomo' (Our Friend the Atom, 1957), exemplifica a estratégia de utilização da ciência como propaganda durante a Guerra Fria. O filme apresenta Heinz Haber, outro físico alemão cooptado pela Operação Paperclip, para a disseminação de uma visão otimista da energia nuclear.
Do ponto de vista da teoria gramsciana de hegemonia, os filmes da Disney contribuíram para a construção de um consenso sobre a importância da ciência para a prosperidade nacional. Ao disseminar uma visão idealizada e simplificada da ciência, associada a temas de aventura e progresso, os filmes não apenas educavam, mas também reforçavam valores específicos que alinhavam o desenvolvimento científico com os interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos. A abordagem do PSSC, por outro lado, era mais formal e baseada no bom senso, enquanto a Disney atuava no campo do senso comum, utilizando o entretenimento para atingir um público mais amplo e moldar a percepção popular da ciência de forma mais duradoura.
Os artefatos culturais produzidos pelos estúdios Disney, ao contrário dos materiais do PSSC, tinham um alcance global facilitado, sendo facilmente adaptados e disseminados em diferentes países. O PSSC também almejava uma atuação internacional, mas enfrentava dificuldades maiores na adaptação de seus materiais educativos a diferentes países. Em uma reunião de planejamento, os países foram classificados em três categorias: (i) nações avançadas, onde o material seria utilizado com poucos ajustes; (ii) nações intermediárias, que precisariam de adaptações nos conteúdos; e (iii) nações emergentes, que exigiriam um esforço considerável antes de poderem utilizar os materiais (PSSC, 1961).
Ao longo das décadas de 1940 e 1950, Disney consolidou uma estratégia de promoção da ciência que se inseriu em um contexto de intenso desenvolvimento científico e tecnológico nos Estados Unidos. A construção de um consenso em torno da ciência foi, portanto, fundamental para o sucesso dessa estratégia, que envolvia a participação dos Estúdios Disney.
No Brasil, houve tentativas de apropriação do modelo do PSSC para modernizar o ensino de ciências na década de 1960 (Nardi, 2005; Queiroz; Hosoume, 2016). Contudo, esses esforços não alcançaram os resultados esperados na prática educacional, especialmente nas escolas públicas. O insucesso se deu, em parte, pela falta de adaptação dos materiais do PSSC à realidade brasileira e pelas dificuldades estruturais enfrentadas pelo sistema educacional (Gaspar, 2004). Na formação de professores, embora o modelo tenha gerado discussões importantes, não houve impacto significativo na prática pedagógica cotidiana, demonstrando que as expectativas iniciais não se concretizaram em uma melhora consistente no ensino de Física para os alunos da escola básica.
## Considerações Finais
O desenvolvimento de filmes pelos Estúdios Disney e seu papel na construção de consensos científicos durante a Guerra Fria demonstra a complexidade envolvida na divulgação científica, especialmente quando esta se insere em projetos políticos e ideológicos mais amplos, como o fortalecimento da hegemonia científica e tecnológica dos Estados Unidos. Walt Disney, ao recusar sua participação em projetos
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
educacionais formais como o Physical Sciences Study Committee (PSSC), optou por usar o entretenimento como uma ferramenta de propaganda.
A inclusão de von Braun e Haber nos filmes de divulgação científica evidencia a intersecção entre ciência, política e propaganda, apresentando o conhecimento científico como neutro e desprovido de complexidades políticas, sociais e éticas. Ao representar a ciência como sinônimo de progresso e aventura, essa abordagem oculta os interesses ideológicos que orientam sua produção e aplicação. A narrativa também ignora o passado de von Braun, com seu trabalho no desenvolvimento das bombas V-2 para o regime nazista, mostrando a disposição em sacrificar princípios éticos em nome de um projeto de Estado para consolidar o apoio popular aos programas científicos e militares durante a Guerra Fria.
Esses exemplos históricos nos convidam a refletir sobre o papel atual da divulgação científica e sobre como ela pode e deve ir além da mera transmissão de fatos ou da reprodução acrítica de discursos científicos. Em vez disso, precisamos de uma divulgação científica que compreenda sua dimensão educacional e que reconheça a ciência como uma atividade humana complexa, situada em contextos sociais, culturais e históricos. Ao invés de simplificar a ciência como uma verdade absoluta, devemos tratá-la como uma construção social, sujeita a debates, contradições e influências externas.
Uma divulgação científica precisa, portanto, educar para o pensamento reflexivo e problematizador, promovendo o diálogo sobre as implicações éticas e políticas da ciência. Isso implica questionar a relação entre ciência e poder, desafiando a ideia de que a ciência é neutra e separada das estruturas sociais. Para combater o negacionismo, não basta apresentar a ciência como a Verdade em oposição à desinformação. É necessário envolver o público em um processo educacional que o capacite a entender a ciência como parte integrante de uma dinâmica social mais ampla e como resultado de processos humanos complexos.
Essas reflexões são fundamentais em um contexto contemporâneo onde o negacionismo científico ganha força, e onde os discursos científicos, sem uma reflexão crítica, podem ser apropriados de maneiras que reforçam posições autoritárias ou tecnocráticas. A ciência, em sua divulgação, precisa ser apresentada como um campo em constante construção, onde incertezas, debates e valores éticos desempenham um papel crucial.
Portanto, promover uma divulgação científica crítica e educativa é essencial para a construção de uma sociedade mais democrática e informada, onde a ciência seja valorizada não apenas por seus resultados técnicos, mas também por seu compromisso com o bem comum e sua capacidade de transformar a realidade social de maneira consciente e responsável.
O uso da História da Ciência no ensino de Física tem como propósito promover uma compreensão mais crítica e contextualizada da ciência. Ao invés de apresentar a ciência como um conjunto de verdades absolutas, essa abordagem permite que professores e alunos discutam os aspectos históricos e sociais que moldam o desenvolvimento científico. Ao problematizar as narrativas simplificadas, como aquelas apresentadas em filmes da Disney, podemos incentivar uma reflexão sobre como o conhecimento científico é influenciado por interesses políticos e econômicos. Assim, a História da Ciência funciona não apenas como uma ferramenta
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
informativa, mas também como um meio para promover o pensamento reflexivo e crítico no ensino de Física.
## Referências
BAXTER, J. Disney during World War II: how the Walt Disney Studio contributed to victory in the war . First editioned. New York (N.Y.): Kingswell, 2014.
BERNSTEIN, B. J. The Atomic Bombings Reconsidered. Foreign Affairs , v. 74, n. 1, p. 135, 1995.
BOWEN, J. P. Alan Turing: Founder of Computer Science. In : BOWEN, J. P.; LIU, Z.; ZHANG, Z. (org.). Engineering Trustworthy Software Systems . Cham: Springer International Publishing, 2017. (Lecture Notes in Computer Science). v. 10215, p. 115. Disponível em: http://link.springer.com/10.1007/978-3-319-56841-6\_1. Acesso em: 16 fev. 2024.
DEWITT, N. Soviet Professional Manpower: its education, training, and supply . Washington, D.C.: National Science Foundation, 1955.
DUNGAN, T. D. V-2 A Combat History of the First Ballistic Missile . Yardley: Westholme Publishing, 2005.
GASPAR, A. Cinquenta Anos de Ensino de Física: Muitos Equívocos, Alguns Acertos e a Necessidade do Resgate do Papel do Professor. Revista de Estudos da Educação , v. 13, n. 21, p. 71-91, 2004.
GIROUX, H. A.; POLLOCK, G. The mouse that roared: Disney and the end of innocence . Updated and expanded eded. Lanham, Md: Rowman & Littlefield Publishers, 2010.
GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere . Tradução: Carlos Nelson Coutinho. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. v. 2
GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere . Tradução: Carlos Nelson Coutinho. 11. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019. v. 1
HOARE, G.; SPERBER, N. An introduction to Antonio Gramsci: his life, thought and legacy . London; New York: Bloomsburry Academic, 2016. Disponível em: Acesso em: 18 abr. 2020.
JACOBSEN, A. Operation Paperclip: the secret intelligence program to bring Nazi scientists to America . First editioned. New York: Little, Brown and Company, 2014.
KAISER, D. The Physics of Spin: Sputnik Politics and American Physicists in the 1950s. Social Research , v. 73, n. 4, p. 1225-1252, 2006.
LOPEZ, F. Relações entre Inovação dos Projetos de Ensino de Ciências e as Políticas Educacionais e Científicas dos EUA na década de 1950 . 2024. Tese (Doutorado em Ensino de Ciências - Modalidade Física) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024.
LOPEZ, F. S.; MATTOS, C. R. PSSC as overcoming a conflict: an investigation using Transformative Agency by Double Stimulation. [Submetido] , 2024a.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
LOPEZ, F. S.; MATTOS, C. R. Science Education in the USA During the Cold War: From Neglect to a National Security Issue. Science & Education , 2024b. Disponível em: https://link.springer.com/10.1007/s11191-024-00502-6. Acesso em: 12 mar. 2024.
OUR FRIEND THE ATOM. Direção: Hamilton Luske. Walt Disney Studios, 1957. Animação (60 min).
MAN IN SPACE. Direção: Ward Kimball. Walt Disney Studios, 1955. Animação (51 min).
MOLLET, T. L. Cartoons in hard times: the animated shorts of Disney and Warner Brothers in depression and war 1932-1945 . New York, [New York] London Oxford: Bloomsbury academic, an imprint of Bloomsbury publishing Inc, 2017.
NARDI, R. Memórias da Educação em Ciências no Brasil: a Pesquisa em Ensino de Física. Investigações em Ensino de Ciências , v. 10, n. 1, p. 63-101, 2005.
NEUFELD, M. J. Overcast, Paperclip, Osoaviakhim - Looting and the Transfer of German Military Technology. In : JUNKER, D. et al. (org.). The United States and Germany in the Era of the Cold War, 1945-1990 . 1. ed. Cambridge University Press, 2004. p. 197-203. Disponível em:
https://www.cambridge.org/core/product/identifier/CBO9781139052436A029/type/bo ok\_part. Acesso em: 5 jul. 2023.
PSSC. PSSC Planning Committee Meeting of October 11 1961 and October 12 1961 : MIT Distinctive Collections: MC-0079 - Box 4. Folder: PSSC Planning Committee. Boston: MIT, 1961. Report.
QUEIROZ, M. N. A.; HOSOUME, Y. Ensino de Física no Brasil nas Décadas de 19601970 na Perspectiva dos Projetos Inovadores PSSC, PEF E FAI. XVI Encontro de Pesquisa em Ensino de Física , p. 1-8, 2016.
RUDOLPH, J. L. Scientists in the classroom: the cold war reconstruction of American science education . New York: Palgave, 2002. Disponível em: Acesso em: 15 ago. 2018.
SALMEN, S. Meeting of November 10, 1956 : MIT Distinctive Collections: MC-0602 Box 4. Folder: PSSC Meeting Minutes - August - November '56. Boston: MIT, 1956. Meeting Minute.
SAMMOND, N. Babes in Tomorrowland: Walt Disney and the making of the American child, 1930-1960 . Durham: Duke University Press, 2005.
VICTORY THROUGH AIR POWER. Direção: James Algar e Clyde Geronimi e Jack Kinney. Walt Disney Studios, 1943. Animação (65 min).
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.