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Antes e depois do “Novo” Ensino Médio: reflexões a partir de edições de uma coleção de livros didáticos de Física

Henrique Gonçalves De Souza, Esdras Viggiano

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
21/01/2025
Linha de pesquisa
Políticas Públicas Em Educação E O Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Antes e depois do 'Novo' Ensino Médio: reflexões a partir de edições de uma coleção de livros didáticos de Física

## Henrique Gonçalves de Souza 1 , Esdras Viggiano 2

- 1 Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM, d201610408@gmail.com
- 2 Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM, esdras.viggiano@uftm.edu.br

## Resumo

Esta pesquisa direciona os olhares para o livro didático, material com grande influência na educação escolar, buscando analisar os impactos provenientes da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e do Novo Ensino Médio nas aulas de Física,. Com o objetivo de analisar como as novas diretrizes da educação impactaram os livros didáticos, realizamos a análise de duas edições de uma mesma coleção de livros, uma aprovada pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) em 2018, antes da homologação da BNCC e da implementação do Novo Ensino Médio, e outra aprovada pelo PNLD 2021, que já levava em consideração as alterações nas diretrizes. O conteúdo analisado foi circuitos elétricos. Como resultado, foi observado que os conteúdos de Física sofreram uma expressiva redução de espaço nos materiais didáticos, e que também recebem uma abordagem reducionista, descontextualizada da realidade, dando prioridade para o cálculos matemáticos em detrimento das discussões conceituais. De modo geral, não parece ter havido uma readequação dos conteúdos para a estrutura curricular por área, apenas uma redução e simplificação dos materiais já existentes.

Palavras-chave : Base Nacional Comum Curricular, Novo Ensino Médio, Livro didático

## Introdução

De tempos em tempos, aparecem novos documentos que orientam o currículo oficial como, por exemplo Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (Brasil, 1997) e Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 2002). Mais recentemente, em 2018, foi homologada a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Em 2017, por meio da Lei nº 13.415 (Brasil, 2017), foram feitas alterações na LDB, que estabeleceram uma mudança na estruturação do Ensino Médio (EM). Essas alterações ampliam o tempo em que o estudante permanece na escola e definem uma nova organização curricular, de modo a contemplar a BNCC.

Nesse cenário de mudanças, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) também sofreu alterações, para se adaptar à estrutura proposta. O edital de avaliação do PNLD passou a considerar a estrutura da BNCC como currículo mínimo, assumindo áreas do conhecimento ao invés de disciplinas, entre outras questões.

Considerando que as mudanças trazidas pela BNCC e pelo Novo Ensino Médio ainda são recentes, é importante realizar pesquisas que contribuam para identificar tanto potencialidades quanto obstáculos trazidos por elas. Dessa forma, ainda pensando na importância do livro didático, analisar as alterações que ocorreram nesses materiais decorrentes da implementação do novo currículo oficial

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

pode contribuir para o panorama das pesquisas na área, pois estes manuais se mostram importantes recursos no processo educativo, tendo grande influência na educação escolar e refletindo o contexto em que foram elaborados (Queiroz; Hosoume, 2011; Nicioli; Mattos, 2006). Como aponta Choppin (2004), nas últimas décadas os livros didáticos vêm chamando cada vez mais a atenção dos pesquisadores, e um campo de pesquisa em torno destes materiais já se consolida.

Nicioli e Mattos (2008), em uma pesquisa que buscou compreender como os conteúdos de cinemática eram abordados nos livros de Ciências durante o período de 1810 a 1930, perceberam que, independente de qual abordagem fosse utilizada, os livros didáticos expressam os interesses políticos e sociais dominantes de suas épocas. Tal constatação enfatiza a importância de se olhar atentamente as alterações que aconteceram nos livros didáticos após a implementação da BNCC, que teve grande incentivo do Movimento Pela Base, grupo formado majoritariamente por agentes do setor privado.

Diante do exposto, esta pesquisa objetiva comparar duas edições de uma mesma coleção de livros didáticos aprovada nos PNLD de 2018 e 2021, isto é, uma versão anterior e outra alinhada com ao novo currículo oficial. Dada a natureza desta pesquisa, foi necessário realizar um recorte das sessões dos livros que foram submetidas a análise, o recorte recaiu para os conteúdos relacionados a circuitos elétricos em cada uma das coleções analisadas.

## Percurso metodológico

Esta pesquisa tem caráter qualitativo, (Lüdke; André, 1986), e se caracteriza como uma análise documental (Alves-Mazzotti; Gewandsznajder, 2020), cujo corpus de pesquisa é constituído pelos livros didáticos da coleção 'Ser Protagonista', da Editora SM, aprovados nos PNLDs dos anos de 2018 e 2021. A escolha da coleção se deu pela facilidade de obtenção dos livros das duas coleções, algo que não foi possível com as demais coleções aprovadas nas duas edições. Dadas as características específicas dos formatos dos dois editais do PNLD, optamos por analisar os livros de Física da coleção de 2016, aprovados para o PNLD 2018, e os livros da área de Ciências da Natureza, da coleção de 2020, aprovados para o PNLD 2021. Por meio da leitura dos sumários de todos os livros das coleções, identificamos que os conteúdos relacionados aos circuitos elétricos encontram-se no volume 3 - '3º Ano' da coleção de 2016, e no volume 3 - 'Energia e Transformações' na coleção de 2020. Assim, estes foram os dois livros submetidos a uma análise mais concentrada.

Tivemos como fases da pesquisa: a) caracterização de cada uma das edições; b) identificação da distribuição e organização da temática circuitos elétricos; c) comparação da abordagem do conteúdo sobre circuitos elétricos nas duas edições.

Na caracterização das edições, realizamos leitura flutuante dos livros, buscando identificar a maneira como os conteúdos presentes eram organizados e trabalhados.

Na identificação da distribuição e organização dos conteúdos sobre circuitos elétricos, realizamos uma leitura mais aprofundada e detalhada das seções em que cada uma das coleções discorre sobre o tema. Nessa fase, foi possível identificar

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quais partes foram mantidas, alteradas, ou removidas, bem como identificar se novos conteúdos foram incluídos.

Por fim, ao compararmos as edições, foi possível inferirmos sobre os reais impactos da mudança dos livros didáticos para as aulas de Física e iniciar algumas problematizações acerca das mudanças trazidas com a implementação do Novo Ensino Médio.

## Resultados e Discussões

As duas edições da coleção possuem quantidades diferentes de livros, a mais antiga, referente apenas a disciplina de Física é dividida de acordo com as séries do EM, e é composta por três volumes, um para cada série. Já a edição mais recente não é dividida por séries ou por disciplinas, mas por áreas do conhecimento. A coleção de Ciências da Natureza e suas Tecnologias é composta por seis volumes, são eles: '1 -Composição e Estrutura dos Corpos', '2 -Matéria e Transformações', '3 - Energia e Transformações', '4 - Evolução, Tempo e Espaço', '5 - Ambiente e Ser Humano' e '6 - Vida, Saúde e Genética'. De acordo com o guia do PNLD 2021, os volumes 5 e 6 são os que priorizam conteúdos relacionados à disciplina de Física.

Em ambas as coleções, os livros são divididos em unidades temáticas e, e em cada unidade, são alocados os capítulos envolvendo conteúdos relacionados à referida temática. Na coleção de 2016, os conteúdos relacionados aos circuitos elétricos estão postos na 'Unidade 1 - Eletricidade', composta pelos capítulos '1 Carga elétrica', '2 -Campo elétrico e força elétrica', '3 - Corrente elétrica' e '4 Circuitos elétricos'. Já na coleção de 2021 os conteúdos relacionados aos circuitos elétricos estão alocados na 'Unidade 2 Eletricidade e Magnetismo', composta pelos capítulos '1 - Força elétrica e campo elétrico', '2 - Corrente elétrica e circuitos elétricos', '3 - Produção e consumo de energia elétrica' e '4 - Magnetismo e indução eletromagnética'.

A primeira diferença entre as duas edições aparece logo na estruturação das unidades e capítulos. Como as coleções têm números diferentes de livros, muitos conteúdos precisaram ser reestruturados ou removidos, como os capítulos '3 -Corrente elétrica' e '4 - Circuitos elétricos', que foram unidos em um único capítulo na coleção de 2020. Dessa forma, o conteúdo sobre circuitos elétricos, que na coleção antiga era desenvolvido ao longo de trinta e quatro páginas, na nova, tem apenas oito páginas. Na coleção de 2016, dentro do capítulo de circuitos elétricos, os conteúdos são divididos em definição de circuitos elétricos, associação de resistores, circuitos residenciais, geradores, receptores, capacitores, Leis de Kirchhoff e ponte de Whetstone. Na coleção de 2020, os conteúdos referentes aos receptores, capacitores, Leis de Kirchhoff e ponte de Whetstone foram removidos.

Dada a redução considerável no número de páginas disponíveis, mesmo os conteúdos que foram mantidos sofreram uma redução, como exemplo trazemos a associação de resistores, dividida entre as associações em série, em paralelo e mista na coleção de 2016, enquanto a coleção de 2020 manteve apenas as associações em série e em paralelo, cortando totalmente as páginas referentes a associação mista. O mesmo acontece com o conteúdo referente aos geradores, que teve a maioria de seu texto cortada. De modo geral, isso se repete ao longo de todo o capítulo, e é interessante que os textos da coleção recente são os mesmos da coleção anterior, apenas com partes removidas e formatação alterada para se

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enquadrar na nova diagramação dos livros. As imagens utilizadas para ilustrar os conteúdos também são as mesmas em ambas as coleções, com alteração apenas em seus tamanhos. A redução de conteúdos fez com que, na nova coleção, o estudo sobre criação e interpretação de diagramas elétricos ficasse defasado em relação à primeira. Apenas cinco diagramas elétricos estão presentes na versão mais atual, enquanto dezenove estavam presentes na coleção de 2016.

Os conteúdos da disciplina de Física são extensos e, muitas vezes, os professores da disciplina não conseguem abordar todos os assuntos previstos ao longo do ano letivo. Com a nova estruturação do EM as aulas de Física, já consideradas insuficientes, foram reduzidas pela metade, com muitas turmas possuindo apenas uma aula de cinquenta minutos por semana. Essa redução nos livros didáticos está em consonância com a redução das aulas de Física, e dos demais componentes relacionados às Ciências da Natureza. Do ponto de vista de conteúdo, até a edição 2021 do PNLD, os conteúdos pouco variavam em uma mesma coleção, quando muito, passavam por ajustes para inclusão de tópicos ou para atender particularidades do edital. A mudança posta pelo PNLD indica mudanças consideráveis, inclusive por ser uma abordagem por áreas e não por ano/série.

Em relação aos exercícios, percebe-se também uma grande alteração entre as coleções. Na coleção de 2016, ao final de cada assunto trabalhado, são apresentados alguns exercícios resolvidos, seguidos por exercícios propostos para que os alunos resolvam. Ao final do capítulo é disponibilizada uma lista maior de exercícios, contemplando todas as temáticas estudadas. A coleção de 2020 não apresenta, sistematicamente, exercícios ao longo do capítulo, com exceções pontuais em situações em que um exercício resolvido é apresentado em um box , como um anexo para ilustrar uma situação explicada em texto. Todos os exercícios propostos ficam concentrados ao final do capítulo.

As diferenças não se encontram apenas na distribuição das atividades, as habilidades desenvolvidas nos exercícios também foram alteradas. Na primeira coleção, as questões eram diversas e envolviam interpretação de texto, análise de charges, resolução de problemas, interpretação de gráficos, análise de diagramas elétricos e associação de resistores, com uma quantidade semelhante de questões dissertativas e questões que priorizam o desenvolvimento matemático. Já na coleção mais recente, a grande maioria dos exercícios foca apenas no desenvolvimento matemático, sendo que apenas uma questão propõe uma resposta dissertativa. Não existem exercícios em que o estudante deve analisar diagramas elétricos e a única questão que envolve análise de gráficos é a já presente na coleção antiga.

Se antes os exercícios propostos prezavam pela discussão dos temas estudados e contextualização dos conhecimentos da Física, os novos desconsideram essas dimensões da Ciência e reduzem a Física à aplicação de operações matemáticas. Essa mudança na abordagem dos exercícios de Física representa um retrocesso considerável e pode ser um reflexo direto da abordagem que a BNCC atribui à disciplina de Física, que se mostra descontextualizada, voltada para avaliações e rankings , e não para uma compreensão mais ampla da realidade (Mozena; Ostermann, 2016).

Ambas as coleções apresentam um roteiro experimental sobre associação de resistores, que não passou por alterações de uma edição para a outra. A

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diferença se encontra no momento em que o mesmo é proposto, surgindo como uma atividade extra, ao final do capítulo na coleção de 2016, e como uma proposta de atividade, substituindo os exercícios no meio do capítulo, na coleção de 2020. Outro aspecto presente nas duas coleções é a inserção de textos relacionados à relação ciência, tecnologia e sociedade (CTS) ao final dos capítulos. Na coleção de 2016 os textos estão presentes em todos os capítulos, diferentemente da coleção de 2020, onde a inclusão destes textos é mais pontual, e não acontece no capítulo referente aos circuitos elétricos.

## Considerações Finais

Com as grandes mudanças que a educação brasileira vem passando nos últimos anos, acompanhar a mudança no Programa Nacional do Livro e do Material Didático é importante para identificar quais os reais interesses por trás das grandes mudanças curriculares e estruturais. Com esta pesquisa, foi possível perceber um enfraquecimento da Física no currículo do EM. Não só a disciplina tem menos aulas, como também os materiais didáticos foram reduzidos e simplificados. Essa alteração nos parece ter ocorrido em todas as disciplinas de Ciências da Natureza.

Além da perda de espaço, a Física também sofre com um retrocesso em suas abordagens, que parecem estar retornando ao tratamento matemático e descontextualizado, algo que o campo de pesquisa em Ensino de Física há muitos anos já empreende esforços para combater.

A escrita quase idêntica dos textos entre as duas edições também indica que não houve uma reestruturação mais aprofundada do texto no novo material, voltada para o desenvolvimento de um novo livro que contemplasse outro formato, apenas uma adequação do material antigo em uma nova edição reduzida e recortada.

Com os resultados desta pesquisa, indicamos as possibilidades de voltar os olhares para outros agentes e materiais relacionados ao contexto educacional, além dos livros didáticos como, por exemplo, avaliar os impactos dessa redução na quantidade de professores e alunos, ou direcionar as análises para os currículos formulados a partir da BNCC. Algumas dessas pesquisas, inclusive, já vêm sendo realizadas, e é importante a mobilização para que continuem, visando promover um ensino de qualidade e alinhado aos interesses da população, e não às demandas do mercado internacional.

## Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular . 3a.versão, Brasília: MEC, 2018.

BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) . Brasília: MEC, 1997

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCNs+ Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC, 2002. 144p.

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BRASIL. Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Altera as Leis n º 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil , Brasília, DF, 2017.

CHOPPIN, A. História dos livros e das edições didáticas: sobre o estado da arte. Educação e Pesquisa , São Paulo, v.30, n.3, p. 549-566, set./dez. 2004

MOZENA, E. R.; OSTERMANN, F. Sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Ensino de Física. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , Santa Catarina, v. 33, n. 2, p. 327332, ago. 2016.

NICIOLI JUNIOR, R.; MATTOS, C. R. Uma análise de livros didáticos de Física das décadas de 50 e 60. In : Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 10, 2006, Londrina. do Anais [...], Londrina, 2006.

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