AS DEFINIÇOES DE PLANETA E A NATUREZA DA CIÊNCIA
Vanessa Nóbrega De Albuquerque, Cristina Leite
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 07/06/2011
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## AS DEFINIÇOES DE PLANETA E A NATUREZA DA CIÊNCIA DEFINITION OF PLANET AND THE NATURE OF SCIENCE
Vanessa Nóbrega de Albuquerque 1 , Cristina Leite 2
1 Mestranda da Universidade de São Paulo/Instituto de Física, vanessan@usp.br 2 Instituto de Física da USP, crismilk@if.usp.br
Palavras-chave: Natureza da Ciência, Astronomia, Plutão
## Introdução
A inserção de discussões sobre a natureza da ciência no ensino tem sido preocupação de muitos pesquisadores. Alguns apontam que um conhecimento integral da ciência pode promover uma postura mais crítica e menos dogmática em relação a este saber e/ou possibilitar uma relação mais significativa entre alunoconhecimento (CACHAPUZ et al., 2005, PRAXEDES; PEDUZZI, 2009). Nesta perspectiva, desenvolve-se neste trabalho uma reflexão referente ao potencial educativo de alguns episódios da história da astronomia envolvendo a definição de planeta. A partir disto, propõe-se uma estratégia para seu uso em sala de aula. A proposta de ensino sugerida se estruturada no modelo metodológico denominado Três Momentos Pedagógicos (3MP), desenvolvido por Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2002). O modelo adotado procura garantir o uso sistemático da dialogicidade, o que torna possível discutir temas selecionados a partir da problematização das fala dos alunos. A intenção é tornar o problema proposto significativo para o aluno e o estimular a adquirir um novo conhecimento. O processo dialógico também permite a presença constante de análises e sínteses do conhecimento, expresso nas falas dos educandos e educadores. (MUENCHEN; DELIZOICOV, 2010). A intervenção foi inspirada na mudança de classificação de Plutão. Considera-se que o tema, por ser atual e de grande repercussão na mídia, seja um fator problematizador interessante para se discutir a natureza da ciência. Apresenta-se, a priori, uma possível articulação entre os episódios que envolveram a história da definição de planeta e a natureza da ciência. Estudo que fundamentou a proposta de ensino. Em investigações futuras, pretende-se analisar como estudantes do ensino médio da rede estadual de São Paulo se envolvem com as atividades didáticas propostas e se há alguma mudança da imagem da ciência dos alunos após realizarem a intervenção.
## As definições de planeta e a natureza da ciência
Ao longo da história vários corpos celestes tiveram suas nomenclaturas alteradas. Alguns corpos celestes eram ou não considerados planeta de acordo com o modelo de Universo vigente. Uma vez adotado o modelo heliocêntrico, outras razões levaram a mudanças de status dos corpos celestes. Ao ser descoberto, Ceres, por exemplo, foi considerado planeta, mas quando outros corpos celestes similares foram encontrados na mesma região, com o passar dos anos e após muitas discordâncias entre os cientistas, ele passou a ser considerado asteróide. A história de Ceres se repetiu com Plutão. Por décadas Plutão encerrou a lista dos nove planetas do Sistema Solar, mas após muitas divergências, foi reclassificado para planeta anão em 2006. Tal mudança foi motivada pela descoberta de Éris, um corpo celeste transnetuniano que seria maior que Plutão. É importante mencionar que a categoria planeta para Plutão sempre foi questionada devido sua pequena massa e inclinação de sua órbita. A descoberta de Éris teria sido a gota d'água de
uma antiga discussão. O novo status de Plutão ainda é polêmico e muitos astrônomos discordam desta decisão. (ALBUQUERQUE; LEITE, 2010)
O uso destes episódios no ensino pode proporcionar uma visão mais abrangente do trabalho científico, uma vez que evidenciam algumas características da natureza da ciência. As mudanças de classificação sofridas por vários corpos celestes ao longo da história podem iniciar uma discussão sobre o caráter transitório e temporário do conhecimento científico. As mobilizações e divergências deflagradas para se resolver e formalizar quais são os atributos de um planeta, relacionadas às decisões da União Astronômica Internacional em 2006, mostram, por exemplo, que não existe consenso entre os membros da comunidade científica sobre algumas de suas resoluções e que este saber está em processo de construção, uma visão oposta a uma possível concepção dogmática e fechada da ciência. E finalmente, ao se acompanhar os eventos que envolveram a descoberta de novos corpos celestes, o trabalho dos vários cientistas na tentativa de classificá-los e compreende-los, evidencia a natureza cooperativa do trabalho científico.
## Proposta de ensino
A proposta é composta de 3 atividades. Cada uma sistematiza um dos 3MP: Problematização Inicial (PI), Organização do Conhecimento (OC) e Aplicação do Conhecimento (AC). Na PI há a introdução das questões e/ou situações para discussão com os alunos. O estudo dos saberes ainda não conhecidos ou bem compreendidos, necessário para o entendimento do tema central e da problematização inicial, ocorre na etapa da OC. A AC é a síntese do que foi discutido, onde há um retorno às questões iniciais e o emprego dos conceitos aprendidos em outras situações (DELIZOICOV; ANGOTTI; PERNANBUCO, 2002). De maneira a garantir a participação do aluno durante todo o processo de ensinoaprendizagem, não só a estrutura desta proposta se baseia no modelo dos 3MP, como cada atividade que a compõe.
A Atividade I expõe aos alunos um problema que evolve a elaboração de esquemas de classificação. O objetivo é compreender o papel das classificações no desenvolvimento da ciência. Na PI, em grupos, os estudantes são convidados a definirem uma classificação para diversos objetos com formas, tamanhos e cores diferentes. Procura-se apresentar questões sobre a importância, necessidade e complexidade inerente à organização e sistematização das informações. Na OC, para subsidiar as discussões, sugere-se a leitura compartilhada de um texto adaptado de Kneller (1980) sobre classificações. Na AC é interessante rediscutir as questões iniciais, verificar se houve mudanças nas respostas ou se é possível responder a algumas que eventualmente não puderam ser enfrentadas anteriormente. Na Atividade I inicia a problematização sobre a elaboração de classificações. A Atividade II coloca em discussão a possibilidade da influência cultural na organização do conhecimento. Na PI os alunos serão convidados a criarem suas próprias representações das constelações a partir de uma carta celeste. Problematiza-se porque a escolha de um símbolo e não outro. Na OC propõem-se a leitura de dois textos que apresenta como as civilizações organizaram seu conhecimento sobre o céu de diferentes maneiras, representando as constelações com simbologias diversas. Na AC outra situação sobre esquemas de classificação pode ser abordada: os critérios que definem um planeta e a categorização destes. O professor pode expor aos alunos alguns episódios sobre a história da definição de planeta. Sugere-se comentar sobre as polêmicas que
envolveram a reclassificação de Plutão decidida pela UAI em 2006. Durante a exposição, o professor pode chamar a atenção para algumas características da natureza da ciência que ficam evidentes ao se estudar tais episódios. A Atividade II traz subsídios para que os alunos compreendam as várias dimensões que envolvem o estabelecimento de uma classificação. Além de trazer informações mais específicas sobre o caso de Plutão. Para finalizar, na Atividade III, os saberes sobre esquemas de classificação incorporados pelos alunos podem ser solicitados para uma análise e interpretação da nova definição para o astro Plutão. Para a PI o professor pode solicitar que em pequenos grupos os alunos selecionem critérios para definir um planeta e decidam se Plutão se manteria como planeta ou não. Na OC, para compreender as várias facetas deste caso, os alunos podem receber cópias de reportagens de jornais e revistas com depoimentos de cientistas a favor e contra os novos atributos de um planeta aprovados pela UAI. Pode-se promover um debate sobre o tema. Ao final, em uma contagem de votos, obtêm a opinião da classe sobre o caso Plutão. Na AC, propõe-se que os alunos redijam uma redação contando o que aprenderam ao estudar tais episódios. O esforço para escrever a redação pode ajudar a retomar os temas discutidos, para então, sintetizá-los. Na Atividade III há a síntese do que foi discutido ao longo de toda a proposta e o emprego dos conceitos estudados para a compreensão do caso Plutão.
## Algumas considerações
A partir da análise de um episódio controverso e atual da ciência, algumas características desse saber ficam evidentes. Tal como seu caráter transitório, temporário e inacabado (empreendimento em processo de construção). Além de revelar a natureza cooperativa do trabalho científico. A problematização destas questões no ensino pode tornar os estudantes menos dogmáticos e mais críticos em relação a este saber, minimizando a atribuição, com dimensões exacerbadas, de uma autoridade à ciência. Ao trazer a proposta de ensino estruturada nos 3MP, apresenta-se uma possibilidade de atividade fundamentada na dialogicidade, que pretende garantir a participação ativa do aluno durante todo o processo de ensinoaprendizagem, além de possibilitar a presença constante de análises e sínteses do conhecimento, expresso nas falas dos educandos e educadores.
## Referências
ALBUQUERQUE, V; LEITE, C. O caso Plutão e a natureza da ciência. - In: ATAS DO XIX SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA - XIX SNEF. Manaus, 2011.
CACHAPUZ, A.; GIL-PÉRZ, D., CARVALHO, A.M.P.; PRAIA, J.; AMPARO, V. A necessária renovação no ensino das ciências . São Paulo: Cortez, 2005.
DELIZOICOV,D.; ANGOTTI,J.; PERNAMBUCO, M. Ensino de Ciências: fundamentos e métodos . São Paulo: Cortez, 2002.
KNELLER, G. A ciência como atividade humana . Trad. Antônio José de Souza. Rio de Janeiro: Zahar; São Paulo: Ed. USP, 1980.
MUENCHEN, C.; DELIZOICOV, D. Os três momentos pedagógicos: um olhar histórico-epistemológico - Em: ATAS DO XII ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA - XIIEPEF. Águas de Lindóia, 2010.
PRAXEDES, G.; PEDUZZI, L. Tycho Brahe e Kepler na escola: uma contribuição na inserção de dois artigos em sala de aula. Revista Brasileira de Ensino de Física , v.31, n. 3, 3601, 2009.
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