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Integrando Questões Culturais no Ensino de Física: Uma Revisão Bibliométrica das Dissertações e Teses Brasileiras

Enrico Chiosini Nalon Silva, Erick Ghuron Correa Ribeiro

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
20/01/2025
Linha de pesquisa
Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Pôster

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Texto completo

## Integrando Questões Culturais no Ensino de Física: Uma Revisão Bibliométrica das Dissertações e Teses Brasileiras

Enrico Chiosini , Erick Ghuron 1 2

1 USP, Mestrando no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, enricochiosini@usp.br 2 USP, Mestrando no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, ghuron@usp.br

## Resumo

Este estudo examina a integração de questões culturais no ensino de Física por meio de uma revisão bibliométrica das pesquisas indexadas no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. Foram identificadas 12 dissertações e 6 teses, publicadas entre 2003 e 2022, que abordam perspectivas teóricas relacionadas ao multiculturalismo e à decolonialidade e/ou discutem legislações específicas sobre educação multicultural. A análise revelou uma distribuição heterogênea dessas pesquisas pelo território nacional e a ausência de publicações sobre a temática na região Centro-Oeste. Os resultados indicam que, apesar da emergência da área refletida no aumento de publicações após 2015, o número ainda modesto de trabalhos e o curto período de análise impedem conclusões estatísticas sobre o crescimento ou consolidação da área ao longo do tempo. Este panorama sugere a necessidade de maior investimento intelectual em práticas educacionais que valorizem a diversidade cultural e epistemológica, visando fortalecer o campo e ampliar o impacto dessas abordagens no ensino de Ciências.

Palavras-chave : Revisão Bibliométrica, Questões Culturais, Pesquisa em Ensino de Física.

## Introdução

As questões acerca do que entendemos por escola, quais os saberes, as práticas e os valores que orientam nossos processos educativos, a maneira como a instituição escolar deve ser organizada e o projeto de sociedade e humanidade que ela carrega sempre estiveram presentes na reflexão pedagógica (Candau, 2000). Mais recentemente, essas questões fomentam discussões acerca da relação entre escola e cultura, uma relação que, de acordo com Moreira e Candau (2003), é intrínseca a todo processo educativo

"[...] as relações entre escola e cultura não podem ser concebidas como entre dois pólos independentes, mas sim como universos entrelaçados, como uma teia tecida no cotidiano e com fios e nós profundamente articulados" (Moreira e Candau, 2003, p. 159).

Apesar disso, as sociedades ocidentais contemporâneas naturalizaram um modo de pensar e organizar a educação que busca ignorar essas relações, promovendo uma educação supostamente neutra e "desculturalizada". Essa tendência pode promover uma abordagem homogeneizadora, que ignora as particularidades dos indivíduos envolvidos nos processos educacionais, as relações entre as diferentes áreas do conhecimento e as potencialidades dos conhecimentos não hegemônicos para a formação dos estudantes (Forquin, 2004).

No âmbito do ensino de Ciências da Natureza, essa tendência mostra-se especialmente problemática, uma vez que os conteúdos de suas disciplinas ---Física, Química, Biologia, Geociências e Astronomia --- costumam ser apresentados como verdades universais, desvalorizando outros saberes e epistemologias. Ao adotar essa perspectiva, o ensino de Ciências não apenas negligencia a pluralidade

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cultural de nossas sociedades, mas também reforça estruturas de exclusão e desigualdade, apresentando outras formas de conhecer e se relacionar com a natureza como inferiores, primitivas ou irrelevantes.

Ao redor do globo, onde a ciência é ensinada, ela é ensinada às custas do conhecimento indígena, por exemplo, e isso precipita acusações de hegemonia epistemológica e imperialismo cultural (Cobern e Loving, 2001)

Diante desse contexto, é urgente que exploremos novas possibilidades para que a educação possa verdadeiramente reconhecer e valorizar a diversidade de saberes que compõem nossa sociedade. Essa urgência incita reflexões que resultam na construção, desconstrução e reconstrução de referenciais teóricos preocupados com essas questões culturais e suas relações com a educação.

Este trabalho tem como objetivo construir um panorama sobre a presença de discussões relacionadas às questões culturais nas pesquisas focadas no ensino de Ciências da Natureza, respondendo à questão central: essas temáticas se fazem presentes nas pesquisas da área? E, se sim, com que frequência e sob quais perspectivas teóricas? A fim de responder essas questões, optamos por realizar um levantamento das dissertações e teses brasileiras, quantificando a presença de termos relacionados às principais perspectivas teóricas sobre questões culturais.

Para tanto, optamos por buscar por termos relacionados a diferentes perspectivas teóricas que discutem as "questões culturais" na educação. Entre elas, o multiculturalismo , uma teoria que busca valorizar e incluir a diversidade cultural nos processos educativos (Candau, 2013); a decolonialidade , que problematiza, as estruturas de poder e conhecimento herdadas do colonialismo (Ballestrin, 2013); a perspectiva do "bem viver," uma filosofia originária dos povos andinos que propõe uma forma de vida em harmonia com a natureza e em oposição às lógicas ocidentais contemporâneas (Krenak, 2020); e ao conceito de "sulear," que desafia as epistemologias tradicionais ao sugerir um novo ponto de vista a partir do Sul Global (Campos, 2019).

Além disso, optamos por incluir na busca duas legislações importantes: a Lei nº 10.639, de janeiro de 2003, e a Lei nº 11.645, de março de 2008 (Brasil, 2003; 2008). A primeira modificou a Lei nº 9.394, de dezembro de 1996, que define as diretrizes e bases da educação nacional, para instituir a obrigatoriedade do ensino da "História e Cultura Afro-Brasileira" nos currículos da rede de ensino (Brasil, 1996). Já a segunda ampliou essa modificação, acrescentando a obrigatoriedade do ensino da "História e Cultura [...] Indígena" nos currículos escolares.

## Percurso metodológico

O levantamento dos trabalhos foi realizado utilizando os dados fornecidos pelo portal de Dados Abertos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A escolha dessa base de dados levou em conta a sua abrangência: como o sistema está vinculado ao Ministério da Educação (MEC) e o depósito de teses e dissertações é obrigatório, o repositório reúne, idealmente, a totalidade das dissertações e teses produzidas no país.

Outro fator que influenciou para a escolha dessa base de dados foi a flexibilidade com a qual os dados podiam ser acessados. Além da busca convencional, a CAPES disponibiliza toda a sua base para download, o que nos permitiu acessar 1,4 milhão de trabalhos publicados entre 1987 e 2022 e processar seus metadados com um software de análise de dados. Foi através do sitio online https://capes.ghuron.com que conseguimos realizar buscas mais específicas e

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aprofundadas do que seria possível no site oficial da CAPES. Esse site possibilita explorar campos como título, resumo, área de concentração e do conhecimento, local e ano de publicação, sem as limitações impostas pelo buscador padrão do Catálogo de Teses e Dissertações, proporcionando uma análise mais detalhada.

Para garantir que as publicações estivessem alinhadas com o objetivo da pesquisa, foram selecionados os trabalhos cujo título ou resumo continham obrigatoriamente os termos "ensino" e "física", além de pelo menos um dos seguintes descritores planejados a partir da lógica de truncamento 1 : multicultu , intercultu , descolonial , decolonial , contracolonial , bem viver , sulear , 11.645 (ou 11645 ), 10.639 (ou 10639 ). Para facilitar a análise inicial e reduzir o número de trabalhos retornados, foram excluídos aqueles que apresentavam o termo "educação física". A partir desses critérios, retornaram 68 trabalhos, sendo 46 dissertações, 21 teses e um "Produto, Processo ou Técnica".

Em seguida foram organizadas duas etapas de seleção para remover do corpus de análise aqueles trabalhos que não atendiam aos objetivos desta pesquisa. Na primeira etapa, foram removidos os trabalhos que não se relacionavam com o ensino de física, como a dissertação de Oliveira (2017), intitulada 'Violência Escolar: reflexões sobre o currículo e o multiculturalismo', que retornou por conter os termos 'ensino', 'física' e 'multiculturalismo'.

Na segunda etapa, foram removidos os trabalhos que, embora estivessem relacionados ao ensino de física, utilizavam os descritores escolhidos de maneira que não correspondia aos objetivos da pesquisa, isto é, não apresentavam discussões relacionadas às questões culturais e suas implicações. Um exemplo é a tese de Azevedo (2017), intitulada 'Educação Integral e Ensino de Ciências Exatas: um estudo no colégio estadual matemático joaquim gomes de sousa', que retornou por conter os descritores 'ensino', 'física' e 'intercultural', e foi removida do corpus de análise por utilizar o termo intercultural na apresentação do projeto ao qual a pesquisa faz parte, não apresentando, portanto, relação com nossos objetivos. Após essas etapas de seleção, restaram os 18 trabalhos dispostos no Quadro 1.

Quadro 1: Produções analisadas com seu título e ano de publicação .

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## Resultados e discussões

A primeira etapa da análise buscou organizar os trabalhos considerando o grau acadêmico e a região na qual a sede da instituição responsável pelo programa de pós-graduação está localizada, comparando-os com a distribuição dos demais programas de pós-graduação ativos no país (REF, DATA). Esses dados estão organizados na Figura 1.

Figura 1 : Distribuição das teses e dissertações por região e distribuição dos Programas de Pós-Graduação por região.

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Os padrões observados destacam uma forte disparidade territorial na produção acadêmica, com o Sudeste concentrando mais de 60% das publicações,

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uma disparidade que pode ser explicada pela distribuição heterogênea de programas de pós-graduação no território nacional. A comparação entre o total de publicações e o número de trabalhos relacionados a área de interesse evidencia, ainda, uma sub-representação no Nordeste e no Sul: embora o Nordeste conte com 977 programas e o Sul com 1001, essas regiões registraram apenas 2 e 3 publicações, respectivamente, sugerindo que, proporcionalmente, pesquisam o tema em questão com menor intensidade que o Sudeste, que apresenta 11 publicações distribuídas em 2003 programas.

Posteriormente, optamos por organizar os trabalhos O conjunto de trabalhos selecionados foi publicado ao longo dos últimos 21 anos, sendo que o mais antigo dos trabalhos data do ano de 2003 e o mais recente de 2022. A Figura 2 mostra a distribuição temporal dessas publicações em números absolutos e a Figura 3 mostra essa mesma distribuição em números relativos ao total de trabalhos publicados nas áreas do conhecimento às quais essas publicações estão vinculadas na CAPES 2 : Educação, Ensino, Interdisciplinar e Física.

Figura 2 : Distribuição temporal das dissertações e teses entre 2003 e 2022.Figura 3 : Distribuição temporal entre a razão da quantidade de teses e dissertações e o total publicado entre 2003 e 2024.

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Pode-se observar que a área é emergente, com o possível trabalho pioneiro publicado em 2003. Após um intervalo até 2015, a temática parece consolidar-se

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nas pesquisas, evidenciada por uma frequência mais constante de publicações. Esse padrão pode indicar mudanças nas prioridades de pesquisa, influência de financiamentos direcionados ou políticas acadêmicas que incentivam produções nessa área.

Na etapa seguinte, organizamos os trabalhos com base nos descritores utilizados na busca. A Tabela 1 organiza o número de trabalhos que apresentaram cada descritor junto com o número total de vezes que cada descritor apareceu. É importante destacar que esses grupos não são exclusivos e um mesmo trabalho pode estar associado a mais de um descritor, resultando em sua presença em várias colunas simultaneamente.

Tabela 1: Distribuição de descritores nas teses e dissertações

A partir dessa organização, pode-se observar a presença predominante de termos relacionados ao multiculturalismo, em especial, a perspectiva crítica da interculturalidade : 8 dos dezoito trabalhos analisados apresentam esse descritor. Além disso, observa-se a ausência de trabalhos que apresentam os termos sulear , bem viver e contracolonial em conjunto com os descritores obrigatórios.

Por fim, analisamos a distribuição dos descritores ao longo do tempo, com o objetivo de encontrar padrões de surgimento e desaparecimento de linhas teóricas e tendências de aproximação entre elas, bem como analisar a presença e a influência das medidas legais relacionadas à temática nas pesquisas. Na Figura 4, os trabalhos estão organizados separadamente, possibilitando a visualização dos momentos e da frequência de utilização dos descritores. Aqui, cada descritor foi considerado uma única vez, dessa forma, mesmo que o trabalho apresenta o termo 'intercultural', por exemplo, mais de uma vez, ainda foi contabilizado como um uso.

Figura 4 : Distribuição das teorias nas produções acadêmicas entre 2003 e 2022.

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Primeiramente, ao observar as teorias "multicultu" e "intercultu", nota-se que a teoria "intercultu" aparece de forma isolada em cinco ocasiões, sugerindo um interesse recorrente na perspectiva intercultural sem necessariamente integrá-la a outras abordagens ou legislações. No entanto, em três momentos específicos,

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"intercultu" é utilizada em conjunto com "multicultu" e a lei 11.645, evidenciando uma abordagem mais abrangente e interconectada nesses casos.

Em relação às teorias "decolonial" e "descolonial", é interessante notar que ambas sempre aparecem de forma isolada, sem associação com outras teorias ou leis. Esse comportamento sugere que as abordagens decoloniais e descoloniais são tratadas de forma independente, possivelmente devido às suas bases teóricas específicas, que podem não se alinhar diretamente com perspectivas como o multiculturalismo e o interculturalismo.

Por fim, a análise das leis 10.639 e 11.645 revela diferenças marcantes em suas associações com as teorias. A lei 10.639, sendo a mais antiga, não apresenta qualquer vínculo com as teorias mencionadas, o que pode indicar que a abordagem educacional ou acadêmica relacionada a essa lei foi desenvolvida de forma independente das teorias específicas de "multicultu" e "intercultu". Em contraste, a lei 11.645 é frequentemente associada às teorias "multicultu" e "intercultu", com apenas uma aparição sem relação com qualquer teoria.

## Considerações finais

A reflexão apresentada neste estudo destaca a necessidade de integrar questões culturais ao ensino de Ciências da Natureza, em especial a Física, visando promover uma educação que valorize a diversidade epistemológica e cultural de nossas sociedades, superando a perspectiva positivista e pseudo "desculturalizada". Com efeito, o levantamento das dissertações e teses aponta para uma emergência da comunidade acadêmica acerca da importância dessa necessidade. Entretanto, apesar dos avanços, é importante destacar que, devido à jovialidade da área e o consequente baixo número de trabalhos e curto período de análise, conclusões sobre sua evolução e/ou consolidação são prematuras e limitadas. A amostra reduzida impede uma análise estatística, dificultando a identificação de tendências ou a generalização de resultados sobre o crescimento ou consolidação da área ao longo do tempo.

Em relação à frequência e às perspectivas teóricas adotadas, observamos que os termos relacionados ao multiculturalismo e à interculturalidade foram os mais representativos, aparecendo em 10 dos 18 trabalhos analisados. Isso sugere que a maioria das pesquisas que abordam questões culturais no ensino de Física fundamenta-se nessas teorias, buscando valorizar a diversidade cultural e incluir diferentes epistemologias nos processos educativos (Candau, 2020). A interculturalidade, como uma das perspectivas do multiculturalismo, demonstra preocupação em promover diálogos entre culturas diversas, o que é essencial para uma educação inclusiva.

A associação recorrente entre a Lei nº 11.645/08 e as teorias multiculturalistas e interculturalistas reforça a tentativa de fortalecer o entendimento e a aplicação desses conceitos no contexto legal e educacional. Essa integração possivelmente busca alinhar o conteúdo legal com abordagens pedagógicas mais inclusivas e abrangentes, atendendo às demandas por uma educação que reconheça e valorize a história e a cultura dos povos indígenas e afro-brasileiros.

Por outro lado, os termos "decolonial" e "descolonial" apareceram de forma menos frequente, presentes em apenas três trabalhos. Essa baixa representatividade indica que as perspectivas decoloniais estão começando a ganhar espaço nas pesquisas da área, mas ainda não possuem a mesma presença que as abordagens multiculturalistas e interculturalistas. A diversidade dentro dos

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estudos decoloniais, com bases teóricas distintas, reflete a variedade de enfoques e a preferência teórica dos autores em relação a essas abordagens.

A presença das Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08 nos trabalhos analisados indica um interesse nas medidas legais que obrigam a incorporação das temáticas afro-brasileira e indígena na educação. Contudo, é notável que essas leis não aparecem conjuntamente nos trabalhos, o que pode sugerir um foco diferenciado nas questões afro-brasileiras e indígenas. A persistência da Lei nº 10.639/03 nas pesquisas, apesar de sua promulgação anterior, pode apontar para uma atenção ainda concentrada nas questões afro-brasileiras, indicando a necessidade de um equilíbrio maior na abordagem de ambas as temáticas.

## Referências Bibliográficas

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