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CONTRIBUIÇÕES DE JOSÉ LEITE LOPES PARA A DISCUSSÃO CTS NO ENSINO DE FÍSICA BRASILEIRO

Lucas Bordini Manenti, Mário Lopes Amorim

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
20/01/2025
Linha de pesquisa
Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CONTRIBUIÇÕES DE JOSÉ LEITE LOPES PARA A DISCUSSÃO CTS NO ENSINO DE FÍSICA BRASILEIRO

## Lucas Bordini Manenti 1 , Mario Lopes Amorim 2

- 1 Universidade Tecnológica Federal do Paraná/Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade, lucasbmanenti@gmail.com
- 2 Universidade Tecnológica Federal do Paraná/Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade, marioamorim@utfpr.edu.br

## Resumo

Este trabalho tem o objetivo de identificar categorias temáticas nos textos do físico brasileiro José Leite Lopes, publicados na coletânea Ciência e Liberdade (1998), que possam contribuir com a discussão Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) no ensino de Física. Para tanto, discute-se brevemente o contexto histórico e político da origem do Pensamento LatinoAmericano em Ciência Tecnologia e Sociedade (PLACTS), mostrando sua crítica à concepção de CTS difundida na Europa e nos Estados Unidos da América. Elencam-se as categorias temáticas que emergem do trabalho de José Leite Lopes como possíveis contribuições às discussões CTS no ensino de Física: política cientifica nacional; ciência como fator de desenvolvimento; Ciência e Tecnologia dependentes; influência externa no planejamento econômico-social brasileiro. Discutem-se as categorias temáticas escolhidas considerando a construção social da ciência e da tecnologia. Por fim, apontam-se perspectivas para a discussão CTS no ensino de Física por meio da visão social de ciência e tecnologia fundamentadas no PLACTS.

Palavras-chave : José Leite Lopes; PLACTS; Ensino de Física

## Introdução

Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) tem sido um tema amplamente discutido no âmbito de sua necessária inserção nos cursos superiores de licenciatura em Física por meio de disciplinas obrigatórias. No ensino básico, existe uma série de propostas curriculares com o objetivo de discutir CTS e suas implicações econômicopolíticas. Freitas e Ghedin (2015) traçam um panorama comparativo entre pesquisas sobre o estado da arte em CTS, mostrando a relevância que o tema tem adquirido com o passar dos anos. Por se caracterizar como um tema multidisciplinar, não há consenso sobre o que se deve, ou não, abordar nestes cursos ou propostas curriculares, percebendo-se temáticas difusas ao longo do tempo (AULER, 1998; 2007).

Muitos autores, principalmente na América Latina, a partir da década de 1960 e 1970, questionavam a visão linear que os teóricos estadunidenses e europeus defendiam sobre CTS. Os pensadores latino-americanos, mesmo que de diferentes formas, elaboraram visões críticas sobre a produção de ciência e tecnologia (C&T), voltando-se para as problemáticas locais. Concordavam com o caráter social da C&T e posicionavam-se criticamente com relação à transferência de tecnologia, que na época era representada pela substituição de importações. Suas principais divergências se davam na estratégia a ser adotada para alcançar os objetivos relacionados ao desenvolvimento nacional da C&T. Neste aspecto, as formações político-ideológicas dos autores predominavam, acentuando tais diferenças. Esta

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

nova concepção crítica de C&T originou o Pensamento Latino-Americano de Ciência, Tecnologia e Sociedade (PLACTS) (AMORIM, no prelo).

O PLACTS foi formulado por muitos cientistas e pesquisadores latinoamericanos, entre eles, Amílcar Oscar Herrera, Oscar Varsavsky e Osvaldo Sunkel. Herrera (1920 - 1995) foi um geólogo argentino, professor titular da cátedra de Geologia Econômica na Universidade de Buenos Aires (UBA). Varsavsky (1920 1976) foi um químico argentino, obtendo seu doutorado na área da Mecânica Quântica, responsável por desenvolver as primeiras aplicações de modelos matemáticos às Ciências Sociais, também professor da UBA. Sunkel (1927 atualmente) é um economista chileno ligado a CEPAL e a Universidade de Chile.

No Brasil, José Leite Lopes (1918 - 2006) produziu uma série de discussões sobre a produção da C&T brasileira e suas implicações político-econômicas. Foi um dos expoentes brasileiros do PLACTS. José Leite Lopes foi um físico brasileiro especializado em teoria quântica de campos, seus trabalhos receberam amplo reconhecimento internacional. No doutorado, em Princeton, foi orientado por Wolfgang Pauli, defendendo tese em 1946. Retornou ao Brasil e, junto de Cesar Lattes, fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Além do CBPF, participou da fundação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) (LOPES, 1998).

A importância de José Leite Lopes para o campo da Física não se deu somente na sua área de pesquisa e nas suas contribuições para o desenvolvimento C&T nacional. Lopes escreveu sobre os mais variados temas relacionados à C&T, e com o passar dos anos foi adotando uma posição crítica, reconhecendo o caráter dependente relacionado à situação econômico-política brasileira. As reflexões de Lopes podem ser encaradas como de grande importância para o campo da Física como um todo, mesmo que não estejam diretamente relacionados a ela. Neste trabalho, demonstraremos que as temáticas discutidas por Lopes no livro Ciência e Liberdade (1998) podem ser incorporadas às discussões relativas ao campo CTS. O livro se trata de uma coletânea de textos que foram escritos entre o final da década de 1940 e o final da década de 1990. Por se tratar de um extenso período, os textos de Lopes, em Ciência e Liberdade (1998), expressam seus diferentes posicionamentos ao longo do tempo. Com isso, espera-se demonstrar as contribuições do campo CTS para o Ensino de Física.

## Contexto latino-americano e o surgimento do PLACTS

O Brasil é um país situado na periferia do capitalismo global subordinado, assim como os demais países da América Latina, ao capital internacional. Em sua periferia, o capitalismo toma uma nova forma. Vários teóricos procuravam explicar as especificidades dos países latino-americanos no que diz respeito a sua inserção no capitalismo mundial. De um lado, havia os teóricos da modernização, afirmando que os países latino-americanos superariam sua condição de atraso ao imitarem os países capitalistas do norte do globo. Dessa forma, o desenvolvimento científico-tecnológico seria uma etapa a ser alcançada após o cumprimento de uma série de condições de âmbito econômico, social e educacional (ARAPIRACA, 1982; MARINI, 2017; LOUREIRO, 2020).

Por outro lado, havia os teóricos da CEPAL (os desenvolvimentistas) e os teóricos da dependência, oriundos principalmente da América Latina. Estes teóricos convergiam no fato de considerarem o atraso regional como resultado de uma

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condição histórica. Contudo, os desenvolvimentistas colocavam o Estado como motor do desenvolvimento nacional sem romper com a lógica do sistema de produção capitalista, focando no sistema de substituição de importações como único meio possível para o desenvolvimento. Os teóricos da dependência, notadamente os brasileiros Ruy Mauro Marini (2017), Vania Bambirra (2019) e Theotonio dos Santos (2015), por sua vez, perceberam que a condição dos países latino-americanos era um resultado direto do avanço do sistema de produção capitalista, ou seja, 'o subdesenvolvimento é resultado do desenvolvimento capitalista mundial, portanto caracteriza-se como uma configuração específica do capitalismo' (AMORIM, no prelo, p. 6). O resultado eram países, como o Brasil, que experimentavam esta especificidade do sistema de produção capitalista, denominada de capitalismo dependente (TRASPADINI; STEDILE, 2022; DOS SANTOS, 2015).

É neste contexto que surge o PLACTS, abarcando o pensamento de diversos autores, entre eles José Leite Lopes. Para os teóricos do PLACTS,

ciência e tecnologia na América Latina refletem o quadro de dependência cultural característica da condição periférica, no qual a comunidade de pesquisa local reproduz a agenda praticada pela comunidade dos países centrais, permanecendo alheia à realidade nacional [...]. Daí se depreende que não basta uma boa gestão da C&T para a resolução dos problemas estruturais do continente na área, mas sim a necessidade da definição de políticas de Estado que avancem no caminho do desenvolvimento autônomo dos países latino-americanos, sem a replicação de receitas funcionais para outras realidades (AMORIM, no prelo, p. 7)

Os escritos de José Leite Lopes (1998) carregam as determinações históricas das décadas de 1960 e 1970. Com o passar do tempo, Lopes tornou-se cada vez mais consciente do caráter dependente da realidade brasileira, imprimindo considerações importantes em suas reflexões. A seguir, apontaremos temáticas desenvolvidas por Lopes e que consideramos importantes para a discussão CTS no Ensino de Física.

## Temáticas abordadas por José Leite Lopes em Ciência e Liberdade

Antes de partirmos para as temáticas abordadas por José Leite Lopes em seus escritos, precisamos alertar para o fato de que Lopes escrevia de uma época histórica especifica com suas próprias determinações e implicações econômicopolíticas. Contudo, devido à característica dependente do capitalismo brasileiro, muitos destes temas são ainda relevantes.

Os escritos de José Leite Lopes encontrados na coletânea Ciência e Liberdade (1998) versam sobre temas relacionados a C&T, desenvolvimento tecnológico, C&T dependentes, universidade brasileira, responsabilidades dos cientistas brasileiros, problemas enfrentados pelo Brasil com relação à C&T, necessidade de uma política nacional relacionada a C&T, entre outros. Em virtude da grande variedade de assuntos, elencamos apenas os textos que discutem C&T, C&T dependentes, problemas enfrentados pelo Brasil com relação a C&T e a necessidade de políticas nacionais relacionadas a C&T.

A partir de Ciência e Liberdade (1998) enumeramos 4 categorias temáticas abordadas por José Leite Lopes, que são: Política cientifica nacional; ciência como fator de desenvolvimento; C&T dependentes; influência externa no planejamento econômico-social brasileiro. Estas categorias temáticas colocam a C&T brasileira no centro da discussão, levando em conta sua dimensão social e política. Lopes, assim

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como os pensadores do PLACTS, considera a ciência como uma construção social, não-neutra (embora em seus primeiros textos haja menções triunfalistas com relação a C&T), que carrega determinações ideológico-políticas. A partir destas categorias temáticas é possível estabelecer uma direção para a discussão CTS no Ensino de Física.

## Visão social de C&T como contribuição à discussão CTS no Ensino de Física

Auler (1998, 2007) demonstrou que os temas relacionados a CTS no ensino de Ciências, e em particular no Ensino de Física, são difusos. Muitos trabalhos sobre CTS concentram-se em introduzir temas advindos da Física mais recente (a partir do século XX) como forma de atualizar este campo de estudo, como visto em Oliveira (2006). Dessa forma, o PLACTS se torna importante para a discussão CTS, no sentido em que coloca a C&T como produção social que carrega as determinações históricas de seu desenvolvimento. José Leite Lopes, como representante brasileiro do PLACTS, nos auxilia a pensar temáticas que devem ser discutidas no âmbito do campo CTS no Ensino de Física, a partir da produção social de C&T.

Em primeiro lugar, é preciso evidenciar que a Física, assim como outras ciências, é fruto de uma construção social, não-neutra, carregada de intencionalidade e que contém dimensões sociais e políticas. Com esta perspectiva, podemos incorporar a discussão sobre C&T, baseada no PLACTS, ao campo do Ensino de Física. Partindo deste pressuposto, a incorporação de temas CTS ao Ensino de Física deve levar em conta: a condição brasileira (capitalismo dependente); a não neutralidade da C&T; a situação dependente da C&T brasileira; a necessidade de uma C&T baseada nos problemas e na realidade brasileira.

Neste ponto é que José Leite Lopes serve como balizador da discussão C&T no Ensino de Física. Mesmo que seus escritos estejam relacionados ao período histórico no qual viveu, suas reflexões continuam importantes, pois tratam de temas que se agravaram com o passar do tempo. Lopes (1998, p. 57) afirmava que 'O Brasil necessita verdadeiramente de tecnologistas, de escolas e institutos que ensinem e promovam a pesquisa tecnológica' de caráter nacional. Lopes criticava a instalação de empresas estrangeiras no Brasil, focada nos lucros que seriam exportados para o norte global, como se vê na passagem:

Chegou-se, atualmente a um estágio de transplantação de filiais de indústrias estrangeiras no país, que dá uma aparência de progresso. Mas essas indústrias limitam-se a realizar os projetos e plantas enviadas pelas matrizes e, assim, não estimulam a inventividade nacional. As indústrias no Brasil não possuem - ao que saibamos - laboratórios de pesquisa científica e tecnológica, não contribuem com as universidades e institutos científicos, e poucas são as que possuem laboratórios de controle de rotina de produtos. (LOPES, 1998, p.75)

Lopes alertava para o fato de que, com o passar do tempo, a distância entre as potências capitalistas globais e os países do sul global aumentava substancialmente, ou seja:

a distância que nos separa, em 1962, dos países avançados é muito maior do que há vinte anos atrás. [...] Em 1962, a ameaça é igualmente grave: a da permanência da nação em um estado crônico de subdesenvolvimento; a da

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incapacidade de aproveitar os recursos naturais e as suas fontes de energia em benefício do seu povo. A de um progresso aparente; a de um desenvolvimento menor. Estamos diante da ameaça da epidemia da fome, da ignorância de muitos e da cultura importada para poucos. (LOPES, 1998, p.76)

Além disso, Lopes discutia que os problemas enfrentados pelo Brasil no campo da C&T dependiam da produção nacional destas. Dessa forma, defendia uma política científica nacional com o objetivo de desenvolver programas de pesquisa que estivessem em consonância com a realidade nacional. Lopes (1998, p.82-86), afirma que:

Nações como o Brasil [...] necessitam de uma tecnologia local [...] uma rede de institutos [...] equipados com homens treinados e com equipamento para assessorar a indústria nacional, resolver os seus problemas técnicos, vários dos quais são específicos daquele país; institutos de cientistas em contínuo trabalho de pesquisa pura e aplicada. [...] Pois, de outra maneira, estaríamos diante de um novo tipo de dependência colonial e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia nesses países menos avançados seria artificial, isolado das aplicações práticas.

Outro problema característico de países de capitalismo dependente, como o Brasil, é a emigração de cérebros aliada a missões de peritos estrangeiros para a modernização tecnológico-educacional destes países. Os acordos MEC-USAID 1 (ARAPIRACA, 1982) e a Aliança para o Progresso 2 (LOUREIRO, 2020) representam bem este fato. Lopes (1998, p. 101), demonstrou preocupação sobre o tema quando afirmou:

Ao mesmo tempo [em que ocorria emigração de cérebros], missões de 'peritos' em educação e tecnologia de agências estrangeiras vêm sendo levadas aos países subdesenvolvidos e encarregados de reformar o sistema educacional, científico, tecnológico e econômico destas nações - tarefa a qual ilustres educadores, cientistas e peritos locais não são convidados a participar em sua própria casa.

Dessa forma, as categorias temáticas escolhidas, a partir das produções relacionadas a CTS de José Leite Lopes (1998), permitem discutir o papel da C&T num país dependente como o Brasil. Lopes entendia que a Física, assim como as demais ciências, e a tecnologia, não se desvinculavam da realidade concreta. Desse modo, o campo CTS no Ensino de Física não pode estar desvinculado da materialidade.

## Perspectivas e considerações finais

Tomando a Física como uma ciência que carrega as determinações sociais das potências globais em sua construção, percebe-se o quanto seu ensino, ou

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aplicação, desvinculados da realidade, podem agravar a condição dependente brasileira. Isso é perceptível quando Lopes (1998) afirmava que o ensino e aplicação de C&T, por meio da transplantação de conhecimentos e programas de pesquisa estrangeiros baseados no norte global, na América Latina tem um caráter colonizador. Por este motivo, ao discutir CTS no Ensino de Física, deve-se levar em conta a realidade nacional. C&T precisam de um projeto nacional, contextualização e objetivos balizados pela realidade brasileira.

No campo do ensino de Ciências, alguns trabalhos têm sido produzidos nesse sentido. Entre eles, destacamos: Auler (1998; 2001); Auler e Delizoicov (2015); Roso, Auler e Delizoicov (2020); Oliveira e Pereira (2024) e Schwan e Santos (2021). Porém, existem muitos outros que não caberiam aqui nesta breve citação. Nesse sentido, percebe-se a relevância de considerar C&T como construção social, sem perder de vista a realidade na qual elas se efetivam. Com isso, esperamos que as pequenas contribuições aqui comentadas, a partir de José Leite Lopes, sirvam para enriquecer o debate sobre CTS no Ensino de Física.

## Referências

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ARAPIRACA, J. O. A USAID e a educação brasileira . São Paulo: Cortez, 1982.

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