GRADUAÇÕES DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO E A PROPORÇÃO DE MULHERES DIPLOMADAS
Bianca Martins Santos, Deise Miranda Vianna
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 20/01/2025
- Linha de pesquisa
- Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## GRADUAÇÕES DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO E A PROPORÇÃO DE MULHERES DIPLOMADAS
## Bianca Martins Santos 1 , Deise Miranda Vianna 2
1 Universidade Federal do Acre/Centro de Ciências Biológicas e da Natureza, bianca.santos@ufac.br 2 Universidade Federal do Rio de Janeiro/Instituto de Física, deisemv@if.ufrj.br
## Resumo
O trabalho apresenta o quantitativo de mulheres egressas dos cursos de graduação vinculados ao Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Campus da Cidade Universitária. Delineou-se como objetivo indicar a proporção de mulheres e homens entre os egressos da Licenciatura em Física, para o curso presencial e o curso de Educação à Distância (EaD); do Bacharelado em Física; e da Física Médica; vinculados ao IF/UFRJ nos anos de 2003 até 2023. Coletou-se os dados nas atas de colação de grau disponibilizadas pela secretaria do instituto, a partir de uma análise documental. Discussões sobre a proporção de egressas nos quatros cursos do instituto são tecidas. Os resultados mostram que nos cursos de Licenciatura e no Bacharelado em Física, em torno de até 20% dos egressos são mulheres, enquanto que na Física Médica este número sobe para cerca de 40%. Conclui-se que ao longo dos vinte anos analisados, os cursos vinculados ao instituto de Física da UFRJ formaram mais homens que mulheres.
Palavras-chave : Mulheres na Física; Graduação; UFRJ.
## Introdução
Na sociedade atual existe uma barreira invisível que dificulta a atuação profissional das mulheres e facilita a carreira dos homens (Kerr, 2023). Esta barreira está relacionada a vários fatores que aparecem no estereótipo sobre o desempenho da mulher na sociedade, tais como a maternidade, relacionamento interpessoal, e outros. Em carreiras predominantemente masculinas (Oliveira-Silva; Parreira, 2022), esta situação, embora imperceptível, se torna desproporcional e claramente visível pela baixa presença feminina na área. Delimitado a área de Física, o trabalho objetiva apresentar dados sobre o número de mulheres egressas em cursos de graduação vinculados a esta área, para uma certa instituição federal, localizada na região sudeste do Brasil.
A pouca presença de mulheres na área de Física é um fato conhecido no contexto de atuação profissional (Agrello; Garg, 2009). Carvalho (2021, p. 3) ao falar sobre a graduação em Física (Bacharelado e Licenciatura) apresenta que em 'um histórico de 47 anos, o alunado do curso apresenta uma média de 85% de homens e 15% de mulheres'. Já na área de Física Médica há o indicativo de ser mais atrativo para mulheres por ser um curso que envolve a área da saúde (Mendes; Renha; De Sá, 2015). Entretanto não encontramos trabalhos específicos sobre a presença de mulheres em curso de graduação em Física na modalidade a Educação à Distância (EaD). Neste contexto, o trabalho pretende contribuir para embasar discussões sobre este tema a partir do conhecimento sobre o número de mulheres diplomadas nos cursos citados: Licenciatura em Física (presencial e modalidade EaD), Bacharel em Física e Física Médica, de uma instituição tomada como fonte de estudo.
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
## Metodologia
O trabalho faz uma análise documental (Bogdan; Biklen, 1994) das atas de colação de grau do Instituto de Física (IF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nos anos de 2003 até 2023. Foi delineado como objetivo indicar a proporção de mulheres e homens entre os egressos dos cursos de Licenciatura (presencial e de Educação à Distância - EaD), Bacharelado em Física, e de Física Médica; vinculados ao IF/UFRJ, no período citado. Todos os cursos citados possuem a coordenação localizada no Centro de Tecnologia - bloco A, da Cidade Universitária no Rio de Janeiro/RJ.
Nos registros históricos do IF/UFRJ, conforme descrito nos Projetos Pedagógicos dos Cursos analisados, consta a informação de criação do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IF-UFRJ) no ano de 1964. Sendo este reconhecido como um dos pioneiros núcleos de Física no Brasil (UFRJ-FISBCH, 2023). Os cursos de Bacharelado e Licenciatura presencial são os mais antigos.
Na graduação, o curso de bacharelado e licenciatura em Física foram criados como um único curso que no período de 1980-2000 sofreu diversas atualizações. Em 1993, a licenciatura em Física, já como um curso independente, passou a ser oferecida somente no turno noturno, enquanto o bacharelado em Física continuou como um curso oferecido em horário integral. (UFRJ-FISBCH, 2023, p. 4)
## O curso de Física Médica já é mais recente.
O Programa de Física Médica do Instituto de Física da UFRJ foi criado inicialmente como Habilitação dentro do curso de Bacharelado em Física em 1998, tendo sido aprovado pelo CEG em 23/01/2000 e obtido o reconhecimento do MEC através da Portaria 1788 de 10/07/2003 publicada no DOU N.133 de 14/07/2003. (UFRJ-FISMED, 2018, p. 4)
E sobre a Licenciatura em Física EaD, há registro no SIGA (Sistema Integrado de Gestão Acadêmica) da UFRJ deste curso desde 2003 (SIGA, 2023). Este se refere a um curso semipresencial, gerido pela Fundação Cecierj (Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro), o qual exige a presença obrigatória dos estudantes em algumas disciplinas e acesso ao ambiente virtual de aprendizagem pela Plataforma Cederj (Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro). Possui polos espalhados pelo estado do Rio de Janeiro, a saber, nas cidades de: Angra dos Reis, Campo Grande, Duque de Caxias, Itaperuna, Macaé, Nova Iguaçu, Paracambi, São Gonçalo, Três Rios, e Volta Redonda.
## Resultados e discussões
A partir da coleta e análise dos dados foi possível quantificar o número total de mulheres e homens que colaram grau no período analisado conforme apresentado nas Figuras 01, 02, 03 e 04. Observou-se que entre os cursos de Bacharelado e da Licenciatura presencial, o Bacharel formou 69 mulheres e a Licenciatura 72, entretanto a Licenciatura (443 diplomados) formou mais alunos que o Bacharel (347 diplomados). Inicialmente esperávamos que na Licenciatura seria identificado um maior percentual de mulheres por ser uma área ligada ao ensino, porém verificou-se o oposto, 19,9% do total são mulheres no Bacharel e 16,2% na Licenciatura.
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Figura 01: Percentual de homens e mulheres diplomados Bacharéis em Física da UFRJ.Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos resultados da pesquisa.
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Figura 02: Percentual de homens e mulheres Licenciados em Física da UFRJ (curso presencial).Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos resultados da pesquisa.
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Figura 03: Percentual de homens e mulheres Licenciados em Física da UFRJ (curso EaD).Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos resultados da pesquisa.
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Figura 04: Percentual de homens e mulheres diplomados Físicos Médicos da UFRJ.Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos resultados da pesquisa.
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Ao comparar a Licenciatura presencial e a EaD, em termos percentuais, verifica-se que o curso EaD apresentou uma proporção maior de mulheres entre o total de egressos (20,4%). Este resultado pode estar associado a várias questões. Não é objetivo do trabalho elencar o porquê da diferença proporcional de mulheres entre os cursos, mas duas delas podem ser citadas aqui. A Licenciatura presencial trata-se de um curso noturno desde 1993, fato que pode minimizar a presença e a proporção de mulheres por questões relacionadas à segurança na Cidade Universitária do Rio de Janeiro. Além disso, as mulheres que acumulam funções, como exemplo, cuidar de familiares, serviços domésticos, trabalho, entre outros afazeres, podem ter a disponibilidade de tempo reduzida para um curso presencial noturno, e neste caso, o curso EaD pode representar uma opção viável.
Já o curso de Física Médica apresentou o maior percentual de mulheres (40,2%) entre todos os cursos analisados, resultado já esperado devido ao fato deste curso estar relacionado à área de saúde (Mendes; Renha; De Sá, 2015). Acrescentase aqui a Figura 05, no qual é apresentada a proporção entre todos os formandos dos quatro cursos analisados por ano de colação de grau. Por esta figura é possível identificar que em todos os anos, de 2003 até 2023, os egressos são majoritariamente homens, oriundos principalmente dos cursos de Bacharelado e de Licenciatura presencial; e nos últimos anos do período analisado o curso EaD também aparece, acompanhando a consolidação desde.
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Figura 05: Proporção de homens e mulheres em números de diplomados pela UFRJ por ano de colação de grau nos cursos de Bacharelado em Física (BCH), Licenciatura em Física presencial (LIC), Licenciatura em Física EaD (LIC-EaD) e Física Médica (FIS-MED).
Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos resultados da pesquisa.
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Com a apresentação dos resultados pretendemos levantar alguns questionamentos. Porque ainda persiste ao longo dos anos a pouca presença de mulheres no meio acadêmico de Física? Será que ao longo da vida escolar das mulheres do Brasil de alguma forma fica a percepção de que a área de Física é somente para homens? Será que os livros didáticos utilizados na educação básica trazem a figura do cientista como aquela figura predominantemente masculina? Será que na sociedade atual há espaço para divulgação científica associada à figura feminina para atrair mais mulheres para a área?
Estas e outras questões podem ser levantadas sobre o porquê ainda temos uma pouca representatividade feminina no meio acadêmico de Física. E dos motivos pode estar relacionado ao tratamento que a sociedade coloca para homens e mulheres. Agrello e Garg (2009) destacam que muitas mulheres se afastam das áreas de ciências exatas em geral por um problema histórico que se inicia na escolarização em que culturalmente a figura de 'um cientista' é tomada como masculina. O tratamento diferente para meninos e meninas no meio familiar e social desde a infância até a vida adulta também pode exercer influência na escolha da carreira profissional. 'Devemos nos empenhar firmemente para atuar no processo de desconstrução de uma cultura que trata meninas e meninos de forma diferente' (Bolzani, 2017, p. 59).
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## Considerações finais
- O trabalho apresentou dados dos egressos dos cursos de graduação relacionados à Física que estão vinculados ao IF/UFRJ. Procurou-se identificar qual a proporção de mulheres entre os diplomados pelos cursos estudados no período de 2003 até 2023. Verificou-se nos quatro cursos: Licenciatura em Física presencial (16,2%) e EaD (20,4%), Bacharelado em Física (19,9%), e de Física Médica (40,2%); uma proporção menor de mulheres entre o total de egressos. Tais resultados nos levam a entender o cenário atual de que estes cursos ainda são predominantemente masculinos, principalmente os cursos diretamente relacionados à Física e o seu ensino. Longe de esgotar o tema ou propor soluções eficazes para minimizar esta diferença, o trabalho traz contribuições para área no sentido de apresentar os dados, e, entender que saber os números reais sobre a quantidade de mulheres estão nestes cursos nos abre caminho para melhor discutir o tema e propor ações mais concretas.
## Referências
AGRELLO, D.; GARG, R. Mulheres na Física: poder e preconceito nos países em desenvolvimento. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 31, n. 1, p. 1305.1305.6, 2009. https://doi.org/10.1590/S1806-11172009000100005
BOGDAN, R. C.; BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em educação . Portugal: Porto Editora, 1994.
BOLZANI, V. da S. Mulheres na ciência: por que ainda somos tão poucas? Ciência e Cultura , Artigos e Ensaios, v. 69 n. 4, p. 56-59, 2017.
CARVALHO, M. E. P. de. Mulheres na Física: experiências de docentes e discentes na educação superior. Cadernos Pagu , n. 62, e216214, 2021.
KERR, C. O impacto dos estereótipos na carreira das mulheres. Caderno especial: mulheres na liderança , v. 22, n. 1, p. 4-9, 2023.
MENDES, J. D. S.; RENHA, S. K.; DE SÁ, L. V. Mulheres na Física Médica no Brasil: principais características e desafios. GÊNERO , Niterói, v. 16, n. 1, p. 67 - 81, 2.sem, 2015.
OLIVEIRA-SILVA, L. C.; PARREIRA, V. A. D. Barreiras e enfrentamentos de mulheres em carreiras predominantemente masculinas. Revista Estudos Feministas , v. 30, n. 1, e74161, 2022. https://doi.org/10.1590/1806-95842022v30n174161
SIGA. Sistema Integrado de Gestão Acadêmico . Curso de Graduação em Licenciatura em Física-EaD. 2023. Disponível em: https://www.siga.ufrj.br/sira/temas/zire/frameConsultas.jsp?mainPage=/repositoriocurriculo/C54F1570-92A4-F79D-5F75-EDDCC6DD4408.html. Acesso em:
09/10/2023.
UFRJ-FISBCH. Bacharelado em Física. Projeto Pedagógico , 2023. Disponível em: https://www.if.ufrj.br/wp-content/uploads/2024/02/PPCBacharelado20231.pdf. Acesso em: 03/09/2024.
UFRJ-FISLIC. Curso de Licenciatura em Física. Projeto Pedagógico , 2019. Disponível em: https://www.if.ufrj.br/wp-
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content/uploads/2019/07/PPCLicenciatura\_CPL\_CEG\_DEN\_OFICIAL20202019.pdf. Acesso em: 03/09/2024.
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UFRJ-FISMED. Graduação em Física Médica. Plano Pedagógico Curricular - PPC, 2018. Disponível em: https://www.if.ufrj.br/wp-content/uploads/2019/07/PPC- 20FISMED-2019-2407.pdf. Acesso em: 03/09/2024.
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