O CÉU DO POVO GUARANI MBYÁ: UMA PROPOSTA DE ENSINO DE ASTRONOMIA INDÍGENA
Bernardo Correa Massaud, Gabriel Fernandes Silva, Lais Rodrigues Da Silva, Rodrigo Trevisano De Barros
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 20/01/2025
- Linha de pesquisa
- Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O CÉU DO POVO GUARANI MBYÁ: UMA PROPOSTA DE ENSINO DE ASTRONOMIA INDÍGENA
## Bernardo Corrêa Massaud 1 , Gabriel Fernandes Silva 2 , Lais Rodrigues da Silva 3 , Rodrigo Trevisano de Barros 4
1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, bmassaud@gmail.com
- 2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, silva.gabriel\_2@graduacao.uerj.br
3 Instituto de Física Armando Dias Tavares/UERJ, lais.silva@uerj.br
4 Colégio Pedro II, rodrigo.barros.1@cp2.edu.br
## Resumo
O trabalho integra-se em um conjunto de ações do Núcleo de Investigação e Ensino de Ciências do Colégio Pedro II e da Rede de Divulgação Científica do Instituto de Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Nele, problematizamos questões referentes ao ensino de Física/Ciências nos anos iniciais do ensino fundamental e a Lei 11.645/08 torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena em todo o currículo escolar do ensino básico. O presente trabalho consiste em uma plano de aula para os anos iniciais do Colégio Pedro II sobre Astronomia, a partir da cultura Guarani Mbyá que atende a essa Lei. O objetivo é relacionar os conhecimentos e cultura indígenas às aulas de Ciências, se utilizando de ferramentas como o Mapa Conceitual para entender as percepções dos alunos em um primeiro momento. Além disso, apresentar a história e importância da Astronomia para as sociedades. No segundo encontro, será utilizado o software Stellarium para observar as constelações e corpos celestes, com o professor mediando a interação entre os alunos e o programa. A ideia é conduzi-los pelos mitos do povo até a relação das constelações com as estações do ano. No último encontro, os alunos serão avaliados a partir da construção de outro Mapa Conceitual e da elaboração de desenhos das constelações.
Palavras-chave : Astronomia Guarani, Ensino de Ciências, Anos Iniciais
## Introdução
Partimos da premissa de que a cultura é o processo social de organização das ideias, onde a enculturação científica se destaca como um componente essencial desse processo (Gramsci, 1978). Ela não apenas introduz o conhecimento científico nas disputas discursivas que permeiam nossa sociedade, mas também molda como essas ideias são transmitidas e entendidas ao longo do tempo.
Ao adotar a perspectiva de que a física é um produto da cultura humana, reconhecemos sua íntima ligação com os contextos sociais, históricos e culturais em que é produzida. Este entendimento nos leva a questionar a ideia de neutralidade do conhecimento científico, ressaltando sua influência e impacto nas dinâmicas sociais e políticas. Assim, educar em física não se restringe à mera transmissão de fatos e teorias, mas envolve uma profunda reflexão sobre como esses conhecimentos são construídos e aplicados na prática.
Os processos educativos emancipatórios, portanto, não devem apenas fornecer conhecimentos técnicos, mas também capacitar os indivíduos a se
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
perceberem como agentes históricos, culturais e políticos. Isso implica ampliar suas visões de mundo, preparando-os para participar ativamente das transformações sociais e políticas, enfrentando e compreendendo as contradições presentes na realidade contemporânea.
Uma escola verdadeiramente emancipatória não se limita a preparar os estudantes para o mercado de trabalho, mas os equipa com ferramentas críticas e analíticas para que possam enfrentar as estruturas de poder existentes. Isso envolve não apenas a compreensão teórica, mas também a prática cotidiana de colocar em questão as narrativas dominantes e promover mudanças significativas na sociedade.
A Lei 11.645/08 que altera a Lei de diretrizes e bases da educação nacional estabelece no âmbito de todo currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática 'História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena' (Brasil, 2008). Utilizando como base a BNCC para o 5º ano, desenvolvemos uma sequência didática que contempla o componente curricular de Ciências, mais especificamente a unidade temática Terra e Universo sendo um dos seus objetivos de conhecimento conhecer constelações e mapas celestes, desenvolvida pela habilidade (EF05CI10) de identificar algumas constelações no céu, com o apoio de recursos (como mapas celestes e aplicativos digitais, entre outros), e os períodos do ano em que elas são visíveis no início da noite.
Com isso, esse trabalho tem o objetivo de apresentar algumas das diversas percepções de um mesmo pedaço de céu, entendendo que cada cultura interage de forma única com os astros. Utilizando da Astronomia Cultural (Jafelice, 2016) desejamos desconstruir a percepção cultural hegemônica na qual os discentes estão inseridos. Procuramos reconhecer a pluralidade de povos e de formas de se relacionar com o mundo e natureza, sem a ideia de que uma etnia é melhor do que outra (Chiosini e Leite, 2023). Assim, tirando o céu grego como única cosmopercepção apresentada em sala de aula para os anos iniciais.
Essa proposta de aula mescla tecnologia, 'mão na massa' e criatividade, propondo os alunos a imaginar e conhecer outras sociedades. Optamos pela utilização de Mapas Conceituais em sala de aula, pois auxiliam na edificação de uma melhor estrutura cognitiva dos estudantes. É um recurso de anotação de informações de forma não linear, em forma de teia ou rede. Isto significa que a ideia principal é colocada no centro e as ideias associadas são descritas apenas com palavras-chaves ilustradas com imagens, ícones e cores variadas. Essa ferramenta é discutida por Marques (2008) apresentando diversas estruturas e possibilidades de uso em sala de aula.
Também nos utilizaremos do Stellarium , que é um software de astronomia para visualização do céu nos moldes de um planetário. Domingos e Teixeira (2021) demonstram como o uso do software pode alavancar o processo de ensino-aprendizagem, aliado ao papel mediador do professor junto ao discente. E a atividade de fazer os asterismos das constelações da etnia Guarani Mbyá e da grega para aproximar os 'céus' aos alunos com a criação de suas próprias histórias nas estrelas com os respectivos asterismos criados.
## A atividade
Esta proposta de aula busca relacionar o Ensino de Ciências com o ensino de Cultura Indígena dentro da Educação de Base. A aula foi elaborada pensando em
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alunos do 5° ano do Ensino Fundamental I, separada em 3 encontros de 50 minutos cada um. A escolha do céu Guarani como objeto de estudo partiu do trabalho de Martins e Pinto (2016), que descreve alguns dos mitos por trás das constelações. Além disso, a possibilidade do uso do software Stellarium como ferramenta foi um fator a favor.
Tabela 01: Sequência Didática
Conforme a Tabela 01, o primeiro encontro seria em sala de aula e a partir de um mapa mental em conjunto entender o que os alunos associam à palavra 'Astronomia'. Após discutir as percepções apresentadas, introduzir os conceitos pertinentes à importância da observação do céu, história da Astronomia e os instrumentos óticos.
No segundo momento, os alunos serão apresentados ao céu Guarani Mbyá por meio do software Stellarium. Nele é possível identificar os principais corpos celestes e constelações indígenas, modificando a localidade e o tempo em que se observa os astros. O ideal é que essa aula aconteça em uma sala escura ou, se possível, em um planetário inflável. Para a sala pode se utilizar cortinas, tecido TNT ou até mesmo sacos de lixo.
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Figura 01: Constelação do Homem Velho.
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Figura 02: Constelações de Órion e Touro.
O discurso pensado seria apresentar as constelações e como elas indicam a passagem do tempo e as chegadas de cada estação do ano. A constelação do Homem Velho, por exemplo, representa o verão (Figura 01). Ao final de dezembro essa constelação surge entre os pontos cardeais Leste e Nordeste ao anoitecer. Essa constelação abrange as constelações de Órion, Touro e o aglomerado das Plêiades (Figura 02).
Figura 06: Constelação do Cruzeiro do Sul e de Escorpião
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Figura 03: Constelação do Veado.
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Figura 04: Constelação de Cruzeiro do Sul, Vela, Mosca e Carina.
A constelação do Veado indica a chegada do outono e pode ser observada ao final de março, surgindo entre os pontos cardeais Sul e Sudeste ao anoitecer (Figura 03). Essa constelação abrange as constelações de Cruzeiro do Sul, Vela, Mosca e Carina (Figura 04).
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Figura 05: Constelação da Ema.
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A constelação da Ema representa o inverno, e se localiza bem próxima à constelação do Veado, por meio da Cruzeiro do Sul (Figura 05). Essa constelação abrange as constelações de Escorpião e Antares (Figura 06).
Figura 08: Constelação de Cefheus, Lacerda, Cassiopeia e Cygnus.
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Figura 07: Constelação da Anta.
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A constelação da Anta representa a primavera e pode ser facilmente observada ao Norte durante as noites de Outubro, Novembro e Dezembro (Figura 07). Essa constelação abrange as constelações de Cepheus, Cassiopeia, Lacerda e Cygnus (Figura 08).
Figura 09: Pedaço do céu noturno do Stellarium com suas cores invertidas.
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No último encontro em sala de aula, é proposto aos alunos seguirem os asterismos das constelações culturais que aprenderam nos últimos encontros a partir da impressão do céu noturno no Stellarium (Figuras 09, 10 e 11), e criarem seu próprio asterismo e uma breve história para ele usando a imaginação com auxílio do docente. Além disso, é elaborado outro mapa mental ao redor da palavra 'Astronomia' e é comparado com o primeiro mapa elaborado. A ideia é entender como a percepção dos alunos mudou com a aplicação das atividades, consolidando os conhecimentos abordados.
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Figura 10: Asterismo do Homem Velho feito a lápis.
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## Considerações Finais
Essa proposta se faz necessária, pois o Ensino de Ciências apresenta uma carência muito grande de ações que tratem do tema, a aula procura conectar os conhecimentos indígenas com o Ensino de Ciências assim contemplando a Lei 11.645/08 e ampliando a cosmopercepção dos alunos.
Outro fator que soma-se em nossas argumentações é a falta de trabalhos que versem sobre ensino de física/ciências nos anos iniciais, tornando-se fundamental que o ensino de física auxilie os professores e professoras desse segmento apontando possibilidades de reflexão e prática pedagógica.
Entendemos que as realidades vividas pelas escolas do ensino de base são muito diferentes e podem não condizer com as escolhas do material proposto, necessitando de adaptações em sua realização. Esperamos que este trabalho seja útil para os docentes do ensino básico que desejam ministrar aulas de Ciências que explorem o ensino da cultura de povos indígenas.
## Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional comum curricular Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/ Acesso em: 06 set. 2024
BRASIL. Lei nº 11645/08. Altera a lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática 'História e Cultura Afro-brasileira e indígena'. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 de março de 2008. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/\_ato2007- 2010/2008/lei/l11645.htm. Acesso em: 06 set. 2024.
CHIOSINI, E. e LEITE, C. O enfoque antropológico de jafelice e suas potencialidades para o ensino de astronomia. XXV Simpósio Nacional de Ensino de Física, 2023.
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Figura 11: Asterismo de Touro e Orion feito a lápis.
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DOMINGOS, R. B., e TEIXEIRA, R. R. P. "Uso do software Stellarium em atividades de ensino de astronomia." Revista Brasileira de Física Tecnológica Aplicada 8.1 (2021).
GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
JAFELICE, L. C. O ensino de astronomia cultural: por quem, para quem, como e para quê?. IV Simpósio Nacional de Educação em Astronomia (SNEA), Goiânia, 2016.
MARQUES, A. M. M..Utilização pedagógica de mapas mentais e de mapas conceptuais. (Dissertação de Mestrado em Expressão Gráfica, Cor e Imagem, Universidade Aberta de Portugal, Lisboa) (2008).
MARTINS, O., e PINTO, S. "Os conhecimentos astronômicos dos Guarani mbyá: algumas contribuições para sua divulgação e valorização no espaço escolar. " K. Russo & M. Paladino, Ciências, tecnologias, artes e povos indígenas no Brasil (2016): 171-194.
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