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“QUEM CEDE A VEZ NÃO QUER VITÓRIA”: UMA PROPOSTA DE ENSINO DE ACÚSTICA, ARTE E HISTÓRIA INSPIRADA PELA MÚSICA "IDENTIDADE" DE JORGE ARAGÃO

Gabriel Fernandes Silva, Caio Nabuco Barbosa, Lais Rodrigues Da Silva, Rodrigo Trevisano De Barros

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
20/01/2025
Linha de pesquisa
Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## 'QUEM CEDE A VEZ NÃO QUER VITÓRIA': UMA PROPOSTA DE ENSINO DE ACÚSTICA, ARTE E HISTÓRIA INSPIRADA PELA MÚSICA "IDENTIDADE" DE JORGE ARAGÃO

Gabriel Fernandes Silva 1 , Caio Nabuco Barbosa 2 , Lais Rodrigues da Silva 3 , Rodrigo Trevisano de Barros 4

- 1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, silva.gabriel\_2@graduacao.uerj.br
- 2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, barbosa.caio@graduacao.uerj.br
- 3 Instituto de Física Armando Dias Tavares/UERJ, lais.silva@uerj.br

4 Colégio Pedro II, rodrigo.barros.1@cp2.edu.br

## Resumo

O trabalho integra-se em um conjunto de ações do Núcleo de Investigação e Ensino de Ciências do Colégio Pedro II e da Rede de Divulgação Científica do Instituto de Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Passados mais de 20 anos da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira em todo o currículo escolar do ensino básico, as produções em Ensino de Física que tratam deste tema ainda são discretas. O presente trabalho consiste em uma proposta de aula interdisciplinar de Física, Artes e História a partir da música 'Identidade' de Jorge Aragão. O objetivo é relacionar as questões étnico-raciais às aulas de Acústica, se utilizando em um primeiro momento do espaço proporcionado pela Roda de Conversa para que os alunos também compartilhem suas percepções e contribuições ao diálogo. Esse espaço permite contribuições dos professores de Artes e de Histórias, além de permitir aos estudantes explorar como é produzido o som. No segundo momento, o discente colocará de frente as hipóteses construídas com o que a Física apresenta sobre o assunto. Aspectos como intensidade, timbre e altura também são mais profundamente abordados com o auxílio de softwares do Audacity, um programa de gravação de aúdio.

Palavras-chave : Interdisciplinar, Decolonial, Acústica

## Introdução

Partimos da premissa de que a cultura é o processo social de organização das ideias, onde a enculturação científica se destaca como um componente essencial desse processo (Gramsci, 1978). Ela não apenas introduz o conhecimento científico nas disputas discursivas que permeiam nossa sociedade, mas também molda como essas ideias são transmitidas e entendidas ao longo do tempo.

Ao adotar a perspectiva de que a física é um produto da cultura humana, reconhecemos sua íntima ligação com os contextos sociais, históricos e culturais em que é produzida. Este entendimento nos leva a questionar a ideia de neutralidade do conhecimento científico, ressaltando sua influência e impacto nas dinâmicas sociais e políticas. Assim, educar em física não se restringe à mera transmissão de fatos e teorias, mas envolve uma profunda reflexão sobre como esses conhecimentos são construídos e aplicados na prática.

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

Os processos educativos emancipatórios, portanto, não devem apenas fornecer conhecimentos técnicos, mas também preparar os indivíduos a se perceberem como agentes históricos, culturais e políticos. Isso implica ampliar suas visões de mundo, preparando-os para participar ativamente das transformações sociais e políticas, enfrentando e compreendendo as contradições presentes na realidade contemporânea.

Uma escola verdadeiramente emancipatória não se limita a preparar os estudantes para o mundo do trabalho, mas os equipa com ferramentas críticas e analíticas para que possam enfrentar as estruturas de poder existentes. Isso envolve não apenas a compreensão teórica, mas também a prática cotidiana de colocar em questão as narrativas dominantes e promover mudanças significativas na sociedade.

A Lei 10.639/03 estabelece no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática 'História e Cultura Afro-Brasileira' nas diretrizes e bases da educação nacional. Mesmo já passados mais de 20 anos da implementação da lei, os avanços no reconhecimento e na inclusão do tema, são tímidos e concentrados em poucos autores (Silva, 2024; Massaud, 2024).

Dada a problemática, tornam-se cada vez mais urgentes as produções em Ensino de Física que não apenas apresentam equações, teorias e hipóteses, mas que dialoguem com o social. Ensinar é humano, e é fundamental ir além dos conteúdos curriculares. Faz-se necessário cada vez mais relacionar esses conceitos com uma percepção do mundo que compreenda as desigualdades sociais (Oliveira e Queiroz, 2016).

A escola é peça fundamental no mecanismo decolonial e o papel do professor é contribuir com a desconstrução do modelo hegemônico estabelecido. O ensino de Física contra hegemônico precisa construir alunos questionadores sobre as relações com a natureza, com o conhecimento e com a sociedade (Trevisano, Queiroz e Silva, 2018) (Morais e Santos, 2019).

## Segundo escrevem Trevisano, Queiroz e Silva. (2018):

Estamos ao lado da prática progressista, tentando fugir do ensino de física/ciências conservador por entender que assim poderemos contribuir com a desconstrução do modelo hegemônico estabelecido, reprodutivo e sem significado para os estudantes, sendo simplesmente de interesse para avaliações em grande escala. Sustentamos que um ensino de ciências contra-hegemônico precisa construir com os alunos indagações sobre o mundo, sobre o conhecimento e sobre o próprio homem, contribuindo com a percepção do indivíduo como ser social e histórico.

Dessa forma, essa proposta visa ir além da sala de aula tradicional, promovendo uma educação crítica que desafia as narrativas dominantes e incentiva os estudantes a refletirem sobre as relações de cultura e identidade em suas vidas e na sociedade.

A forma escolhida para a abordagem da questão étnico-racial se deu pelo samba de Jorge Aragão 'Identidade'. Essa música fala sobre as lutas por reconhecimento e respeito das populações negras no Brasil no final do século XX. A canção é um grito de afirmação da identidade negra em uma sociedade marcada por centenas de anos de desigualdade e racismo.

Conforme argumentado por Soares (2018), a letra de "Identidade" destaca a relação entre as questões raciais e sociais, remetendo a uma conexão histórica

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entre as populações negras e as condições de trabalho desfavoráveis. A música expressa um desejo de romper com a segregação imposta por um sistema de exclusão trocando o elevador de 'serviço' pelo elevador 'social'. Essa música é um grito de liberdade contra a marginalização no meio de uma estratégia de exclusão imposta.

Dessa forma, "Identidade" não é apenas uma canção, mas também um manifesto que provoca reflexão sobre o lugar do negro na sociedade brasileira, desafiando estereótipos e promovendo a valorização da cultura afro-brasileira. É uma expressão artística que vai além da música, tornando-se uma ferramenta de debate para possíveis conversas sobre esse tema.

Para este trabalho, utilizamos a roda de conversa como método pedagógico, pois essa estratégia permite a criação de um momento em que os envolvidos têm um encontro dialógico em que sejam conduzidos por um processo capaz de contribuir com a percepção de que ao mesmo tempo que produzimos cultura, somos produzido por ela. Nesse contexto, a utilização da roda de conversa se destaca como uma alternativa capaz de desempenhar um papel mediador, ao atender os requisitos apontados por Moreira (2018). Ela facilita a construção de um espaço dialógico onde as experiências e saberes dos participantes podem ser compartilhados e ressignificados, promovendo uma aprendizagem mais reflexiva e crítica.

Dessa forma, a roda de conversa serve como uma ferramenta para fortalecer a relação entre professores e estudantes, especialmente no ensino médio, ao criar um ambiente que favorece o diálogo aberto e construtivo. Essa estratégia pedagógica não apenas facilita a troca de ideias, mas também permite que o docente tenha uma visão mais aprofundada do cotidiano dos alunos, compreendendo suas concepções alternativas. Como ressaltado por Melo e Cruz (2014), a roda de conversa oferece uma oportunidade única para o professor se aproximar dos estudantes, promovendo uma análise mais detalhada de suas realidades e, assim, adaptando o processo de ensino às necessidades e vivências dos alunos.

O uso de tecnologias também se faz necessário no ensino, uma vez que estão presentes no cotidiano discente. Com uma sociedade cada vez mais tecnológica, o seu uso em sala de aula acaba se tornando cada vez mais necessário, podendo ser usado até como uma forma de aproximação com a linguagem atual dos alunos.

Segundo Prensky (2001), embora o modelo tradicional de aula ainda seja amplamente adotado no ambiente educacional, os estudantes de hoje têm uma familiaridade muito maior com a linguagem tecnológica, o que pode criar um distanciamento em relação aos métodos de ensino mais convencionais.

## Proposta de Aula

Esta proposta de aula interdisciplinar busca relacionar questões étnico-raciais com a análise da letra da canção "Identidade" de Jorge Aragão às disciplinas de Física, História e Artes, com seus respectivos docentes. A escolha da música como ponto de partida é motivada pela narrativa da canção que, como aponta Soares (2018), critica e denuncia as formas de segregação sofridas pelas

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populações negras na sociedade no final do século XX, que são presentes ainda hoje.

Sob a perspectiva da Física, buscamos explorar como é produzido o som dos instrumentos do samba, as qualidades fisiológicas do som e efeitos de propagação e reflexão. Buscaremos explicar e entregar uma análise de como os sons característicos dos instrumentos de samba (por exemplo: tamborim, tantã, cavaco e violão), são resultados não apenas das técnicas musicais mas também dos princípios físicos envolvidos em cada um que causam suas diferenças sonoras.

No âmbito das Artes, podemos explorar como a música pode servir como um meio poderoso de expressão e reflexão sobre as dinâmicas sociais e culturais no Brasil. Este tipo de estudo interdisciplinar, permite o debate de como a música e as expressões artísticas são envolvidas pelas questões de identidade, resistência e representatividade.

A aula foi elaborada para alunos do 2° ano do Ensino Médio regular e separada em dois encontros de 2 tempos de 50 minutos cada, totalizando 4 tempos totais. Conforme a Tabela 01, o primeiro encontro consiste na Roda de Conversa (RC) como estratégia de ensino, iniciando com a apresentação da música Identidade e logo após coletando as percepções iniciais dos estudantes. Durante a RC, a ideia é alternar as percepções dos alunos com comentários sobre o debate social e permitir que eles apresentem outras músicas de cantores e estilos musicais que mais os interessam, que também discutem questões sociais.

Ainda na RC, incentivamos os alunos a experimentarem e utilizarem os instrumentos presentes e elaborem suas próprias concepções de como o som é gerado e propagado em cada um deles. A ideia é que construam hipóteses que serão debatidas em sala com o professor no segundo encontro. Além disso, como parte de um trabalho, pedimos aos alunos para que enviem ao professor, até o próximo encontro, o nome das canções que eles ouvem e identificaram as questões sociais por trás da letra.

Tabela 01: Sequência Didática

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com as questões apresentadas no primeiro encontro.

- ● Apresentar com auxílio do software Audacity, as ondas sonoras captadas.

No segundo encontro, em sala de aula, será abordada a dinâmica dos instrumentos de samba, introduzindo os alunos à Física Acústica e à importância do timbre, intensidade e altura. Vamos explorar como, além das técnicas e da intensidade de execução, cada instrumento possui um timbre distinto que contribui para a riqueza sonora do samba.

Durante a aula, discutiremos o conceito de timbre e como ele nos permite diferenciar sons de fontes distintas, mesmo quando produzem a mesma nota. Vamos analisar o timbre dos instrumentos de percussão, como o tamborim e o tantã, destacando como suas diferenças de tamanho e materiais afetam a qualidade do som. Também examinaremos os timbres dos instrumentos de corda, como o cavaco e o violão, associando a fórmula de Taylor para cordas. O cavaco, com seu corpo menor e cordas mais finas, oferece um som mais agudo e penetrante, enquanto o violão, com um corpo maior e cordas mais grossas, proporciona um timbre mais grave e cheio.

Além disso, vamos comparar os conceitos apresentados com as concepções iniciais dos alunos, elaboradas durante a RC, quando tiveram a oportunidade de utilizar os instrumentos e investigar a produção dos sons. Caso não seja possível ter os instrumentos fisicamente no dia da aula, outra alternativa recomendada é a utilização de um computador e projetor para apresentar vídeos que mostram o funcionamento desses instrumentos.

Para facilitar a compreensão dos alunos sobre as ondas sonoras, utilizamos o Audacity, um software livre e gratuito de edição de áudio digital, que exibe gráficos detalhados das ondas sonoras captadas. Nele, apresentamos os gráficos gerados pelo som dos instrumentos de samba analisados, demonstrando as diferenças de frequência, timbre e intensidade entre eles.

## Considerações Finais

A proposta de aula surge como projeto final da disciplina de Estágio Supervisionado 1, obrigatória para o curso de Licenciatura em Física na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sua elaboração foi norteada pelas vivências dos estudantes de graduação no contexto de instituições federais de educação básica e experiências da participação do Programa de Residência Pedagógica. Entendemos que as realidades vividas pelas escolas do ensino de base são muito diferentes e podem não condizer com as escolhas do material proposto, necessitando de adaptações em sua realização.

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Esperamos que este trabalho seja útil para os docentes do ensino básico que desejam ministrar aulas de Física que explorem questões sociais e de direitos humanos.

## Referências

BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003a, p. 01.

GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

MASSAUD, B. C. A Lei 11.645/08 e o ensino de questões étnico-raciais: Um olhar para as Licenciaturas em Física. 2024. 113 f. Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em Física) - Instituto de Física Armando Dias Tavares, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.

MORAIS, R. F.; SANTOS, A. C. F. dos. A importância de um currículo com elementos afro centrados para a constituição de uma visão epistemológica menos euro centrada. Revista Exitus, Santarém/PA, v. 9, n. 4, p. 66 - 94, Out/Dez 2019.

MOREIRA, M. A. Ensino de Física no século XXI. Revista do Professor de Física , v. 2, n. 3, p. 80 - 94, 4 dez. 2018.

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OLIVEIRA, R. D. V. L.; QUEIROZ, G. R. P. C. Professores de ciências como agentes socioculturais e políticos: a articulação valores sociais e a elaboração de conteúdos cordiais. Redequim: revista debates em ensino de química, Recife, v. 2, n. 2, 2016c.

PRENSKY, M. Digital Natives, Digital Immigrants. MCB University Press, v. 9, n. 5, 2001.

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SOARES, C. A. B. 'O social tem dono': comunidades emocionais e as resistências negras no Samba 'Identidade' de Jorge Aragão. Artigo (Curso de Especialização para Educação das Relações Étnico-raciais) - Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande, 2018.

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