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MENINAS NA INDÚSTRIA E NA CIÊNCIA:RELATOS DE PROJETOS INTEGRADORES PARA MENINAS DE UM CURSO INTEGRADO DE UMA ESCOLA TÉCNICA FEDERAL DO RJ

Suelen Pestana Cardoso

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
20/01/2025
Linha de pesquisa
Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## MENINAS NA INDÚSTRIA E NA CIÊNCIA:RELATOS DE PROJETOS INTEGRADORES PARA MENINAS DE UM CURSO INTEGRADO DE UMA ESCOLA TÉCNICA FEDERAL DO RJ

## SUELEN PESTANA CARDOSO 1

1 CEFET/RJ Uned Itaguaí/suelen.cardoso@cefet-rj.br

## Resumo

O presente trabalho é fruto de uma iniciativa da autora que envolve um conjunto de ações ligadas ao Ensino de Física e à Educação em Direitos Humanos, desenvolvidas em uma escola técnica federal da Baixada Fluminense, na qual a docente leciona disciplinas de Física para turmas de ensino médio integrado e turmas de Bacharelado em Engenharia. As mulheres na ciência e na tecnologia desempenham um papel fundamental na construção de uma sociedade plural e equitativa. Porém, a História nos revela que, durante muito tempo, as mulheres foram impedidas de participar da produção científica, assim como de ingressarem em instituições de ensino e em diferentes setores do mercado de trabalho. Diante desse panorama histórico, buscou-se entender como se dá a participação feminina atualmente numa escola técnica federal. O número de meninas matriculadas num curso integrado em Mecânica Industrial da escola técnica federal alvo da pesquisa ficou em torno de 30% do número total de matrículas nos últimos 5 anos, conforme dados apresentados na Plataforma Nilo Peçanha. A autora observou, ao longo de quase 10 anos de atuação na referida escola, que muitas alunas relatavam preconceito de familiares e amigos por conta da escolha do curso integrado, por tratar-se de uma área considerada tradicionalmente masculina. Em face desta realidade, foram desenvolvidos, na instituição pesquisada, dois projetos integradores com o objetivo de incentivar e aumentar a participação e permanência feminina em áreas consideradas tradicionalmente masculinas.

Palavras-chave : Educação em Direitos Humanos; Educação Profissional e Tecnológica, Mulheres na Ciência e na Tecnologia.

## Introdução

As mulheres na ciência e na tecnologia desempenham um papel fundamental na construção de uma sociedade plural e equitativa. A presença das mulheres traz perspectivas únicas e promove a diversidade de ideias, o que é fundamental para incentivar mais mulheres em carreiras desses ramos.

A história das mulheres na ciência é marcada pela desigualdade de gênero. O direito à educação científica para as mulheres nem sempre lhes foi permitido. No caso do Brasil, durante um longo período histórico, as mulheres foram proibidas de obterem educação acadêmica e científica e ainda vemos o reflexo dessa proibição nas estatísticas atuais (Guanini et al., 2022).

O número de meninas matriculadas num curso integrado em Mecânica Industrial de uma escola técnica federal na Baixada Fluminense ficou em torno de 30% do número total de matrículas nos últimos 5 anos, conforme dados apresentados na Plataforma Nilo Peçanha.

Como docente de Física que atua no referido curso há quase 10 anos, foi possível observar que muitas alunas relatavam preconceito de familiares e amigos por conta da escolha do curso integrado em Mecânica Industrial, por tratar-se de uma área

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

considerada, por parte da sociedade, como tradicionalmente masculina. Vivenciar esse tipo de discriminação por parte dos seus familiares e amigos gerava, segundo algumas alunas, sentimento de insegurança, medo e até mesmo vergonha por terem escolhido seguir seus estudos naquela área.

Entendemos situações desta natureza como reflexo de uma associação, enraizada na nossa sociedade, de uma série de dualismos ao sexo masculino e ao feminino, indexando a ideia de que certas qualidades são características próprias de um homem, ao passo que sua antítese é típica de uma mulher. De acordo com Silva e Ribeiro (2014, p. 457):

Discutir os espaços sociais que os sujeitos devem e podem ocupar de acordo com o seu sexo, é resultado de uma visão dicotômica naturalizada, que rotula razão, objetividade, raciocínio lógico como 'masculinos', e sentimento, subjetividade, doação, cuidado como 'femininos', e que, portanto, estão subjacentes à exclusão das mulheres de determinadas áreas científicas, tais como a Física e a Engenharia. Na hierarquização das áreas do conhecimento, o bacharelado em Física é representado como uma área mais complexa e difícil do que a licenciatura, por exigir do(a) aluno(a) mais habilidades e conhecimentos em Matemática. Portanto, é mais lógico que a mulher faça licenciatura, invista na docência, uma profissão que mais se relaciona com as características e habilidades femininas.

Muitas vezes a cultura e tradição familiar desestimula meninas a seguirem na carreira científica (Avolio et al, 2020), e nesse sentido, as escolas têm o poder de quebrar esse paradigma, mostrando as diferentes possibilidades de profissões em diferentes áreas. Consideramos que é papel da escola, enquanto ambiente formador de cidadãos, a realização da discussão de gênero, buscando desconstruir os papeis tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres, inclusive no mercado de trabalho.

A ONU (Organização das Nações Unidas) considera a igualdade de gênero uma prioridade global e está comprometida com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um conjunto de metas e ações estratégicas para a promoção do desenvolvimento social, econômico e ambiental.

O ODS 5 busca alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. No Brasil, esta meta foi pensada como: eliminar todas as formas de discriminação de gênero, nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as meninas e mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas (IPEA, 2019).

Com o objetivo de incentivar e aumentar a participação e permanência feminina em áreas consideradas tradicionalmente masculinas, como Engenharias e Ciências Exatas e da Terra, foram desenvolvidos dois projetos integradores com alunas de um curso integrado de Mecânica Industrial, ao longo dos anos de 2023 e de 2024.

Os projetos foram organizados e coordenados pela autora deste texto e contaram com participações pontuais de outros professores que atuam no curso integrado.

A seguir será apresentada uma síntese do referencial teórico utilizado pela autora na elaboração e organização dos projetos integradores.

## Fundamentação Teórica

A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) é definida na Lei de Diretrizes e Bases-LDB (Lei n.º9394/ 96), atualizada pela Lei nº 11.741/2008, no artigo 39, da seguinte forma: 'A educação profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos

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da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia'. Por essa lei, a EPT é uma modalidade de educação que abrange os seguintes cursos:

- (1) formação inicial e continuada ou qualificação profissional;
- (2) educação profissional técnica de nível médio;
- (3) educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação (parágrafo 2º,incisos I, II e III).

Ainda em relação à EPT, foi incluída no capítulo II da LDB, na seção IV, relativa ao ensino médio, uma nova seção denominada 'Da Educação Profissional Técnica de Nível Médio', com regulamentações próprias sobre a oferta dessa modalidade, articulada ao nível médio de ensino em suas formas integrada-Ensino Médio Integrado (EMI), concomitante, ou de forma subsequente ao mesmo.

- O 'Documento Base' /MEC/SETEC (2007, p. 41-52) apresenta como princípios do EMI: o trabalho como princípio educativo; a formação humana integral; o trabalho, a ciência, a tecnologia e a cultura como categorias indissociáveis da vida humana; a pesquisa como princípio educativo e a relação parte-totalidade na proposta curricular.

De acordo com as informações contidas na página oficial da instituição, o curso Técnico em Mecânica Industrial Integrado ao Médio possui, como objetivo geral, a formação integral de técnicos em Mecânica de nível médio, conjugando não só os saberes, conhecimentos e capacidades necessários para a sua atuação no mundo do trabalho, como também os saberes, conhecimentos e capacidades de formação geral necessários para o desenvolvimento do indivíduo crítico e para o convívio em sociedade.

Para concretizar a formação integral, tão defendida no contexto do EMI, é preciso construir materiais e ampliar os espaços formativos da Educação em Direitos Humanos (EDH), efetivando na prática educacional o debate em torno de instrumentos jurídicos e instituições que constituem um Estado Democrático de Direito.

De acordo com Benevides (2003, p.309-310), a EDH:

É a formação de uma cultura de respeito à dignidade humana através da promoção e da vivência dos valores da liberdade, da justiça, da igualdade, da solidariedade, da cooperação, da tolerância e da paz. Isso significa criar, influenciar, compartilhar e consolidar mentalidades, costumes, atitudes, hábitos e comportamentos que decorrem, todos, daqueles valores essenciais citados - os quais devem se transformar em práticas.

Para além de favorecer a aquisição do conhecimento científico, aquele produzido pelas ciências dentro de uma determinada cultura, é papel da escola, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/1996), a formação do cidadão, que inclui o ensino de valores sociais que vão além dos conhecimentos científicos.

Ainda no âmbito de uma formação cidadã, Oliveira e Queiroz (2016) defendem a relação entre as áreas de Educação em Ciências e EDH por acreditarem profundamente que tal interação possibilita a criação de uma base ética para que, ao compreender os conteúdos de Ciências em seu contexto social, econômico e cultural, os estudantes consigam se posicionar como cidadãos.

A EDH refere-se à formação para a cidadania, a partir da vivência de valores como igualdade, respeito e justiça. Quando pensamos sobre educação e sua relação com questões de gênero vividas pelas mulheres, vemos que a EDH pode, por exemplo, favorecer o reconhecimento das violências individuais e coletivas que

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mulheres/meninas vivem, assim como o fortalecimento e o engajamento para transformação da realidade de homens e mulheres.

Quando pensamos em ações voltadas para uma formação para o mundo do trabalho, a abordagem dos direitos humanos trabalhistas no contexto da educação, e em especial, na EPT, não deve apegar-se à mera reprodução conceitual da constituição dos direitos. Faz-se necessário adotar uma prática educativa que estimule os alunos a compreenderem os Direitos Humanos em seu processo histórico, permitindo a assimilação crítica do processo de conquista dos direitos e promovendo, entre os alunos, uma reflexão crítica do sobre direitos humanos e direitos trabalhistas.

Ainda pensando no incentivo à participação de mulheres em profissões tradicionalmente masculinas, num contexto de discussão sobre relações de gênero no meio científico, acreditamos que a História da Ciência pode ser utilizada para destacar e reconhecer a contribuição e o papel expressivo da mulher na Ciência. Lino e Mayorga (2016) apontam que um combinado entre ausência e invisibilidade da mulher no campo científico tem atuado como dispositivo de poder que reitera a ciência como um campo masculino.

A concretização da integração curricular demanda uma mudança de postura tanto dos professores quanto dos alunos. É necessário o rompimento com o modelo hierárquico do conhecimento, em que algumas disciplinas são menosprezadas, como as de cunho técnico, por exemplo, por serem associadas, de forma discriminatória, ao trabalho manual. É indispensável, todavia, a predisposição dos sujeitos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem para a superação da fragmentação dos conhecimentos, mobilizando esforços para o desenvolvimento de inter-relações entre as áreas, de modo que se construa, nas práticas educativas, um entendimento global e complexo do conhecimento (MACHADO,2009).

A efetivação do currículo integrado no ambiente escolar, sobretudo na EPT, é primordial, mas, ao mesmo tempo, também é desafiadora, uma vez que as práticas curriculares fragmentadas ainda estão enraizadas na cultura escolar e a sua superação não é uma tarefa simples. Nesse sentido, há algumas alternativas para potencializar a inserção do currículo integrado e, dentre elas, temos o Projeto Integrador (PI).

Moura (2007) aponta os PIs como alternativas para promover a interdisciplinaridade, a articulação e o inter-relacionamento dos conhecimentos de diversas disciplinas. Para o autor, esses projetos devem colaborar para a construção da autonomia intelectual dos alunos por meio da pesquisa e para o desenvolvimento de atitudes de cidadania, solidariedade e responsabilidade social. O autor discute que os PIs devem estar articulados e contextualizados com as realidades locais e regionais, otimizando o uso das tecnologias com responsabilidade social.

Consideramos fundamental que as instituições que ofertam cursos de EPT estejam engajadas na construção de um perfil de egresso para além das questões técnico-operacionais, abrangendo as diversas dimensões da formação humana que tem como eixo estruturante o trabalho, ciência, cultura e tecnologia. Sendo assim, a seleção das temáticas referentes aos projetos integradores deverá levar em conta o perfil profissional do egresso, o que se deseja que o aluno aprenda e desenvolva ao concluir o curso técnico integrado.

Neste trabalho, consideramos que um PI que apresenta uma proposta de ação no contexto social e das organizações deve responder a problemas reais que pertençam à realidade dos estudantes, a fim de que eles possam assumir no PI um papel de protagonismo no processo de aprendizagem. É interessante que o PI se apresente como uma experiência que deve resultar em aprendizagens significativas

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para os alunos, além de ganhos culturais e sociais para os beneficiados por essas ações.

Acreditamos que ao participarem de projetos integradores, discentes e docentes desenvolvem aprendizagens contextualizadas, na busca por soluções às problemáticas propostas, atribuindo mais sentido ao currículo.

Destaca-se que as ações desenvolvidas nos projetos integradores, cuja descrição será apresentada na próxima seção, foram baseadas nos Três Princípios da EDH (CANDAU, 2005): o desenvolvimento de processos orientados à formação de sujeitos de direito e atores sociais; a promoção do empoderamento individual e coletivo, especialmente dos grupos sociais discriminados e uma educação para o 'nunca mais'.

## Metodologia

- A seguir apresentaremos a metodologia utilizada nos dois projetos integradores que foram desenvolvidos na instituição de ensino pesquisada, sob a coordenação da autora deste texto
- O primeiro projeto integrador, denominado 'Meninas na indústria', foi elaborado com o objetivo de incentivar e aumentar a participação e permanência feminina em áreas consideradas tradicionalmente masculinas, como a área de Processos Industriais.
- Apresentaremos, a seguir, uma breve descrição de como foram desenvolvidas as 4 ações do projeto integrador 'Meninas na indústria':

I)Roda de conversas com as alunas do curso integrado;

Foi desenvolvida uma roda de conversas, com gravação em áudio, que contou com a participação das alunas do curso integrado;

- II)Palestra, dada por representantes de uma empresa parceira (área industrial) da escola, sobre a participação feminina na indústria;

A palestra teve como objetivo a divulgação de informações sobre ações da

empresa para a equidade de gênero dentre seus funcionários.

III)Roda de conversa com alunas do curso integrado que pretendem seguir carreira na área tecnológica;

Foi desenvolvida uma roda de conversas que contou com a participação das alunas do curso integrado que pretendem ingressar no ensino superior em cursos da área tecnológica.

IV)Roda de conversas, com gravação em áudio, entre alunas do curso integrado que pretendem seguir carreira na área tecnológica e alunas do curso de engenharia (Mecânica ou Produção) que já atuam na área industrial.

Durante a realização das ações do projeto integrador 'Meninas na indústria', a professora coordenadora desse projeto foi procurada por um grupo de meninas, alunas do curso integrado em Mecânica, que a questionaram sobre a possibilidade da realização de um projeto semelhante, porém voltado para a área de Ciências.

Diante dessa demanda, surgiu, sob a coordenação da professora de Física atuante na unidade escolar, com contribuições de outras professoras da área de Ciências, o segundo projeto integrador, denominado 'Meninas na Ciência'.

As ações realizadas no projeto integrador 'Meninas na Ciência' foram planejadas com o objetivo de aumentar a igualdade de gênero no mundo científico.

A seguir apresentaremos uma breve descrição de como foram desenvolvidas as 6 ações do projeto integrador 'Meninas na Ciência'.

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I)Criação de um grupo de estudos 'Meninas na Ciência' com 5 alunas do curso integrado ;

II)Incentivo e apoio à participação de meninas do curso integrado em olimpíadas cientificas nacionais;

III)Exibição e discussão sobre o filme Radioactive (Radioactive, Reino Unido, 2019).A sessão foi aberta a todos os alunos e docentes do curso integrado;

IV)Visita técnica ao Museu da Vida (Fundação Osvaldo Cruz),aberta a todos os alunos do primeiro ano do curso integrado no ano de 2023;

V)Realização de um seminário aberto a todas as alunas do curso integrado, organizado pelas alunas participantes do grupo de estudos 'Meninas na ciência' com o objetivo de apresentar a vida e obra de mulheres que contribuíram para a Ciência no Brasil e no mundo;

VI)Reuniões com as alunas do grupo de estudos 'Meninas na Ciência' para leitura e discussão de artigos científicos que abordem a temática sobre a participação feminina na Ciência.

Para avaliar as atividades desenvolvidas nos projetos, foi aplicado um questionário composto por 4 perguntas abertas, para alunas do curso integrado que participaram de pelo menos uma das ações listadas acima de forma que elas tinham que apontar, de forma voluntária, os pontos positivos e negativos das ações dos projetos.

## Resultados

Os projetos contaram com a participação voluntária de 40 meninas em pelo menos uma das ações desenvolvidas, o que representa cerca de 60 % do total de meninas matriculadas no curso integrado no período da aplicação da pesquisa.

Com relação a alguns resultados obtidos a partir das ações realizadas no projeto 'Meninas na indústria', destacamos alguns dados obtidos, que ilustram falas das alunas durante as rodas de conversa:

I)A transcrição de áudios gravados durante a realização das rodas de conversa permitiu o levantamento e registro de alguns dos medos e desafios mais recorrentes enfrentados pelas alunas participantes, 'tenho medo de sofrer assédio no trabalho por ser mulher', 'eu acho que nunca serei chefe de uma equipe que tenha muitos homens', 'queria muito ser engenheira mas acho que não é uma profissão boa pra mulher', 'eu já fui questionada sobre a minha sexualidade porque eu gosto de matemática', 'acho um absurdo uma mulher ganhar menos só porque é mulher', 'tenho medo de trabalhar numa equipe da fábrica que só tenha homem, mas acho que as coisas só vão mudar quando as mulheres ocuparem as fábricas e lutarem pelos nossos direitos', 'não adianta reclamar pelos nossos direitos e continuar longe das fábricas....assim nada vai mudar!'

Como pontos positivos apontados pelas 25 alunas (cerca de 63% do total das participantes nos projetos) que responderam ao questionário de avaliação, podemos destacar entre as respostas mais recorrentes verificadas: abertura de espaço para discussões sobre medos e desafios sobre profissões e mercado de trabalho(80% de recorrência) e oportunidade de conhecer a história de mulheres que contribuíram para o desenvolvimento científico (40%).

Como pontos negativos apontados pelas 25 alunas, podemos destacar como resultados mais recorrentes verificados: baixa adesão das alunas (60% de recorrência) e baixo número de ações dos projetos (40%).

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Destacamos a ocorrência de relatos trazidos, à coordenação dos projetos, por algumas alunas que afirmam terem ouvido falas preconceituosas de alunos (do sexo masculino) do curso integrado e até mesmo de um professor quanto ao desenvolvimento de algumas ações dos projetos voltadas exclusivamente para meninas. Foi sugerido às alunas a realização de uma denúncia sobre o ocorrido no setor de Ouvidoria da instituição.

## Considerações finais

É fundamental e urgente a promoção de mudanças para superar a exclusão das mulheres em diferentes espaços de poder, e isso envolve a abordagem de questões de gênero em sala de aula na educação básica, a formação adequada de professores e o incentivo à participação de mulheres em diferentes profissões e setores do mercado de trabalho .Para que novas meninas tenham interesse no ramo científico e tecnológico, novas estratégias precisam ser desenvolvidas, buscando desconstruir os papeis tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres, ofertando aulas que valorizem diferentes habilidades das mulheres, estimulando-as a praticar todas as carreiras e profissões. O desenvolvimento dos PIs, com o objetivo de incentivar e aumentar a participação e permanência feminina em áreas consideradas tradicionalmente masculinas, nos mostrou que alunas de um curso integrado em Mecânica Industrial têm interesse e curiosidades sobre o universo de profissões consideradas tradicionalmente masculinas, como Física e Engenharias, porém o medo, as incertezas e o preconceito, muitas vezes, as impedem de escolher uma carreira nessas áreas.

Em suma, consideramos que o desenvolvimento dos projetos contribuiu, até o momento, para a construção dentro da escola de um espaço que permite a problematização das relações entre mulheres e ciência e das relações entre mulheres e mercado de trabalho. Consideramos ainda que as ações desenvolvidas contribuíram para o alcance do objetivo apresentado à medida que despertaram em algumas alunas o sentimento de que a redução dos preconceitos e da violência contra a mulher na Ciência e no mercado de trabalho depende de uma participação mais ativa e militante das mulheres em defesa de seus direitos nestes espaços. Os projetos são um passo inicial, ainda que bem pequeno, porém fundamental para a construção e promoção de uma educação não sexista e de um mercado de trabalho, no ramo científico e tecnológico, mais inclusivo.

## Referências

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LINO, T. R.; MAYORGA, C. As mulheres como sujeitos da Ciência: uma análise da participação das mulheres na Ciência Moderna. Saúde & Transformação Social / Health & Social Change, v. 7, n. 3, p. 96-107, 30 set. 2016.

MACHADO, L. R. de S. Ensino Médio e técnico com currículos integrados: propostas de ação didática para uma relação não fantasiosa. In: MOLL, Jaqueline et al. (org.). Educação profissional e tecnológica no Brasil contemporâneo: desafios, tensões e possibilidades. 1. ed. Porto Alegre, RS: Artmed Editora, 2009.

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GUANINI, A. et al. A MULHER NA CIÊNCIA: UM BREVE HISTÓRICO E REFLEXÕES SOBRE POLÍTICAS E AMBIENTE LABORAL. Revista Vitruvian Cogitationes, v. 3, n. 2, p. 81-94, 30 nov. 2022.

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