CRÍTICA À TEORIA DE MODELOS PARA O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO A PARTIR DO MATERIALISMO HISTÓRICO
Victória Guimarães Portella, Marcos Moraes Calazans
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 20/01/2025
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Ciência No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## CRÍTICA À TEORIA DE MODELOS PARA O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO A PARTIR DO MATERIALISMO HISTÓRICO
Victória Guimarães Portella¹, Marcos Moraes Calazans²
¹Universidade Federal de Ouro Preto, guimaraesvictoria37@gmail.com ²Universidade Federal de Ouro Preto, calazans@ufop.edu.br
## Resumo
O presente trabalho traz uma reflexão crítica, a partir da concepção do materialismo histórico e dialético, sobre a teoria de modelos para o desenvolvimento do conhecimento científico. É discutido o problema da verdade relativa e absoluta presentes na historiografia da ciência. Em que pese as críticas ao relativismo epistemológico presente em algumas tendências historiográficas, como é o caso daquela feita pela tradição contextualista às abordagens construtivistas, os problemas derivados da visão relativista não são superados em virtude das concepções teórico-filosóficas assumidas com a adoção da concepção de modelos na ciência. A adoção acrítica da concepção de modelos conduz à negação da noção de verdade, o que resulta em cair em armadilhas epistemológicas relativistas que cumprem um papel negativo com relação ao conhecimento conduzindo ao irracionalismo contemporâneo. A discussão e a crítica ao relativismo epistemológico se dão com base no materialismo dialético que reconhece uma perpétua evolução e superação dos limites do conhecimento. Além disso, acredita-se que a discussão apresentada aqui possa auxiliar professores e pesquisadores acerca das questões epistemológicas e ontológicas e da natureza do conhecimento científico.
Palavras-chave : História da Ciência, Modelos, Materialismo Histórico.
## Introdução
A historiografia contemporânea se caracteriza por apresentar uma pluralidade de abordagens para a História e Filosofia da Ciência (COLTURATO e MASSI, 2019). Cada tradição historiográfica atribui um determinado valor e significado ao problema do conhecimento e das teorias científicas assumindo com eles determinados compromissos epistemológicos e ontológicos. Questões filosóficas controversas como a do relativismo epistemológico, sobre o papel das teorias e do método científico emergem e assumem menor ou maior importância a partir desses compromissos assumidos pelas diferentes tradições historiográficas.
Na tradição contextualista na História da Ciência ganhou relevo a preocupação com os problemas relacionados ao relativismo epistemológico presente nas abordagens construtivistas (MATTHEWS, 1994; PIETROCOLA, 2016). Segundo Pietrocola (2016) ao sobrevalorizar a dimensão individual na produção do conhecimento o construtivismo acabava por desvalorizar o domínio ontológico resultando na visão que nega a existência de um mundo exterior acessível direta ou indiretamente ao homem. De outro lado, a tradição culturalista (MOURA e GUERRA, 2022) na História da Ciência radicaliza ainda mais as posições construtivistas aprofundando os problemas derivados do relativismo epistemológico.
No presente trabalho é feita uma reflexão crítica, a partir da concepção do materialismo histórico e dialético, sobre a teoria de modelos para o desenvolvimento científico. Argumenta-se que, em que pese a crítica às manifestações mais ostensivas do relativismo realizadas pelas tradições historiográficas mais utilizadas, os problemas
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
derivados da visão relativista não são superados em virtude das concepções teóricofilosóficas assumidas com a adoção da concepção de modelos na ciência.
- O presente trabalho buscou discutir o relativismo epistemológico presente na concepção de modelos a partir do debate sobre o problema da verdade relativa e absoluta presentes no referencial do materialismo dialético. A discussão se dá a partir da defesa do caráter objetivo do conhecimento e de sua natureza aproximativa, ou seja, que o materialismo dialético admite certo relativismo ao reconhecer uma perpétua evolução e superação dos limites do conhecimento. Uma vez que a concepção materialista histórica não trata a verdade absoluta e a verdade relativa de forma separada, elas estão presentes nas etapas do desenvolvimento do conhecimento, que caminha para uma aproximação da verdade absoluta.
Portanto, argumenta-se que a superação, por meio do materialismo dialético, dos problemas do relativismo epistemológico que permeiam a teoria de modelos são importantes para evitar quaisquer distorções de realidade e aprofundar o conhecimento da natureza da ciência. Os resultados da pesquisa contribuem para elevar a consciência de pesquisadores e professores de ciências acerca das questões epistemológicas e ontológicas e da natureza do conhecimento científico.
## Historiografia e relativismo epistemológico na História da Ciência
Na abordagem contextualista (MATTHEWS, 1995), argumenta-se em defesa de uma história da ciência que levasse em conta não apenas os conteúdos curriculares, mas aspectos éticos, históricos, filosóficos, políticos e culturais. Além disso, nesta concepção, o ensino deve ser não somente de ciências, mas também sobre ciências, pautado por reflexões sobre a Natureza da Ciências (NdC) (MOURA, 2014 e MATTHEWS, 1995). Para Moura, a natureza da ciência é 'um conjunto de elementos que tratam da construção, estabelecimento e organização do conhecimento científico' (2014, p. 32). Trata-se de um conjunto de asserções que versam sobre o que é o conhecimento científico propriamente dito, ou seja, um conjunto de parâmetros que definem os compromissos epistemológicos e ontológicos da tradição contextualista. Há, contudo, nesta tradição uma dificuldade em se definir o que se entende por Natureza da Ciência, se uma com tendências mais universalistas ou outra mais relativista (ASSIS, 2014). Embora faça uma crítica ao relativismo extremo da epistemologia construtivista, a tradição contextualista enfrenta fortes dificuldades em superá-lo.
A tradição historiográfica História Cultural da Ciência (HCC) tem o foco em analisar historicamente os aspectos culturais e materiais do desenvolvimento científico (KLEIN, 2003 apud MOURA e GUERRA, 2016). A História Cultural da Ciência se opõe ao caráter objetivo do conhecimento, à noção dos conceitos da ciência como universais e rejeita a ideia de uma cultura humana universal, ou seja, há uma recusa em buscar 'visões gerais para explicar determinados fenômenos' (MOURA e GUERRA, 2016, p.737). A HCC se preocupa com a forma como as ideias dos cientistas são disseminadas, como se davam as relações sociais da época e qual papel elas desempenham na construção do conhecimento científico (MOURA e GUERRA, 2016). A HCC aprofunda o relativismo epistemológico presente na tradição do contextualismo.
## Modelos, relativismo epistemológico e o problema da verdade
A noção epistemológica dos modelos na ciência tem sido amplamente utilizada na história da ciência e no ensino (PIETROCOLA, 2003; KRAPAS et al. 2016, BATISTA
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et al. 2011). Segundo Morgan e Morrison (1999), os modelos utilizam de conceitos já conhecidos pelos cientistas para caracterizar ideias fundamentais das teorias. Os modelos possuem um caráter representacional e podem promover aproximação entre as teorias científicas e o mundo, são considerados a representação de uma ideia, objeto ou sistema criado com intuito específico (MORGAN e MORRISON, 1999; JUSTI, 2006 apud BATISTA et al. 2011).
No sentido epistemológico, Silva e Catelli (2019) definem que modelos são formas concretas ou abstratas de representar aspectos da realidade ou do fenômeno. Os autores argumentam que os modelos são apenas representações da realidade e não a própria. Apesar de muitos professores e estudantes considerarem os modelos de maneira mecânica, como uma representação real e fiel de fenômenos e ideias abstratas, eles são na verdade tentativas de explicações para fenômenos abstratos (TREAGUST e HARRISON, 2000).
Bunge argumenta que os modelos são utilizados como mediadores entre a teoria e os dados empíricos, visto que as teorias sozinhas são apenas abstrações produzidas pela razão que não se aplicam à realidade enquanto os dados empíricos não fazem parte de sistemas lógicos e nem geram conhecimento, mesmo que tenha proximidade com a realidade (PIETROCOLA, 2016). Mario Bunge apresenta o conceito dos objetomodelos, que são construídos pelos sujeitos e são uma representação parcial e aproximada do objeto real. Dessa forma, os conhecimentos científicos produzidos não são diretamente sobre o objeto real em si, mas sim sobre contrapartes conceituais dele (MACHADO e BRAGA, 2019). Por se afastarem dos objetos reais, os objetosmodelo não são um retrato fiel da realidade. Essa noção de objeto-modelo argumenta para importância das abstrações e idealizações no processo de construção do conhecimento científico. Como é impossível captar tudo sobre o objeto real, os objetos-modelo se tornam necessários para o estudo da realidade objetiva (MACHADO e BRAGA, 2019).
Para Poincaré, Duhem e Le Roy, filósofos do convencionalismo francês, existe uma indeterminação entre experiência e teoria, o que permite a criação de convenções e hipóteses para a ciência (PHILOT, 2015). O resultado disso é uma pluralidade de teorias, que não são ditas pelos autores como verdadeiras ou falsas, mas sim, convenientes ou inconvenientes. Para definir se a teoria é conveniente ou inconveniente, o convencionalismo francês utiliza da razão e experiência. Caso houvesse mais de uma teoria considerada conveniente, os três autores propuseram a análise de critérios epistêmicos para resolver qual seria a melhor teoria (PHILOT, 2015). Esses critérios, que são, por exemplo, a simplicidade das convenções e a fecundidade das hipóteses, podem ser definidos de diversas formas. É possível perceber isso, também, na concepção da verdade para o convencionalismo, que defende que a veracidade das teorias científicas advém de acordos ou entendimentos dos cientistas (PHILOT, 2015).
No que tange a Natureza da Ciência, Peduzzi e Raicik (2020) trazem dezoito asserções acerca de seus aspectos visando contribuir para o debate do tema. Apesar de apresentarem críticas ao relativismo presente nessa concepção, os autores não conseguem superar o relativismo que criticam em decorrência de partirem da mesma concepção teórico-filosófica que o sustenta. Os autores argumentam que as teorias científicas não são irrevogáveis e são mutáveis com o passar do tempo. Nesse sentido, natureza possui muito a ser descoberto e isso aumenta à medida que o conhecimento progride, por isso, é defendido que as teorias teriam um caráter
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provisório e que tudo não passaria de 'uma trama de suposições' (POPPER, 2014, p. 23-24 apud PEDUZZI e RAICIK, 2020). Rebaixar o conhecimento científico a uma mera trama de suposições atribuindo-lhe uma natureza passageira e efêmera é uma postura do relativismo epistemológico comum às concepções pós-modernistas que conferem à razão a fluidez da intuição e das opiniões. As tendências irracionalistas rejeitam a estabilidade do conhecimento científico e sua objetividade.
## A dialética do relativo e absoluto na teoria do conhecimento marxista
Na perspectiva do materialismo histórico-dialético o problema do conhecimento está pautado na dialética entre o relativo e absoluto e entre a verdade e o erro. Isso significa que verdade e erro são uma unidade de contrários, estão em contradição e, portanto, não são mutuamente excludentes. Todas as doutrinas metafísicas, com seus sistemas de conhecimento que abarcam todo o saber como uma espécie de revelação, se apresentam como verdades eternas, absolutas e definitivas (LEFEBVRE, 1991). Todas as doutrinas metafísicas, com seus sistemas de conhecimento que abarcam todo o saber como uma espécie de revelação, se apresentam como verdades eternas, absolutas e definitivas (LEFEBVRE, 1991). Deste ponto de vista, verdade e erro se excluem mutuamente de modo que uma afirmação é inteiramente verdadeira ou inteiramente falsa. 'A verdade se afirma logicamente como estando situada fora e acima de qualquer erro, como algo puro de qualquer sujeira de erro. Verdade e erro estão absolutamente fora um do outro' (LEFEBVRE, 1991, p. 91). Do ponto de vista dialético, verdade e erro não são determinações isoladas. Existe verdade e erro em toda afirmação, em toda teoria ou hipótese. 'Um erro pode ser uma verdade parcial, o aspecto de uma verdade ou uma verdade levada além dos limites nos quais é verdadeira' (LEFEBVRE, 1991, p. 95). O mesmo ocorre com a relação entre o relativo e o absoluto. O pensamento não-dialético pende ora para o dogmatismo e suas verdades absolutas ora para a negação completa dessa verdade recaindo no ceticismo do relativismo pós-moderno.
De outro lado, o 'relativismo dialético admite a relatividade de nossos conhecimentos, não no sentido de uma negação da verdade objetiva, mas no sentido de uma perpétua superação dos limites de nosso conhecimento' (LEFEBVRE, 1991, p. 98). Lefebvre (1991) argumenta que uma teoria transitória não é eliminada pelo desenvolvimento de uma que a supere, mas sim, é conservada como parte de uma verdade absoluta referente àquele conhecimento. Como é o caso da teoria da relatividade de Einstein que não suprime a teoria de Newton, mas sim a completa 'além de certos limites' (LEFEBVRE, 1991, p. 98). Dessa forma, entende-se que a verdade absoluta existe para um determinado domínio, como é o caso das Leis de Newton para o espaço e gravitação. A relatividade de Einstein é uma nova etapa do conhecimento, tida como uma parte da verdade, válida para um outro contexto em que a teoria newtoniana não consegue atingir. Assim, essas verdades alcançadas são, cada uma delas, relativas e o conjunto delas faz parte do conhecimento absoluto (LEFEBVRE, 1991).
Na concepção do materialismo dialético não existe uma separação rígida entre a verdade absoluta e a verdade relativa. A cada etapa do desenvolvimento do conhecimento se agrega novos 'grãos' (verdades relativas), que, no conjunto, conformam uma verdade absoluta. A verdade absoluta é o limite para o qual nosso conhecimento tende à medida em que nos aproximamos do objeto. Portanto, não há a negação da verdade objetiva, porém é reconhecido que exista uma relatividade do
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nosso conhecimento, o que leva a uma perpétua superação dos seus limites (LEFEBVRE, 1991).
Neste sentido, a noção epistemológica de modelos estaria associada a uma posição relativista extrema na ciência. Tal posição defende que o conhecimento está definido por um referencial espacial e temporal determinado por um sujeito que visa descobrir fenômenos naturais e sociais (DUARTE, 2010). A partir dessa visão, portanto, a objetividade e universalidade do conhecimento científico estariam comprometidas, pois são concebidas a partir de particularidades do ponto de referência do sujeito não sendo possível serem definidas para além de tais pormenores (DUARTE, 2010).
A HCC partindo da ideia de que todo conhecimento é oriundo de práticas e agentes sociais, entende que essas relações sociais dão origem à diversas epistemologias. Além de produzir e reproduzir conhecimento, que existe em um contexto que é tanto cultural quanto político (MOURA e GUERRA, 2022 apud SANTOS E MENEZES, 2009). A ciência é considerada pelos autores um exemplo dessas epistemologias, que está contida em um contexto 'mundo moderno cristão e ocidental' (MOURA e GUERRA, 2022, p. 6). Ao atribuir a universalidade da ciência a fatores como a colonização e o capitalismo, Guerra e Moura (2022) apresentam um relativismo epistemológico em sua argumentação.
Para solucionar os problemas de relatividade advindos do construtivismo, Pietrocola (2016, p.221) propõe uma reformulação da concepção construtivista 'atribuindo-lhe uma dimensão ontológica realista' aliada à teoria de modelos proposta por Bunge. Entretanto, em que pese a tentativa, o autor não consegue superar esse relativismo pois a forma proposta de se conhecer a realidade já pressupõe 'a impossibilidade de atingirmos soluções definitivas sobre a realidade do mundo" (PIETROCOLA, 2016, p. 221). Dessa forma, a realidade, através da ciência, seria entendida como uma das formas de ver e entender o mundo. Além disso, a própria teoria de modelos apresenta relativismos. Uma vez que é defendida a impossibilidade de captar tudo sobre o objeto real e os conhecimentos científicos produzidos não são diretamente sobre o objeto real em si, mas sim sobre contrapartes conceituais dele (MACHADO e BRAGA, 2019).
Ainda sobre o relativismo epistemológico, existe a defesa de que o pensar e o objeto tratam-se de esferas separadas. Isto é, o pensamento não ultrapassa a si mesmo, portanto, ele não consegue '[...] sair de si em direção ao objeto: este permanece, enquanto uma coisa em si, pura e simplesmente um além do pensar.' (HEGEL, 2016, p. 49). Dessa forma, o conhecimento do objeto é condicionado ao pensamento de um sujeito, assim, não se conhece plenamente o objeto, mas sim, o que é pensado sobre esse objeto (HEGEL, 2016).
Rubinstein (1963) critica o relativismo presente na discussão da relação entre objeto e imagem. Para a filosofia moderna que sofre o influxo do pensamento kantiano é estabelecida uma separação rígida entre imagem e objeto. A primeira existe na consciência humana sem qualquer relação com o segundo, que se encontra no mundo material. A concepção que defende essa ideia é chamada de realismo representativo, pautado na ideia de que 'tais imagens subjetivas, ideias, 'representam' as coisas e 'correspondem' às coisas' (RUBINSTEIN, 1963, p. 29). Dessa forma, não é possível comprovar a correspondência entre a ideia e o objeto. Análogo a isso está a ideia de modelos, que são consideradas apenas representações dos objetos reais, pois há uma impossibilidade de se acessar a realidade objetiva e esses objetos-modelo seriam uma alternativa para a construção do conhecimento científico. No processo de construção do conhecimento, portanto, segundo esta visão, não é possível ir além das
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sensações e pensamentos. Não é possível 'chegar à esfera das coisas' (RUBINSTEIN, 1963, p. 29). Na concepção epistemológica aqui criticada, pensamentos, percepções e sensações são os objetos do conhecimento que existem e que são possíveis de se acessar.
Sobre essa questão, Rubinstein (1963) afirma que a imagem sem relação com o objeto, do qual ela é um reflexo, não existe. O que é percebido pelos indivíduos não são imagens que existem somente nas suas consciências. São, na verdade, os próprios objetos materiais na forma dessas imagens. Para superar essa quebra entre imagem e objeto, é introduzida a teoria materialista dialética do reflexo. Tal teoria defende que a imagem do objeto não é o próprio objeto, nem uma espécie de signo externamente definido dele, mas sim um reflexo desse objeto. Dessa forma, para o materialismo dialético a verdade é uma conformidade entre o pensar e o ser. Isso significa, segundo Rubinstein, que essa conformidade não é uma mera correspondência externa entre 'os membros de uma série de fenômenos e os da outra série' (1963, p. 32). As afirmações feitas no processo de produção do conhecimento são sobre o ser e não acerca dos pensamentos. Isso pois a verdade não é externa ao conhecimento, assim como, não é externa ao ser.
O conhecimento constitui a elucidação do ser por parte do sujeito, que existe, não porque pensa e entra em conhecimento das coisas, senão que, ao invés, pensa e entra em conhecimento das coisas porque existe. (RUBINSTEIN, 1963, p. 32).
Portanto, o conhecimento não é externo ao ser e o pensamento é um reflexo da existência do objeto. A verdade objetiva não é a própria realidade, mas sim, resultado do conhecimento dessa realidade pelo sujeito. Assim, os fenômenos psíquicos não são puramente subjetivos, eles surgem a partir das relações entre os sujeitos e o mundo material (RUBINSTEIN, 1963).
## Considerações finais
Neste trabalho apresentou-se uma discussão crítica sobre a noção epistemológica de modelos na ciência e o relativismo implicado nas diferentes tendências historiográficas na história da ciência. Argumentou-se que a noção de modelos científicos amplamente usada nas tendências historiográficas contextualista e culturalista contém uma concepção que nega a noção de verdade caindo em armadilhas epistemológicas relativistas que cumprem um papel negativo com relação ao conhecimento conduzindo ao irracionalismo contemporâneo. Visto isso, o trabalho defende a superação desse relativismo presente nas principais teorias científicas a partir do materialismo histórico.
Além disso, acredita-se que a discussão pode ser útil para o ensino em ciências a partir do uso da História da Ciência. Uma vez que pode ajudar a aprofundar o conhecimento dos professores acerca da historiografia da ciência, promovendo o uso do tema em sala de aula. A crítica ao relativismo epistemológico e à noção de modelos contribui para elevar a consciência de professores e pesquisadores sobre os limites e potencialidades das diferentes tradições historiográficas na História da Ciência.
## Referências
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