Ensino de física para alunos com deficiência visual: identificando problemas
Adriana Gomes Dickman, Amauri Carlos Ferreira, Kátia Cristina Da Silva
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 07/06/2011
- Linha de pesquisa
- Ensino / Aprendizagem / Avaliação Em Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA PARA ALUNOS COM DEFICIÊNCIA VISUAL: IDENTIFICANDO PROBLEMAS 1
## PHYSICS EDUCATION FOR BLIND STUDENTS: IDENTIFYING PROBLEMS
## Adriana Gomes Dickman 1 , Amauri Carlos Ferreira , Kátia Cristina da Silva 2 3
1 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática/adrianadickman@gmail.com
2 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática/mitolog@pucminas.br
3 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/Departamento de Física e Química/Licenciatura em Física/katiasilvacris@gmail.com
Palavras-chave: Ensino de física; deficientes visuais; representações e analogias.
## Introdução
O ensino de física para deficientes visuais ainda é um campo de pesquisa pouco explorado. As poucas iniciativas existentes dizem respeito a ensaios ou observações isoladas, faltando investigações sistemáticas e detalhadas sobre o assunto (COSTA, 2006). Assim, tendo como referência a experiência de professores e alunos, buscamos entender de que maneira o estudante cego compreende os conceitos físicos e de que forma ocorre a construção do conhecimento.
Assim, em um primeiro momento, identificamos os desafios e as perspectivas dos professores no processo de ensino-aprendizagem de Física a estudantes cegos (FERREIRA e DICKMAN, 2008). Utilizamos o método de história oral em sua vertente temática, entrevistando alunos cegos e professores que lecionam Física em escolas regulares. Nas memórias desses professores videntes de Física e de estudantes cegos do Ensino Médio constatamos equívocos que apontaram perspectivas para a prática docente. Na percepção de ambos, certos conteúdos podem ser aprendidos de forma mais eficaz se o professor modificar sua prática pedagógica, recorrendo à utilização de recursos didáticos que aproximem o estudante da realidade aprendida. As dificuldades encontradas por esses estudantes ocorrem geralmente naqueles conteúdos que se apóiam fortemente na visualização de fenômenos ou situações. Essas dificuldades são frequentemente contornadas pela experimentação, usada como uma maneira de introduzir um modelo da imagem relacionada com o assunto a ser estudado e práticas que levam ao entendimento deste conteúdo.
Na sala de aula, os recursos didáticos, que podem ser utilizados para auxiliar no processo de ensino e aprendizagem, intermedeiam a relação entre o professor e o aluno. O principal representante destes recursos é o livro de texto. No caso de estudantes cegos, o conteúdo do livro pode ser traduzido para o Braille. No entanto, uma indagação persiste: O que dizer das figuras nele contidas? Se a aula
parte da visualização das figuras e textos do livro didático, qual seria a maneira mais eficiente de descrevê-los para o aluno com deficiência visual aprender Física?
## Referencial Teórico
O campo de pesquisa sobre representações e analogias, por apresentar-se como objeto de orientações teóricas diversas, traz, para a investigação do Ensino de Ciências, em particular, no que se refere a representações de estudantes cegos, um problema: como conceituar o termo, e como compreender a sua aplicação. Neste sentido há vários estudos utilizando analogia, compreendida numa perspectiva familiar e de similaridades. Segundo CONTENÇAS (apud PERELMAN) ' o papel da analogia é esclarecer o tema pelo foro, explicando uma relação desconhecida através de outra mais familiar .'
Se há uma complexidade em compreender a representação ligada ao imaginário, é preciso compreender, primeiramente, como um estudante cego representa epistemologicamente o mundo que lhe é ensinado. Em geral, no ensino de ciências a aprendizagem por modelos tem sua legitimação em processos epistêmicos já reconhecidos. Isto pode levar a complexidades, pois o processo envolve uma representação que pode ser criada a partir de uma idéia similar. Tal perspectiva causa problemas para estudantes cegos, uma vez que não é possível copiar sem antes ter uma representação, logo não há possibilidade de refletir sobre uma idéia similar para realização da atividade de cópia. Se o modelo gera um problema epistêmico no ensino de física para cegos, resta a aprendizagem por analogias. Mas, em que sentido o uso de analogias pelo professor corresponderia ao mundo representado pelos cegos, em realidades similares? Este tem sido o desafio no ensino de física que está circunscrito na construção de analogias que possam satisfazer os mesmos princípios físicos, uma vez que a similaridade estrutural depende de um modelo que para os estudantes videntes é representado pelo livro didático e para o deficiente visual não existe tal representação.
## Metodologia
Motivados por essas indagações realizamos uma investigação (SILVA, DICKMAN e FERREIRA, 2011) que consiste na descrição de uma figura, extraída de um livro didático de física, por vários profissionais. A primeira descrição (A), feita pela Profissional Braillista, consiste da reprodução da figura em alto relevo. As outras descrições foram feitas por: (B) Professor que leciona em salas de aula inclusivas; (C) Professor que nunca lecionou para alunos com deficiência visual; (D) Aluno formando do curso de Física que nunca atuou como professor. A seguir citamos trechos das descrições feitas.
- (B) (...) nós temos uma mesa e essa mesa tem duas extremidades mais altas que eu vou colocar uma polia, ou seja, um disquinho onde eu vou passar uma corda e nessa corda está suspensa uma caixinha, que pode ser comparada com uma caixinha de leite, ou uma caixinha. E sobre a superfície superior dessa caixinha amarramos uma corda. (...) E o seguinte, tanto a massa C, a caixinha C e a caixinha A elas estão suspensas. Já a caixinha B está sobre a mesa. E tem duas balancinhas na extremidade da caixinha B que vai medir a tensão, (...).
- (C) A figura deste livro ela está mostrando que eu tenho uma mesa, e eu tenho três blocos. O bloco B está bem em cima da mesa e nesse bloco B tem uma corda que fica suspenso o bloco A, no lado esquerdo, e outra corda
que fica suspenso o bloco C, no lado direito. (...) A corda que segura eles está passando por uma roldana e (...), essas roldanas, há um dinamômetro no lado esquerdo que segura o bloco A, que está ligado ao bloco B e do lado direito, um outro dinamômetro que está sendo... preso ao bloco B e que nesse dinamômetro tem uma corda, onde estão segurando o bloco C. E aqui nessa figura a gente pode observar que entre o bloco B e a mesa há o atrito.
- (D) Tem uma mesa, em cada lado da mesa eu tenho uma roldana ligada a um bloco e cada um desses blocos tem uma massa diferente. No centro da mesa eu tenho outro bloco, acoplado a dois dinamômetros. E esses dinamômetros estão acoplados a essas roldanas na extremidade da mesa.
A análise destas descrições, feita pelo revisor do Núcleo de Assistência a Inclusão (NAI) da PUC Minas, que é deficiente visual, indica que uma descrição mais objetiva, evitando detalhes em excesso, é mais efetiva, facilitando a visualização da situação, uma vez que os dados da figura são memorizados. Segundo o revisor, a figura em alto relevo (descrição A) só é significativa se vier acompanhada por um texto. O revisor aponta que é necessário, que o profissional braillista conheça o aluno deficiente visual e seu histórico, a fim de julgar quais elementos são conhecidos e quais são desconhecidos, e a partir daí, estabelecer a descrição. Além disso, aponta como fator importante a utilização de analogias para que os conteúdos abstratos sejam melhores assimilados por esses alunos.
## Considerações Finais
Como a visão desempenha um papel importante na negociação de significados, torna-se imperativo a aplicação de recursos alternativos para aqueles que não podem submeter-se a essa experiência. A maneira pela qual estes recursos devem ser elaborados requer a melhoria de nossa compreensão do papel das representações e analogias na descrição das imagens no processo educacional. A construção de analogias para videntes se baseia na percepção de realidades similares. Este fato nos faz questionar o uso de analogias para estudantes cegos, uma vez que o mundo dos cegos é construído a partir de informações obtidas pelo tato e sons. Contudo, na pesquisa que estamos desenvolvendo, o processo de ensino-aprendizagem tem apontado para o uso de representações e analogias baseadas no mundo vivido do estudante.
Assim nesses estudos preliminares o que se tem percebido até o momento, é um processo de ensino e aprendizagem por meio de representações, que em muitos casos, não são análogas ao mundo vivido do estudante cego.
## Referências
CONTENÇAS, P. A Eficácia da Metáfora na produção da ciência: O caso da genética. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
COSTA, L.G., NEVES, M.C.D, BARONE, D.A.C. O ensino de Física para deficientes visuais a partir de uma perspectiva fenomenológica. Ciência e Educação , v.12, n.2, p.143-153, 2006.
DICKMAN, A.G., FERREIRA, A.C. Ensino e aprendizagem de Física a estudantes com deficiência visual: Desafios e Perspectivas. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v.8, n°.2, 2008.
SILVA, K.C., DICKMAN, A.G., FERREIRA, A.C. Ensino de física a alunos com deficiência visual: descrição de figuras dos livros didáticos. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA, 19, 2011, Manaus. Atas... São Paulo: SBF, 2011.
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