FORMAÇÃO ACADÊMICA DOS PROFESSORES TERENA: DESAFIOS E CONQUISTAS
Paulo Roberto Vilarim
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 20/01/2025
- Linha de pesquisa
- Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FORMAÇÃO ACADÊMICA DOS PROFESSORES TERENA: DESAFIOS E CONQUISTAS
Paulo Roberto Vilarim 1
1 Instituto Federal de Educação do Mato Grosso do Sul/IFMS/Paulo.vilarim@ifms.edu.br
2 Universidade de Coimbra, CFisUC - Departamento de Física
## RESUMO
Neste trabalho se propõe analisar a formação acadêmica através das falas em entrevistas realizadas com professores Terena das escolas nas aldeias em Mato Grosso do Sul (MS), Brasil. O Objetivo é analisar o percurso da formação acadêmica dos professores interlocutores e suas consequências na prática pedagógica. Através das interlocuções os professores Terena falam das suas trajetórias assim como suas dificuldades, ajustes dentro da sua formação acadêmica assim como de formação continuada. A trajetória acadêmica do professor indígena que se apresenta problematiza parte da formação docente que vem sendo oferecida pelas instituições de ensino superior no Brasil. Ao lançar um olhar sobre a formação do professor indígena é repensar a cadeia de informações para a formação de professores. Pois as ressalvas transcritas desses interlocutores refletem muito das falas de quem se sente a margem da sociedade ou que enfrentam dificuldades na sua formação.
Palavras chaves: formação de professor Terena, práticas pedagógicas; educação escolar indígena.
## Introdução
Neste trabalho buscou-se debater a formação acadêmica dos professores Terena e sua importância para a propagação e preservação do etnoconhecimento Terena no contexto da educação escolar indígena. Os professores indígenas carregam muitas vezes o peso da família e da sua comunidade ao ingressar num curso universitário ou técnico. Este peso provém da expectativa das famílias, sendo elas indígenas ou não indígenas, contudo, a comunidade indígena e suas lideranças expectam nesses jovens o retorno à comunidade com novos conhecimentos, para benefício da comunidade Terena.
Por meio de visitas a seis comunidades Terena, etnia de matriz linguística aruák, todas localizadas em terras tradicionalmente ocupadas no estado do Mato Grosso do Sul (MS) - Brasil e entrevistou-se trinta e um docentes Terena. Por meio de entrevistas semiestruturadas durante o segundo semestre de 2021.
Durantes as entrevistas os professores falaram de diversos assuntos onde o foco era o conhecimento tradicional Terena e de que maneira os professores transmitem esse conhecimento aos seus alunos. Não obstante suas memorias acerca da sua formação acadêmica e as diversas relações indígena/colegas/universidade e
professores são contemplados neste trabalho e são discutidas para melhor entendimento de como essas relações influenciam na prática acadêmica desses professores. E ao retornar para a sua comunidade (na sua maioria) e transmitir seus conhecimentos aos alunos indígenas, sua formação acadêmica pode influenciar na transmissão do etnoconhecimento e os exemplos a serem trabalhados na sua prática pedagógica diária.
## Chegada e recepção na universidade e a construção de uma jornada
O jovem indígena ao ingressar na faculdade carrega consigo uma formação diferenciada nos costumes, na ancestralidade e na educação. Esse ingresso é carregado de ansiedade do novo, preconceito do externo e às vezes de sofrimento, causado pelo distanciamento familiar e da comunidade que o educou e forjou como cidadão indígena, com o preconceito por sua origem ou por sua formação escolar, que por vezes pode vir com algumas dificuldades acadêmicas.
Dos relatos dos professores interlocutores, é possível identificar parte desse processo em que o preconceito impera ou imperou na sua vivência. Este processo de acolhimento e os percalços em que os professores indígenas sofreram nas universidades, e que serão relatados a seguir, é uma parte importante na formação do futuro professor e um alerta para que nas suas formações acadêmicas sejam amenizados estes problemas.
Amado (2016, p. 09) nos informa que os indígenas que têm 'buscado, cada vez em maior número, o acesso às universidades, vêm de povos que enfrentam um longo e histórico processo de relações inter-étnicas, marcado por todos os tipos de exclusão e preconceito'. Nos relatos, observou-se muito do espanto da sociedade acadêmica em ver um indígena na universidade, ou do preconceito enfrentado por eles no dia-adia nas universidades. Este distanciamento ressoa no espanto dos colegas de faculdade, ao ver o indígena com bens materiais ou evoluindo nos estudos:
- [...] Mas indígena tá aqui na academia, o que vocês estão fazendo aqui? [...] -Vocês deveriam estar na aldeia! [...] E próprio dentro da universidade, com os professores, eu senti muito isso! Mas eu tenho na minha mente que eu devia passar por essa problemática né, mas superar. (JABEZ)
A limitação está por não ser compreendido por seus colegas universitários ou pelos professores formadores, que por sua vez também não tiveram formação para lidar com os indígenas ou podem acreditar que são os acadêmicos que devem se
ajustar ao novo. Podendo não haver um nivelamento adequado para os acadêmicos que vêm de outra realidade.
Pensar na formação do professor indígena é pensar que este brasileiro está retornando a sua comunidade para formar outros. É na formação acadêmica do professor indígena que se promove uma igualdade a acessos que reverbera por toda a sua comunidade.
## Os caminhos dentro da formação do professor indígena e sua experiência na universidade
Como é a recepção destes 'estrangeiros' na universidade? As universidades estão preparadas para recebê-los? Programas direcionados aos professores indígenas como Referenciais para Formação de Professores (MEC, 1998) e Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas (MEC, 1998), possibilitaram um diálogo mais próximo das comunidades indígenas e uma formação diferenciada para os professores indígenas, que por sua vez possibilitou que os conhecimentos tradicionais fossem incorporados nos conteúdos científicos a torná-los naturais à própria didática do professor. Na fala do professor Jabez [língua portuguesa], que exprime sua preocupação como o que ele chama de 'Olhar Científico' e na formação dos seus alunos:
Nós não deixamos também de um olhar científico , né! É! Porque precisamos no mundo globalizado de hoje , precisamos! E não quer dizer, que como sou Terena, não posso usar o celular! De maneira nenhuma deixei de ser indígena! Por incrível que pareça, e ainda se tem essa ideia errônea da questão, né! Mas trabalhamos em paralelo, nunca deixando que esse conhecimento científico. [...] Por que isso transpareceu bastante na academia, quando eu fui para o UCDB. Muita resistência professor! (JABEZ) (dados da pesquisa)
Neste sentido Grupioni (2003, p.14), ressalta que em muitas situações, 'cabe ao professor indígena atuar como mediador e interlocutor de sua comunidade com os representantes do mundo de fora da aldeia e com a sistematização e organização de novos saberes e práticas'. O autor nos informa ainda, que é do professor indígena a tarefa de refletir criticamente e de buscar estratégias para promover a interação dos diversos tipos de conhecimentos que se apresentam e se entrelaçam no processo escolar.
Ao definir o currículo, as comunidades indígenas começam determinando uma direção aos anseios e desejos da comunidade acadêmica, em produzir quais diretrizes seguir, conforme as necessidades das comunidades. Aos professores caberiam
determinar o que se pretende ensinar e quais artifícios estão dispostos para isso. Não há uma rigidez em se definir algo que não deu certo ou que não se encaixam nos parâmetros curriculares vigentes em cada escola indígena em determinada aldeia. Isso dá uma liberdade aos educadores em ir ajustando suas necessidades as suas práticas acadêmicas e ao passar do tempo, chegar a um denominador que melhor proporcione um resgate do conhecimento tradicional na sua práxis. Para os professores interlocutores o currículo pode representar um entrave para as suas práticas pedagógicas:
Nós seguimos o currículo do não índio. A única coisa que muda ali, mas não muda por completo, não é o horário começa as 5:00 até 9:20, só que essa questão de nós temos aula de língua Terena, de arte e cultura Terena. Só que o sistema mesmo ainda está com relação ao não índio, então dá pra você acrescentar algo a mais do que tem. (ARCENIO)
O professor Jailson [Física e Química] assim como outros professores, somente ao ter contato com uma nova perspectiva pôde repensar sua maneira de trabalhar e da importância de resgate da sua cultura. Na própria fala do professor Jailson: ' Tive uma educação bem crua, enquanto a questão indígena, né !' Isso fica mais evidente em cursos nas áreas de exatas, do que nas de humanas, contudo, na maioria das vezes o professor só terá uma real consciência das aplicabilidades e importância de resgate da sua cultura quando em contato direto com outros profissionais que já trabalham de certa forma, ou no processo diário que o próprio meio reverbera na sua práxis.
A universidade tem um papel fundamental para as comunidades indígenas, pois não somente forma este novo profissional, mas direta ou indiretamente provoca a mudança no conhecimento adquirido que ao retornar a sua comunidade pode aplicar esses conhecimentos nos problemas diárias vividos na comunidade. Pode ser no melhoramento genético das criações de animais, na agricultura familiar, no conhecimento dos direitos legais, assim como outros benefícios. As lideranças indígenas anseiam pelo o retorno dos seus parentes, pois esse retorno vem impregnado de novos conhecimentos, como relatado abaixo:
O científico, quando a gente conhece lá, a gente vê que é uma coisa que a gente já via e já vivia só que a gente não tinha aquele conhecimento científico sobre ele, né! […] E é o que aconteceu aqui no nosso Rio, né! Só que não foi a gente, não teve oportunidade ainda de fazer prática, né! Trazer esses materiais para ver a água, quantidade de nitrogênio que tem na água aqui no nosso rio. Mas esse foi, eu fui contemplado sim. Eu pude entender o que estava acontecendo no nosso rio, que às vezes eu via. Só que eu não conseguia compreender, porque
## aquilo estava acontecendo, né! E quando eu estudei é que pude compreender! Porque que o rio estava daquele jeito! (DORCAS)
Existe um empenho grande dos professores indígenas na buscar do aperfeiçoamento profissional. Há também por parte dos professores a busca em criar um ambiente escolar que propicie a transmissão do conhecimento tradicional nas suas práticas pedagógicas. Parte dessa busca está no contato dos professores com as universidades e os programas de formação continuada.
## Formação continuada e o projeto Ação Saberes Indígenas na Escola no MS e as repercussões no trabalho diário dos professores Terena
Neste caminho de uma formação continuada o projeto Ação Saberes Indígenas é citado pelo os professores interlocutores como um dos programas de maior relevância na sua formação continuada.
O projeto Ação Saberes Indígenas na Escola foi regulamentado pelo o MEC, portaria Nº 98, de 6 de dezembro de 2013 e no estado do MS pela Portaria nº 1.061 de 30 de outubro de 2013. À frente desse projeto estavam quatro instituições de ensino UCDB, UEMS, UFGD e UFMS, que originalmente organizados em dois Territórios Etnoeducacionais: Cone Sul (povos de língua Guarani e o grupo de Terena que vive na aldeia Jaguapiru em Dourados/MS) e Povos do Pantanal (com as demais etnias do Estado: Ofaié, Guató, Terena, Kadiwéu e Kiniquina) (AGUILHERA URQUIZA, 2022)
A Ação Saberes Indígenas na Escola tem como objetivo principal promover os direitos dos povos indígenas à educação escolar e consequentemente apoiar os professores indígenas no aprimoramento das atividades didático pedagógica, fomentando a elaboração de currículo, pesquisa e na construção de material didático especifico para cada realidade nas comunidades assistidas.
A formação continuada que a princípio foi protagonizada pelos pesquisadores das universidades em MS passa a ser um projeto de continuidade dos professores indígenas em reelaborar novas práticas educativas que abrace os conhecimentos tradicionais e o científico sendo o professor indígena o condutor dessa prática. É nesta perspectiva que o professor ao se tornar protagonista na construção dos seus projetos didáticos, pode definir quais conhecimentos devem ser trabalhados e em que momento essas inserções devem ocorrer. Os professores interlocutores falam com
orgulho do protagonismo em produzir seu próprio material e da relevância que este material que tem na formação dos seus alunos e para a comunidade:
Nós temos os 'Saberes indígenas' aqui na escola, então tem muito material que geralmente os professores usam esses materiais em sala de aula. Pega os textos dos saberes, que foram nós mesmo professor que escrevermos. Então, ele se olham no texto . (MARIA)
Muito deste trabalho se deu por conta do projeto Ação Saberes Indígenas que atualmente no MS são em torno de 350 acadêmicos indígenas, em dois cursos de licenciatura específica, e aproximadamente 600 acadêmicos em outros cursos regulares. Ainda é muito forte a procura pela formação inicial de professores indígenas, tendo em vista as demandas de suas aldeias (AGUILHERA URQUIZA, 2022). Essa demanda ocorre exatamente pela busca de sanar alguma deficiência que a formação acadêmica possa ter deixado a desejar ou pela a nova possibilidade de reciclagem de conhecimento. Parte das etapas desse projeto está inserida na fala do professor Enoque [história]:
Olha, nós usamos muito o 'Saberes Indígenas' né. Usamos esse material didático e tá em processo de aprovação né. Ainda não foi!
## Pesquisador : E já tá escrito?
Já, ele já tá escrito. Nós fizemos aqui uma capacitação primeiro, depois nós elaboremos as histórias as redações né, da etnia Terena. […]São um material riquíssimo né, já está quase em processo de aprovação. (ENOQUE)
Os processos de formação continuada proposto no projeto Saberes Indígenas proporciona a reflexão sobre a prática pedagógica e promove ao educador revisitar suas origens para que os mesmos possam produzir aos seus educandos uma imersão no conhecimento científico em parceria com o conhecimento tradicional.
Quando o professor sai da universidade pode carregar as práticas pedagógicas e referenciais acadêmicas que são usualmente utilizados nas faculdades. Pode-se dizer que em muitos os casos na formação acadêmica, não se aprende a produzir um material didático, uma aula interativa ou interdisciplinar. Neste caso o Ação Saberes Indígenas tem um papel fundamental, trazer uma nova forma de se trabalhar. Segundo a professora Fabricya [ciências e mediação curricular], não é da sua prática ' colocar no papelzinho! Somos de colocar na prática, né!', essa mudança de paradigma só vem com a prática e com formação acadêmica:
Para a professora Edineide ' a falar ao vento leva qualquer palavra ' e o seu registro é importante para a posteridade. Suas 'Bibliotecas', os anciãos ao morrerem
podem levar consigo toda uma história, ciência, cultura que não há como recuperar. Neste sentido o registro dos anciãos e o intercâmbio entre gerações podem promover um acréscimo nas práticas pedagógicas.
Toda formação continuada propicia aos professores indígenas uma reflexão sobre suas práticas pedagógicas e promove um debate sobre a condução dos conhecimentos científicos e tradicional. O trabalho de formação continuada deve promover ao professor indígena maneiras de se trabalhar o conhecimento científico sem perder de vista o conhecimento tradicional.
## Considerações finais
Ninguém sai pronto da universidade, são os caminhos e as práticas que aperfeiçoam os futuros profissionais. A formação acadêmica para um professor indígena está impregnada de obstáculos a serem vencidos. Deve-se vencer a saída de casa e da sua comunidade, os pré-conceitos pelo seu modo de agir, vestir, falar ou ser, e além de tudo ele deve progredir nos estudos. As universidades deveriam estar preparadas para receber a todos e proporcionar a todos a capacidade de evoluir nos estudos, além de acolher as diferenças e aprender com elas.
É através das vozes dos professores interlocutores que se percebem falhas e acertos nas formações acadêmicas e é através deles que se podem moldar novas práticas pedagógicas. Seja na recepção, nos nivelamentos dos conteúdos ou dar voz à diferença para enriquecer culturalmente toda a comunidade acadêmica.
Para que o professor possa preparar aulas interdisciplinares e/ou multidisciplinares necessita de formação. O programa como Ação Saber Indígenas nas escolas é um grande exemplo de projeto que vem a somar na formação continuada dos professores indígenas e que pode servir de exemplo para outras práticas pedagógicas. Entretanto, esses programas nascem e morrem muito rapidamente e não há, na maioria dos casos, manutenção e acompanhamento realmente continuado. Outro aspecto é que esses programas são na sua maioria voltados para o ensino fundamental e pré-escola, o ensino médio fica à deriva nesses programas.
Espera-se que este trabalho contribua para valorizar a educação escolar indígena e lancem um olhar sobre o acadêmico indígena e sua trajetória dentro das instituições de ensino. Ressaltar a importância do professor indígena na valorização
e propagação do etnoconhecimento dentro das suas comunidades e o intercâmbio promovido nas instituições de ensino. Na observação da formação acadêmica dos indígenas espera-se estimular a produção de novos estudos sobre a temática de relevância para os povos originários.
## Referências
AGUILHERA URQUIZA, A. H. A interculturalidade como ferramenta para descolonizar a educação - reflexões a partir da ação 'saberes indígenas na escola' . Articulando e Construindo Saberes, Goiânia, v. 2, n. 1, 2017. DOI: 10.5216/racs.v2i1.48996. Disponível em:
https://www.revistas.ufg.br/racs/article/view/48996. Acesso em: 25 abr. 2022.
AMADO, Simone Eloy, O ensino superior para os povos indígenas de mato grosso do sul. Mestrado em Antropologia Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2016.
GRUPIONI, L. D. B. Experiências e Desafios na Formação de Professores Indígenas no Brasil . Em Aberto, Brasília, v. 20, n. 76, fev. 2003.
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