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A Licenciatura em Física da USP: um olhar pela perspectiva de alguns de seus docentes

Aghata Achilles De Oliveira, Cristina Leite, Renata Alves Ribeiro

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
20/01/2025
Linha de pesquisa
Currículo E Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A LICENCIATURA EM FÍSICA DA USP: UM OLHAR PELA PERSPECTIVA DE ALGUNS DE SEUS DOCENTES

## Aghata Achilles de Oliveira , Renata Ribeiro , Cristina Leite 1 2 3

1 Instituto de Física da USP, aghataachilles@usp.br 2 Instituto de Física da USP, reribeiro@usp.br

crismilk@usp.br

## Resumo

O curso de Licenciatura do Instituto de Física da Universidade de São Paulo completou, em 2023, trinta anos desde sua separação em relação ao curso de bacharelado. Tendo seguido, por muitos anos, o modelo tradicional conhecido como 3+1, o curso foi reformulado a partir de demandas externas e internas que surgiram entre as décadas de 80 e 90, com a atuação de diversos docentes empenhados em promover uma formação inicial de professores de maior qualidade, que atendesse às necessidades do futuro professor de física e que possibilitasse aumentar a participação da USP na formação de professores da Educação Básica. Este trabalho investiga a história dessa separação, seus princípios norteadores e o impacto nos anos subsequentes, através das perspectivas dos docentes envolvidos nessa trajetória, obtidas por meio de entrevistas, e da análise de registros documentais. Busca-se, com isso, compreender as origens dessa divisão curricular e a evolução do curso ao longo de sua trajetória.

Palavras-chave : formação inicial de professores; currículo; licenciatura em física

## Introdução

Em 2023, o curso de Licenciatura em Física do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP) completou 30 anos de sua separação em relação ao curso de bacharelado. Anteriormente, a formação de professores de física seguia o modelo '3 + 1': os três primeiros anos eram dedicados às disciplinas de Física, cursadas em conjunto com o bacharelado, e, no último ano, os alunos que optavam pela docência tinham contato com as disciplinas de ensino, majoritariamente oferecidas pela Faculdade de Educação (FEUSP), enquanto os alunos do bacharelado prosseguiam para disciplinas aprofundadas em outras temáticas. Diversos relatos apontam que, apesar da possibilidade de escolha entre os cursos ser apresentada no terceiro ano, havia pouca compreensão sobre o que era essa formação em licenciatura. Além disso, o número de professores de física formados ao fim desses quatro anos era notavelmente baixo.

Em 1993, ocorreu uma reformulação do curso de licenciatura, guiada por demandas internas e, principalmente, externas, resultando em sua separação do bacharelado desde o ingresso no vestibular, com um novo currículo que incluía disciplinas da área educacional desde o primeiro ano. Oliveira (2019), ao detalhar o processo de elaboração e implementação do curso, destaca que a análise dessas mudanças ' não pode descolar tal empreendimento de seus atores ' (p. 52), referindo-se aos docentes do IFUSP envolvidos nessa reestruturação. Este trabalho busca reconstruir a trajetória do curso nos últimos 30 anos a partir do olhar desses docentes.

Mesmo hoje, em discussões entre estudantes, surge frequentemente o questionamento sobre a importância e necessidade da separação entre os cursos, muitas vezes devido a um desconhecimento dos aspectos que levaram à construção

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dos cursos dessa forma. Esse trabalho tem a intenção de lançar luz a algumas dessas questões por meio de uma pesquisa sobre o processo e os princípios que fundamentaram a construção desse 'novo' curso de licenciatura.

## Caminhos da pesquisa

A pesquisa analisa a trajetória e os processos de emancipação da licenciatura em Física da USP, utilizando a história oral conforme conceituada por Meihy e Holanda (2015), baseando-se em entrevistas semi-estruturadas realizadas entre agosto de 2023 e março de 2024 com nove docentes do curso, a maioria envolvida na mudança curricular de 1993. As entrevistas buscaram compreender o contexto de criação do curso -desde o pedido da reitoria até a proposta da licenciatura -, assim como as relações do curso com a USP, o IFUSP e a FEUSP. Além disso, investigaram-se as principais ações de acompanhamento, avaliação e impacto social da licenciatura na visão desses docentes, assim como suas contribuições e experiências no curso.

Os entrevistados incluíram professores diretamente envolvidos na elaboração e implementação da nova licenciatura, além de outros que desempenharam papéis importantes em períodos subsequentes. Esta seleção permitiu cobrir os trinta anos de história do curso sob diferentes perspectivas. Dos quinze docentes inicialmente convidados, nove participaram das entrevistas: Luís Carlos de Menezes, Vito Vanin, Yassuko Hosoume, João Zanetic, Mikiya Muramatsu, Vera Bohomoletz Henriques, Anna Maria Pessoa de Carvalho, Cristina Leite e Ivã Gurgel. Como Maria Regina Kawamura foi uma das protagonistas da elaboração e implementação da proposta iniciada em 1993, a palestra que proferiu na abertura do evento comemorativo dos 30 anos da licenciatura foi analisada 1 . Nessa palestra, a professora apresentou sua visão sobre a trajetória do curso, fornecendo um material valioso para a construção da memória apresentada neste artigo.

A partir do material obtido pelas entrevistas, buscou-se reconstruir a memória da licenciatura em diálogo com a pesquisa documental, que incluiu a análise qualitativa (Bodgan e Biklen, 1994) de diversas fontes, como os Projetos Políticos Pedagógicos (PPP) do curso, atas de reunião, entre outros registros.

## Resultados Obtidos

A seguir, apresentamos alguns dos nossos principais resultados, divididos em quatro grandes campos: contexto de produção; relação da licenciatura com demais cursos; acompanhamento e avaliação do curso; e principais contribuições dos docentes. As informações obtidas abrangem uma longa trajetória, marcada por mudanças e transformações através de processos complexos, envolvendo múltiplas esferas e diversos atores. Isso torna difícil sintetizar 30 anos de história em poucas páginas. Para garantir um tratamento mais aprofundado do tema, optamos por focar, nesta apresentação, no contexto de produção.

## Contexto de Produção: do pedido da reitoria à proposta da licenciatura

As entrevistas revelam que a reforma da licenciatura em 1993 está intimamente vinculada ao contexto da época, sendo influenciada por diversos acontecimentos e discussões ocorridos entre as décadas de 80 e 90. Entre esses eventos, destacam-se a transição da ditadura para o regime democrático, os debates

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sobre a Constituição de 1988, que impulsionaram reformas educacionais, e a elaboração da LDB de 1996 e dos PCNs de 1998. Essas mudanças visavam reorganizar os currículos e o ensino no Brasil, além de adequar o sistema educacional às novas ideias democráticas. Como relata Vito Vanin, 'Era o tempo da redemocratização do país, então ficava claro que tinha que reorganizar o ensino, e tinha um pró-reitor de graduação interessado em promover uma renovação da licenciatura' .

Entre as décadas de 70 e 90, houve um aumento dos debates sobre as diferentes concepções de educação, ensino e aprendizagem e formação profissional. Esse cenário trouxe a necessidade de revisar e atualizar os currículos dos cursos de formação de professores, que ainda seguiam o modelo profissional com o currículo normativo vigente desde a década de 30 (Oliveira, 2019).

Ademais, na USP, observavam-se altos índices de evasão e um baixo número de estudantes que optavam pela licenciatura, como escreve Beisiegel (1993):

o não preenchimento das vagas afetava cursos que encaminham seus alunos para ocupações eventualmente pouco prestigiadas, mas que são essenciais sob o ponto de vista de sua importância para o futuro do país. Incluem-se, aí, sobretudo, os cursos de formação de professores e especialistas para a rede de escolas do ensino de primeiro e segundo graus.

Todas essas demandas, ainda na década de 80, levaram a universidade a iniciar diversos debates sobre a formação de professores, incentivando a renovação dos cursos. Esse movimento não se limitou às licenciaturas; ele ocorreu em um contexto mais amplo, em que os cursos de graduação estavam discutindo reformas. Essas discussões foram incentivadas pelo reitor, Roberto Lobo, e pelo pró-reitor de graduação, Celso Beisiegel, conforme detalhado no relatório produzido pelo próprio Beisiegel sobre o seu período como pró-reitor (entre 1990 e 1993).

Havia também demandas e aspectos internos do próprio Instituto de Física na época que pediam por uma renovação da licenciatura. Oliveira (2019) aponta que, na década de 80, foram realizados encontros cujas discussões foram registradas por Amélia Império Hamburger no documento de 1981 intitulado 'Licenciatura em Física na USP em Perspectiva'. Nesse documento, membros do instituto expressaram inquietações sobre a formação inicial de professores oferecida no IFUSP, que a proposta de renovação da licenciatura buscou solucionar. Em especial, o Projeto Político Pedagógico de 1993 descreve um cenário em que 'poucos alunos optam pela Licenciatura e, quando o fazem, a encaram como uma habilitação suplementar ao Bacharelado' (p. 2), o que estava em consonância com as observações gerais feitas por Beisiegel (1993). Além disso, conforme relata Oliveira (2019), havia também uma preocupação com o reduzido número de formandos, insuficiente para atender à demanda por professores de física nas redes pública e particular de ensino na cidade de São Paulo, especialmente no contexto de expansão do acesso à escola pública.

Partindo desse conjunto de demandas e com o incentivo do diretor do Instituto de Física, José Roberto Leite, e do presidente da Comissão de Graduação, Alceu Pinho, foi formada uma comissão encarregada de elaborar o currículo para o novo curso de licenciatura. O presidente dessa comissão foi Vito Vanin, e, além dele, essa comissão contava com Alberto Villani e Maria Regina Kawamura como representantes do IFUSP, as professoras Elza Gomide e Iole Druck, do IME - que

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também estava passando por esse processo de reformulação da licenciatura -, e dois representantes da Faculdade de Educação. A presença destes últimos era importante, visto que se pretendia incluir disciplinas da educação oferecidas pela FEUSP desde o início do novo curso.

Entre as propostas de reforma recebidas pela comissão presidida por Vanin, foi escolhida a estrutura elaborada pelas professoras Maria Regina Kawamura e Yassuko Hosoume. Esta última havia estado envolvida no desenvolvimento do Grupo de Reelaboração do Ensino de Física (GREF) por quase dez anos. Hosoume relata que, no contexto do GREF, discutiu e amadureceu, em colaboração com professores da rede pública, a ideia de qual deveria ser a abordagem da Física no Ensino Médio e como deveria ser uma boa formação em ensino para os professores.

No final do ano de 1992, a proposta foi enviada para o Conselho Universitário e aprovada, já que na época havia também o apoio do pró-reitor à reformulação. Com um novo projeto de curso, buscou-se, entre os 190 docentes no IFUSP na época, identificar pessoas interessadas em colaborar com as disciplinas da licenciatura. Nesse período de implementação, como lembra Vanin, Maria Regina Kawamura mantinha constantes diálogos com os docentes para colaborar na construção de uma nova perspectiva de formação inicial de professores. Yassuko Hosoume relata que assumiu um papel ativo na elaboração das ementas das disciplinas, inclusive sugerindo e convidando professores com perfis mais adequados para cada disciplina desse novo curso. Segundo Vanin, também eram realizadas reuniões periódicas para avaliar o andamento do curso, discutir o que precisava ser incentivado e/ou modificado, e planejar a sua evolução.

## O currículo proposto

O aspecto mais marcante das entrevistas sobre o novo curso de licenciatura é a definição de um eixo para a formação. Como menciona Vanin, a formação foi guiada pelo entendimento de que o estudante se tornaria um docente na educação básica. Era importante estabelecer vínculos com a carreira docente desde o início do curso, o que incluía a introdução de disciplinas com enfoque educacional já no primeiro ano.

Além desse aspecto, ainda outros orientaram a construção do novo curso. Entre eles, a reformulação de disciplinas do ciclo básico da física, que antes eram denominadas Física 1, 2, 3 e 4, e passaram a ter nomes como Mecânica, Eletromagnetismo, Física do Calor, entre outros. Essa mudança visava deixar evidentes os conteúdos a serem abordados, evitando que os professores selecionassem temas de forma isolada, sem diálogos com outras disciplinas e outros docentes, o que poderia gerar lacunas na formação. Algumas disciplinas também buscaram abordagens inovadoras, como Ótica, desenvolvida por Mikiya Muramatsu com uma abordagem experimental, e Gravitação, elaborada por João Zanetic para ampliar a presença da história e filosofia da ciência no currículo.

- O número de créditos das disciplinas obrigatórias foi reduzido, enquanto a oferta de disciplinas optativas foi ampliada e estruturada em blocos para proporcionar uma formação mais ampla e flexível. Os blocos foram denominados Temático, Integrador, Educação e Instrumentação para o Ensino, e em cada um destes foi estabelecido um número mínimo de créditos que o estudante deveria completar dentro das alternativas oferecidas.

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Houve também a reelaboração do funcionamento dos laboratórios, que anteriormente eram ministrados em conjunto com o desenvolvimento teórico. No novo currículo, os laboratórios passaram a ser disciplinas focadas nos aspectos específicos da prática de laboratório, com objetivos distintos das atividades experimentais integradas às disciplinas teóricas, que tinham como objetivo auxiliar na compreensão e no aprofundamento conceitual. Yassuko Hosoume destaca, nesse processo de construção das disciplinas de laboratório, o trabalho em conjunto com pesquisadores da Física, como Nobuko Ueta, Lighia Horodynski-Matsushigue e José Carlos Sartorelli.

A reelaboração da licenciatura não se limitou a repensar o currículo, mas também focou no estudante da licenciatura -geralmente proveniente de classes socioeconômicas menos favorecidas, com condições sociais complexas e dificuldades adicionais por, frequentemente, já estar inserido no mercado de trabalho durante a graduação -e em sua relação com o curso. Nesse período, foi implementada (ainda que não tenha sido explicitamente indicado na proposta curricular) a ideia de professores tutores para as turmas. Esses tutores tinham o papel de acompanhar e orientar os estudantes ao longo de sua trajetória acadêmica, auxiliando-os na escolha de disciplinas, no enfrentamento de dificuldades e na prevenção da evasão.

Mais tarde, surgiram novas disciplinas, como Práticas de Ensino de Física, inserida no currículo em 2006. Esta disciplina incorporou 100 horas de estágio obrigatório supervisionado pelo próprio instituto e foi destacada pelas professoras Vera Bohomoletz e Cristina Leite como crucial para a conexão dos estudantes com a escola e constituição de espaços de vivências. Assim, o currículo foi se modificando, com reformas maiores realizadas em resposta às demandas do Conselho Nacional de Educação (CNE) e para se adaptar a mudanças internas e externas. Apesar das modificações, a essência da estrutura curricular se manteve ao longo desses 30 anos 2 . Como aponta Ivã Gurgel, 'o curso de hoje é 100% filho do curso de 30 anos atrás' , embora tenha amadurecido e sido aprimorado com o tempo. Gurgel afirma, em sua entrevista, que a licenciatura atual é fruto dos esforços dos docentes para atualizar suas práticas, repensar as disciplinas e desenvolver inovações.

## Desafios: Tensões e discordâncias

Os entrevistados revelam que o processo de reformulação da licenciatura não foi simples nem consensual. Houve conflitos internos ao próprio instituto, e, segundo Vanin, mesmo dentro da comissão responsável pela elaboração do novo curso de licenciatura, havia representantes que preferiam manter o sistema 3+1 vigente. Entre os membros do instituto que não apoiavam a separação da licenciatura, Menezes menciona Ernesto W. Hamburger. Outro professor que teve dúvidas sobre essa proposta de separação foi João Zanetic, que admitiu não estar certo, na época, se a separação traria bons resultados ou se o instituto teria fôlego para manter uma licenciatura com novas disciplinas.

As tensões não desapareceram com a aprovação e implementação do novo curso de licenciatura. João Zanetic observa que a visão do instituto em geral ainda seguiu muito voltada para o ensino de conceitos de Física, sem um viés educacional:

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Eu me lembro quando me afastei de novo do curso, quando eu fui de novo presidente da ADUSP, isso em 2009 e 2011, quem foi dar Gravitação no início dava Gravitação no formato tradicional. Chegava até a mencionar os meus textos de Gravitação, mas era Física sem história, sem filosofia.

Mesmo nas discussões na Congregação do Instituto, Zanetic relata que recebia críticas sobre a disciplina de Gravitação, com argumentos de que o que era ensinado 'não era Física'. O professor destaca que essas críticas eram feitas sem um conhecimento real do conteúdo completo da disciplina.

Esses conflitos parecem refletir uma questão estrutural do próprio Instituto de Física, onde já havia uma visão geral negativa sobre a licenciatura e a profissão docente. Mesmo que a visão não fosse completamente negativa, a formação do professor era considerada de menor importância, tratada como um 'subproduto' da formação de cientistas, conforme aponta Menezes. Isso pode ser identificado em experiências relatadas pelos próprios professores entrevistados sobre seus anos de formação no Instituto, como explicita Yassuko Hosoume:

Então, qual era a conversa das minhas professoras? Eu falo 'professoras' porque eu lembro que eram as professoras que falavam: 'ô Ya, por que você está na licenciatura? Você é tão boa aluna. Vão para a licenciatura pessoas que não sabem Física, vem aqui para o nosso laboratório'

Infelizmente, essa relação conflituosa envolvendo o Instituto, a licenciatura e a área de pesquisa em ensino de física ainda é uma questão em debate atualmente, como reconhece Yassuko:

esse preconceito é estrutural, então não adianta dar bola para isso. Continua agora, como já tinha na minha época [...]

## Impactos da Reforma na Licenciatura

Há um consenso entre os professores entrevistados de que a separação em relação ao bacharelado e a implementação do novo currículo foram positivas, mesmo entre aqueles que inicialmente tinham dúvidas sobre os benefícios dessa mudança. Com o tempo, observou-se um aumento significativo no número de formandos: mais de 60 licenciados se formam anualmente. Esse número supera a média dos cursos de licenciatura brasileiros, conforme os dados apresentados por Oliveira (2019). Atualmente, a USP é reconhecida como a universidade pública que mais forma licenciados em física no país, de acordo com o Censo da Educação Superior realizado pelo INEP em 2022.

Dentre os formados, uma parcela segue a carreira docente, enquanto outros optam por áreas diferentes. Vanin ressalta, no entanto, que a formação oferecida pelo curso é sólida, permitindo que os egressos atuem em diversas profissões, embora o intuito da mudança tenha sido conferir um caráter próprio à licenciatura, com o qual os estudantes se identificassem.

Para Ivã Gurgel, a constituição da licenciatura nesse modelo foi importante porque 'diminuiu a evasão, permitiu que as disciplinas de conteúdo de física tivessem mais essa característica do futuro docente ou que atendessem melhor as necessidades de um futuro docente; permitiu que, pouco a pouco, a gente tivesse as disciplinas de ensino de física avançando, amadurecendo e tendo mais organicidade' . Apesar dos resultados positivos da reformulação do curso, a evasão permanece um desafio, com uma taxa de 45%, segundo o PPP de 2018. Contudo, é importante reconhecer que a evasão envolve fatores além do curso em si, como a valorização da carreira docente e as políticas públicas educacionais, que impactam

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significativamente a permanência dos estudantes na busca pela docência como profissão. Além disso, essa taxa é uma das menores do país, visto que " em muitas instituições encontramos níveis de evasão superiores a 70% em cursos de Física " (PPP 2018, p. 8).

Ainda que os resultados obtidos por essa licenciatura tenham sido positivos, a adoção desse modelo se limitou aos institutos de Física e de Matemática, não se estendendo a outros cursos de licenciatura da USP, nem mesmo entre as ciências da natureza. Yassuko observa que, apesar de o modelo de cursos separados existente no IFUSP ter sido incentivado pela resolução CNE/CP nº1/2002, ele não é comum em faculdades no Brasil, e justifica:

S abe por que? Você tem que ter condições em termos pessoais, em termos financeiros, tudo, para você fazer uma nova licenciatura, é um movimento. Aqui nós tivemos todo esse apoio, nós tínhamos esse apoio também dos físicos. […] Então, acho que a USP, e principalmente o Instituto de Física, teve uma base que conseguiu propor essas modificações.

Além disso, o professor Zanetic aponta como um fator relevante a existência do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, criado em 1973 como uma parceria entre o IFUSP e a Faculdade de Educação. Esse programa pode ter proporcionado melhores condições e incentivo para considerar a criação de uma licenciatura separada do bacharelado no IFUSP. Somente em 1998 o Instituto de Química passou a integrar o programa, e a Biologia se juntou ainda mais tarde, em 2005.

É importante destacar que quase dez anos após a implementação do novo curso, o Conselho Estadual de Educação (CEE), por meio da Deliberação CEE nº 8/2000 e das indicações CEE nº 21/2002 e nº 22/2002, introduziu inovações em suas regulamentações para a formação inicial de professores em São Paulo. Essas inovações questionaram os modelos 3+1 e estabeleceram cursos de formação de professores em licenciatura plena, com a aplicação das Diretrizes Curriculares Nacionais aos currículos. Isso evidencia o caráter pioneiro da reelaboração da licenciatura do IFUSP em 1993, que antecipou as diretrizes em quase uma década.

## Considerações

A separação do curso de licenciatura em relação ao bacharelado, implementada em 1993, foi um marco significativo que redefiniu a estrutura e os objetivos da formação de professores de Física na USP. As narrativas pessoais de docentes envolvidos nesse processo de mudança possibilitaram reconstruir a gênese do curso e compreender os mecanismos externos e internos que influenciaram o desenvolvimento do modelo vigente no IFUSP. As entrevistas realizadas foram fundamentais para destacar as contribuições e os papéis de cada docente na implementação do curso, permitindo não apenas entender as decisões tomadas, mas também capturar nuances e motivações que guiaram o processo de construção da nova licenciatura. Além disso, a análise documental foi crucial para estabelecer conexões, uma vez que os registros oficiais complementam e contextualizam as memórias relatadas, evidenciando aspectos que, ainda que não tenham surgido nas entrevistas, são fundamentais para entender a complexidade das mudanças.

A introdução de disciplinas educacionais desde o início do curso, a criação de novas disciplinas com abordagens inovadoras, bem como a reformulação dos laboratórios, evidenciam um esforço em alinhar a formação docente às necessidades

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da educação básica. O aumento do número de formandos e o fortalecimento da identidade do curso de licenciatura atestam o impacto positivo dessas reformas.

Por fim, ao reconstruir a memória do curso de licenciatura em Física do IFUSP, este trabalho contribui para a compreensão do seu desenvolvimento e do impacto das mudanças implementadas. As memórias aqui relatadas não apenas celebram os 30 anos do curso, mas também oferecem subsídios para futuras reflexões sobre a formação de professores em contextos institucionais e nacionais.

## Referências

VIII Encontro da Licenciatura em Física | 30 anos da Licenciatura no IFUSP. 2023. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=43I0afTvC8g>. Acesso em: 30 ago. 2024

BEISIEGEL, C. de R. Relatório de Gestão (fevereiro de 1990 a agosto de 1993). Disponível em: https://www.prg.usp.br/wp-content/uploads/Texto\_Porf.\_Celso\_08.pdf

INSTITUTO DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Projeto Político Pedagógico da Licenciatura em Física de 1993. IFUSP, 1992.

INSTITUTO DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Projeto Político Pedagógico da Licenciatura em Física de 2018. IFUSP, 2018.

LEITE, C. (org.) Múltiplos olhares para os 30 anos da Licenciatura em Física do IFUSP. No prelo. 2024.

OLIVEIRA, R. F. M. Uma Licenciatura em Física sob o olhar de seus egressos. Mestrado em Ensino de Física-São Paulo: Universidade de São Paulo, 20 dez. 2019.

SÃO PAULO. Conselho Estadual de Educação. Del. CEE nº 8/2000, de 20 de jun. de 2000. Dispõe sobre credenciamento de Institutos Superiores de Educação no sistema de ensino do Estado de São Paulo. Diário Oficial do Estado de São Paulo. 2000; Seção I - Página 30.

SÃO PAULO. Conselho Estadual de Educação. Ind. CEE nº21/2002, de 27 de jun. de 2002. Instituto Superior de Educação: orientações curriculares (Uma reflexão sobre a formação do professor na escola básica - Del. CEE n.º 8/2000 e Ind. CEE n.º 7/2000). Diário Oficial do Estado de São Paulo. 2002; Seção I - Página 20.

SÃO PAULO. Conselho Estadual de Educação. Ind. CEE nº22/2002, de 27 de nov. de 2002. Esclarecimentos sobre a Indicação CEE n.º 07/2000 e a Deliberação CEE n.º 08/2000 que trata da formação de professores no sistema estadual de ensino. Diário Oficial do Estado de São Paulo. 2002; Seção I - Página 23.

MEIHY, J. C. S. B; HOLANDA, F. História oral: como fazer, como pensar. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2015.

Agradecimentos: Ao IFUSP, pelo apoio e financiamento À Fapesp, processo: 2023/10662-2

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