NÊGA, MALUCA... E CIENTISTA? A CARREIRA CIENTÍFICA COMO UMA POSSIBILIDADE MEDIANTE AS DISPARIDADES ETNICA E DE GÊNERO NA FÍSICA
Fernanda Do Vale Macieira, Izabela De Fátima Bellini Neves, Paula Rocha Pessanha, Rubyard Carvalho Coelho, André De Lima Da Silva, Luiz Fernando Silva De Oliveira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- Divulgação científica e práticas educativas em espaços educativos formais, informais e não formais e o ensino de física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## NÊGA, MALUCA... E CIENTISTA? A CARREIRA CIENTÍFICA COMO UMA POSSIBILIDADE MEDIANTE AS DISPARIDADES ETNICA E DE GÊNERO NA FÍSICA
*Fernanda do Vale Macieira 1 , Izabela de Fátima Bellini Neves 2 , Paula Rocha Pessanha 2 , Rubyard Carvalho Coelho 3 , André de Lima da Silva 3 , Luiz Fernando Silva de Oliveira 3
- 1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ Instituto de História, dovale.macieira@gmail.com
- 2 Secretaria de Estado de Educação/ Instituto de Educação Carmela Dutra, izabelabellini@hotmail.com
- 3 Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ Instituto de física, pessanha.paular@gmail.com
Palavras-chave : Ensino de Física; Direitos Humanos; Educação para cidadania.
## Resumo expandido
Cientista. Palavra de dois gêneros. Segundo o dicionário Michaelis da língua portuguesa, a palavra cientista é designada aquele que é especializado em alguma ciência. Contudo, as pessoas de uma maneira geral, são acostumadas a pensar em um perfil específico quando se referem a quem trabalha na produção científica.
Apesar de a História da Ciência nos apresentar mulheres em lugar de destaque, até o início do século XX, culturalmente, a ciência mostrava-se definida como uma carreira imprópria para mulheres. Diversos estudos sobre as implicações sociais da reprodução dos atributos de feminilidade e masculinidade tendem a justificar, em alguns casos, a pouca participação das mulheres nas carreiras científicas. Historicamente e hegemonicamente, a visão de que o que torna uma mulher atraente para um homem é a beleza, sendo a inteligência um atributo negativo ou indiferente. Para as ciências, o enorme esforço para entender Descartes, Leibniz, as equações de Newton, desperta o sentimento do sublime, não do belo, por isso é contrário à natureza feminina. O esforço na ciência é sublime, pesado e, portanto, é masculino.
Quando nos voltamos para a trajetória acadêmica, mais precisamente para questões como o gênero e a etnia, podemos observar que a trajetória de mulheres negras está constantemente marcada por barreiras que o racismo impõe. Apesar das mulheres representarem 57,2% dos ingressos em cursos de graduação, dentro da área de Ciência e Tecnologia os homens ainda se mostram maioria. Com exceção do curso de Ciências Biológicas - onde o percentual de graduandas gira em torno de 76% - o percentual de homens gira em torno de 92% nos cursos de Engenharia, 70% em Física e 66% em Química, sendo as mulheres representantes de menos de 10% dos cargos acadêmicos titulares. Pensando nisto, é visto que especialmente nesse campo a distribuição de papeis entre homens e mulheres deve ser vista de modo mais igualitário. A Física, por exemplo, é uma área que apresenta uma baixa e estagnada participação de mulheres, inclusive na composição do corpo docente de nível superior. Quando observamos o quantitativo de mulheres negras que tiveram acesso ao ensino superior essa porcentagem mostra-se ainda menor (CARTAXO, 2012; SILVA & FONSECA, 2016; INEP, 2018).
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'O Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq) publica semestralmente um censo da produção científica, e gênero é uma das categorias presentes no censo. Contudo, o censo ignora raça ou etnia. A inclusão racial nas ciências não parece ser uma questão relevante dentro da comunidade científica brasileira, ou pelo menos não é prioridade. É difícil fazer qualquer análise quantitativa da presença de pessoas negras na produção científica brasileira, pois há falta de dados que impossibilitem o uso de base empírica para justificar a discussão (ROSA, 2013 apud PEREIRA et al., 2019).'
No contexto histórico, o protagonismo científico feminino, ou melhor ainda dizendo, o protagonismo negro, vem sendo silenciado e até mesmo invisibilizado. Em 2022, ano do bicentenário da Independência do Brasil, paramos para refletir: Onde está o verdadeiro grito de independência? A liberdade e igualdade de gênero e raça são questões que devem ser levantadas para que possam futuramente serem consolidadas de fato.
Esta sequência didática teve como principal finalidade apresentar a Física incorporada em uma dimensão 'cordial' dentro de uma curso de formação de professores de ensino médio, levando em consideração aspectos afetivos, assim como tratada por Cortina (2007) ao entender uma ética para além da racionalidade. Desse modo, pretendendo ampliar as possibilidades de práticas reflexivas em Ciências que questionem processos pedagógicos hegemônicos de desigualdades, preconceitos e estimular a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Dessa forma tem-se o objetivo de contribuir para a divulgação científica, além da diminuição da segregação de gênero nas ciências, a partir da inserção de atividades no curso de formação de professores que insiram personalidades femininas ligadas a ciência e tecnologia.
As atividades realizadas estão dispostas no quadro 01.
Quadro 01 : Atividades da sequência didática realizadas
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As discussões realizadas sobre a constituição da população brasileira e a situação da população feminina e negra abrangeram os 200 anos da independência do Brasil já que as atividades propostas se deram durante o ano de 2022, ano do bicentenário do Brasil. Como o ano do bicentenário é também o ano do centenário da Semana de Arte Moderna, houve uma preocupação em utilizar uma das imagens populacionais feita por Tarsila do Amaral, artista que teve suas obras expostas durante a manifestação artístico-cultural de fevereiro de 1922. Estes desdobramentos permitiram reflexões e discussões acerca das evidências da invisibilidade de pessoas, criações e narrativas.
A compreensão da natureza da fração e como algumas das entidades físicas se comportam quando apresentadas nessa configuração, foi desenvolvida de forma mais tranquila ao serem contextualizadas e relacionadas com as proporções apresentadas pela receita do doce 'Nêga maluca'.
Dentre as pesquisas realizadas sobre cientistas mulheres foram evidenciados pelos alunos uma preocupação em abordar nomes não somente de cientistas negras, mas também de outras etnias que para eles também se mostram esquecidas, como a física Chien-Shiung Wu. Nomes como o de Marie Curie, Katherine Johnson, Ada Lovelace, Enedida Alves Marques e Mae Jemison também foram citados.
Foram entrevistadas duas cientistas mulheres e negras pelos alunos: a Doutora em radioproteção e dosimetria Rosane Ribeiro, atuante na área de física médica no INCA e a Doutora em História Iamara Vianna, atuante como professora da PUC-RJ e Uerj, atuante na área de pesquisa de história e patrimônio cultural. Foram expostos pelos alunos que ambas as cientistas sofreram preconceito racial durante suas trajetórias acadêmicas e como as políticas educacionais são de extrema importância para que ambas chegassem à posição em que se encontram dentro de suas profissões.
A construção de uma representatividade dentro da área de ciências mostrouse de suma importância para os estudantes durante as atividades realizadas, já que dentro do curso de formação de professores pertencente a zona norte do município do Rio de Janeiro aproximadamente 55% dos estudantes se autodeclara negros ou pardos.
## Referências
CARTAXO, S. M. C. Gênero e Ciência: Um estudo sobre as mulheres na Física. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 2012.
CORTINA, A. Ética de la razón cordial. Educar en la ciudadanía en el siglo XXI . Ediciones Nobel, Oviedo, 2009. 270 págs.
INEP. Mulheres são maioria na Educação Superior brasileira . INEP, 2018. Artigo online. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br>, acessado em julho de 2018.
PEREIRA, L. S.; SANTANA, C. Q; BRANDÃO, L. F. S. da. O Apagamento da Contribuição Feminina e Negra na Ciência: Reflexões sobre a Trajetória de Alice Ball. Cad. Gên. Tecnol., Curitiba, v.12, n. 40, p. 92-110, jul./dez., 2019.
SILVA, J. D. C. da; FONSECA, L. C. de S. Mulheres e Ciência: A trajetória de Mulheres Cientistas do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da
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UFRRJ. VI Enebio e VIII Erebio Regional 3. Revista da SBEnBio - Número 9 - 2016. pp 3581-3592.
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