O uso de filmes na perspectiva de licenciandos em Física e seus ecos semiformativos
Lucas Henrique Tavano, Washington Luiz Pacheco De Carvalho, Beatriz Salemme Corrêa Cortela
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- Formação, práticas e desenvolvimento profissional docente no ensino de física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O USO DE FILMES NA PERSPECTIVA DE LICENCIANDOS EM FÍSICA E SEUS ECOS SEMIFORMATIVOS
## Lucas Henrique Tavano 1 , Washington Luiz Pacheco de Carvalho 2 , Beatriz Salemme Corrêa Cortela 3
- 1 Universidade Estadual Paulista/Faculdade de Ciências, Bauru, SP, lucas.tavano@unesp.br
- 2 Universidade Estadual Paulista/Docente aposentado do Departamento de Física e Química, Ilha Solteira, SP, w.carvalho@unesp.br
Palavras-chave : Filmes comerciais; Recurso didático; Formação de Professores.
## Resumo expandido
Este relato apresenta algumas reflexões com base em parte dos resultados de uma pesquisa realizada anteriormente (Tavano, 2023) que abordou a temática dos filmes comerciais como recurso didático na formação inicial de professores de Física, tendo em vista possíveis desdobramentos a partir das concepções de formação e semiformação (Adorno, 1996; Maar, 2003).
Segundo Napolitano (2003), os filmes, se adotados com os cuidados necessários, de forma a ultrapassarem o puro entretenimento, possibilitam a conciliação de emoção e razão no sentido de transformar os estudantes em espectadores mais críticos nas relações dos filmes com os conteúdos de ensino, com as Ciências, com a sociedade e, também, nas relações entre as Ciências e a sociedade. Tal formação crítica se apresenta como um grande desafio no horizonte, ao mesmo tempo que é um objetivo fundamental.
A referida pesquisa consistiu de um estudo de caso que investigou as contribuições do uso de filmes no que diz respeito a possibilidades formativas trazidas por uma sequência didática que visou explorar questões da História e Filosofia das Ciências (HFC) e das relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), bem como o desenvolvimento de conteúdos conceituais (a radioatividade, nesse caso), procedimentais e atitudinais.
A sequência didática foi desenvolvida em dois momentos de um curso de Licenciatura em Física de uma universidade pública, em duas disciplinas didáticopedagógicas, uma realizada de forma virtual e outra de forma presencial. A sequência, planejada em conjunto com a docente responsável por ambas as disciplinas, continha duas aulas, sendo que a primeira abarcou aspectos teóricos da utilização de filmes e, a segunda, a discussão do filme Radioactive (2019), a partir de questões orientadoras de um relatório, enviado com antecedência.
- O principal instrumento de constituição de dados foi um questionário misto enviado aos estudantes após as aulas, contendo questões fechadas, abertas e do tipo Likert . As questões abertas foram analisadas pela técnica qualiquantitativa do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), proposta por Lefevre e Lefevre (2012). No momento qualitativo, utilizam-se os operadores qualitativos: Expressões-chave (ECH), que são trechos relevantes, da forma com a qual foram expressados; as
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Ideias Centrais (IC), que sintetizam o sentido das ECH; e as Categorias, que agrupam as IC de sentido semelhante ou complementar. Para cada Categoria, é elaborado um DSC, que é um discurso síntese elaborado a partir da edição das ECH dos participantes, buscando abrangência coletiva. No momento quantitativo, utilizam-se operadores de Intensidade, percentual de participantes que contribuíram com ECH; e Amplitude, grau de espalhamento das Representações Sociais no campo, considerando os diferentes atores sociais (Bourdieu, 1989).
Aqui será discutido apenas o DSC elaborado para a Categoria mais compartilhada (alta Intensidade e alta Amplitude) pelo grupo de 31 licenciandos que cursou a disciplina Metodologia e Prática de Ensino de Física II de forma virtual, no contexto de pandemia de COVID-19. Este DSC, que contempla as RS de 19 respondentes (61,29%) foi construído a partir de uma questão que indagava acerca das estratégias utilizadas nas aulas e se encontra reproduzido a seguir.
Acredito ser uma estratégia muito válida, considerando que a maioria das pessoas assiste filmes nos dias atuais, e isso faz com que sejam ferramentas didáticas muito úteis, capazes de atingir um público maior. Os alunos adoram assistir filmes, o que faz com que realizem a atividade com mais ânimo e se sintam motivados, tornando o aprendizado menos maçante. Ao se utilizar filmes, é possível captar a atenção dos alunos, principalmente dos jovens, para discutir temas com mais leveza, de uma forma mais descontraída, mais próxima do entretenimento. Assim, leva o aluno a ter outra perspectiva do conteúdo, contribuindo para a totalidade do entendimento de cada um. Além disso, este formato é de grande valor para aprendizagem, visto que representa uma fuga do ensino comum, uma alternativa para uma forma padrão de ensino, voltado para a passagem de conceitos e teorias. Também contribui para complementar o pragmatismo intrínseco envolvido em aulas de Física, considerando que pode ser gratificante variar um pouco o conteúdo matemático, mostrando que é possível entender Física sem ser na resolução de exercícios (Tavano, 2023, p. 158).
A questão central presente no DSC é que os estudantes acreditam ser uma estratégia adequada pelo fato de ser um recurso motivador e que se distancia daquilo que se faz tradicionalmente em aulas de Física (resolução de exercícios matemáticos). Apesar da motivação poder ser, inicialmente, um indicativo da possibilidade de utilização dos filmes comerciais, é possível que existam alguns indícios de dimensões semiformativas nas respostas dos licenciandos, em oposição à proposta de formação.
Na concepção de Adorno (1996), a formação é entendida como a cultura tomada pelo lado de sua apropriação subjetiva. No entanto, se esta apropriação ocorre em termos da indústria cultural, a formação se converte em semiformação, de forma a copiar e reproduzir o modelo de sociedade vigente (Maar, 2003). Assim, segundo Adorno (1996), a semiformação, enquanto expressão da consciência alienada, representa o espírito conquistado pelo fetiche da mercadoria.
O argumento da motivação pode não possibilitar ao individuo a superação do fascínio pela produção da indústria cultural, e, dessa forma, desencadear certa insensibilidade em relação à necessidade de adentrar mais profundamente nas contradições sociais e econômicas inerentes à temática apresentada no produto da indústria cultural (o filme, nesse caso), e a seu modo de produção (o que está envolvido por trás das câmeras), bem como nos interesses a que atende. No caso do filme Radioactive (2019), por exemplo, tem-se certa naturalização da concepção do cientista como um gênio isolado, omitindo a coletividade da produção da Ciência.
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É razoável afirmar que os licenciandos acreditam na importância da apropriação do recurso didático, também, por sua utilidade de motivar seus futuros alunos para a abordagem de conceitos e determinados temas. No entanto, em últimas consequências, isso pode estabelecer ou reestabelecer um ciclo de reprodução social, mediado pelo deslumbramento causado pelo cinema comercial. Além disso, a pretensão de realidade presente no filme pode causar, enquanto potencial disseminador de semicultura, a ilusão de que o mundo exterior seja uma extensão do produto da indústria cultural (Maar, 2003), que tem em si noções de sociedade particulares que podem acabar sendo naturalizadas e tornadas verdadeiras, como se fossem a própria realidade.
A Educação efetiva, que almeja a formação requer, necessariamente, a crítica a semiformação da cultura de massas, buscando a sua negação. Nesse sentido, '[...] a única possibilidade de sobrevivência que resta à cultura é a autoreflexão crítica sobre a semiformação, em que necessariamente se converteu' (Adorno, 1996, p. 410).
Conforme indica Maar (2003), a mídia, de forma geral, mas principalmente o cinema, se mostra um contexto privilegiado para apreender o esquema semiformador da cultura de massas. Entretanto, isso não significa adotar os filmes como fonte de conhecimento por si próprios, mas compreendê-los como parte integrante das contradições econômicas e sociais da indústria cultural que podem ser evidenciadas a partir de seu estudo crítico. Dessa forma, pode-se almejar a formação crítica explicitada por Napolitano (2003), superando o deslumbramento, muitas vezes, paralisador, do entretenimento.
## Referências
ADORNO, T. W. Teoria da semicultura. Educação & Sociedade , Campinas, ano 17, n. 56, p. 388-411, 1996.
BOURDIEU, P. O Poder Simbólico . Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
LEFEVRE, F.; LEVEFRE, A. M. C. Pesquisa de Representação Social: um enfoque qualiquantitativo. 2. ed. Brasília, DF: Liber Livros, 2012.
MAAR, W. L. Adorno, Semiformação e Educação. Educação e Sociedade , Campinas, v. 24, n. 83, p. 459-476, 2003.
NAPOLITANO, M. Como usar o cinema na sala de aula . São Paulo: Contexto, 2003.
RADIOACTIVE. Direção: Marjane Satrapi. Produção: Tim Bevan; Eric Fellner e Paul Webster. Intérpretes: Rosamund Pike; Sam Riley; Aneurin Barnard e outros. Roteiro: Jack Thorne. 109 min. Amazon Studios, 2019.
TAVANO, L. H. A utilização de filmes comerciais na e para a formação inicial de professores de Física: um estudo de caso a partir do filme Radioactive (2019). Orientadora: Beatriz Salemme Corrêa Cortela. 2023. 209 f. Dissertação (Mestrado em Educação para a Ciência) - Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2023.
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