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Fake news em sala de aula: o uso de notícias falsas como possibilidade de fomento do pensamento crítico

Bruno Isidoro, Alex Bellucco

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
09/11/2023
Linha de pesquisa
Ensino, aprendizagem e avaliação em física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## Fake news em sala de aula: o uso de notícias falsas como possibilidade de fomento do pensamento crítico

## Bruno Isidoro 1 , Alex Bellucco 2

- 1 Universidade do Estado de Santa Catarina/PPGECMT, brunoisidoro88@gmail.com 2 Universidade do Estado de Santa Catarina/PPGECMT, alex.carmo@udesc.br

Palavras-chave : Pensamento Crítico; Argumentação; Fake News .

## Resumo expandido

Este trabalho apresenta um estudo sobre aspectos do Pensamento Crítico (PC) que se revelam em uma atividade argumentativa envolvendo uma notícia falsa relacionada à pandemia de COVID-19. O objetivo desta pesquisa é analisar como o PC se apresenta em uma discussão de cunho sociocientífico, anteriormente ao contato em sala de aula com o conhecimento científico. Para tanto, foi formulada uma sequência didática buscando discutir o conteúdo de radiação e sua interação com o meio. As atividades foram aplicadas em uma turma de 2ª série do Ensino Médio em uma escola pública em Joinville (SC). Este artigo apresenta uma análise qualitativa envolvendo a primeira atividade desta sequência, que possibilitou a discussão sobre uma notícia falsa envolvendo o uso do termômetro infravermelho e o câncer. Buscamos responder à questão: como e quais aspectos do pensamento crítico são expressos em uma atividade de fomento à argumentação envolvendo uma notícia falsa sobre radiação durante a pandemia de COVID-19?

Para realização da atividade, os alunos foram organizados em grupos de até três integrantes e receberam a notícia falsa indicando a relação entre o uso do termômetro infravermelho com o aparecimento de câncer na glândula pineal. Foi destacado à turma que a notícia havia sido recebida por meio de aplicativo de mensagens. Os estudantes não foram avisados previamente sobre a notícia ser falsa. O texto, produzido pelo próprio pesquisador, foi baseado em fake news reais e destacava a citação de um neurocirurgião fictício e seu pseudoconhecimento científico. De um modo geral, as notícias falsas sobre o assunto (des)informavam que o termômetro digital emitia radiação infravermelha e ao ser direcionado à testa causaria danos à saúde como o câncer. Os estudantes puderam ler esse material e discutir suas visões sobre o tema. De acordo com Tenreiro-Vieira e Vieira (2013, p. 184), um ambiente de aprendizagem que 'estimule os alunos a expressar e a defender as suas ideias, a explorar, a assumir riscos, a partilhar sucessos e insucessos e a questionarem-se mutuamente' possibilita o desenvolvimento do PC. Deste modo, buscamos possibilitar este ambiente, aplicando uma sequência de atividades baseada nos três Momentos Pedagógicos, a fim de identificar aspectos do pensamento crítico. Para tanto, utilizamos as concepções de PC de Ennis (2011) e de Jiménez-Aleixandre e Puig (2022) para essa análise.

De acordo com Ennis (2011, p. 1) 'o pensamento crítico é um pensamento racional e reflexivo focado em decidir em que acreditar ou o que fazer', sendo auxiliado por um conjunto de disposições e capacidades. Ennis apresenta um conjunto de características associado às disposições, entre elas ter a mente aberta, prestar atenção à situação como um todo, buscar razões e tentar estar bem-informado. Já as capacidades estão dispostas em quatro áreas: clarificação elementar, suporte básico, inferência e clarificação elaborada.

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Para Jiménez-Aleixandre e Puig (2022), as características acima descritas estão relacionadas ao julgamento comprometido com critérios epistêmicos e evidências. Porém, para as autoras, o pensamento crítico também apresenta aspectos de participação popular e justiça social com componentes ligados à opinião independente (com disposição em desafiar ideias do próprio grupo ou de autoridades) e posicionamento crítico (com análise crítica de ações que promovem a desigualdade e com engajamento na transformação social).

A coleta dos dados ocorreu por meio de registros audiovisuais, sendo posteriormente transcritos e organizados em episódios de ensino. De acordo com Carvalho (2006), episódios de ensino são recortes nas atividades que proporcionam uma sequência de situações que favorecem a análise dos dados e se relacionam com as perguntas do pesquisador. Os alunos foram identificados com a letra A seguida de um número de referência. A sigla Pe representa o pesquisador, que participou da aplicação. No Quadro 01, os estudantes descrevem ao pesquisador o que fariam caso recebessem notícia da atividade fora da sala de aula.

Quadro 01: Episódio - Grupo formado por A1, A2 e A3

No trecho, os alunos buscam justificar os motivos pelo posicionamento cético quanto às informações da notícia, demonstrando disposição em não se posicionar sobre a notícia enquanto não houver evidências suficientes para tanto. No turno 1, A1 justifica sua desconfiança considerando seu conhecimento ( suporte básico ) do momento que vivemos ('Hoje em dia qualquer um pode inventar qualquer coisa'), expressando disposição em considerar o momento atual.

Os alunos (turnos 1 e 2) demonstram disposição em levar em conta o contexto ao qual a mensagem foi recebida (via aplicativo de mensagens), ao avaliar a credibilidade da fonte ( suporte básico ). Podemos, então, reconhecer um raciocínio lógico indutivo ( inferência ) fundamentando o ceticismo. O grupo considera que há muita informação inventada circulando em aplicativos de mensagens. Tendo a notícia sido recebida por essa ferramenta de comunicação, é possível que ela se trate de uma fake news , tendo essa hipótese que ser considerada.

Foi observado também aspectos relacionados à opinião independente . No turno 2, A2 questiona o que é recebido por um aplicativo de mensagens, mesmo quando membros de sua família se utilizam da ferramenta para compartilhamento de

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informações. O aluno demonstra refletir de forma independente e apresenta disposição em questionar a autoridade, neste caso a familiar. É importante salientar que as informações da notícia falsa são apresentadas por um médico (fictício). Por desconfiarem, A1 (turno 4) propõe pesquisar sobre o especialista, considerando as situações já citadas que fundamentam o ceticismo.

Nos turnos 4 e 5, A1 e A2 buscam apresentar questões ( clarificação elementar ) relevantes de esclarecimento com a finalidade de auxiliar nas reflexões sobre o tema (pesquisar sobre o médico e o aparelho citados na 'notícia').

Podemos observar que o grupo demonstrou capacidades e disposições relacionadas ao pensamento crítico. Além disso, foi possível identificar o aspecto de opinião independente proposto por Jiménez-Aleixandre e Puig (2022). Esses elementos não se expressam de modo independente entre si, tendo em muitos casos uma interligação entre eles. Os alunos, por exemplo, fundamentam sua desconfiança, considerando o conhecimento sobre o contexto e a situação, por meio de uma reflexão lógica. A demonstração de A2 em questionar autoridade é fundamentada na relação com outros elementos do PC, tanto de disposições (considerar o contexto, buscar razões…) e de capacidades (suporte básico, inferência…).

A identificação desses elementos do PC foi possível mesmo sem que os alunos tenham tido contato com o conhecimento científico sobre o tema (o conteúdo de radiação foi abordado posteriormente à atividade). Não significa que este saber não seja relevante para discussão. Uma das demonstrações de PC se deu, inclusive, no entendimento dos estudantes em buscar mais informações, por exemplo, sobre como funciona o termômetro. Porém, mesmo sem conhecimento técnico, os alunos demonstraram elementos do pensamento crítico, baseado em conhecimento e entendimento do momento atual.

Não é possível afirmar que os alunos que participaram dessa atividade serão cidadãos críticos. Porém, observamos que é possível fomentar capacidades e disposições, além de elementos de transformação social, em atividades envolvendo discussões sociocientíficas.

## Referências

CARVALHO, A. M. P.. Uma metodologia de pesquisa para estudar os processos de ensino e aprendizagem em salas de aula. A pesquisa em ensino de ciências no Brasil e suas metodologias. Ijuí, RS: Ed. Unijuí, 2006.

ENNIS, R. H..The nature of critical thinking: an outline of critical thinking

dispositions and abilities, 2011. Disponível em: <https://education.illinois.edu/docs/default-source/faculty-documents/robertennis/thenatureofcriticalthinking\_51711\_000.pdf>. Acesso em: 13 mar. 2023.

JIMÉNEZ-ALEIXANDRE, M. P.; PUIG, B.. Educating Critical Citizens to Face Post-truth: The Time Is Now. In M. P. Jiménez-Aleixandre, & B. Puig (Eds.), Critical Thinking in Biology and Environmental Education: Facing Challenges in a PostTruth World, 2022.

TENREIRO-VIEIRA, C.; VIEIRA, R. M.. Literacia e pensamento crítico: um referencial para a educação em ciências e em matemática. Revista Brasileira de Educação, v.18, n. 52, 2013.

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