ANÁLISE DA PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES E PROFESSORES SOBRE O NOVO ENSINO MÉDIO EM UMA ESCOLA FEDERAL DE MINAS GERAIS
Claudia Aline Da Silva Marques Do Nascimento, Clarice Parreira Senra
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- Políticas públicas em educação e o ensino de física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ANÁLISE DA PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES E PROFESSORES SOBRE O NOVO ENSINO MÉDIO EM UMA ESCOLA FEDERAL DE MINAS GERAIS
Claudia Aline da Silva Marque s 1 ; Clarice Parreira Senra 2
- 1 Universidade Federal de Juiz de Fora/ Departamento de Física, lili.aline21@gmail.com
- 2 Universidade Federal de Juiz de Fora/Departamento de Educação, clarice.senra@ufjf.br
Palavras-chave : Novo Ensino Médio; BNCC; Ensino de Física.
A reforma do Ensino Médio expressa pela Lei 13.415 de 2017 (BRASIL, 2017), que inicialmente foi proposta por meio de uma medida provisória, promoveu alterações na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) para o Ensino Médio. Algumas alterações previstas para o Novo Ensino Médio (NEM) são a flexibilização curricular, e o aumento da carga horária de 800h para 1000h anuais. A partir dessas mudanças o governo espera diminuir a evasão escolar e ampliar o ensino em tempo integral no Brasil. Porém, o processo de implementação do NEM tem recebido muitas críticas de professores, estudantes e pesquisadores de todo o país, o que acabou gerando muitas manifestações, notas de repúdio como as da ANPEd (SILVA, 2023). De outro lado há também aqueles que apoiam, como pode ser visto, por exemplo, na nota em favor da continuidade do NEM emitida pelo Consed (CONSED, 2023). Diante disso surgiu uma grande discussão em todos os âmbitos sobre a revogação ou reformulação do NEM (BRASIL, 2023). Nesse cenário, o Ministério da Educação (MEC) divulgou uma consulta pública (BRASIL, 2023), a fim de entender melhor as possibilidades de mudança. No contexto dessa discussão, esse trabalho foi pensado de forma a analisar a percepção de alguns estudantes e do professor responsável pelo 2º ano do Ensino Médio de uma escola federal de Minas Gerais.
A pesquisa foi realizada na escola durante o estágio supervisionado de ensino de Física. No primeiro semestre de 2023 realizamos uma entrevista preliminar com um aluno de cada itinerário e com a professora de Física responsável pelos três itinerários para conhecermos a realidade da escola. A partir desse estudo inicial, no segundo semestre de 2023 realizamos uma segunda entrevista por meio de formulário eletrônico para todos os alunos do 2º ano do Ensino Médio da escola. O colégio analisado disponibiliza para os estudantes do 2º ano três itinerários formativos, sendo eles: itinerário 1 Ciências Humanas, itinerário 2 - Ciências da Natureza e itinerário 3 - Ciências Exatas. A partir dessa divisão, analisamos a carga horária para cada itinerário e os dados coletados na entrevista individual.
De acordo com o MEC, os itinerários são entendidos como um conjunto de disciplinas, projetos, oficinas, entre outras situações de trabalho que os estudantes poderão escolher durante o Ensino Médio. Diante das dificuldades de apresentar várias possibilidades de itinerários, o processo de implementação dos mesmos tem acontecido de forma bem diversa em todo o país. Na escola em questão os três itinerários apresentam pouca diferença. Todos eles apresentam a mesma quantidade de aulas para cada disciplina oferecida, e diferenciam-se apenas em duas situações: no itinerário 3, nenhuma das aulas dos conteúdos da área são geminadas, como justificativa a escola alega que esta situação ocorre, para que os estudantes não fiquem cansados durante as aulas que são mais relevantes para os
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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física
mesmos. Já a segunda diferença ocorre dentro das quatro aulas de matemática, que são ofertadas nos itinerários 1 e 2, sendo três aulas com o mesmo conteúdo do itinerário 3 e a quarta aula sendo sobre o conteúdo de estatística. Por conta do NEM foi possível observar uma alteração na escola em relação à quantidade de aulas diárias oferecidas e os horários de início e fim das aulas. Anteriormente as aulas tinham início às 8h e finalizavam-se às 12h50min, com aulas de 50min de duração e um intervalo; no novo modelo as aulas iniciam às 7h30min e finalizam às 13h15min, com aulas de 45min e dois intervalos menores.
Abaixo segue um breve relato das respostas obtidas na entrevista dos estudantes e da professora. As perguntas foram sobre o processo de implementação do NEM e a realidade vivida dentro da escola.
A primeira pergunta feita foi sobre como os estudantes escolheram os itinerários. Eles relataram que no início do ano letivo foi enviado via e-mail um formulário para que cada estudante escolhesse qual itinerário gostaria de cursar, porém para os alunos que entraram no 2º ano em 2023, só foi dada a possibilidade de escolher entre os itinerários 2 ou 3, pois o 1 já estava lotado. Alguns estudantes escolheram os itinerários por conta da afinidade com os colegas e não por conta de interesse em relação a área que o itinerário representa.
A segunda pergunta foi relacionada aos livros didáticos, se eles haviam recebido algum material e o que achavam sobre ele. A aluna do itinerário 2 disse que não recebeu. Já os alunos dos itinerários 1 e 3 afirmaram ter recebido um único livro, porém esse livro nunca foi utilizado por nenhum professor. Além disso, alegaram não utilizar o livro em casa, por não entenderem a sua organização, já que os conteúdos dos livros são organizados por áreas do conhecimento.
A terceira pergunta foi sobre a diferença do NEM em relação ao antigo Ensino Médio e a quarta questão foi sobre uma possível revogação do NEM. Os estudantes acharam a mudança interessante, até começarem as aulas. O primeiro ponto destacado pelos estudantes foi que eles não perceberam uma diferença no conteúdo ofertado pela escola quando se compara o novo e o antigo Ensino Médio. O segundo ponto destacado por dois alunos entrevistados foi que eles ainda não sabem qual curso universitário pretendem fazer, dificultando a escolha do itinerário. Quanto à revogação todos eles consideram que é o mínimo que se possa acontecer, já que a forma como o NEM foi apresentado não atende à realidade das escolas brasileiras. Uma preocupação apontada pelos estudantes foi sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM): como seria essa prova para pessoas com itinerários diferentes? E se eles quiserem mudar de área após o primeiro período da faculdade teriam que voltar a estudar para poder fazer o ENEM de outro itinerário?
Em relação à entrevista da professora, a primeira pergunta foi sobre as mudanças do NEM em sala de aula, como a carga horária de Física da turma e sobre cursos de formação oferecidos. Foi relatado que houveram cursos, porém eles não foram muito eficazes, devido ao tempo curto para implementação do NEM. Ela considera também que tanto os estudantes quanto os professores apresentam dificuldades em adaptação, principalmente em relação ao horário das aulas. As aulas de física não foram reduzidas na escola, se mantendo em três por semana.
A segunda pergunta foi sobre quais itinerários são oferecidos pela escola. Como já relatamos anteriormente, a escola oferece três itinerários. A professora não sabe se a escola oferece algum outro. Ela relata um grande desinteresse dos estudantes pelas áreas dos itinerários. Já a terceira pergunta foi em relação aos
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materiais do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), com intuito de saber quais os materiais escolhidos para a área de Ciências da Natureza e o seu uso pelo colégio. Segundo a professora, ela não utiliza nenhum livro do programa. O material para as aulas é elaborado com base no programa do vestibular seriado da universidade da cidade. O material é elaborado na forma de slides e disponibilizado online para os alunos.
- A quarta pergunta foi sobre as dificuldades e os pontos positivos encontrados durante a implementação do NEM. Ela destaca o prazo curto para preparação, e com isso muitos não sabiam como trabalhar com a nova logística. Além disso, cita que os estudantes não entendem como os itinerários irão impactar suas vidas, trazendo um grande desinteresse. Como ponto positivo a mesma cita as possibilidades de fazer novos cursos e se aperfeiçoar mais na área.
A quinta pergunta foi em relação à consulta pública. A professora considera a consulta pública muito relevante já que para ela precisa haver uma análise sobre o objetivo de prepararmos os alunos; se é para o mercado de trabalho técnico ou para que eles tenham abertas infinitas possibilidades acadêmicas. Ela vê como necessária a revisão do NEM, a fim de implementar a autonomia de escolha dos estudantes antes do Ensino Médio. Ela se preocupa ainda sobre a desigualdade que pode se instalar entre os estudantes de diferentes regiões do país.
A partir dessa breve análise podemos destacar que as escolas encontraram muitas dificuldades para implementar as mudanças apresentadas na Lei 13.415. A consulta pública e todo debate que está ocorrendo em volta do NEM, se faz necessária já que tanto os estudantes quanto os professores têm dúvidas e dificuldades com o novo modelo. Por meio dos debates apresentados pela ANPED e das observações sobre o processo de implementação do NEM nas escolas, alguns pontos importantes sobre a reforma do Ensino Médio precisam ser destacados, como: a precariedade da oferta dos itinerários formativos; as desigualdades de oferta devido à diversidade de currículos, à infraestrutura das escolas e as desigualdades entre regiões e municípios, já que muitos destes têm apenas uma escola estadual para oferta do Ensino Médio.
## Referências
SILVA, Monica Ribeiro da. Reforma ou Revogação: Que fazer com o 'Novo Ensino Médio'?. Disponível em:
<https://www.anped.org.br/news/reforma-ou-revogacao-que-fazer-com-o-novo-ensin o-medio-por-monica-ribeiro-da-silva-ufpr>. Acesso em: 02 jul. 2023.
BRASIL. PORTARIA Nº 399, DE 8 DE MARÇO DE 2023: institui a consulta pública para a avaliação e reestruturação da política nacional de ensino médio.. 2023. Disponível em:
<https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-399-de-8-de-marco-de-2023-4687627 71>. Acesso em: 02 jul. 2023.
BRASIL. Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Reforma do Ensino Médio.
Brasília. 2017. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/\_ato2015-2018/2017/lei/l13415.htm>. Acesso em: 02 jul. 2023.
CONSED. Em defesa do novo ensino médio. 2023. Disponível em: <https://www.consed.org.br/noticia/consed-lanca-nota-em-defesa-do-novo-ensino-me
dio>. Acesso em: 02 jul. 2023.
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