Exame Nacional do Ensino Médio: análise das questões relacionadas à Física
Pedro Henrique Pereira, Débora Coimbra Martins, Milton Antonio Auth
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 06/06/2011
- Linha de pesquisa
- Políticas Públicas Em Educação E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO: ANÁLISE DAS QUESTÕES RELACIONADAS À FÍSICA
## EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO 1 : ANALYSING QUESTIONS OF PHYSICS
## Pedro Henrique Pereira , Débora Coimbra Martins e Milton Antonio Auth 2 3 4
2 Universidade Federal de Uberlândia/Facip/pedro210590@gmail.com
3 Universidade Federal de Uberlândia/Facip/ deborac@pontal.ufu.br 4 Universidade Federal de Uberlândia/Facip/auth@pontal.ufu.br
Palavras-Chave : ENEM; questões quali e quantitativas; contextualização.
## Justificativa e objetivos
A Educação Básica, especialmente o Ensino Médio, há muito vêm sendo criticada pelas suas características, como a fragmentação e descontextualização dos conteúdos e, particularmente para o ensino de Física, as repetições de exercícios. Mesmo com a LDB 9394/96, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), propostos há mais de uma década, e as Diretrizes e Orientações Curriculares, os efeitos no âmbito escolar no sentido da aplicação dos resultados substanciais das pesquisas em Ensino de Física são muito incipientes.
Nesse tempo de inquietações sobre a Educação Básica, os PCN têm figurado como referenciais para espelhar e legitimar novas práticas, através da revisão e atualização dos currículos, por estes não contemplarem satisfatoriamente a demanda 'imposta pela competição e pela excelência' com base nos avanços científicos e tecnológicos, as quais exigem dos jovens novas competências. Essas mudanças são de fundamental importância para pensarmos a questão da formação de cidadãos com capacidade de entender e viver num mundo em constante transformação (sem ignorar que parte deste mundo lhes é desconhecida - como os conhecimentos que permeiam muitos dos avanços tecnológicos), em que as mudanças de valores culturais são frequentes, de modo a constituir-se nele e transformá-lo (VIGOTSKI, 2001). Nesse caso, o direcionamento deve (ou deveria) estar em defesa do conhecimento, no sentido de apreendê-lo e saber o que fazer com ele, além da promoção da própria emancipação.
Com o propósito de constatar se as características delineadas nas bases legais (como o desenvolvimento das competências, a contextualização e a interdisciplinaridade) se concretizam no cotidiano escolar e, também, pelo potencial que possui por estar se tornando a via mais decisiva para o acesso ao ensino superior, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) já é visto como uma das melhores possibilidades para incitar mudanças no quadro da educação atual. Questionamentos como se o ENEM contempla aspectos que vão ao encontro dessas principais funções da escola e, se sim, se é possível dimensionar a contribuição do mesmo para que as instituições de ensino rompam com a prática que leva os alunos a se tornarem bons repetidores de exercícios, devem ser
respondidos. O objetivo desse trabalho é discutir as questões de Física das provas do ENEM realizadas, quanto sua natureza e forma de estruturação, no sentido de explicitar se as mesmas demandam do solucionador a mobilização das habilidades e competências que as bases legais preconizam ou não.
## Marco Teórico
Gomes e Borges (2007) realizaram um estudo de validade do ENEM como teste de modalidade de inteligência, particularmente para a prova de 2001. Souza e Silva (2009) analisam como a linguagem gráfica é trabalhada pelo ENEM em relação aos temas: variações climáticas e aquecimento global, esboçando relações entre a Matriz de Referência e as habilidades e competências esperadas. Vasco Moretto (2002) relaciona o conceito de competência à capacidade de abordar e resolver situações complexas. Sob 'o paradigma do desenvolvimento de competências' cabe ao estudante se apropriar de recursos, como identificar, analisar, sintetizar e avaliar, para que possa focar e resolver situações propostas.
Recentemente, Sousa, Gomes e Pivetta (2011) analisaram as provas de 1998 a 2009 acerca do tema energia, estabelecendo as diferentes relações do mesmo com outros temas de ciências e constatando que, além de se fazer presente em todos os anos de aplicação do ENEM, a quantidade de questões envolvendo energia representava um percentual expressivo das questões de Física. Essas produções sinalizam a crescente importância atribuída ao exame na atualidade.
## Metodologia e Análise
Para a análise das questões do ENEM, adaptamos as categorias propostas pelo grupo de pesquisadores do Núcleo de Educação em Ciências da Universidade Federal de Santa Maria (LAMARQUE e TERRAZZAN, 2009), de modo que as questões podem ser, segundo o critério geral 'Tipo de Exigência do Solucionador', elencadas como 'Situações-Problema' ou 'Memorização Conceitual'. As questões categorizadas como memorização conceitual são aquelas que exigem que o estudante tenha contato prévio com um determinado fenômeno/processo ou conceito/princípio e, que o mesmo seja capaz de acessá-lo rapidamente para a obtenção da resposta. Podem ser de natureza qualitativa ou quantitativa, neste último caso, exigindo a memorização de uma fórmula ou relação.
As questões categorizadas como situações-problema envolvem diferentes conjuntos de saberes mobilizados ou desenvolvidos em relação à categoria anterior. Apresentam sempre um texto mais elaborado (exigindo a habilidade de interpretação textual) e outras formas de representação como gráficos e esquemas (aqui denominadas habilidades técnicas). Quanto à natureza, essas questões costumam referenciar algum contexto social (real ou artificial) ou ainda uma abstração deste. As situações-problema podem ser qualitativas ou quantitativas, podendo demandar uma habilidade adicional de utilizar a matemática como estruturante do raciocínio (KARAM e PIETROCOLA, 2009).
A Figura 1 apresenta a distribuição das questões que envolvem o conhecimento de Física classificadas como de memorização por prova, sendo cada prova indicada pelo ano de aplicação, discriminadas segundo seu caráter qualitativo ou quantitativo. Podemos constatar uma predominância do primeiro em relação ao último (apenas as provas de 1998, 2002, 2006 e 2009 apresentaram questões de memorização que suscitassem a utilização de fórmulas na resolução), sendo que não encontramos questões dessa natureza na prova de 2008.
Figura 1 e 2 - Número de questões classificadas por ano.
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A Figura 2 mostra um contingente maior de situações-problema de caráter quantitativo, tanto em relação às de caráter qualitativo quanto às de memorização. Analisando os dois gráficos, podemos constatar que o número de questões de memorização é muito próximo ao de situações-problema, apresentando um crescimento nas provas de 2009 e 2010.
## Considerações Finais
Ao veicular questões que levem o estudante a pensar ao invés de memorizar, a participação no ENEM pode se tornar um processo que incentive o professor e a escola à atualização de suas práticas, ao uso de novos recursos para incrementar a atividade pedagógica, e de criatividade para desenvolver atividades direcionadas à aprendizagem contextual e significativa. Além disso, segundo Souza e Silva (2009) as avaliações oficiais, enquanto indutoras de currículos e práticas pedagógicas, integram a mediação seletiva da constituição dos currículos escolares.
A constatação de um aumento das questões de memorização nos dois últimos anos (coincidente com as reformulações do exame) nos leva a pensar se ENEM não estaria se transformando num exame tipo vestibular, regulado pelo Estado, controlador do acesso às universidades públicas e, padronizador da Educação Básica. Não podemos olvidar a oportunidade de transformar as questões em instrumentos para tornar o ensino-aprendizagem um meio de proporcionar aos alunos a apropriação dos conceitos e processos de maneira significativa.
## Referências
GOMES, C. M. A.; BORGES, O. Uma Análise dos Fatores Cognitivos Mensurados pelo ENEM. Atas da 30ª Reunião Anual da ANPED. Caxambu-MG, 2007.
KARAM, R. A. S.; PIETROCOLA, M. Habilidades Técnicas Versus Habilidades Estruturantes: resolução de problemas e o papel da matemática como estruturante do pensamento físico. Revista ALEXANDRIA , v.2, n.2, p.181-205, jul. 2009.
LAMARQUE, T.; TERRAZZAN, E. A. Física Moderna nos Livros Didáticos do Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio. Atas do XVIII SNEF , Vitória-ES, 2009.
MORETTO, V. P. Construtivismo, a produção do conhecimento em aula. 3 a ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
SOUSA, F. F. G.; GOMES, D. S. B.; PIVETTA, L. C. A Temática Energia em 12 anos de ENEM. Atas do XIX SNEF. Manaus-AM, 2011.
SOUSA, E. R.; SILVA, H. C. Discursos da Linguagem dos Gráficos: análise de questões do ENEM: leituras, limites, possibilidades. Atas do VII ENPEC . Florianópolis-SC, 2009.
VIGOTSKI, L. S. A Construção do Pensamento e da Linguagem. 1 ed. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
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