A PESQUISA EM ENSINO DE CIÊNCIAS E A SALA DE AULA: COMPARANDO DICURSOS DE PROFESSORES QUE ATUARAM EM DÉCADAS ANTERIORES E PROFESSORES EM EXERCÍCIO
Francis Gabriel Dos Santos Constante, Roberto Nardi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 06/06/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
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## A PESQUISA EM ENSINO DE CIÊNCIAS E A SALA DE AULA:
## COMPARANDO DICURSOS DE PROFESSORES QUE ATUARAM EM DÉCADAS ANTERIORES E PROFESSORES EM EXERCÍCI O RESEARCH IN SCIENCE EDUCATION AND CLASSROOM TEACHING: COMPARARING PREVIOUS DECADES TEACHERS AND IN-SERVICE TEACHERS DISCOURSES
Francis Gabriel dos Santos Constante 1 , Roberto Nardi 2
1 Universidade Estadual Paulista, UNESP, Campus de Bauru, Licenciatura em Física/Faculdade de Ciências/Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências,
francisconstante@hotmail.com
2 Universidade Estadual Paulista, UNESP, Campus de Bauru, Prof. Adjunto, Livre Docente do Departamento de Educação/Faculdade de Ciências/Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências, Apoio: CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.nardi@fc.unesp.br.
## Introdução
A pesquisa em ensino de Ciências e Matemática tem tido significativo avanço no país nas últimas décadas e produzido um volume crescente de conhecimento que se traduz em artigos em revistas nacionais e internacionais, comunicações em eventos científicos e edição de livros e materiais de ensino. A criação de secretarias de ensino em associações científicas, a formação de grupos de pesquisa e o surgimento de programas de pós-graduação têm sido alguns dos fatores responsáveis pela consolidação dessa área de pesquisa (Nardi, 2005). Há dúvidas, entretanto, entre pesquisadores, sobre a influência desse conhecimento produzido no ensino de sala de aula. Essa dúvida transformou-se na seguinte questão de pesquisa, formulada a professores de ciências em exercício na educação básica: ' Como professores que atuaram ou vêm atuando no ensino de disciplinas relacionadas à área de Ensino de Ciências, em diferentes níveis de ensino, e não fazem parte da comunidade de pesquisadores da área, vêm praticando significações a respeito de procedimentos e resultados de pesquisa na área e suas possíveis implicações para o ensino que têm praticado?'. Essa pesquisa foi realizada junto a uma amostra de dezenas de professores atuando no magistério de ciências, física, química e biologia em escolas públicas do Estado de São Paulo. Os dados coletados em entrevistas abertas, realizadas com essa amostra de docentes tem sido objeto de diversas analises (Nardi et al.2009).
Nessa comunicação procuramos analisar, dentre os docentes entrevistados, alguns discursos de docentes mais experientes, que atuaram em décadas anteriores, comparando-os com outros de docentes atualmente em exercício, verificando como eles interpretam a interferência da pesquisa acadêmica em suas práticas docentes.
## Metodologia e Referenciais Teóricos
Foram realizadas 30 entrevistas com professores que atuaram ou vêm atuando nas últimas décadas em diferentes áreas de ciências (Física, Química, Matemática e Biologia) em diferentes regiões do Estado de São Paulo; a escolha, aleatória, foi realizada por meio de consultas à delegacias de ensino as quais suas escolas estão inseridas. As entrevistas tiveram em média duração de 30 minutos e foram gravadas em áudio e vídeo e analisadas com permissão de seus depoentes.
Para interpretar as falas dos sujeitos entrevistados, utilizamos alguns princípios e procedimentos da análise do discurso em sua linha francesa, conforme divulgado por Pêcheux (1990) e Orlani (1999). Segundo Pêcheux, 'o suporte do discurso ou o meio pelo qual se concentram ou se materializam vários discursos se dá através do indivíduo, do grupo ao qual representa'. A análise de discurso, dessa forma, 'possibilita ao investigador descobrir as linhas de pensamento expressas por um determinado indivíduo ou grupo social, no momento em que estiver reorganizando os corpos em que se apresentam os traços empíricos do discurso, possibilitando-se constatar a ideologia dominante na produção desses traços. Enfim, é papel do investigador compreender a 'maquina discursiva' que, de alguma maneira, produziu o discurso' (PÊCHEUX, 1990).
Neste comunicação procuramos interpretar discursos de quatro professores dessa amostra, sendo dois formados em décadas anteriores (P1, P2) e dois formados recentemente (P3, P4). Deve-se levar em consideração, portanto, que as conclusões parciais aqui expostas, podem ser revistas, ao se interpretar dados de toda a amostra.
## Interpretação dos discursos
Iniciamos com os discursos de dois professores que atuaram em décadas anteriores: o professor P1, que iniciou suas atividades nas áreas de Ciências e Biologia na década de 1970; e o professor P2, que vem atuando na área de Física desde a década de 1980. Entendemos que no período entre a década de 1950 e a década de 1970 prevaleceu no Brasil a idéia de método científico, em que certos comportamentos fixos caracterizavam a produção de Ciências, refletindo em ensino de transmissão de informações e em atividades práticas que tinham como função fixar essas informações (KRASILCHIK, 2000). Ao serem questionados se haviam tido contato com pesquisas da área de Educação em Ciências em sua formação, suas respostas parecem não reconhecer a pesquisa, com as características que hoje lhe são atribuídas. Mesmo embora, P1 reconheça ter realizado cursos de 'capacitação' de professores, ministrados por equipes de universidades. Dessa foram, pontos comuns em suas falas espontâneas, apontam para um silenciamento sobre a questão. Como diz Orlandi (2003, p. 84), 'o que não é dito, o que é silenciado, constitui igualmente o sentido do que é dito'. E chama a atenção dos pesquisadores a ausência dos relatos sobre o acesso à pesquisa em Educação em Ciências:
...eu fiz vários cursos no CECISP para complementar, porque minha primeira formaçã,o eu só tenho... fiz Biologia em Bauru(...) P1
Os professores não tinham tempo para fazer pesquisa.... o tempo integral.... e vai atrapalhar o horário norma;l e depois, tem as horas do HTPC, né?. Poderia ter explorado mais para a parte de conteúdo, trabalho pedagógico e também envolver outras escolas para ver como está sendo trabalhado. Fica preso no estudo de projeto da escola ou outras coisas, assim, que não dá tempo de trabalhar o conteúdo da própria disciplina (...) P2
Sobre os dois professores que se formaram recentemente: o professor P3 é licenciado em Física por uma universidade federal no ano de 2006; e o professor P4 formou-se em Ciências Biológicas, por uma universidade particular. Analisamos suas falas sobre a formação que tiveram ambos mostram acesso a Pesquisa em sua formação inicial, embora as condições de trabalho não lhes permitam dar continuidade as mesmas em suas atividades pedagógicas atuais. Esse fato pode ser
explicado pela consolidação da área no país, ou seja, a interferência da pesquisa hoje produzidas nos cursos de pós-graduação e introduzidas pelos professores universitários nos cursos de licenciaturas.
Eu já considerei mas...ultimamente estou utilizando menos isso. Houve uma época que eu nem procurava isso; já me vinham no cursinho... já me traziam várias situações prontas, principalmente porque a coordenadora do cursinho era responsável pelo ensino de Ciências… muitos professores titulados em ensino de Ciências, lá da UFSCAR. Então, ela trazia bastante coisa dessa área... e que eu uso de prática. O que eu usava de prática de Ciências, depois eu passei a procurar bastante... mas, por questão de tempo eu acabei nos últimos anos (...) P3
Não... Por isso eu falo: é até legal, no papel... Só que a gente não tem tempo de trabalhar isso aí numa sala de aula... A gente tem que cumprir o material didático, a gente tem que passar o conteúdo para eles, né?... tem que trabalhar exercícios, né? (...) P4
## Algumas considerações
Os resultados são parciais e analisamos apenas algumas falas de professores. Daí o cuidado de generalizar esses resultados. Ainda assim, nos discursos notamos que os professores que se formaram em décadas anteriores não tiveram praticamente acesso à pesquisa da área de Educação em Ciências como os professores formados recentemente. Um dos motivos dos docentes que ainda atuam terem mais contato com a pesquisa em sua formação pode ser consequência do crescimento da área no país, associando-se à maior divulgação de material e facilidade de acesso das novas tecnologias de comunicação, como a Internet.
Os efeitos de sentido presentes nos discursos mostram ainda o distanciamento entre a pesquisa acadêmica e sua inserção na sala de aula, que passa pela formação de professores. As políticas públicas também acabam por dificultar o envolvimento dos professores com a pesquisa. Recentemente, no caso específico do Estado de São Paulo, a necessidade de seguir currículos prontos, materiais previamente preparados, acabam por inibir a autonomia docente. Fato que, aliado à excessiva carga horária do docente, acaba por prejudicar ainda mais a adoção de experiências de ensino embasadas na pesquisa.
## 7. REFERÊNCIAS
NARDI, R. A Área de ensino de ciências no Brasil : Fatores que determinam sua constituição e suas características segundo pesquisadores brasileiros. Bauru, 2005. Tese (Livre Docência). Universidade Estadual Paulista, UNESP, Faculdade de Ciências.
NARDI, R.; ALMEIDA, M.J.P.M.; JESUS, A. C. S.; KUSSUDA, S. R. A pesquisa em ensino de Ciências e o ensino de sala de aula: memórias de professores que atuaram na últimas décadas. In: Simpósio Nacional de Ensino de Física, XVIII, Vitória, ES, Anais... 2009, CD-ROM.
ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1999.
PECHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. 3. ed. Campinas: Pontes, 1990.
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