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Violência Doméstica contra a Mulher: É um tema a ser discutido no Ensino de Física?

Letícia Barbieri Martins, Rosemar Ayres Dos Santos

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
10/11/2023
Linha de pesquisa
Equidade, inclusão, diversidade, direitos humanos e estudos culturais no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER: É UM TEMA A SER DISCUTIDO NO ENSINO DE FÍSICA?

## Letícia Barbieri Martins* 1 , Rosemar Ayres do Santos 2

1,2 Universidade Federal da Fronteira Sul, 1 leticiabmartins25@gmail.com, 2 roseayres07@gmail.com

Palavras-chave : Gênero; Violência Doméstica contra a Mulher; Ensino de Física.

A questão da Violência Doméstica contra a Mulher (VDCM) é um tema relevante nos dias de hoje. Segundo as análises de Dias (2010) e Soihet (2018), durante muito tempo, os homens exerceram um domínio de controle sobre as mulheres, com parceiros, pais ou irmãos assumindo toda e qualquer conduta realizada pela mulher. Isso conferia a eles o poder de exercer sua autoridade sobre elas, chegando ao ponto de, em alguns casos, cometerem agressões físicas. Essa violência era sustentada por crenças religiosas arraigadas, ideologias políticas e sistemas patriarcais, resultando não apenas na autoridade masculina dentro do lar, como também na posição subordinada do gênero feminino na sociedade.

Nesse viés, este estudo faz parte do resultado de uma pesquisa de trabalho de conclusão de curso, que concentrou sua investigação nas questões de gênero, com ênfase na condição das mulheres, especificamente na problemática da VDCM. Nosso objetivo principal consistiu em analisar os estudos publicados em periódicos especializados na área do Ensino de Ciências, com o propósito de compreender o escopo e as discussões relativas a questões de gênero e à VDCM nessas publicações. Isso se torna relevante, considerando que foi aprovada a Lei nº 14.164/2021 que altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), incluindo nos currículos da Educação Básica, conteúdos referentes a prevenção da violência contra a mulher (VCM). Culminando na designação do mês de março como a Semana Escolar de Combate à Violência Contra a Mulher.

Portanto, este estudo emprega uma metodologia de abordagem qualitativa, adotando uma perspectiva de ensaio teórico. Isso implica uma abordagem de natureza reflexiva e interpretativa, que valoriza aspectos relacionados às mudanças qualitativas que ocorrem nos fenômenos ou objetos analisados (MENEGHETTI, 2011).

- O corpus utilizado nesta análise é composto pelas edições da Revista Brasileira de Ensino de Física (RBEF), Revista da Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBENBIO) e Revista Virtual de Química (RVQ) desde as primeiras publicações de cada periódico até julho de 2022. A seleção do corpus se justifica por serem representativas a nível nacional, são espaços de divulgação e discussão de pesquisas no campo do Ensino de Ciências. No entanto, dado que o evento em questão é especificamente voltado para a área de Física, optamos por apresentar somente os resultados da RBEF.

A construção, definição e delimitação do corpus de análise foi realizada por meio de uma busca eletrônica que selecionou artigos dos periódicos mencionados anteriormente. Esses artigos foram escolhidos com base em critérios de seleção que exigiam a presença dos descritores "violência" e/ou "gênero" e/ou "mulher" no título, resumo ou palavras-chave. Foi dada uma atenção especial às palavras-chave

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"violence", "women", "gender", "female", "feminine", "womanly", "género", "femenino", "mujer" e "violencia" porque a revista aceita artigos em diferentes idiomas, incluindo português, inglês e espanhol.

Por meio de uma busca eletrônica, foram identificados 2.550 trabalhos na RBEF. Dentre esses, identificamos 5 artigos que continham os descritores mencionados, sendo que nenhum deles relacionado à VCM como ilustrado no Quadro 1. Três dos artigos mencionaram a subrepresentação das mulheres na Física, discutindo a disparidade de gênero no campo das ciências exatas. Um dos artigos explorou a história de Cecilia Payne, uma astrofísica britânico-estadunidense conhecida pelas suas contribuições no campo da composição estelar, particularmente no que diz respeito ao hidrogênio e hélio. Por fim, quinto artigo analisou o desempenho de estudantes do Ensino Médio em Física com base em sua identidade de gênero.

Quadro 01: Artigos selecionados

Fonte: Martins e Santos (2023).

O fato de não termos encontrado discussões específicas sobre a VDCM nos artigos do periódico da área de Física que efetuamos a busca pode estar relacionado ao fato de que as reflexões sobre as questões de gênero na história são relativamente recentes, como apontado por Hendges e Santos (2022, 2023). Somente nos dias atuais é que a baixa representação das mulheres na ciência começou a ser questionada, uma vez que, até pouco tempo atrás, muitos espaços eram predominantemente ocupados por homens. Contemporaneamente, as mulheres estão adentrando esses recintos, inclusive assumindo cargos de liderança. Essa lacuna histórica poder ser atribuída a um passado marcado pelo machismo e pelo patriarcado.

Nesse âmbito, observa-se que a VDCM recebe pouca atenção nas escolas. Mesmo se abordada, essa discussão não reflete em pesquisas publicadas no periódico da área, possivelmente, não está envolta na problematização dos conhecimentos da área no currículo escolar.

E, considerando que os documentos educacionais normativos servem como base para a elaboração dos currículos de escolas públicas e privadas, a VCM pode ser identificada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) somente no componente curricular de História do 9º ano, na seção de competências específicas e habilidades da área de ciências humanas e sociais aplicadas (Brasil, 2018). No contexto do estado do Rio Grande do Sul, onde residimos, o Referencial Curricular

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Gaúcho, documento referência para a organização curricular das escolas públicas estaduais, aborda a VCM no componente de História do 8º ano (Rio Grande do Sul, 2018) e considera um Tema Transversal no Ensino Médio (Rio Grande do Sul, 2018). Essa abordagem representa um avanço em relação a BNCC e que pode incentivar a discussões sobre o tema, inclusive em disciplinas como a Física.

Podemos perceber que as discussões relativas a questões de Gênero e VCM carece no campo do Ensino de Física, possivelmente por estar concentrado no ensino disciplinar. Portanto, a educação voltada para temas transversais e contemporâneos como esses pode contribuir para a emancipação tanto das mulheres e meninas quanto dos homens e meninos, buscando superar o presente e um passado marcados pelo machismo.

Esta revisão na RBEF tem a intenção de compreender o que está sendo discutindo a respeito das questões de gênero no Ensino de Física. O que poderá sinalizar proposições e desenvolvimento de práticas educativas que possam convergir para o debate envolvendo a VCM e as questões de gênero. Diante disso, compreendemos a necessidade de realizar trabalhos que aproximem a realidade dos estudantes e promovam o diálogo acerca da temática no conjunto educacional.

## Referências

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: Ensino Médio . Brasília: MEC/Secretaria de Educação Básica, 2018.

BRASIL. Lei Nº 14.164, de 10 de junho de 2021 . Disponível em:

https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.164-de-10-de-junho-de-2021-325357131.

DIAS, I. Violência doméstica e justiça: Respostas e desafios. Revista do Departamento de Sociologia da FLUP , Vol. XX, pág. 245-262, 2010.

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade . 17.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

HENDGES, A. P. B.; SANTOS, R. A. Obstáculos epistemológicos em livros didáticos de Física: o gênero na Ciência-Tecnologia. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 39 n. 2, p. 2022.

HENDGES, A. P. B.; SANTOS, R. A. Relations Between Gender and ScienceTechnology in Brazilian Science Teaching: What do Researches Say?. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , [S. l.] , p. e44843, 1-24, 2023.

MENEGHETTI, F. K. O que é um Ensaio-Teórico? Revista de Administração Contemporânea , Curitiba, v. 15, n. 2, p. 320-332, mar./abr. 2011.

RIO GRANDE DO SUL. Referencial Curricular Gaúcho: Ensino Fundamental , v. 1. Secretaria de Estado da Educação: Porto Alegre, 2018a.

RIO GRANDE DO SUL. Referencial Curricular Gaúcho: Ensino Médio , v. 1. Secretaria de Estado da Educação: Porto Alegre, 2018b.

SOIHET, R. Mulheres Pobres e violência no Brasil urbano . In: DEL PRIORE,M.(org). História das Mulheres no Brasil . São Paulo: Contexto, p. 362400, 2018.

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