UMA PROPOSTA PARA TRABALHAR A RELAÇÃO ENTRE FAKE NEWS E O NEGACIONISMO NA SALA DE AULA DE FÍSICA
Caroline Zamborlini Castilho De Assis, Ana Paula Damato Bemfeito, Lígia Valente De Sá Garcia
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 10/11/2023
- Linha de pesquisa
- Ciência, tecnologia, sociedade e ambiente no ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UMA PROPOSTA PARA TRABALHAR A RELAÇÃO ENTRE FAKE NEWS E O NEGACIONISMO NA SALA DE AULA DE FÍSICA
Caroline Zamborlini Castilho de Assis 1 , Ana Paula Damato Bemfeito 2 , Ligia Valente de Sá Garcia 3
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Colégio de Aplicação de Resende/carolinezamborlini@gmail.com 2 IFRJ/ana.bemfeito@ifrj.edu.br
3 IFRJ/ligia.garcia@ifrj.edu.br
Palavras-chave : Negacionismo; Ciência-Tecnologia e Sociedade; Formato da Terra.
Cada vez, se faz mais necessária a busca de intersecção dos conteúdos trabalhados na escola com prática do aluno. Não como quem segue passos de uma receita, mas como quem constrói ativamente sua aprendizagem, relacionando em experiências práticas e teóricas, que auxiliam no desenvolvimento de suas habilidades e competências. No contexto dessa proposta, que também se ancora na educação midiática, sabe-se que para se construir um enunciado capaz de receber de volta uma atitude responsiva ativa, é necessário saber e conhecer muito bem o objeto do sentido, o intuito do emissor e estabelecer um gênero de discurso.
O presente trabalho tem como objetivo propor uma abordagem sobre a relação das fake news com o negacionismo, contextualizado no questionamento do formato da Terra, que vem acontecendo em pleno século XXI, elaborando condições para que haja possibilidades de identificação de quais concepções alternativas podem surgir acerca do tema, além de buscar promover a mudança conceitual, encontrem-na perspectiva de construção de uma aprendizagem significativa. Para isso, elaborou-se uma sequência didática, que é aqui apresentada. Foi dividida em três encontros, sendo que, no primeiro, há o levantamento do conhecimento prévio dos estudantes acerca do formato da Terra e análise de duas notícias com o objetivo de identificar possíveis informações falsas ou que possam levar ao erro. No segundo encontro, os alunos são questionados sobre o porquê de as pessoas acreditarem em coisas consideradas irreais, os mesmos fazem uma pesquisa aprofundada sobre um tema controverso escolhido e apresentado, posteriormente por eles. Finalmente no terceiro encontro os alunos, através de uma aula expositiva dialógica, tem contato com vários fatos e discussões que envolvem, construção do pensamento científico acerca do formato da Terra e suas evidências. O intuito é reconhecer as possíveis e duras consequências das notícias falsas no Brasil e no mundo. Através do enfoque Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) buscamos apresentar aos alunos essa sequência didática reconhecendo suas realidades cotidiana e promovendo diálogos.
Buscamos responder porque os discursos negacionistas promovem maior atitude responsiva ativa dos seus interlocutores que a sala de aula, no nosso contexto, a de Física. Pretendemos não somente instrumentalizar os estudantes da Educação Básica, com conceitos da Física para se fundamentarem sobre a questão do formato da Terra, mas permitir que, conhecendo bem o fazer científico, os estudantes tenham a habilidade de reconhecer um discurso negacionista, como
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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física
tratar dele e com ele e, principalmente, ter ferramentas para construir sua aprendizagem baseada em Ciência.
A problemática, portanto, é como combater, em sala de aula, os negacionismos tão crescentes nos últimos anos através de retornar o olhar do estudante a construção de conhecimento através da promoção de mudança conceitual e CTS preocupada com a construção de enunciados responsivos ativos. O Projeto de Lei nº 2630, de 2020 de autoria do Senador Alessandro Vieira (CIDADANIA/SE), aprovada pelo Plenário e encaminhada à Câmara dos Deputados, normatiza à transparência das redes sociais e de serviços de mensagens privadas, responsabilizando os provedores no combate às notícias falsas, desinformação aumentando a transparência na internet tanto a conteúdos patrocinados e de ordem do poder público. Desestimulando seu uso e sua manipulação que podem, potencialmente, causar danos individuais e coletivos.
Parágrafo único. As medidas estabelecidas no caput devem ser proporcionais, não discriminatórias e não implicarão em restrição ao livre desenvolvimento da personalidade individual, à manifestação artística, intelectual, de conteúdo satírico, religioso, ficcional, literário ou qualquer outra forma de manifestação cultural. Art. 10. Consideram-se boas práticas para proteção da sociedade contra a desinformação: I -o uso de verificações provenientes dos verificadores de fatos independentes com ênfase nos fatos; II - desabilitar os recursos de transmissão do conteúdo desinformativo para mais de um usuário por vez, quando aplicável; III rotular o conteúdo desinformativo como tal; IV - interromper imediatamente a promoção paga ou a promoção gratuita artificial do conteúdo, seja por mecanismo de recomendação ou outros mecanismos de ampliação de alcance do conteúdo na plataforma. V - assegurar o envio da informação verificada a todos os usuários alcançados pelo conteúdo desde sua publicação. (BRASIL, 2020, p. 6, 7)
Sendo assim, esta proposta se define como uma atividade investigativa compondo uma sucessão de etapas que propõem aos estudantes os fundamentos e aspectos necessários para a interpretação de informação de caráter negacionista e conhecimento de evidências que apontam para o formato da Terra. Com os objetivos de apresentar através do conceito de enunciado as intrínsecas relações entre língua, forma de pensar e poder presentes em nossa sociedade, aprofundando na análise do discurso de notícias e manchetes baseadas em fato e mentiras problematizando as consequências do grande alcance das fake news na sociedade. Promover leitura crítica, participação cidadã e produção textual para o exercício da educação midiática. Promover um diálogo acerca do método científico e a construção de pseudociências. Adquirir noções sobre óptica geométrica através dos eclipses. Identificar a relação de notícias falsas com o modelo da terra plana.
A aplicação ocorreu em uma escola privada na região Sul Fluminense do estado do Rio de Janeiro na cidade de Resende. Cidade que abarca a Academia Militar das Agulhas Negras. Naturalmente, a cidade é muito influenciada pelo militarismo bem como algumas escolas também o são. O trabalho teve início no mês de maio de 2023 e foi finalizado no mês de julho em duas turmas de 1º ano do ensino médio, uma turma contendo 32 alunos e outra 37, no total 69 alunos.
Percebeu-se que os alunos antes da aplicação do produto conheciam pouquíssimas ou nenhum elemento de discurso para a defesa do formato esférico da Terra, ao responderem o formulário sobre fake news se mostraram engajados quanto ao tema, no sentido de saberem descrever o que é e quais limites de seu uso, no entanto, após a aplicação, algumas opiniões mudaram. A mudança que
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pode-se dizer satisfatória foi acerca da utilização das fake news para beneficiar um posicionamento crítico. No entanto, fica explícito que, para que seja possível promover mudança conceitual, um tempo de maior de trabalho é necessário, pois segundo
Moreira (1992), analisando a mudança conceitual à luz das teorias de Ausubel, Novak e Gowin, diz que mudança conceitual no sentido de adotar a concepção científica e abandonar a alternativa é muito difícil, pois as concepções alternativas são produto de aprendizagem significativa, ou seja, são ideias que têm significado para o aluno. Desse modo, a mudança conceitual implicaria a aquisição significativa de novos significados e, ao mesmo tempo, o abandono de outros significados que também são resultados de aprendizagem significativa, o que, certamente, não é um processo trivial. Para ele, a ênfase do Ensino de Ciências deve ser posta na aprendizagem significativa dos significados compartilhados no contexto científico. Assim, a mudança conceitual, uma consequência natural dessa ênfase, não é o abandono de significados alternativos, mas o adquirir consciência de que tais significados são errôneos no contexto científico. (PEDUZZI, 1988, p. 67, 68)
Discutir as consequências das notícias falsas foi o momento mais delicado, onde é inevitável perceber a influência de posições políticas, tendo em vista que muitos estudantes reproduzem as ideias dos seus responsáveis que, em diversos momentos, se mostram de perfil mais conservador. Porém, mesmo nesse cenário, muitas notícias os impactaram. Principalmente, a do caso que ocorreu em Guarujá, quando uma mulher de nome Fabiana Maria de Jesus foi confundida com um retrato falado, retirado de contexto, alegando que a mulher do retrato falado estava raptando crianças. Fabiane Maria de Jesus foi confundida e espancada até a morte, de forma muito violenta, pela comunidade que alegava medo em relação à segurança dos filhos e assim justificava o porquê de cometeram tal ato. Fabiane é considerada a primeira morte por fake news registrada no Brasil. Os alunos se mostraram desacreditados no início, mas vendo que ocorreu realmente, em choque ficaram. Nesse instante, se mostraram mais abertos, inclusive para discutir outros assuntos sensíveis.
Os estudantes, ao fim, conseguiram defender com argumentos científicos o formato esférico da Terra, em uma atividade manuscrita ao fim dos encontros, o que não conseguiram explicar quando foram indagados ao início dos encontros. Inclusive, alguns estudantes informaram terem mostrado alguns pontos estudados em aula para pais que se consideram terraplanistas.
## Referências
BRASIL. PL 2630, 2020. Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet . Senado Federal, Distrito Federal, Brasília, p. 6, 7.
PEDUZZI, L.0.Q., As concepções espontâneas, a resolução de problemas e a História e Filosofia da Ciência em um curso de Mecânica . Adrianópolis, 1988. Tese de doutorado - UFSC.
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