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ENSINO DE FÍSICA E DIVERSIDADE RELIGIOSA: POSICIONAMENTO DE LICENCIANDOS FRENTE ÀS IDÉIAS RELIGIOSAS DOS ALUNOS

Hernani L. Azevedo, Eder P. Camargo

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIII
Ano
2011
Data
06/06/2011
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## ENSINO DE FÍSICA E DIVERSIDADE RELIGIOSA: POSICIONAMENTO DE LICENCIANDOS FRENTE ÀS IDÉIAS RELIGIOSAS DOS ALUNOS

## PHYSICS TEACHING AND RELIGIOUS DIVERSITY: POSITIONING OF FUTURE TEACHERS TOWARDS RELIGIOUS IDEAS OF STUDENTS

## Hernani Luiz Azevedo 1 , Eder Pires de Camargo , 2

- 1 Universidade Estadual Paulista (UNESP), hernaniazevedo@yahoo.com.br

## Introdução

- O ser humano sempre se perguntou sobre a origem do Universo. Como tudo haveria começado? Dentre as respostas mais antigas a esta questão, estão as explicações vinculadas a religiões e culturas antigas. A partir do século XVII, com o nascimento da ciência moderna, surgiu uma expectativa de que a ciência seria capaz de responder de forma cabal a essa questão. Estariam as respostas provenientes das tradições culturais fadadas à extinção, cedendo definitivamente lugar às confiáveis respostas científicas? Esta questão se apresenta no dia a dia de qualquer professor de física, que, mesmo inconscientemente, acaba tomando um posicionamento quanto a ela, quando da abordagem em sala de aula de uma teoria científica para a qual existe um modelo não científico na sociedade. No entanto, até que ponto o professor pode transmitir sua perspectiva pessoal a seus alunos? Ele deve permitir que seus alunos exponham e discutam suas próprias convicções sobre o tema? Abordar somente o científico seria uma boa saída?
- O presente trabalho procurou retratar essa problemática e apresentar uma perspectiva de abordagem baseada nas idéias do filósofo alemão Jürgen Habermas, e em seus princípios da Ação Comunicativa . Para Habermas, vivemos num período no qual se constatam duas tendências contrárias: a proliferação de imagens de mundo naturalistas e a influência política crescente de ortodoxias religiosas (HABERMAS, 2007, p.8). Segundo ele:
- '...quando nenhuma das duas tendências que caminham em sentido contrário está disposta à auto-reflexão, suas respectivas polarizações das imagens de mundo colocam em risco, cada uma à sua maneira, a coesão da comunidade política. [...] O etos do cidadão liberal exige, de ambos os lados, a certificação reflexiva de que existem limites, tanto para a fé como para o saber' (HABERMAS, 2007, p.8).

Avaliando essa possível polarização da 'cultura política', Habermas explicita os riscos da adoção de políticas equivocadas sobre o tema em questão, e isto inclui as políticas educacionais. Para Habermas, idéias e perspectivas advindas de tradições religiosas tem passado a receber um recente reconhecimento por possuírem um arcabouço de sentidos, que podem servir para direcionar algumas questões na sociedade. Tais proposições poderiam vir a ser acessíveis (compreensíveis, aceitáveis) também aos cidadãos seculares (e não apenas aos religiosos). Para tanto, seria necessário que todos os cidadãos estivessem dispostos a discutir tais proposições. Ou seja, que todos estivessem dispostos a se arriscarem

em debates públicos, com a finalidade de compreensão mútua. Tais debates, no entanto, não deveriam ser meras disputas, nas quais cada interlocutor busca apenas mostrar 'que possui a razão', custe o que custar, para sair-se 'vencedor' do debate. Antes, deveriam ser discussões norteadas pelas regras da Ação Comunicativa , por meio das quais se busca, via a apresentação de bons argumentos (acessíveis a todos) um entendimento sobre o tema. São quatro as regras gerais de uma discussão deste nível, segundo a Ação Comunicativa: Inclusividade ; Distribuição simétrica das liberdades comunicativas ; Condição de franqueza e Ausência de constrangimentos externos ou que residem no interior da estrutura da comunicação . Dizemos que os interlocutores capazes de manter uma discussão nestes termos estão bem capacitados comunicativamente, ou detêm uma competência comunicativa . Desta forma, a consciência pública poderia abranger tanto mentalidades religiosas como não religiosas, transformando-as, reflexivamente.

No entanto, é possível identificar, na comunidade educacional, evidências de uma abertura a esse diálogo? Estamos capacitando nossos futuros professores a transmitirem seu conhecimento respeitando os pressupostos culturais e religiosos dos alunos? O presente trabalho de pesquisa visou responder a questões similares, no entanto, em um caso mais específico: o do professor de Física na abordagem do tema 'Origens do Universo'. Tal tema foi escolhido em virtude de tratar de um tópico que inter-relaciona questões científicas e temas religiosos, e consta no currículo da maioria das escolas secundaristas do país.

## A Pesquisa

Buscando lançar luz sobre estas questões, realizamos uma pesquisa na qual entrevistamos licenciandos do curso de Física, formandos de 2010, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Ilha Solteira. Ao todo, 9 licenciandos foram encontrados nestas condições. Avaliamos as posturas tomadas por tais licenciandos diante de modelos não científicos (religiosos) apresentados por alunos do ensino médio sobre as origens do Universo. Buscamos identificar, principalmente, a expectativa que tais professores demonstravam quanto à contribuição (ou não) do levantamento de tais modelos durante a aula por parte dos alunos. Optamos por entrevistar alunos do curso de Física de Ilha Solteira, entre outros motivos, por se tratar de um curso exclusivo de licenciatura, de modo que a maior perspectiva de atuação profissional dos graduandos que concluem tal curso é, pelo menos em princípio, a docência. Outro motivo relevante para a escolha deste curso específico é a introdução que é realizada, nas disciplinas de Educação oferecidas para a licenciatura em Física, de princípios da Teoria Crítica e da Ação Comunicativa, em virtude de boa parte dos professores que ministram tais disciplinas participarem de grupo de estudo nos quais são discutidas tais correntes filosóficas.

A pesquisa realizada pode ser classificada como de ordem qualitativa , pois se caracteriza pela descrição, compreensão e interpretação de fatos e fenômenos, em contrapartida à pesquisa quantitativa, onde predominam mensurações (MARTINS, 2008, p.11). O tipo de entrevista realizada foi do tipo semi-estruturada, categoria na qual a entrevista se desenrola partindo de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, de modo que o entrevistador faça as necessárias adaptações (LÜDKE e ANDRÉ, 1986, p. 34). Aos futuros professores foram apresentadas 7 questões (escritas em uma ficha), uma de cada vez, e suas respostas foram registradas por meio de um gravador e posteriormente transcritas.

As questões versavam sobre situações hipotéticas, nas quais se perguntava sobre a atitude que o futuro professor tomaria diante de tentativas dos alunos de comentarem sobre modelos de origem religiosa em sala de aula. Para análise das respostas do questionário, fizemos uso de procedimentos associados à Análise Categorial, técnica pertencente à Análise de Conteúdo , que Laurence Bardin define como um conjunto de técnicas de análise das comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos na descrição do conteúdo das mensagens (BARDIN, . 1977, p. 40).

## Resultados e Discussão

Todos os licenciandos procuraram apresentar tolerância quanto à presença de um dissenso nas idéias dos alunos quanto às origens do universo. Eles se mostraram contrários a qualquer tipo de opressão, por parte do professor, no sentido de fazer seus alunos acreditarem em determinado modelo. Esta simples atitude de tolerância, entretanto, ainda não constitui, para Habermas, uma postura que promova uma busca conjunta de soluções para questões da sociedade. Dois licenciandos afirmaram não ver com bons olhos a manifestação de alunos quando estes tentam falar sobre modelos de origem religiosa, e julgam que na sala de aula só deve haver espaço para exposição e discussão do modelo científico. A maioria dos licenciandos, no entanto, demonstrou acreditar que qualquer aluno deva ter a oportunidade de falar sobre suas concepções pessoais e revelou acreditar que a manifestação das concepções de origem religiosa por parte dos alunos poderia trazer contribuições para a discussão de uma forma geral. Como exposto na introdução, esta última perspectiva, da qual compartilha a maior parte dos licenciandos, harmoniza-se com a perspectiva habermasiana. Quanto à formação, todos foram unânimes em afirmar que na graduação não foi discutido este tema específico (relação ciência/fé). Disso decorre um dado interessante: mesmo sem ter discutido especificamente este tema na graduação, a maior parte dos alunos se posicionou, como vimos, por uma atitude comunicativa frente às idéias religiosas dos alunos. Tal observação aponta no sentido de que a utilização de referências da Teoria Crítica e de elementos da Ação Comunicativa por parte de professores da Educação do curso de Ilha Solteira tem gerado uma apropriação por parte dos licenciandos destes referenciais, e, em decorrência, tais alunos passam a estender sua utilização para todos os tipos de discussão, inclusive a inter-religiosa. Donde concluímos que a utilização de elementos da Ação Comunicativa em disciplinas de cursos de formação de professores reflete impactos positivos na atitude comunicativa de futuros professores frente à religiosidade de seus alunos.

## Referências Bibliográficas

BARDIN, L. Análise de conteúdo . Lisboa: Edições 70, 2009.

BOGDAN, R. BIKLEN, S. Investigação qualitativa em educação . Porto: Porto Editora, 1994.

HABERMAS, J. Entre naturalismo e religião . Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.

LÜDKE, M. e ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas . São Paulo: EPU, 1986.

MARTINS, G. A. Estudo de caso: uma estratégia de pesquisa . São Paulo: Atlas, 2008.

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