IDENTIFICAÇÃO DE ASPECTOS DISCURSIVOS RELACIONADOS AO FENÔMENO CULTURAL DO MISTICISMO QUÂNTICO NA MÍDIA SOCIAL FACEBOOK
Bruna Karl, Isabel Martins
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 10/11/2023
- Linha de pesquisa
- Cultura, linguagem e cognição no ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## IDENTIFICAÇÃO DE ASPECTOS DISCURSIVOS RELACIONADOS AO FENÔMENO CULTURAL DO MISTICISMO QUÂNTICO NA MÍDIA SOCIAL FACEBOOK
## Bruna Karl 1 , Isabel Martins 2
- 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro/Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde, brunakarl@outlook.com
- 2 Universidade Federal do Rio de Janeiro/Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde, isabelgrmartins@gmail.com
Palavras-chave : Pseudociência; Educação em Ciências; Ensino de Física.
## Resumo expandido
O presente trabalho representa uma síntese dos resultados de uma pesquisa de mestrado sobre postagens na mídia social Facebook que fazem referência a elementos da Física Quântica (FQ). De forma geral, dialoga com pesquisas que investigam aspectos da circulação de discursos relacionados à ciência na sociedade e suas repercussões na construção de entendimentos e posicionamentos por parte de não especialistas. À vista disto, nos questionamos: existem aspectos discursivos típicos no misticismo quântico que são recorrentes nas postagens realizadas no Facebook? E, traçamos como objetivo compreender as formas pelas quais discursos relacionados ao misticismo quântico presentes nesta mídia social estão discursivamente aproximados de práticas pseudocientíficas.
Para isto, é relevante que discutamos sobre este fenômeno cultural e as suas aproximações com a pseudociência. Contemplar o fenômeno do misticismo quântico como um fenômeno social decorrente de representações sociais e apropriações culturais do conhecimento científico explora aspectos das relações entre ciência e sociedade. Neste sentido, é importante que compreendamos a natureza das palavras e a intencionalidade das pessoas que compõem diferentes comunidades, cujo objetivo é promover ideias - distorcidas ou - relacionadas à FQ, além de (re)significar os argumentos que aproximam a FQ ao misticismo (SAITO, 2021).
- O misticismo quântico que podemos observar na última década acaba adulterando os sentidos nos quais os conceitos da FQ foram construídos, utilizandoos para outros campos de estudos que não sejam relacionados somente à física. A atribuição do qualificador quântico a produtos comerciais, por exemplo, os confere certo grau de confiabilidade. Além disso, a utilização deste qualificador pode, em determinados contextos, estimular argumentos com - falsa - autoridade científica, se remetendo à FQ como uma verdade incontestável, que é fruto de um conhecimento específico cuja compreensão se restringe às pessoas que se disponibilizam a estudála (SAITO, 2021).
Isto proporciona um cenário propício para a pseudociência, haja vista que esta é marcada por obtenções de vantagens de conhecimentos científicos para a promoção de teorias adjacentes às científicas sobre proposições de caráter empírico. Acontece, também, neste fenômeno, a recusa por mudanças de crenças, mesmo quando há evidências críticas metodológicas ou refutatórias promovidas por cientistas
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(MCINTYRE, 2019). Além disso, a produção de conhecimento na pseudociência não considera os métodos e rigores científicos como parâmetros para atingir graus de confiabilidade, mas se utiliza de técnicas (não) científicas para construir narrativas que tentam convencer a população de que possuem rigores científicos (LEE, 2002).
A metodologia desta pesquisa foi inspirada na netnografia descrita por Kozinets (2010). Para este autor, a netnografia é um campo de pesquisa participante e observacional que se situa em um cenário virtual, ou seja, a investigação acontece de forma online mediada por dispositivos computacionais como fontes de dados que levam tanto ao entendimento quanto à interpretação etnográfica de um determinado fenômeno, seja ele comunitário ou cultural. Entretanto, é preciso reconhecer que os instrumentos para coleta de dados podem sofrer algumas adaptações para que sejam profícuos à pesquisa. Desta forma, ressalta-se o papel do pesquisador e do uso da computação para a realização de pesquisas que visem à compreensão da complexidade de métodos de coletas de dados e de suas triangulações presentes na diversidade de fontes de informação online (KOZINETS, 2010).
A pesquisa netnográfica demanda cinco etapas. São elas: (i) definição de questões de pesquisa, sites e/ou temáticas a serem pesquisadas; (ii) identificação e seleção da comunidade; (iii) observação participante da comunidade e coleta de dados; (iv) análise dos dados e interpretação interativa das descobertas; e (v) escrita, apresentação e relato dos resultados da pesquisa, das implicações teóricas e/ou das implicações políticas (KOZINETS, 2010).
Seguindo estes passos, e para definição do corpus , delimitamos nossa busca em páginas publicadas em português e no cenário brasileiro, nas subseções que organizam e permitem recuperar as postagens no Facebook por meio da identificação dos qualificadores 'Quântico' e 'Quântica' nas diversas postagens, utilizando a funcionalidade 'pesquisa' da plataforma. Os resultados das buscas são organizados de acordo com os filtros: 'Tudo', 'Publicações', 'Pessoas', 'Fotos', 'Vídeos', 'Marketplace', 'Páginas', Locais', 'Grupos' e 'Eventos'. Acessamos cada um destes, visualizando as postagens, observando comentários e reações dos participantes, mas sem interagir diretamente por meio de comentários ou curtidas. Optamos por utilizar para esta investigação os vídeos. Inicialmente mantivemos todos os resultados encontrados e adotamos como critérios de exclusão: (i) idioma o não ser o português; (ii) o tema não incluir referência a conceitos de FQ; (iii) o vídeo não possuir descrição; e (iv) não ser vídeo repetido.
Após a aplicação destes critérios, obtivemos um retorno de 73 vídeos e catalogamos os resultados obtidos em planilhas do Excel de acordo com as informações fornecidas pela plataforma de busca do Facebook: 'título', 'descrição', 'duração', 'publicado por', 'data de publicação' e 'visualizações'. Para a composição deste resumo, foram selecionadas as descrições destes vídeos que visassem a mobilização, por meio da utilização dos qualificadores 'Quântico' e 'Quântica', de argumentações embasadas em aspectos (pseudo)científicos.
Nossos resultados e discussões revelam que estas descrições contemplam aspectos discursivos relativos: (i) ao ativismo: chamamento para ação social (ex: convocação para ação individual que proporciona retornos coletivos); (ii) à ciênciatecnologia: vocabulário especializado, referências a obras e a cientistas, menções a desenvolvimentos tecnológicos etc.; (iii) ao cotidiano: expressões coloquiais, gírias, mistura de tratamento, discurso direto etc.; (iv) ao desenvolvimento pessoal: indícios de possibilidades de melhorias no desenvolvimento da vida pessoal; (v) à educação:
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exposição de vocabulário específico do âmbito educacional (ex: 'palestras', 'módulos', 'certificado'); (vi) à história: mobilização de aspectos histórico-geográficos; (vii) ao marketing: apresentações, depoimentos, marcas de discurso persuasivo, uso de imagens, menção a 'vantagens' etc.; (viii) ao pessoal: apresentação de questões de âmbitos pessoal e comportamental (ex: 'você pode alterar a sua realidade'); (ix) às redes sociais: marcas do tipo 'curte', 'comenta', 'compartilha' etc.; (x) religião: menções a entidades religiosas ('Deus'), práticas religiosas ('fé', 'xamanismo') e livros religiosos ('bíblia', 'versículo bíblico'); e (xi) à saúde: menções específicas a palavra 'saúde' e de aspectos relativos aos cuidados com o corpo humano seja a nível físico e/ou mental, mas a nível individual (ex: 'saúde', 'doenças', 'cura').
As aproximações entre as descrições e a pseudociência aconteceram em todas as análises e revelam algumas proposições características dos discursos místicos quânticos com: (i) aplicações do misticismo quântico, acerca da ideia da Teoria Quântica ser o paradigma do milênio; (ii) possibilidade de criação da própria realidade; (iii) utilização de perspectivas acríticas de ciência; (iv) apelo à representação social e às apropriações culturais nas relações entre ciência e sociedade articuladas com a divulgação em mídias sociais; (v) fundamentação da FQ em terapias alternativas; (vi) atribuições do qualificador 'Quântico(a)' em situações nas quais almeja-se atribuir graus de confiabilidade; (vii) desenvolvimento de relações entre os fenômenos de natureza quântica e a consciência humana; (viii) ressignificação e reinterpretação do conhecimento científico acerca da Teoria Quântica; (ix) compartilhamento exacerbado de informações errôneas e/ou equivocadas sobre a FQ; e (x) obtenção de vantagens do conhecimento exclusivamente científico para formulação de proposições adjacentes.
Como considerações finais, temos que os discursos referentes aos qualificadores 'Quântico' e 'Quântica' no Facebook são, em sua maioria, pseudocientíficos, pois se embasam em vantagens obtidas de conhecimentos científicos para formulação de teses aquém daquelas produzidas pela própria ciência, satisfazendo os interesses intrínsecos aos autores das descrições dos vídeos. Além disso, estes textos das descrições se utilizam de discursos não científicos para tentativa de convencimento da população de que a aplicação da FQ no cotidiano é possível e profícua, se utilizando de aspectos discursivos relativos a diferentes áreas de conhecimento, e não somente à ciência.
## Referências
KOZINETS, Robert V. Netnography : Doing Ethnographic Research Online. London: Sage, 2010.
LEE, Paulo Sen. Ciências naturais e pseudociências em confronto : uma forma prática de destacar a ciência como atividade crítica e diminuir a credulidade em estudantes do Ensino Médio. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, UFSC, Florianópolis, 2002.
MCINTYRE, Lee. The scientific attitude : defending science from denial, fraud, and pseudoscience. Cambrigde: MIT Press, 2019.
SAITO, Marcia Tiemi. O Fenômeno Cultural do Misticismo Quântico: possibilidades e perspectivas de investigação. Revista Brasileira de Ensino de Ciências e Matemática , v. 4, n. 3, 2021.
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