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A REAFIRMAÇÃO DO LUGAR SOCIAL DE QUEM USA DROGAS: UM CONVITE À REFLEXÃO

Samantha Jully Mesquita Gonçalves

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
10/11/2023
Linha de pesquisa
Equidade, inclusão, diversidade, direitos humanos e estudos culturais no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A REAFIRMAÇÃO DO LUGAR SOCIAL DE QUEM USA DROGAS: UM CONVITE À REFLEXÃO

## Samantha Jully Mesquita Gonçalves 1

1 Universidade Federal de Minas Gerais, samanthajullymg@gmail.com

Palavras-chave :

Drogas; Escola; Opressões.

## Resumo expandido

Este trabalho relata e reflete sobre a experiência de 3 licenciandos em Física, participantes do projeto Residência Pedagógica (RP) financiado pela Capes, que se deu a partir da atuação em uma escola estadual, onde é ofertado o ensino médio noturno nas modalidades Regular e Educação de Jovens e Adultos (EJA). A instituição se localiza na periferia da capital de Minas Gerais, sendo esta uma região afastada do centro de Belo Horizonte. O corpo estudantil dela é composto por adolescentes, jovens e adultos majoritariamente negros.

Ao longo de aproximadamente dois meses, a RP se deu pelo acompanhamento das aulas de física através de observações e regências específicas planejadas para os 1º s e 2º s anos de ambas modalidades. Para esta ocasião, optou-se por ressaltar alguns fatos e percepções do corpo escolar sobre o consumo de drogas. Sabe-se que dentro do imaginário social, o conceito de 'droga' frequentemente se reduz a questões de saúde e segurança públicas, o que desde já evidencia o caráter a-histórico da interpretação, pois desconsidera aspectos sociais, econômicos e culturais (JÚNIOR, 2022, p. 79). Nesse sentido, alguns questionamentos, posicionamentos e ações originários das partes do corpo escolar foram analisados e indicam a reafirmação do lugar social de quem utiliza drogas.

Na aula introdutória da sequência de óptica, realizada na turma do 2º EJA, houveram curiosas questões trazidas pelos estudantes, o que demonstrou a naturalidade com que eles atuaram como mediadores entre a temática e sua particular realidade (FREIRE, 1987, p. 120). No momento em que o assunto abordado era espectro eletromagnético, a explanação acompanhada da apresentação de uma lâmpada que emite no intervalo do ultravioleta deu oportunidade à pergunta, vinda de um estudante: 'essa luz aí ajuda no cultivo de maconha?'.

Na semana seguinte, o cancelamento do segundo turno de aulas, incluindo a do 2º EJA, propiciou que os professores se expressassem e se organizassem a respeito de questões indisciplinares urgentes na escola. Um dos profissionais sugeriu que fosse requisitada a presença da polícia para "dar uma prensa" nos estudantes e relatou ter visto alguns deles se encontrando na escola para ir a uma praça próxima usar drogas. Além disso, tanto nos corredores quanto na sala de aula foram vistos grupos de estudantes construindo cigarros.

As pessoas que fazem uso de drogas, seja recorrente ou não, ocupam diferentes posições na sociedade. Embora os prejuízos individuais e coletivos relacionados à utilização sejam reconhecidos na esfera federal por meio de políticas

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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física

públicas dedicadas ao amparo à população usuária (BRASIL, 2003-2019, apud OLIVEIRA, 2021, p. 82-83), a realidade social não é homogênea conforme sugerido nos documentos. Segundo Ribeiro e Nascimento,

o fato desse fenômeno envolver vários fatores determinantes, em especial os econômicos e sociais, faz com que as estratégias de cuidado sejam diferenciadas conforme o usuário, no que se refere, sobretudo em relação à sua origem (segmento da sociedade), condição de maior ou menor vulnerabilidade e origem racial e étnica. (2020, apud OLIVEIRA, 2021, p. 82).

É evidente que o racismo estrutural e estruturante reforça a estigmatização e superficialidade do debate não apenas na esfera pública, como principalmente a nível social, científico e educacional. A realidade brasileira, dada a colonização e escravização, vem intensificando hierarquias, reafirmando lugares e estereótipos sociais a partir da divisão em grupos. Alguns deles foram definidos por características fenotípicas e culturais, como cor, raça e etnia, ao mesmo tempo em que há a atribuição de inferioridade aos sujeitos que diferem da hegemonia branca e masculina. As desigualdades desenvolvidas historicamente aprofundaram a homogeneização da sociedade ao ponto de criar e exportar o mito da democracia racial, advinda da miscigenação (GONZALEZ, 2020, p. 41). Esse processo até hoje contribui para a higienização e apagamento social, o que dá seguimento ao projeto de nação brasileira descolado da realidade, uma vez que continuam não sendo reconhecidas, ao mesmo tempo que valorizadas, as diferenças encontradas por todo o Brasil.

Institucionalizadas as opressões, inclusive dentro das universidades, qualquer trajetória profissional ainda reforça, sem trabalho, a hegemonia vigente, afinal, o trabalho está em realizar o movimento contrário. Embora sejam notadas consequências relacionadas ao uso de drogas no período de formação básica dos cidadãos, como indicam dados sobre a queda do rendimento escolar (SILVA et al, 2021, p. 5), nota-se também um despreparo generalizado do corpo pedagógico para lidar com esse fato quando interseccionado, em especial, pelos fatores raça, etnia e classe econômica. Isto revela, possivelmente, a inexistência e insuficiência deste debate na formação profissional, ou ainda, graus de resistência e dificuldade em tomar decisões orientadas à radical transformação que carece não só a educação, como a sociedade no geral.

Sendo assim, as reflexões e ações a serem tomadas pelo corpo pedagógico requerem um posicionamento crítico perante o uso de drogas por estudantes nas escolas. Quem está usando a substância? Qual é o lugar social atribuído a esta pessoa? Essas perguntas se mostram pertinentes, pois, apesar dos prejuízos na saúde e a queda no rendimento escolar serem relevantes na tomada de decisões, os aspectos socioculturais e econômicos particulares do contexto devem ser analisados conjuntamente. A falta de sentido nos estudos, os problemas familiares e a baixa oportunidade de emprego são alguns dos motivos pelos quais estudantes buscam nas drogas algum grau de conforto para suas vidas. Crianças, adolescentes e jovens periféricos podem encontrar a possibilidade de autoafirmação dentro da dinâmica não só do uso de drogas de maneira individual ou em grupo, como também na participação de gangues e inserção no narcotráfico. Pessoas que não acessam dignamente a educação e outros serviços básicos, como o de moradia, saúde e remuneração, são as mais expostas às situações de vulnerabilidade, incluindo a utilização de drogas.

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Nesse sentido, a postura assumida por alguns profissionais revela como a política antidrogas, promovida desde o século passado, construiu, de fato, o lugar do usuário. Conforme Ribeiro e Nascimento argumentam,

como resultado de uma política baseada no medo e no pânico geral para combater esta 'guerra', tem-se a violência policial, encarceramento em massa, genocídio da população negra, prisões por porte e tráfico de drogas, explicitando o racismo institucional e, nos levando a refletir sobre como algumas políticas públicas ainda se pautam em ideais higienistas de limpeza urbana e social (2020, apud OLIVEIRA, 2021, p. 86).

Pelo exposto e retomando a situação específica da experiência inicialmente compartilhada, se faz necessária a ampliação do debate crítico acerca da tomada de decisões perante a utilização de drogas por estudantes da periferia. Esta não é uma tarefa simples, uma vez que muitas outras responsabilidades educacionais e sociais também recaem sobre os profissionais da educação. Junto a isso, na reunião mencionada, foi evidente como o desânimo, a desesperança e a exaustão são angústias presentes no discurso do corpo pedagógico. Cabe mencionar que a falta de investimento educacional e as atuais mudanças curriculares impostas, principalmente, pelo Novo Ensino Médio, reiteram as dificuldades.

Apesar da dura realidade, é somente refletindo, acreditando e construindo a mudança, através do trabalho em conjunto, que vamos transformá-la. O interesse do estudante pela óptica relacionada com realidade dele apontou um caminho possível para a sequência didática: o da metodologia histórico-crítica. Infelizmente não houve tempo para que assim sucedesse, devido ao calendário escolar. Ainda, a interação proporcionada pela RP tornou possível esta pertinente e atual reflexão, a qual optamos por compartilhá-la, afinal, esta reflexão se dando como reflexão verdadeira, nos conduzirá à prática libertadora (FREIRE, 1987, p. 73).

## Referências

FREIRE, Paulo. 1987. Pedagogia do oprimido . 73. ed Rio de Janeiro | São Paulo: Paz e Terra. 256 pp. ISBN 978-85-7753-418-0.

GONZALEZ, Lélia. 2020. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano: Ensaios, Intervenções e Diálogos. Rio Janeiro: Zahar. 375 pp.

JUNIOR, Francisco Marcio. Percepções dos coordenadores pedagógicos sobre o uso de drogas entre estudantes da Educação de Jovens e Adultos numa escola pública do Distrito Federal . ATÂTÔT | Anápolis, v. 3, n. 1, p. 74-98, jan./jun., 2022.

OLIVEIRA, Márcia A. F. de; et al. 2021. Uso de substâncias psicoativas por crianças e adolescentes negros: drogas lícitas e ilícitas . In: Barros, Sônia. Atenção psicossocial a crianças e adolescentes negros no SUS: caderno de textos. São Paulo: EEUSP, 2021. p. 81-91.

SILVA, Camila Victória Pereira da; et al. Consumo de drogas e rendimento escolar: uma revisão integrativa . Recima21 - Revista Científica Multidisciplinar, 2021. ISSN 2675-6218. e211965. Disponível em <https://doi.org/10.47820/recima21.v2i11.965>.

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