ANÁLISE DE DESENHOS SOBRE O TEMA ''UMA AULA DE FÍSICA": concepções de futuros docentes
José Ricardo Da Silva Alencar
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 06/06/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ANÁLISE DE DESENHOS SOBRE O TEMA 'UMA AULA DE FÍSICA': concepções de futuros docentes
## José Ricardo da Silva Alencar 1
1 UEPA/DMEI, jrsalencar@ig.com.br
## Introdução
Discute-se algumas concepções de docentes de Física na fase final da graduação a partir de desenhos feitos pelos mesmos, relacionados ao tema 'uma aula de Física'. Ao investigar tais percepções estamos buscando inferir elementos formativos para os docentes diante das demandas atuais para o ensino de Física.
Quando os professorandos chegam ao final de sua formação inicial trazem consigo entendimentos sobre como deve ser um momento de ensino de Física, ou seja, eles possuem idéias, representações, de como deve acontecer uma aula de Física: o local onde ocorre, a disposição dos alunos, suas reações, 'pensamentos', a postura do professor, o material didático a ser utilizado. Mesmo antes de ensinar, os futuros professores já construíram várias idéias de como ensinar.
Justifica-se esta pesquisa pelo entendimento de que os docentes de Física podem ampliar discussões relacionadas a concepções de ensino e a projeção de elementos da personalidade e de áreas de conflitos na formação docente. Salinas de Sandoval et al . (1995), dentre outros, assinalam que há evidências consideráveis de que entre os fatores importantes que determinam as atitudes em relação à Física e em relação à sua aprendizagem por parte dos estudantes, está a imagem que o professor possui e transmite, mesmo inconscientemente, sobre a natureza da disciplina e, portanto, da forma como se ensina, onde se ensina.
## Referências da utilização de desenhos
A utilização de desenho tornou-se um dos recursos ao qual se pode recorrer como auxiliar da análise psicológica da praxe seja na empresa, indústria, clínica ou, sobretudo, na escola. O desenho pode projetar a imagem do pensamento; usualmente compõe uma gama de projeções relacionadas ao autoconceito, a imagem ideal de si e as atitudes para com os outros, mesmo com o examinador na situação da testagem. O uso do desenho pode ser uma expressão consciente, como também incluir símbolos disfarçados e fenômenos inconscientes (CAMPOS, 1999).
A compreensão em Derdyk (1989) indica que o desenho é uma linguagem e tem papel importante tanto no desenvolvimento da capacidade cognitiva como também na criatividade e expressão das emoções e percepções da realidade. Forma primitiva de comunicação que, com o tempo, foi substituída pelas palavras, o desenho é uma das manifestações semióticas - uma das formas através das quais a função de atribuição da significação se expressa e se constrói (PIAGET, 1973).
Compreende-se, pela perspectiva de Vygotski (1998), que o desenho é uma forma de expressão da imaginação criadora do homem. No processo de elaboração do desenho também está presente a imaginação, pois a observação da realidade é o registro desta naquilo que é significativo, sendo os diversos recortes dessa realidade combinados imaginativamente e objetivados no desenho. É possível, portanto, expressar a visão de mundo, emoções, necessidades e preocupações.
## Metodologia da pesquisa
Os sujeitos são futuros professores de Física de uma Universidade do Pará em fase final da graduação em Licenciatura em Física. Em uma aula de estágio supervisionado, foi pedido aos sujeitos que desenhassem uma aula de Física. Deixou-se livre o que desenhar, o como e o porquê. Após isso, expuseram suas criações e relataram sobre a obra. O tema foi sobre o que seria uma aula de física.
Os desenhos foram feitos à mão livre, sem a necessidade de uso de régua ou objetos que sirvam a esta função, numa folha de papel A4 para permitir a liberdade da utilização de caneta ou lápis.. A folha de papel em branco representa o mundo externo do indivíduo (PICCOLO, 1995).
A análise dos desenhos foi feita a partir de debates gerados por perguntas do docente do estágio e dos seus alunos emergidas após a 'exposição' dos desenhos para todos na classe durante a realização da dinâmica referida acima. As análises centram-se na caracterização da concepção de ensino preponderante na representação figural. Esta metodologia foi aplicada em 4 turmas, totalizando 45 sujeitos investigados. A maioria foi do sexo masculino, variando entre 22 a 45 anos.
## A exposição dos desenhos: momento de desvelar e refletir
Ao realizar a análise dos desenhos foram encontradas idéias, dentre outras, a respeito da dificuldade que a disciplina Física impõe a maioria dos alunos. Vários desenhos mostram que, segundo as representações e falas dos sujeitos investigados, os alunos apresentam dificuldade de compreensão da Física em razão desta ser uma disciplina bastante complexa, que exige muito dos estudantes.
Destaca-se, assim, a visão popularizada, aponta Schnetzler (1992) que se têm do ensino de Física, a saber: tradicional de transmissão de informação e, portanto, reduz-se a cálculos, a situações-problema nas quais se exige um complexo raciocínio matemático e algébrico. Este ensino tradicional já arraigou concepções e crenças, comportamentos e atitudes: Física matematizada, supremacia de cálculos, professor detentor do conhecimento, aluno receptor.
Alguns sujeitos desenharam situações em que experimentos são feitos em sala de aula. Quando lhes foi questionado como seria essa aula, a maioria disse que era o momento de aplicação da teoria. Tal concepção parece recair na clássica seqüência, abstraído de Brasil (1998) de ensino: 1 - exposição da teoria e formalizações matemáticas (representadas em quadro com várias fórmulas), 2 - uso da teoria nos chamados exercícios, 3 - demonstração da teoria na situação de laboratório. Viu-se, ainda, que os rabiscos predominantes nos desenhos lembram filas que alinham as carteiras dos alunos; alunos sem características que os individualizem; necessidade de uma sala com disciplina; professores distantes dos alunos; lousas repletas de cálculos.
Também se notou desenhos com expressões emocionais dos investigados conforme se pode perceber na representação de um deles, que fez esquematicamente a obra 'o grito' de Edvard Munch. Segundo este sujeito, a perspectiva de ter de ensinar em pouco tempo estava angustiando-o. Desenhos retrataram a dificuldade do professor em ensinar, tendendo a atribuir ao suposto aluno as dificuldades de sala de aula.
Alguns silêncios (situações não retratadas em nenhum desenho, apesar de serem discutidos em literaturas sobre ensino de física e no decorrer do estágio) também se fizeram notar no momento da análise: aulas com abordagem histórica de ciência, uma concepção de ensino construtivista, abordagem Ciência, Tecnologia e Sociedade. Talvez esses silêncios se devam ao fato de que na formação inicial destes sujeitos poucas disciplinas propuseram um debate sobre alternativas de ensino de Física. Também pode estar relacionado à falta de contato maior com a literatura de autores pesquisadores e os (futuros) professores, uma vez que poucos afirmaram ler sobre o ensino de Física.
## Uma reflexão final sobre a dinâmica do desenho
- O desenho pôde se tornar uma das expressões do formando, uma vez que captou, em particular, conteúdos inconscientes. Nas discussões pós-exposição, os investigados puderam expor intuitivamente algo do seu interior, do seu Eu e torná-lo conhecido a si mesmo. Ao explicitar concepções, esperou-se contribuir para revisão, ratificação ou superação e alteração, caso o próprio professorando deseje.
- O desafio da superação da desarticulação entre formação inicial como conhecimentos gerados na academia e a prática docente frente aos desafios deste momento da educação coloca vários caminhos a se trilhar. Vários fatores devem ser considerados quando se pensa em melhoria do ensino. Dentre esses fatores está a aula propriamente dita, pois é aí que aluno e professor passam a maior parte do tempo, é aí que ambos têm um maior contado com a disciplina. Assim, esta pesquisa mostrou a possibilidade de explicitar e confrontar as concepções dos professores na análise de uma 'situação de aula'. Compreende-se que mais análises precisam ser feitas com um enfoque mais psicológico que permitam a superação de concepções preestabelecidas pelo ensino tradicional em direção a concepções didáticas mais elaboradas.
## Referências
ALMEIDA, Maria José P. M.; SILVA, H. C.. Linguagens, leituras e ensino da ciência . Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil, 1998
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais . Brasília: MEC/SEF, 1998
CAMPOS, D. M. (1999). O teste do desenho como instrumento de diagnóstico da personalidade : validade, técnica de aplicação e normas de interpretação. 31 ed. Petrópolis-RJ: Vozes
DERDYK, E. Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil. São Paulo: Scipione, 1989.
PIAGET,J .; INHELDER, B. A psicologia da çriança . São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1973.
SALINAS DE SANDOVAL, J., CUDMANI, L. e JAEN, M.. Las Concepciones Epistemológicas de los Docentes en la Enseñanza de las Ciencias Fácticas. Revista Brasileira de Ensino de Física . 17 (1), 1995. p. 55-61.
SCHNETZLER, R. P. Construção do conhecimento e ensino de ciências. In: Em Aberto , Brasília, ano 11, nº 55, jul./set. 1992.
VIGOSTSKY, Lev. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
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