A REPRESENTATIVIDADE FEMININA NA DOCÊNCIA E A SUA INFLUÊNCIA NO DESEMPENHO E INTERESSE DAS MENINAS DENTRO DAS ÁREAS CIENTÍFICAS
Amanda Do Rêgo Moura, Julyana Gomes Taques-Villagrán, Gustavo Isaac Killner
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 10/11/2023
- Linha de pesquisa
- Equidade, inclusão, diversidade, direitos humanos e estudos culturais no ensino de física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2023
Texto completo
## A REPRESENTATIVIDADE FEMININA NA DOCÊNCIA E A SUA INFLUÊNCIA NO DESEMPENHO E INTERESSE DAS MENINAS DENTRO DAS ÁREAS CIENTÍFICAS
## Amanda do Rêgo Moura 1 , Julyana Gomes Taques- Villagrán 2 , Gustavo Isaac Killner 3
1 Instituto Educacional São Gonçalo. E-mail: amandiesy@gmail.com
2 Sim Inova Tecnologia. E-mail: julyana.fisica@gmail.com
Palavras-chave : mulheres nas ciências; gênero na educação; representatividade feminina.
## Resumo expandido
O patriarcado é considerado o regime de dominação mais antigo da humanidade (SAFFIOTI, 2015 apud JAMAL, GUERRA, 2022; CORDEIRO, 2020), sendo capaz de oprimir a pluralidade de mulheres na sociedade. Entende-se por mulheres plurais a variedade de vivências experienciadas pelas mulheres, marcadas pela forma como se identificam: indígenas, negras, brancas e transgêneras, entre outras. Apesar dos homens serem, em geral, os principais opressores, existe também a opressão intragênero (SCOTT, 1995 apud VIELMO, 2022), caracterizada pela hierarquização dentro de um mesmo gênero. Kate Millet (MILLET, 2000 apud LIMA, 2O19) define o patriarcado como um sistema político e social enraizado na psique da sociedade de tal forma que se torna um modo de vida naturalizado. Segundo Millet, o patriarcado se estrutura nas relações de poder envolvendo também a raça e a classe social (MILLET, 2000 apud CORDEIRO, 2020).
A cultura patriarcal se expressa em diversos meios de socialização, o que garante sua perpetuação e manutenção. Por ser definida como algo arbitrário, depende que os membros da sociedade a interiorizem e reproduzam (BOURDIEU, PASSERON, 1977). Essa interiorização gera uma identidade de referência definida: o homem branco, cis, heterossexual, de classe média urbana e cristão e a mulher passa a ser classificada como o 'outro' (LOURO, 2000; BEAUVOIR, 2016). A escola, nesse contexto, se torna um ambiente de reprodução de concepções geradas no patriarcado, uma vez que as disciplinas costumam ser elaboradas a partir de uma perpectiva masculina e heterossexual (LOURO, 2000).
Nesse sentido, essa pesquisa buscou identificar se o patriarcado afeta a vida de mulheres desde a idade escolar, direcionando suas ações e decisões futuras, além de sugerir, também, formas de superar discursos patriarcais, sobretudo nas aulas de ciências, a partir da união de três estudos.
A primeira parte da pesquisa, realizada em 2019, teve como objetivo analisar consequências da aplicação de uma aula sobre a participação das mulheres na Ciência, a fim de identificar as representações de gênero em relação ao mundo do trabalho. Os estudantes deveriam estabelecer uma relação entre
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
duas colunas de imagens: uma contendo imagens de homens e mulheres e outra contendo profissões.
Figura 01: gráfico de porcentagem de alunos(as) que relacionam uma profissão a um rosto.
<!-- image -->
Conforme a Figura 1, os estudantes parecem ter respondido a atividade de acordo com papéis sociais historicamente estabelecidos, havendo uma separação clara entre profissões socialmente reconhecidas como masculinas e femininas. Como foram utilizadas imagens de pessoas e suas profissões reais, no caso do chef houve uma associação 'correta' do rosto à profissão, sugerindo que os estudantes provavelmente conheciam o profissional.
A segunda pesquisa foi realizada em 2021, e teve por objetivo analisar como as mulheres são representadas nos três volumes da coleção 'Ser Protagonista Física, 3 ed. (2016)' organizada pela editora SM e distribuída nacionalmente por meio do Plano Nacional do Livro Didático de 2016. Ao identificar, categorizar e quantificar as imagens, emergiram os seguintes resultados: o material didático analisado possui uma quantidade de representações de mulheres inferior à de homens, que se intensifica quando se trata da interseccionalidade entre raça e gênero (AKOTIRENE, 2019) consubstanciada na baixíssima representação de mulheres negras. Os dados citados anteriormente sugerem que o material reproduziu concepções construídas no sistema patriarcal, associado a outros sistemas de opressão como o racismo, ao associar majoritariamente imagens masculinas à produção científica, invisibilizando mulheres plurais.
Mulheres docentes em áreas socialmente tidas como masculinas, o que chamamos de representatividade docente, constituem a possibilidade de se quebrar estereótipos a estas associadas. Isto pode ser verificado a partir da terceira pesquisa (TAQUES-VILLAGRÁN, 2021), que analisou o desempenho de meninas e meninos num campeonato escolar de robótica realizado numa escola privada da cidade de São Bernardo (SP). Nesse estudo analisou-se a evolução na proporção de alunos e alunas que participaram do campeonato de robótica local e foi observado que do total de 648 alunos inscritos, organizados em 162 quartetos, finalizaram entre os três primeiros grupos na classificação geral 5 meninas, compondo 42% do total de premiados no torneio, sendo todas elas inseridas em equipes treinadas por uma professora mulher, sugerindo que a representatividade feminina na docência pode ser fator importante na superação de estereótipos e
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
performances de gênero social e historicamente definidos, uma vez que o desempenho relevante de mulheres neste campeonato ocorreu nas turmas lideradas por uma docente mulher, enquanto que nas turmas lideradas por um professor homem, o interesse e desempenho das meninas foi muito abaixo em relação ao dos meninos.
Desta forma, as pesquisas realizadas apontam que a mesma educação que oprime as mulheres e perpetua o patriarcado também pode servir como forma de emancipação das opressões sofridas pelas mulheres na sociedade e na Ciência, caso tenhamos professoras mulheres em áreas socialmente masculinizadas, corroborando com Bell Hooks (MARIZ, 2021), apontando também para a importância de formar docentes capazes de reverter discursos misóginos nas escolas (SOUZA; LOGUERCIO, 2021).
## Referências
AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade . São Paulo: Pólen Livros, 2019. 152 p.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo Sexo: a experiência vivida - volume2, / Tradução Sérgio Milliet - 3. ed. - Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2016
CORDEIRO, Marinês Domingues. Reflexões da história do patriarcado para esses tempos de pós-verdade . Caderno Brasileiro de Ensino de Física, Florianópolis, v. 37, ed. 3, p. 1374-1403, 2020. Disponível em: <https://shorturl.at/kyELV>. Acesso em: 6 abr. 2023.
JAMAL, Natasha Obeid El.; GUERRA, Andreia. O caso Marie Curie pela lente da história cultural da ciência: discutindo relações entre mulheres, ciência e patriarcado na educação em ciências. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências (Belo Horizonte), v. 24, n. Ens. Pesqui. Educ. Ciênc. (Belo Horizonte), 2022 24, p. e35963, 2022. Disponível em: <https://shorturl.at/dIXY3>. Acesso em: 6 abr. 2023.
LIMA, Lucas de Sena. (ed.). O livro do feminismo. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Globo S.A, 2019. 352 p.
LOURO, Guacira Lopes. Corpo, escola e identidade . Educação & Realidade, Porto Alegre, [S. l.] , v. 25, n. 2, 2000. Disponível em: <https://shorturl.at/JNQRU>. Acesso em: 6 abr. 2023.
MARIZ, Silviana Fernandes. (2021). Paulo Freire, Bell Hooks e a construção de uma Pedagogia feminista crítica . Olhares: Revista Do Departamento De Educação Da Unifesp , 9 (3). https://doi.org/10.34024/olhares.2021.v9.12541
STEARNS, Peter Nathaniel. História das relações de gênero . Tradução de Mirna Pinsky. São Paulo: Contexto, 2007.
SOUZA, Juliana Boanova; LOGUERCIO, Rochele de Quadros. Fome de quê? A [in]visibilidade de meninas e mulheres interditadas de atuarem na Educação das áreas exatas. Ciência & Educação, Bauru, v. 27, 2021. Disponível em: <https://shorturl.at/xCNW8>. Acesso em: 5 abr. 2023.
STEARNS, Peter Nathaniel. História das relações de gênero . Tradução de Mirna Pinsky. São Paulo: Contexto, 2007.
TAQUES-VILLAGRAN, Julyana Gomes; Análise das relações de gênero construída num curso de robótica , Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Ciências e Matemática) - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, IFSP, 2021.
VIELMO, Paula. O encontro entre pedagogia freiriana e pedagogia feminista . Revista Nova Paideia - Revista Interdisciplinar em Educação e Pesquisa, [S. l.] , v. 3, n. 3, p. 36 - 48, 2022. Disponível em: <https://encurtador.com.br/xU168>. Acesso em: 18 set. 2022
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.