A PRODUÇÃO DE DISCURSOS EM MUSEUS DE CIÊNCIAS: A VISÃO DOS MONITORES
Tassiana Fernanda Genzini De Carvalho, Jesuína Lopes De Almeida Pacca
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 06/06/2011
- Linha de pesquisa
- Física E Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não-Formais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A PRODUÇÃO DE DISCURSOS EM MUSEUS DE CIÊNCIAS: A VISÃO DOS MONITORES THE PRODUCTION OF SPEECHES AT SCIENCE MUSEUM: THE VISION OF THE MONITORS
## Tassiana Fernanda Genzini de Carvalho , Jesuína Lopes de Almeida Pacca 1 2
1 Universidade de São Paulo/ Pós Graduação Interunidades em Ensino de Ciências/ tassiana@usp.br 2 Universidade de São Paulo/ Instituto de Física/ jepacca@if.usp.br
## Introdução
Ao estudar o que ocorre num museu de ciência com relação a aprendizagem dos visitantes, vários autores, entre eles Falk & Dierking (1992) e Guisasola et. al (2007), chegaram à conclusão que esses espaços possuem um grande potencial educativo, mas que possuem uma dinâmica própria para a ocorrência desse processo. Ao comparar a educação não formal com a formal que ocorre principalmente nas instituições escolares, constata-se que a aprendizagem cognitiva, que dá conta dos conceitos científicos, não é necessariamente a mais freqüente nos ambientes não formais (Falk & Dierking, 1992) e que esse espaço pode também favorecer a formação de pseudoconceitos.
Os estudos nos museus de ciências como espaços educativos acabam considerando-os como sistemas complexos, com múltiplas variáveis a serem observadas: desde as intenções dos idealizadores de uma exposição, passando pela própria exposição, o espaço, as abordagens, os visitantes, etc. Neste trabalho propomos focalizar a mediação que se estabelece com os monitores. A mediação 'pode ser entendida como a intervenção voltada a negociar um conflito: a intenção dos idealizadores versus interpretação dos visitantes' (QUEIROZ, 2010, p.284).
- O objetivo deste trabalho é conhecer e analisar as concepções que os monitores têm a respeito do discurso que eles produzem quando estão diante de um objeto expositivo e dos visitantes, com a intenção de transmitir informações e conhecimentos específicos da ciência.
## Metodologia
Para responder à questão de pesquisa nos baseamos em um trabalho anterior que trata de identificar no desempenho do monitor as formas diversas que ele utiliza para se comunicar e dialogar com o visitante; aparecem ai alguns padrões de estímulo e comunicação que se repetem no discurso de diferentes monitores (CARVALHO & PACCA, 2009). Para traçar o perfil dos monitores e a consciência do seu papel na atuação real, foi aplicado um questionário aberto para monitores e exmonitores que trabalham/trabalhavam em dois museus de ciências bastante conhecidos da cidade de São Paulo, nas áreas de ciências da natureza e tecnologias.
Os monitores dos museus de ciência abordados são estudantes de graduação, que precisam, além de possuir domínio sobre os conteúdos específicos das exposições, saber se comunicar com o público que visita os Museus, que é bastante heterogêneo. Entretanto, nem sempre estas qualidades são testadas ou servem para serem incorporadas ao trabalho. A capacitação dos monitores, para atuação no museu, geralmente, se dá em poucos dias, com instruções sobre funcionamento e operação dos objetos e as possibilidades de explorá-los. No
entanto, o monitor aprende a ser monitor observando seus pares, e agindo, em princípio, por imitação. O começo de sua atuação é, quase sempre, pouco reflexiva, e só com o tempo, ele toma consciência daquilo que está fazendo.
## Resultados
A análise qualitativa das respostas ao questionário gerou algumas dimensões de análise com categorias que permitem levantar as concepções dos monitores e inferir o grau de consciência sobre suas ações e seus objetivos.
- O questionário: 1) Qual a função do discurso que você utiliza/va para apresentar um objeto do museu?; 2) Existe diferença no discurso apresentado para públicos diferentes? Se sim, quais são os critérios utilizados para a diferenciação?; 3) Quais os elementos que você utiliza/va como recursos de linguagem para se comunicar ou para melhorar a comunicação entre você e os visitantes?; 4) Você acha que o seu discurso é/era cientificamente correto? Justifique.; 5) Você acha seu discurso semelhante a uma aula de Ciências? Justifique.
- Para este trabalho apresentaremos análises das respostas dadas às questões 1 e 4. Duas dimensões foram focalizadas: função e a qualidade dos discursos. Das respostas procuramos extrair a função dos discursos dos monitores quanto ao processo educativo que estaria ocorrendo; encontramos três aspectos:
Discurso conceitual: para alguns monitores a sua presença no museu é quase igual a de um professor que detém um conhecimento a ser transmitido na forma de conceitos, aproximando o visitante da Ciência e assim afastando-o do senso comum; a preocupação principal está com a aprendizagem cognitiva.
No meu discurso tentava explicar alguns conceitos físicos me baseando nos objetos e tentando fazer uma ligação com a vida do visitante. (EM6)
Discurso de divulgação científica: a intenção é educar, mas também despertar a curiosidade do sujeito para a Ciência, fazendo-lhe conhecer um pouco, e dando-lhe condições de procurar por mais informações, caso ele sinta essa necessidade; esse discurso pode ser motivador.
Utilizava o discurso para apresentação e conhecimento do publico, assim, o discurso tinha função educativa e demonstrativa levando em conta o lúdico e não a formalidade do ensino tradicional. (EM4)
Discurso de entretenimento: o discurso tem principalmente essa função, uma vez que os outros elementos do espaço do museu, por exemplo, os painéis já contêm informações científicas. Nesse caso, a comunicação com o visitante é o importante para mantê-los atentos.
Impressionar os visitantes, pois quando eles estão "maravilhados" eles prestam mais atenção. (M10).
Quanto à qualidade dos discursos, o rigor científico se mostrava como foco principal. Assim a correção de seu discurso, se revelava e se justificava nas respostas assim classificadas:
Discurso correto: os conteúdos são considerados verdadeiros, logo o discurso é correto; o uso de simplificações e analogias não diminui sua legitimidade.
Sim, vou sempre dar conceitos corretos, mesmo que não use palavras cientificas para explicar. (M8)
Discurso parcialmente incorreto: procuram facilitar a comunicação, e por isso geram imprecisões, com as analogias e simplificações de linguagem.
Em determinados pontos não. Ocorria de algumas vezes, na tentativa de eu me ajustar à linguagem de um público infantil, que eu não estava muito familiarizado, lançar mão de algumas imprecisões científicas. (EM12)
Discurso incorreto: a preocupação é interagir com o público, ficando o conteúdo em segundo plano ou mesmo sendo deixado de lado.
Não. Alguns conceitos são muito complicados para serem explicados e/ou o seu entendimento leva muito tempo. Para simplificar a apresentação utilizo alguns conceitos que sei que já não estão mais corretos. (M10)
## Considerações finais
Acreditamos que são diversas as possibilidades de aprendizagem que podem ocorrer durante uma visita a um museu de ciências; a demonstração com a monitoria é apenas uma delas, e a postura e a atitude do monitor farão toda a diferença, comunicando sua visão sobre a Ciência, os experimentos e seu significado, bem como a utilidade da demonstração.
O mediador tem a difícil missão de negociar os conflitos entre as diversas variáveis e tomar posições que atendam a todas de forma mais global. Surge, então, a necessidade de se conhecerem os saberes da mediação e de promover uma formação que possibilite ao mediador enfrentar situações muitas vezes conflituosas. (QUEIROZ, 2010, p. 284)
Entretanto, parece que os monitores não se sentem seguros para uma atuação desejável, o que se justifica pelo processo que os leva a serem monitores. E quem é o monitor, que carrega tamanha responsabilidade? É um estudante de graduação, que se mostrou pouco consciente de sua função, com essa pesquisa. Parece-nos que os monitores precisam entender melhor o processo no qual estão inseridos, os 'saberes da mediação'. A falta de diretriz em suas ações tem relação com a falta de consenso sobre o papel dos museus de ciência na educação científica. O que notamos é que ex-monitores parecem ser mais reflexivos com relação a sua prática; parece que a medida que ele é ativo nessa atividade e interage com o público, acaba encontrando caminhos para 'dar conta do recado'.
A relação dos museus com a divulgação científica parece ser uma tendência nos discursos analisados, mais voltados a comunicação, integração, participação e aproximação do visitante com a exposição e com os conteúdos dela.
## Bibliografia
CARVALHO, T. F. G. ; PACCA, J. L. A.; A Estação Ciência e a Divulgação Científica: Alguns Aspectos a Serem Considerados. VII Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências, Florianópolis, SC, 2009.
FALK, J.H.; DIERKING, L.D. The Museum Experience . Whalesback Books, Washington, USA, 1992.
GUISASOLA, J.; MORENTIN, M.; ¿Qué Papel Tienen las Visitas Escolares a los Museos de Ciencias en el Aprendizaje de las Ciencias? Uma Revisión de las Investigaciones. Enseñanza de las Ciencias, vol. 25, nº3, 2007, pp. 401-414.
QUEIROZ, G. A colaboração entre o museu e a escola: a pesquisa, o ensino e a popularização da ciência . In: A pesquisa em Ensino de Física e a sala de aula: articulações necessárias. Orgs. Nilson Marcos Dias Garcia e outros. Editora da SBF, São Paulo, 2010, pp. 283 - 290.
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