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PODEMOS FALAR QUE A PESQUISA EM ENSINO DE ELETROMAGNETISMO FORMA UMA COMUNIDADE? UM OLHAR PARA SEUS LAÇOS E NÓS

Rafaela Bueno, Daniel Trugillo Martins Fontes, André Machado Rodrigues

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
09/11/2023
Linha de pesquisa
História, filosofia e sociologia da ciência no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## PODEMOS FALAR QUE A PESQUISA EM ENSINO DE ELETROMAGNETISMO FORMA UMA COMUNIDADE? UM OLHAR PARA SEUS LAÇOS E NÓS

## Rafaela Bueno 1 , Daniel Trugillo Martins Fontes 2 , André Machado Rodrigues 3

- 1 Licencianda no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, rafaelaxbueno@usp.br
- 2 Doutorando no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP, daniel.fontes@usp.br
- 3 Docente do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, rodrigues.am@usp.br

Palavras-chave : Coautoria; análise de rede; sociologia da ciência.

## Resumo expandido

Nos últimos anos houve um significativo aumento da produção na pesquisa em ensino de Física (PEF). Fontes e Rodrigues (2022) realizaram um panorama da PEF a partir de dezenas de artigos de revisões sistemáticas da literatura publicados nos principais periódicos ibero-americanos. Em geral, o foco desses artigos foi avaliar a apropriação de determinado conteúdo da Física (e.g., Física Moderna e Contemporânea) ou de um recurso didático (e.g., experimentação). Posteriormente, em Fontes e Rodrigues (2023) foi estudado as características da rede de coautoria entre os pesquisadores que se dedicaram a traçar panoramas da PEF a partir da análise de redes sociais (ARS). A ARS é um conjunto de teorias e métodos que se debruça no estudo das conexões feitas por uma coletividade, seja de indivíduos, artigos, instituições, etc. a partir de métricas oriundas da teoria dos grafos (SCOTT, 2012). Fontes e Rodrigues (2023) encontraram uma rede fragmentada, e naquela oportunidade foi aventada a hipótese de que recortes metodológicos, tal como tido pelos artigos de revisões, produzem redes de colaboração menos coesas quando comparado a recortes temáticos. Diante desse contexto, no presente trabalho, investigamos a rede formada pela colaboração científica (coautoria) na pesquisa em ensino de eletromagnetismo (PEE). Nosso objetivo é atacar um problema mais amplo relacionado aos laços e nós que estruturam as redes de colaboração na PEF a partir de diferentes recortes epistêmicos. Explicitamente, realizamos um recorte temático com o intuito de lançar luz à seguinte questão: a PEE apresenta características de uma comunidade de pesquisa? Escolhemos analisar o ensino de eletromagnetismo por duas razões principais. Primeiro, é indiscutível a presença e a importância de aparelhos e fenômenos eletromagnéticos no cotidiano, bem como da pesquisa acerca do seu ensino, uma vez que sabemos da dificuldade dos alunos em compreender seus conceitos (SILVA, 2012). Segundo, os dados empíricos da pesquisa em PEE já foram recentemente catalogados em trabalho anterior de outro escopo. Ou seja, utilizamos de dados coletados anteriormente no qual foram obtidos 46 artigos publicados entre 2000 e 2019 em ensino de eletromagnetismo a partir de periódicos nacionais A1 ou A2 do Qualis-Periódicos (ver Fontes e Rodrigues, 2021 para detalhada descrição metodológica).

Para construção da rede de coautoria utilizamos métricas e conceitos da ARS e da teoria dos grafos: i) componentes conectados e ii) centralidade de intermediação. A primeira métrica é global e contribui na determinação da

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fragmentação da rede como um todo, uma vez que realiza uma contagem de subgrupos conectados entre si, mas desconectados do restante da rede. A segunda métrica é local uma vez que caracteriza os nós (vértices ou pontos). Ela está relacionada à influência que determinado agente tem sobre os outros nos quais é conectado. Vale pontuar que os padrões dos laços e nós são representações arbitrárias no espaço, e não mantêm qualquer informação sobre a distância física ou localização relativa entre os pontos.

Ao todo, identificamos 99 diferentes autores (nós) dos quais 2 não têm artigos em coautoria, e 92 coautorias (laços). A média de autores por artigo é 1,9. Também encontramos 34 componentes conectados e 89 nós sem centralidade de intermediação. A rede de coautoria entre os autores dos artigos PEE é reproduzida na Figura 01.

Figura 01: Rede de coautoria em artigos PEE. Legenda: nós vermelhos possuem centralidade intermediação não nula. Quanto maior o nó, maior a centralidade de intermediação. A espessura do laço está associada à intensidade da colaboração.

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Note que a grande maioria dos pesquisadores (89) se encontra trivialmente conectada, isto é, sem necessidade de intermediação. Noutras palavras, apenas 10 nós que compõem a rede têm valor de centralidade de intermediação diferente de zero conforme. Algumas características se destacam da rede de coautoria em PEE. Primeiro, a maioria dos artigos é fruto de colaboração (89% dos artigos têm 2 ou 3 autores). Tanto a predominância de artigos coautorados quanto o número de autores por artigo encontrado são resultados já conhecidos em outras áreas da pesquisa. Portanto, a princípio, a PEE não apresenta elementos bibliométricos que a faz ter características anômalas no processo de produção de conhecimento. Segundo, embora haja artigos autorados por estrangeiros, não encontramos colaboração entre pesquisadores estrangeiros e brasileiros. Isto é, autores estrangeiros coautoram entre si, enquanto o mesmo acontece com autores brasileiros.

Retomando a pergunta norteadora da pesquisa e com base nos dados analisados parece que a PEE não apresenta características de uma comunidade quando avaliada sob a ótica da coautoria. Noutras palavras, se entendermos que a comunidade PEE significa o conjunto de pesquisadores que produzem artigos em ensino de eletromagnetismo, então tal conjunto está consideravelmente fragmentado, em proporções superiores a PEF como um todo (ANDERON; CRESPI;

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SAYRE, 2017). Ao considerarmos que a maior parte dos pesquisadores que compõem a rede não possui centralidade de intermediação e o relativo alto número de componentes conectados, então percebemos que a PEE ocorre de maneira isolada de outros pesquisadores da área sem a presença de atores mais centralizados que possam intermediar a troca de conhecimentos em escala global da rede. Como mencionado anteriormente, em Fontes e Rodrigues (2023) foi levantado a hipótese de que a pesquisa do tipo mapeamento em Ensino de Física ocorre de maneira isolada de outros pesquisadores da área possivelmente porque esse tipo de pesquisa atua como uma ferramenta de introdução à pesquisa acadêmica. Assim, se o recorte fosse de um conteúdo específico (no caso, ensino de eletromagnetismo) então encontraríamos uma rede mais coesa. Contudo, tal hipótese não se confirmou com o presente estudo. Mesmo em um recorte temático específico, também foi constatado muitos grupos isolados de pesquisadores.

Este trabalho apresenta algumas limitações que devem ser levadas em consideração durante a interpretação dos resultados. Primeiro, os dados empíricos são provenientes de 46 artigos PEE publicados em oito dos principais periódicos da área. Embora tais quantitativos sejam razoáveis para apresentar encaminhamentos em uma pesquisa exploratória, futuros trabalhos podem ampliar a base de busca para incluir também anais de eventos além de mais periódicos a fim de obter mais coautores e coautorias. Segundo, consideramos apenas a rede de coautoria. Próximos estudos podem considerar outros tipos de rede, tal como a rede de citação. Dessa forma será possível construir um panorama mais amplo da organização e da sociologia da PEE e avaliar características da produção e difusão do conhecimento científico por ela produzida, com o objetivo de oferecer outras óticas à pergunta de pesquisa.

## Referências

ANDERSON, Katherine A.; CRESPI, Matthew; SAYRE, Eleanor C. Linking behavior in the physics education research coauthorship network. Physical Review Physics Education Research , v. 13, n. 1, p. 010121, 2017.

FONTES, Daniel Trugillo Martins; RODRIGUES, André Machado. Fundamentação teórica no ensino de eletromagnetismo: uma revisão da literatura em periódicos nacionais. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 38, n. 2, p. 965-991, 2021.

FONTES, Daniel Trugillo Martins; RODRIGUES, André Machado. Tendencias de investigación en la enseñanza de la física en revistas académicas iberoamericanas. Revista de Enseñanza de la Física , v. 34, n. 2, p. 1-10, 2022.

FONTES, Daniel Trugillo Martins; RODRIGUES, André Machado. Uma análise de rede para as pesquisas do tipo mapeamento em Ensino de Física. Ensino e Tecnologia em Revista , v. 7, n. 1, p. 364-378, 2023.

SCOTT, John. What is social network analysis? . Bloomsbury Academic, 2012.

SILVA, André Coelho. Eletromagnetismo e o anti-herói magneto: uma possível abordagem no ensino médio. Revista de Ensino de Ciências e Matemática , v. 3, n. 2, p. 125-135, 2012.

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