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CIÊNCIAS E ARTES: COMBINAÇÕES, REFLEXÕES E INOVAÇÕES PARA O ENSINO

Matheus Alves Magalhães, Samantha Jully Mesquita Gonçalves

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
09/11/2023
Linha de pesquisa
Equidade, inclusão, diversidade, direitos humanos e estudos culturais no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CIÊNCIAS E ARTES: COMBINAÇÕES, REFLEXÕES E INOVAÇÕES PARA O ENSINO

## *Matheus Alves Magalhães 1 , Samantha Jully Mesquita Gonçalves 2

- 1 Universidade Federal de Minas Gerais, matheusalvesmagalhaes@hotmail.com 2 Universidade Federal de Minas Gerais, samanthajullymg@gmail.com

Palavras-chave : Arte; Ciência; Ensino.

## Resumo expandido

Este trabalho parte de um incômodo dos licenciandos em física e artistas, autores deste texto, quanto à relação que é usada entre arte e ciência para o ensino de física. Tal incômodo é sintetizado pela metáfora do misto quente e do bolo, a qual explicamos a seguir. As formas comumente encontradas para relacionar a arte e ciência no ensino são como um misto quente: a arte é o pão, a ciência, o queijo e, o ensino, o presunto. Embora todos esses elementos juntos formem um lanche, eles são facilmente fragmentados, ou seja, podem ser desmembrados entre si por não possuir uma conexão tão estrita. Nesse sentido, compartilhamos a visão de que um método na qual a ciência seja o ovo, a arte, a farinha de trigo, e, o ensino, o fermento, se mostra inovadora para ser realizada no ensino de Física e Artes, ou ainda, de Ciências e Artes. Dessa maneira há o bolo: os elementos estão misturados homogeneamente, de forma que não podem se dissociar.

Pensando nisso, desenvolvemos e apresentamos algumas reflexões para a disciplina 'Didática do ensino de física 2', ofertada no curso da nossa formação no primeiro semestre de 2023. Esse trabalho relacionou Arte e Ciência, tendo como base principal o livro 'Literatura e cinema no ensino de física', dos autores Piassi et.al (2017), juntamente com as experiências vividas e elaboradas pelos graduandos. Em resumo, o livro traz definições de Arte e Ciência, estabelece paralelos entre esses conceitos e, posteriormente, foca em experiências ligadas à literatura e cinema no ensino de física, que faz parte do trabalho de pesquisa dos escritores. Os mesmos autores trazem os termos 'Artistas com veias científicas' e 'Cientistas com veias artísticas', para abordar, historicamente, as pessoas que fizeram e fazem essa relação (Piassi, et al, 2017). O primeiro termo se refere a artistas que abordam, em alguma de suas obras, conceitos científicos e, o segundo, são para cientistas que são também artistas, mas não necessariamente usam a arte na produção da ciência.

Ciência e arte, embora distintas, se entrelaçam [...]. São linguagens e sistemas que, movidos pelo fascínio do novo e pela ebulição do conhecimento, perseguem a busca por novos modos de imaginar o mundo (GIL, 2022).

Gilberto Gil, um 'artista com veia científica', produziu o álbum musical "Quanta' (1997) relacionando arte e ciência, e nele exalta cientistas brasileiros, traz analogias de conceitos da ciência em forma de metáforas e de versos poéticos. Essa obra é um exemplo direto que conecta a ciência e arte, podendo ser utilizado

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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física

de recurso para o ensino. Contudo, para relacionar Arte e Ciência, em uma perspectiva do ensino de ciências, se deve tomar alguns cuidados, pois essa combinação pode acarretar em algumas problemáticas, uma vez que são utilizadas analogias e metáforas, que são figuras de linguagem interpretadas de modo subjetivo. Essa ferramenta pode ser prejudicial se não bem utilizada (MOZZER, 2015), pois pode criar falsas relações entre o conceito físico e o metafórico na mente dos estudantes.

Outra questão é que a arte e a cultura muitas vezes são colocadas em oposição ao pensamento filosófico e científico, criando uma hierarquia na qual se é posto em um lugar de inferioridade, como aborda Gilroy:

Essas formas musicais e os diálogos interculturais para os quais elas contribuem são uma refutação dinâmica das sugestões hegelianas de que o pensamento e a reflexão superaram a arte e que a arte é oposta a filosofia como forma mais inferior, meramente sensual de reconciliação entre a natureza e a realidade finita (GILROY, 2001, p. 159).

Essa hierarquização de disciplinas não contribui para uma formação integral dos estudantes, já que reforça a cisão e hierarquia atribuídas historicamente a tais áreas do conhecimento. Concordamos que ambas são necessárias e têm sua relevância para uma formação para a vida, e não para uma só área específica. Isto posto, partiremos para o campo da materialidade. Em seguida serão apresentados exemplos de experiências dos autores, na qual praticaram e refletiram sobre a combinação de Ciência e Arte no ensino, de maneira a estabelecer relações menos fragmentadas.

Primeiramente, a sequencia de ensino 'Movimento hip hop e método científico', criada tendo como base o artigo 'Affiliation and alienation: hip-hop, rap, and urban science education', de Christopher Emdin (2009), e o livro 'Atlantico negro', de Paul Gilroy (2001), permitiram a criação de um método de ensino intercultural, que foi aplicado em uma discliplina universitaria sobre Ensino de Relações étnico raciais nas escolas. A aula teve como objetivo apresentar o método e o fazer científico paralelamente ao movimento HIP HOP. Por mais que não seja evidente, em um primeiro momento, as semelhanças entre tais criações humanas, quando se analisa de perto a forma de referenciar intelectuais anteriores, algo que é essencial tanto na criação do HIP HOP, como no ensino de ciências, se torna nítido tal relação.

Ainda, outra sequência de ensino foi criada: a de 'Movimentos circulares e capoeira', baseada no livro 'Física Conceitual' (2015) e os ensinamentos do mestre andarilho de capoeira, nomeado Bamba. O objetivo foi a associação dos movimentos de uma roda de capoeira com os aprendizados sobre Movimento Circular Uniforme e Movimento Circular Uniformemente Variado, demonstrando, com práticas corporais, tais conteúdos de física.

Outra produção, apresentada como trabalho final da Residência Pedagógica no ano de 2021, trata de uma sequência didática sobre o estado da matéria utilizando o ensino por investigação em turmas dos 2° s anos da escola IEMG. Após ter realizado 3 aulas sobre o tema, com o uso simulações, a atividade avaliativa proposta para os alunos foi a de analisar, em uma animação ou série, os conceitos que foram aprendidos sobre o estado da matéria, como o processo de fusão e ebulição Além disso, também foi requisitada a apresentação do que estaria equivocado fisicamente em tais produções audiovisuais, a partir da argumentação apropriada.

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A última reflexão que pretendemos apresentar nesta ocasião diz respeito a uma abordagem mais integrativa do uso da astrofotografia para o ensino de física, especificamente óptica, sem esquecer da fotografia. É proveitoso sugerir que os estudantes se aventurem livremente pelo manejo dos recursos manuais da câmera, a partir do controle da abertura, da velocidade do obturador e do ISO, que são as configurações cruciais para o registro de uma astrofotografia satisfatória, em que vários astros são relevados à nós. A partir do controle da câmera, seja para astrofotografar ou não, vários efeitos imagéticos - reais ou fantasiosos - podem ser desenvolvidos nas produções artísticas e científicas, de modo a reaproximar a ciência e arte, a tecnologia e a abstração, a razão e a subjetividade. É importante ressaltar que devido a pandemia essa ideia não foi materializada em formato de sequência didática, ainda, em nenhuma sala de aula, mas pretendemos realizar, oportunamente.

Nesse sentido, ao negar a hierarquização dos saberes e conhecimentos, ao passo em que se desenvolve uma compreensão de que tanto a ciência quanto a arte são produções culturais humanas, o ensino de ciências e artes ganha outra proporção, uma vez que aponta para um entendimento menos fragmentado do conhecimento. Isso foi evidenciado nos exemplos anteriormente citados. Contudo, sabemos que deve-se ter cuidado ao relacionar esses dois temas no ensino de ciências, pois partem de conceitos e estruturas diferentes. Esquecer disso tornam propensas interpretações errôneas sobre conceitos científicos. Dessa forma, cabe ao professor diferenciar os aspectos científicos importantes para que haja um entendimento satisfatório dos conceitos científicos, sem que ele assuma uma hierarquia perante as artes.

O caminho para se fazer 'o bolo', de modo que a ciência, a arte e o ensino estejam indissociados, é um caminho difícil, mas que buscamos e buscaremos ao longo da nossa trajetória, a fim de trazer novos elementos para esses campos. Por se tratar de uma novidade, ao menos dentro do que tivemos em nossa formação específica, julgamos proveitoso expandir o compartilhamento de tais reflexões e possibilidades para aqueles interessados em uma abordagem inovadora.

## Referências

EMDIN, Christopher. Affiliation and alienation: hip -hop, rap, and urban science education. Journal of Curriculum Studies. https://doi.org/10.1080/00220270903161118. 2009. GIL, GILBERTO. Quanta . Gege Edições Musicais ltda/Preta Music. 1997. GILROY, Paul. O Atlântico Negro : Modernidade e dupla consciência. São Paulo, Rio de Janeiro, 34/Universidade Cândido Mendes - Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001.

HEWITT, P. G. Física Conceitual . 12 ed. Porto Alegre: Editora Bookman, 2015. MOZZER, N. B.; JUSTI, R. 'Nem tudo que reluz é ouro' : Uma discussão sobre analogias e outras similaridades e recursos utilizados no ensino de Ciências. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 15, n. 1, p. 123-147, 2015. PIASSI, et al. Literatura e cinema no ensino de física : Interfaces Entre a Ciência e a Fantasia. 1 ed. Editora Livraria da Física. ISBN-10. 8578615034. 151 pp. 2017.

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