O que importa das semelhanças e diferenças entre a Asrofísica e o conhecimento indígena sobre os astros?
Gloria Regina Pessoa Campello Queiroz, Giselle Faur De Castro Catarino
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- Equidade, inclusão, diversidade, direitos humanos e estudos culturais no ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O QUE IMPORTA ENTRE AS SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS ENTRE A ASTROFÍSICA E O CONHECIMENTO YANOMAMI?
Gloria Regina Pessoa Campello Queiroz 1 , Giselle Faur de Castro Catarino 2
- 1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro/CEFET-RJ/gloriapcq@gmail.com
- 2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro/CEFET-RJ/gisellefaur@gmail.com
Palavras-chave : astrofísica; projetos pedagógicos interculturais; a queda do céu
## Resumo expandido
A falta de empatia com o povo Yanomami, mais divulgada no início de 2023 com a mudança de governo, nos impulsiona a continuar a pensar estratégias pedagógicas no ensino de Física que deem voz aos mais vulneráveis, nos valendo de outras culturas com contribuições traduzidas por conhecimentos de valor, em especial para a preservação da vida no planeta.
Em 1986, a afirmação 'Somos todos poeira de estrelas' de Carl Sagan tornouse famosa, tendo tal concepção sido construída e validada na Ciência a partir do tr abalho de Bunsen e Kirchoff (sec. XIX) com 'efeito chama' de substâncias puras queimadas, precursores da espectroscopia que possibilitou uma classificação estelar que levou às teorias atuais acerca da vida e da morte das estrelas na Astrofísica. Juntamente com a imagem da Terra como um pálido ponto azul, esse conjunto de conhecimentos serviu de base para a construção do conceito 'cidadania planetária', de importância crucial para a ecologia e a educação ambiental crítica.
No entanto, as evidências que sustentam a Ciência atual não têm se mostrado convincentes para estancar a devastação das florestas, a contaminação das águas e o caminho da ganância que destrói as condições de vida no planeta. Pesquisadores, em https://mapbiomas.org, divulgam amplo levantamento com dados de mais de três décadas com evidências científicas acerca de desmatamentos, mineração e impactos do fogo, redução da superfície de água, em claro racismo ambiental. Constata-se que as alterações causadas pela ação humana, entre 1985 e 2021, foram muito intensas e incentivadas por um discurso político acerca das possibilidades de desenvolvimento sustentável em regimes capitalistas insustentáveis do ponto de vista do combate às desigualdades que concentram renda e impedem que níveis adequados de justiça social sejam alcançados.
Mészáros (2003) sinaliza o quanto o ambiente tornou-se um importante elemento nas trocas desiguais entre os Estados-nação e a relação desenvolvimento/ subdesenvolvimento ou norte/sul. O desenvolvimento econômico do capitalismo sempre acarretou degradação social e ecológica, porém esses e outros aspectos fundamentais têm sido subestimados na discussão sobre o desenvolvimento sustentável. Nas três últimas décadas as manifestações das insustentáveis relações com o planeta constituíram um conjunto de contradições que levaram à identificação da denominada crise ambiental.
Trazendo preocupações nesse sentido, o xamã Yanomami David Kopenawa, na obra 'A Queda do Céu' (KOPENAWA; ALBERT, 2010), confirma uma profecia xamânica cada vez menos 'apenas' imaginária e cada vez mais próxima da realidade, causada pela cobiça exploratória de um poderoso comércio internacional. E o xamã
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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física
complementa: 'ao arrancar os minérios da terra eles espalham um veneno que invade o mundo e que assim acabará morrendo.'
'Essas coisas que os brancos cobiçam tanto, como teriam vindo a existir? De que são feitas?' A resposta a essa pergunta, feita por Kopenawa , vem nos surpreender com um conhecimento vindo de uma curiosidade comum a todas as civilizações acerca do cosmos: esse metal brilhante debaixo da Terra vem do antigo céu que desabou antigamente sobre os nossos ancestrais, nomeado por nós de mareaxi ou xilikarixi, o mesmo nome dado às estrelas. Esse metal que Omana (criador) ocultou é seu esqueleto, envolvido pelo frescor úmido da floresta, a sustenta, não devendo se cavar o solo sem trégua como fazem os brancos.
Vemos elementos comuns entre a afirmação da ciência: 'somos todos poeira de estrelas' (SAGAN, 1986) e o conhecimento yanomami: 'o metal brilhante debaixo da Terra vem do antigo céu. Ambos surgiram como resposta a indagações similares: no final do século XIX os cientistas queriam saber: de que são feitas as estrelas? E, com a exploração gananciosa do garimpo em terras yanomami, esse povo indígena passou a se perguntar: essas coisas que os brancos cobiçam tanto, como teriam vindo a existir? De que são feitas?
A essa pergunta a Ciência responde com os elementos químicos da Tabela Periódica e com a teoria do Big Bang, enquanto os yanomami dizem que aquilo que os brancos chamam de minério são as lascas do céu, da lua, do sol e das estrelas que caíram no primeiro tempo: 'Todos sabem que o céu já caiu sobre os antigos, há muito tempo.' (ALBERT; KOPENAWA, 2010, pg. 195)
Vale ressaltar que, apesar dos conhecimentos dos povos originários serem tratados como inferiores, sendo menosprezados cientificamente, as culturas ameríndias souberam durante séculos manter suas florestas, não sendo os responsáveis pelas epidemias vividas com as invasões aos seus territórios, aliadas às catástrofes ambientais atuais.
Esse conhecimento produzido pelos yanomami inclui crítica de fundo ecológico: eles (os brancos) já possuem mercadorias mais do que suficientes. Apesar disso, continuam cavando o solo sem trégua, como tatus-canastras. Não acham que, fazendo isso, serão tão prejudicados quanto nós somos. Estão enganados. As coisas que os brancos extraem das profundezas da terra com tanta avidez, os minérios e o petróleo, não são alimentos. São coisas maléficas e perigosas, impregnadas de tosses e febres, que só Omana conhecia. Ele, porém, decidiu escondê-las sob o chão da floresta para que não nos deixassem doentes.
Surge, então, uma pergunta fundamental: O que podemos aprender e trocar com eles em busca de sustentabilidade nesse capitalismo insustentável? Qual é o futuro que desejamos para nós?
Considerando uma interlocução com a sabedoria dos povos originários, vital e necessária à sobrevivência da diversidade cultural brasileira e do próprio planeta Terra, se mostra urgente a transformação das percepções e sentimentos dentro das culturas não originárias. Dessa maneira, dialogar com os povos originários, sobre os quais conhecemos mais hoje do que em outras épocas, pode trazer caminhos para a justiça social do projeto de sociedade que defendemos. Partindo da necessidade de superação da alienação radical constitutiva da sociedade neoliberal que naturaliza o capitalismo e o negacionismo ambiental, a formação de professores configura um contexto de diálogo fundamental nesse projeto.
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Assim, para pensar caminhos na formação inicial de professores de Física que promovam práticas docentes interculturais, dando voz aos mais vulneráveis e as seus conhecimentos, em especial de valor para a preservação da vida no planeta, as discussões aqui realizadas foram levadas para uma disciplina de Estágio Supervisionado em uma universidade pública do Estado do Rio de Janeiro.
Após a pesquisa documental sobre semelhanças e diferenças entre os conhecimentos da ciência oficial e dos yanomami, uma interação entre a Educação em Direitos Humanos e o Ensino de Física (SANTOS et al, 2021), em especial de Astrofísica, alunos e alunas elaboraram propostas de projetos pedagógicos, dentre os quais destacamos um intitulado ' Astrofísica e a valorização do conhecimento indígena . '
O projeto se inicia com a questão provocadora de reflexão -De onde vem os elementos que encontramos na Terra? Qual a relação disso com as estrelas? Em seguida, sugere a apresentação do pequeno texto de Carl Sagan: 'O nitrogênio em nosso DNA, o cálcio em nossos dentes, o ferro em nosso sangue, o carbono em nossas tortas de maçã... foram feitos no interior de estrelas em colapso, agora mortas há muito tempo. Nós somos poeira de estrelas (SAGAN, 1986). Após a apresentação ' do texto, aborda questões relativas à Evolução estelar, trazendo os diferentes destinos das estelas segundo a massa da nebulosa que lhes deu origem. A espectroscopia estelar também abordada relaciona-se historicamente aos experimentos de Kirchoff e Bunsen no século XIX. Em seguida, o povo yanomami, sua história, seu ambiente e formas de viver são abordados, sendo dado destaque a seus conhecimentos acerca da origem dos metais na Terra e dos cuidados em proteger a floresta onde vivem, dando-se voz a esse povo de modo que sua cultura seja mais valorizada entre nós. Demonstra-se assim que o que importa entre as semelhanças e diferenças entre as duas culturas é que a nossa, apesar de tão profunda e rigorosa sobre as estrelas, não está sendo posta a favor da preservação do planeta Terra, o que os povos originários fazem com sua sabedoria milenar.
Espera-se que outras propostas sejam elaboradas e levadas a salas de aula na educação básica pelos licenciandos a fim de possibilitar diálogos, compreensão e valorização de outras formas de conhecimento.
## Referências
MÉSZÁROS, I. O Século XXI - Socialismo ou Barbárie? São Paulo: Boitempo editorial, 2003.
KOPENAWA D.; ALBERT, B. A queda do céu, Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2010.
SAGAN, C. Cometa. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves,1986.
SANTOS, A.G.; QUEIROZ, G.R.P.C.; OLIVEIRA. R.D.V.L. Conteúdos Cordiais de Física. São Paulo: Livraria de Física Ed. et al, 2021
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