Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

ENERGIA NUCLEAR NUM SITE JORNALÍSTICO: CONTROVÉRSIA COMO CRITÉRIO DE NOTICIABILIDADE

Ricardo Henrique Almeida Dias, Maria José P. M. De Almeida

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIII
Ano
2011
Data
06/06/2011
Linha de pesquisa
Física E Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não-Formais
Tipo
Pôster

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2011

Texto completo

## ENERGIA NUCLEAR NUM SITE JORNALÍSTICO: CONTROVÉRSIA COMO CRITÉRIO DE NOTICIABILIDADE

## NUCLEAR ENERGY IN A SITE: CONFLICT AS NEWSWORTHINESS

## Ricardo Henrique Almeida Dias 1 e Maria José P. M. de Almeida 2

1 Universidade Estadual de Campinas/Faculdade de Educação/Departamento de Ensino e Práticas Culturais, rhad@mail.com

2 Universidade Estadual de Campinas/Faculdade de Educação/Departamento de Ensino e Práticas Culturais, mjpma@unicamp.br

## Objetivo e justificativa

Em Almeida (2010) podemos notar a relevância do estudo do funcionamento de textos de divulgação científica em situações de ensino escolar como recurso didático na mediação de conhecimentos relacionados ao conhecimento científico, procurando situar o discurso de divulgação científica como um discurso que pode contribuir para a produção do discurso escolar relativo à ciência. Silva (2002) usou alguns textos jornalísticos sobre física na montagem de uma unidade de ensino sobre gravitação newtoniana para alunos de ensino médio. Esse autor teve por objetivos: mostrar aos alunos que se fala de física nos jornais e propiciar que tivessem contato com pesquisas recentes relacionadas com o espaço cósmico. Com base nesses estudos, consideramos a relevância da pesquisa sobre as condições de produção do discurso jornalístico sobre a ciência tendo por objetivo propiciar meios para o uso em espaços formais de ensino, como em Dias e Almeida (2009) que levantaram algumas especificidades do jornalismo para a compreensão de textos de física publicados nas revistas Ciência Hoje e Pesquisa Fapesp . Os autores mostraram como tais características se constituíram em condições de produção na leitura desses textos por estudantes da licenciatura em física. Notaram como alguns critérios de noticiabilidade, como proposto por várias pesquisas sobre o jornalismo, dentre elas Traquina (2005) e Wolf (2006), foram condições para a leitura dos licenciandos. Neste trabalho, nos detemos exclusivamente em um dos critérios de noticiabilidade levantados pelos autores: o conflito ou controvérsia . 1

## Marco teórico

Para Wolf (2006), a noticiabilidade é constituída pelo conjunto de requisitos que se exigem dos acontecimentos para adquirirem a existência pública de notícias. Tudo o que não corresponde a esses requisitos é 'excluído', podendo-se também dizer que a noticiabilidade corresponde ao conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, dentre um número imprevisível e indefinido de fatos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias. Os valores-notícia surgem como um componente da noticiabilidade, sendo que esses valores constituem a resposta à seguinte questão: quais os acontecimentos que são considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícias? Traquina (2005) seleciona alguns valores-notícia como: a proximidade; a relevância; a novidade; a

notabilidade; o inesperado; o conflito ou controvérsia; a infração etc. Apesar da discussão desses critérios, fazemos a mesma ressalva de Alsina (2009), que não precisamos pensar que tais critérios são aplicados de forma mecânica, mas que se agregam e se complementam.

## Metodologia e análise

Neste texto discutimos com maior atenção o valor-notícia conflito, já que consideramos um critério relevante para a compreensão do discurso da ciência na mídia, como vimos em diversas pesquisas sobre o jornalismo científico, tais como Nelkin (1986). Assim, elencamos um tema em especial, energia nuclear, e buscamos por esse termo na seção Ciência do portal Folha.com . Nosso recorte começa em 2007 até 2010 e selecionamos alguns textos significativos ao valor-notícia conflito.

O primeiro texto da nossa amostra já explicita a controvérsia logo no título: "Brasil pode ter de recorrer à opção nuclear, diz Krug. " Podemos notar como a 2 energia nuclear surge como uma opção energética inevitável, já sabendo-se a priori da controvérsia dessa fonte de energia, mas como uma solução ao cumprimento de metas de emissão de CO2, como diz Thelma Krug, então secretária de Mudanças Climáticas do Ministério de Meio Ambiente: "Vamos ter de encarar, botar isso na balança. Entre uma [usina] nuclear, uma térmica a carvão e você não ter um esforço de mitigação [da emissão de gases de efeito estufa] à altura, vamos ter de colocar tudo isso na mesa. Serão decisões muito difíceis". Uma voz convergente à solução nuclear, que apareceu em dois textos , foi a do então Ministro de Ciência e 3 Tecnologia, Sérgio Resende. Em um texto sobre a divulgação do relatório do IPCC, ele destacou a menção que o órgão "fez à energia nuclear como potencial 'limpo'. 'A resistência a ela vem de alguns ambientalistas pouco esclarecidos". No outro texto, sobre a instalação de uma rede para pesquisas sobre mudanças climáticas, o exministro defendeu a instalação da usina Angra 3. Ao ser questionado sobre se esse tipo de energia não causaria conflito a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), Sérgio Resende respondeu que "o Brasil é signatário do Tratado de NãoProliferação de Armas Nucleares. Já começamos a fazer o enriquecimento de urânio, em quantidade pequena. Não há nenhum questionamento da AIEA".

Apesar da afirmação do ex-ministro, surgem também vozes contrárias à energia nuclear, como a do climatologista Carlos Nobre, que aponta para a produção de dejetos radioativos e o aumento do risco de disseminação de tecnologia nuclear, que poderia ser aproveitada para fins bélicos. "Se nós disseminarmos a energia de fissão, os EUA vão se colocar na posição de guardiões da paz do mundo, dizendo: 'Você pode, você não pode'. Isso já acontece hoje, aliás. Daqui a pouco eles vão dizer que o Brasil também não pode" . Em outro texto , José Goldemberg, especialista em 4 5 energia do país, parece concordar com o climatologista: "(...) isso pode gerar alguns efeitos indiretos perigosos. Apoiar a energia nuclear pode ajudar países como o Irã ou a Coreia do Norte a desenvolverem suas armas nucleares". Além do perigo com a produção de armas nucleares e com os resíduos radioativos, outro texto coloca, já no 6 título, como um fator controverso à instalação de usinas nucleares, o alto custo da instalação: "Angra 3 é desperdício de dinheiro, diz Greenpeace".

## Conclusão

Nessa seleção de textos da seção Ciência do portal Folha.com , pudemos notar como o critério de noticiabilidade conflito ou controvérsia propiciou condições para a cobertura da mídia sobre energia nuclear. Pudemos abordar como vozes favoráveis e desfavoráveis à instalação de usinas nucleares foram ouvidas, com suas ações e reações, bem como argumentos utilizados na defesa de seus posicionamentos. Assim, consideramos como a abordagem das condições de produção do discurso jornalístico pode auxiliar no trabalho com textos dessa natureza em situações efetivas de ensino.

## Referências

ALMEIDA, M. J. P. M. de. O texto de divulgação científica como recurso didático na mediação do discurso escolar relativo à Ciência. In: PINTO, G. A. Divulgação científica e práticas educativas . Curitiba: Editora CRV, 2010.

ALSINA, M. R. A construção da notícia . Petrópolis: Vozes, 2009.

ANGELO, C. IPCC mostra caminho para contornar a crise climática. Folha.com , São Paulo, 05 mai. 2007.

CIÊNCIA & ENSINO. Edição especial: Educação em Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente, Campinas, v. 1, 2007.

DIAS, R. H. A. e ALMEIDA, M. J. P. M. de. Especificidades do jornalismo científico na leitura de textos de divulgação científica por estudantes de licenciatura em física. Revista Brasileira de Ensino de Física , São Paulo, v. 31, n. 4, 2009.

GERAQUE, E. Biomassa poderá responder por até 25% da energia no mundo. Folha.com , São Paulo, 12 fev. 2007a.

\_\_\_\_\_\_\_\_. País terá rede de estudos do clima. Folha.com , São Paulo, 03 abr. 2007b.

LAGE, J. Angra 3 é desperdício de dinheiro, diz Greenpeace. Folha.com , São Paulo, 22 mai. 2007.

MUNIZ, D. Energia nuclear esbarra na questão bélica, diz especialista. Folha.com , São Paulo, 06 mar. 2007.

NELKIN, D. Selling science: how the press covers science and technology . New York: Freeman, 1987.

SALOMON, M. Brasil pode ter de recorrer à opção nuclear, diz Krug. Folha.com , São Paulo, 04 jun. 2007.

SILVA, H. C. da. Discursos escolares sobre gravitação newtoniana: textos e imagens na física do ensino médio . Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Unicamp, 2002.

TRAQUINA, N. Teorias do jornalismo: a tribo jornalística - uma comunidade interpretativa transnacional . Florianópolis: Insular, 2005.

WOLF, M. Teorias da comunicação . Lisboa: Presença, 2006.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.