Inclusão de saberes dos povos tradicionais brasileiros em aulas de Física.
João Gabriel Manzolillo, Vitor Acioly, Antônio Carlos Dos Santos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- Equidade, inclusão, diversidade, direitos humanos e estudos culturais no ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Inclusão de saberes dos povos tradicionais brasileiros em aulas de Física.
## João Gabriel Manzolillo¹, Vitor Acioly², Antônio Carlos dos Santos³
1 Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, joaogabrielmmanzolillo@gmail.com
- 2 Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, vitoracioly@id.uff.br
- 3 Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, toni@if.ufrj.br
Palavras-chave: Calorimetria, Povos tradicionais, Condutividade térmica.
É de conhecimento geral a obrigatoriedade do estudo da cultura e história dos povos tradicionais brasileiros no Ensino Regular. No entanto, é também notável que apesar de não existir uma definição de quais aspectos da cultura de povos tradicionais devem ser abordados, quais disciplinas devem abordá-los e quando abordá-los existe um padrão seguido nas escolas de virar-se somente para o encontro dos povos indígenas com os portugueses em 1500, somente nas disciplinas de história e sociologia e comumente em datas específicas como no dia nacional dos povos indígenas em 19 de abril. Neste estudo entenderemos como chegou-se juridicamente a tal inclusão, discutiremos sobre sua aplicação na atualidade e sua necessidade. Também iremos desenvolver uma proposta para ensino de ciências (mais especificamente da física) a partir dos saberes dos povos tradicionais brasileiros e que permita um debate em sala de aula sobre sua valorização.
Em 2003, surge a lei 10.639 que torna obrigatório o ensino de História e Cultura africana e afro-brasileira em todas as escolas do território nacional [1], paralelamente, no mesmo ano o Brasil assina a convenção n° 169 que se origina em 1989 e tem como um dos seus princípios o reconhecimento da necessidade de escolas especiais em terras indígenas voltadas para a realidade específica daquela comunidade [2]. Então, em 2008 surge a partir da Lei 10.639 a nova lei federal nº 11.645 que torna obrigatório o estudo da história e cultura indígena nos ensinos médio e fundamental de todo país, lei essa que inspira tal pesquisa [3].
No entanto, a lei nº 11.645 não prevê a obrigatoriedade de pautas sobre história e cultura de povos tradicionais nos currículos dos cursos de licenciatura. Como consequência dessa ausência de obrigatoriedade de disciplinas voltadas à preparação dos profissionais da educação para debaterem em sala a cultura e história dos povos tradicionais, surge um grande debate sobre que história e cultura indígena tais professores não instruídos irão transmitir. Sem um aprofundamento mínimo neste estudo é comum que os professores acabem transferindo aos alunos preconceitos e visões erradas quanto aos povos tradicionais brasileiros baseadas em um etnocentrismo. Tendendo a romantizar o indigena como um herói do século passado ou como um desventurado definido por seu sofrimento sendo de ambas as formas demonstração de um ser antigo quase mitológico [4]. Nenhuma dessas visões leva a um reconhecimento de pessoas reais indígenas brasileiras, reconhecimento de suas lutas e tão pouco a uma identificação dos alunos que fazem parte de um povo tradicional e pouquíssimos cursos de licenciatura no país procuram desenvolver tais estudos com seus licenciandos por conta dessa não obrigatoriedade.
Um bom desenvolvimento quanto a sabedorias de povos tradicionais em aulas de ciência pode auxiliar os alunos a aprenderem sobre diferentes fontes de saberes e consequentemente auxiliar em sua construção de uma visão de mundo
não etnocêntrica. Seu ensino regular também pode ser importante para a proteção, validação e reconhecimento dos próprios povos tradicionais que são parte integrante e presente de nossa realidade nacional. A valorização de sua sabedoria e cultura poderá demonstrar aos jovens a importância de num futuro próximo divulgarem e defenderem políticas públicas que protejam e integrem povos indígenas e quilombolas. Outro fator de destaque é a identificação e construção histórico cultural de alunos de origem nestes povos que estarão presentes na classe, o conhecimento de sua origem etno-cultural pode auxiliar o aluno em seu auto compreendimento e ajudá-lo a interpretar sua relação com sua sociedade em sua volta.
Para bem utilizar-se dos saberes de povos tradicionais em aulas do ensino regular se faz necessário que compreendam-se as características e peculiaridades deste saber, destacando, no entanto, que cada povo tem suas especificidades e portanto distinções em relação a sua cultura e a natureza de seus conhecimentos. Portanto, as características aqui estudadas serão as coincidentes entre diferentes povos indígenas brasileiros obtidas a partir de estudos e diálogos efetuadas nos últimos anos somadas as definições apresentadas pela UNESCO [3].
O conhecimento tradicional em contrapartida com o conhecimento científico, emana e dialoga sempre com sua cultura, sua espiritualidade e sua regionalidade sendo os quatro inseparáveis e indistinguíveis entre si. As formas de obtenção e reprodução de um conhecimento tradicional são específicas de sua natureza tal como as de um conhecimento científico todavia, esta distinção não invalida um em relação ao outro contando que se perceba cada um deles como uma óptica integrante de um todo social [5]. Tais saberes apesar de não científicos são paralelos à ciência e não opostos a mesma, indo de encontro dela em alguns casos e em comum caminho com a mesma em outros tendo inclusive características em comum como a necessidade de construções e reproduções específicas, dependendo de métodos e regras sociais compreendidas em seu meio.
Objetivando aplicarmos os conhecimentos indígenas em aulas de física escolheram-se como tema as comparações entre utensílios de cozinha de históricos distintos. Tal especificidade se dá por diversos motivos, mas de maneira especial por utilizarmos muito da cultura e tecnologia de povos tradicionais em nossas cozinhas. Anteriormente ao primeiro contato dos povos tradicionais brasileiros com os portugueses, esses últimos já obtinham uma tecnologia suficiente para manufatura de metais, consequentemente, utilizavam-se de colheres e panelas de cobre, ferro e aço em contrapartida aos materiais e tecnologias dos povos tradicionais que foram completamente renegados e negligenciados pelos portugueses desde seu primeiro contato sendo considerados primitivos e subdesenvolvidos. Como tal contato acabou sendo uma das bases formativas de nossa sociedade brasileira, tal julgamento errôneo se perpetuou, sendo portanto a validação de grande parte desses saberes tradicionais até hoje incompleta.Tal proposta didática procura então a partir do ensino de calorimetria instigar os alunos nessa discussão sobre validações de diferentes tecnologias e formas de obtenções de saber.
Desenvolveremos esse ensino da condução térmica a partir de três momentos pedagógicos definidos por Delizoicov [6] em suas aplicações do ideário Freireano no ensino de Ciências. Estes momentos são a contextualização, o desenvolvimento teórico e a aplicação. A começar pela contextualização, é interessante voltar ao meio dos alunos e aos conhecimentos e vivências que eles acumulam. Ao questionar sobre os materiais dos utensílios que as famílias deles
utilizam na cozinha muitos falarão sobre os talheres e panelas de metal além das colheres de madeira e as vezes vasilhas e panelas de cerâmica. Produzindo então, a partir destas respostas, um debate quanto à aplicação destes diferentes materiais chega-se possivelmente a uma distinção clara no caso dos talheres: a colher de madeira é utilizada para cozinhar e a de metal para comer. Desenvolvendo mais então essa discussão quanto às funcionalidades dos materiais pode-se chegar a conceitos similares aos da calorimetria, surgindo falas sobre calor, sentimento de queimar a mão e aumento de temperatura dos talheres. A partir dessas falas inicia-se o segundo momento pedagógico: O desenvolvimento teórico.
Neste momento, percebendo a necessidade de um saber científico para continuar a discussão, o professor se volta para o ensino dos conceitos clássicos da calorimetria. Utilizando os conceitos de aulas anteriores sobre temperatura e essa nova discussão sobre materiais para definir calor e explicar o conceito de condutividade térmica diferenciando os condutores dos isolantes térmicos. O objetivo é que a contextualização reforce o interesse dos alunos neste conteúdo que será depois ainda base para uma retomada da questão dos materiais utilizados na cozinha.
Após todo o embasamento teórico, parte-se para a aplicação do conhecimento e nesta surgem os estudos desenvolvidos neste artigo. A partir de uma introdução aos alunos sobre os saberes tradicionais e a história e cultura dos povos indígenas brasileiros pode-se chegar à questão do choque cultural entre europeus e indígenas. Relacionando as diferentes formas de obtenção de conhecimento destes povos com as diferenças entre as tecnologias por eles produzidas e como essas sao vistas e valorizadas em nossa sociedade. O objetivo não é levar a sala a debater sobre qual material é melhor para colher ou qual tecnologia é mais evoluída, mas levantar um questionamento quanto aos nossos conceitos de desenvolvimento e de evolução de saberes. O que caracteriza um saber ou um conhecimento? Podemos definir uma evolução linear das tecnologias de diferentes povos? Ou ainda nivelar diferentes culturas categorizando-as como desenvolvidas e subdesenvolvidas?
Toda essa discussão embasada pelo estudo da física pode demonstrar o quanto nossa sociedade é construída como resultado de diversos choques culturais. E consequentemente como nossos estudos e aprendizados sobre tais culturas e a história desses choques podem nos auxiliar a compreender melhor o meio em que vivemos e melhor utilizar e valorizar as tecnologias e conhecimentos que dessas diferentes culturas surgem. Além de auxiliar na valorização das próprias comunidades que constroem historicamente o Brasil e a cultura de seu povo.
## Referenciais.
- [1] - BRASIL. Lei 10.639/2003, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9. 394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília.
- [2] - IPHAN http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/226, acesso em 05/07/2023
- [3] - BRASIL. Lei 11.645/08 de 10 de Março de 2008. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília.
- [4] -L. Gomes, Legitimando Saberes Indígenas na Escola. Tese de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2011.
- [5] -L.H. Sasseron; V.F. Machado, Alfabetização Científica na Prática: Inovando a Forma de Ensinar Física. (Editora Livraria da Física, São Paulo, 2017.)
- [6] - D. Delizoicov, S.T. Gehlen, O.A. Maldaner, Ciência & Educação 18 (2012)
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