Minicurso para explorar a Alfabetização Científica Midiática com base na controvérsia do kit COVID
Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira, Cibelle Celestino Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- História, filosofia e sociologia da ciência no ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## MINICURSO PARA EXPLORAR A ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA MIDIÁTICA COM BASE NA CONTROVÉRSIA DO KIT COVID
Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira 1 , Cibelle Celestino Silva 2
- 1 Universidade de São Paulo / Instituto de Física de São Carlos, marcos.vinicius.ferreira@usp.br
- 2 Universidade de São Paulo / Instituto de Física de São Carlos, cibelle@ifsc.usp.br
Palavras-chave : Alfabetização científica midiática; Formação de professores; kit COVID.
## Resumo expandido
Com a popularização das tecnologias de informação e comunicação (TIC), uma onda significativa de desinformação, pseudociência, teorias da conspiração e notícias falsas ( fakenews ) vem afligindo nossa sociedade como nunca. As fakenews não são uma novidade contemporânea. No entanto, por conta de algoritmos baseados em preferências individuais, filtros de bolha ( filter bubbles ) potencializam a seleção enviesada de informações ( selection bias ), enquanto as redes sociais estimulam as câmaras de eco ( echo chambers ), conferindo hegemonia e aparência de verdade a proposições inverídicas e sem fundamento científico, o que impõe vários desafios à educação e comunicação científica.
Nesse contexto, o termo pós-verdade surgiu nas últimas décadas para descrever o fenômeno da desconfiança geral e relativismo crescente na pósmodernidade, atacando informações factuais e instituições tradicionais como a ciência e democracia (MASON, KRUTKA e STODDARD, 2018). Diversos trabalhos já advogam que a educação científica pode ser uma das ferramentas para remediar a crise de confiança na ciência atual (da SILVEIRA e VIDEIRA, 2020; O'BRIEN, PALMER e ALBARRACIN, 2021), por exemplo, informando sobre a natureza da ciência (MATTHEWS 2018) e questões sociocientíficas (FORATO, de LIMA e FERREIRA, 2023) ou trabalhando com competências gerais de alfabetização científica (ARCHILA et al ., 2021). Entretanto, seja qual for a abordagem escolhida, ela precisa levar em consideração as mídias e suas novas formas de influenciar nosso comportamento, sociedade e vida cotidiana, abordando estrategicamente tópicos controversos de cunho científico presentes na mídia. No presente trabalho adotamos a abordagem focada na natureza da ciência em sociedade como forma de promover alfabetização científica midiática.
Para pensar o ensino de ciências frente aos problemas da crise de confiança e do avanço da visão pós-verdadeira, nos baseamos na perspectiva de alfabetização científica midiática (ACM) que busca desenvolver conhecimentos sobre a ciência e sua natureza por meio de casos sobre temas científicos com grande presença na mídia, visando atingir objetivos da alfabetização midiática e também da alfabetização científica (REID e NORRIS, 2016). Essa visão reconhece que a maioria das informações e conteúdos científicos acessíveis às pessoas é mediada por veículos de informação, e busca prepará-las para melhor compreender e analisar os discursos em situações do cotidiano e da vida real. Explorar a natureza da ciência em sociedade (NdCS), significa ir além das características da ciência
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dentro das comunidades de experts e discutir como ela se constitui, reformula-se e transita nos diversos setores da sociedade (HÖTTECKE e ALLCHIN, 2020).
Para nortear nossas propostas de utilização dessas ideias, escolhemos o episódio do kit COVID para embasar as discussões intencionadas. Ainda que rapidamente se tenha estabelecido um consenso científico negando as pretensões profiláticas de tal kit (AXFORS et al ., 2021), o governo brasileiro o distribuiu milhões de unidades para a população nos sistemas de saúde público e privado com o apoio de médicos e associações médicas. Esse episódio gerou grandes debates sobre os porquês de se confiar na ciência, quem poderia falar pela ciência, sobre a natureza do empreendimento científico, entre outras questões.
- O que está em jogo não é esperar que estudantes ou o público não especializado possam ler artigos para julgar por si mesmos, já que a dependência epistêmica é uma realidade em uma sociedade com tanto acúmulo de expertise. Precisamos de especialistas. Todavia, a grande questão é como escolher em quem confiar. Nesta pesquisa, discutimos como uma melhor compreensão acerca da natureza da ciência pode promover a alfabetização científica midiática, evitando problemas relacionados à crença e uso do kit COVID e como preparar futuros professores de ciências naturais para lidar com a desinformação nas aulas de ciências.
Consideramos os professores como principais atores a fornecer bases crítico-reflexivas para preparar os indivíduos para lidar com o excesso de informações que nos bombardeiam atualmente, muitas delas errôneas ou mesmo nocivas, sendo a etapa de formação inicial crucial para auxiliá-los a cumprir com esse objetivo. Assim, apoiados na pedagogia crítica como referencial teórico para a formação de professores (FREIRE, 2004; BROOKFIELD, 2017) e na metodologia de Design Based Research (DBR), produzimos materiais baseados em artigos científicos e pseudocientíficos, postagens pró e contra a eficácia do kit feitas por cientistas, influenciadores e políticos em mídias sociais. Esse material foi sintetizado na forma de um caso a ser utilizado como base em uma intervenção promovida no formato de um minicurso de 12 horas, delineado como uma sequência de ensinoaprendizagem (SEA) aplicada com licenciandos em Ciências Exatas.
Neste trabalho, defendemos a integração de questões midiáticas ao ensino de ciências, utilizando como exemplo o episódio do kit COVID, explicitando características de NdCS. Apresentaremos parte de nossos resultados, entre eles a SEA e sua evolução discutindo as mudanças feitas pelo grupo de trabalho coletivo pelas interações entre pesquisadores e sujeitos da pesquisa, discutindo suas interpretações do caso, da ACM e da NdCS.
Episódios envolvendo questões sociocientíficas como o do kit COVID podem fomentar discussões sobre as novas maneiras pelas quais a ciência está sendo consumida quase imediatamente, com pouco controle prévio. Sendo assim, os futuros professores deverão estar bem-preparados para promover a capacidade de seus estudantes em lidar com o imenso fluxo de informações divergentes características da contemporaneidade.
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## Referências
ARCHILA, P. A. et al . Towards Covid-19 Literacy: Investigating the literacy levels of University Students in Colombia. Science & Education , v. 30, p.785-808, 2021.
AXFORS, C. et al . Mortality outcomes with hydroxychloroquine and chloroquine in COVID-19 from an international collaborative meta-analysis of randomized trials. Nature Communications , v. 12, n. 2349, p.1-13, 2021.
FORATO, T. C. M.; de LIMA, I. P. C.; FERREIRA, G. K. History of Physics and Socio-Scientific Issues: Approaching Gender and Social Justice. In : TAŞAR, M. F.; HERON, P. R. L. The International Handbook of Physics Education Research: Special Topics . Melville: AIP Publishing, 2023.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa . São Paulo: Paz e Terra, 2004. 148p.
HÖTTECKE, D.; ALLCHIN, D. Reconceptualizing nature-of-science education in the age of social media. Science Education , v. 104, p. 641- 666. 2020.
MASON, L. E.; KRUTKA, D.; STODDARD, J. Media Literacy, Democracy, and the Challenge of Fake News. Journal of Media Literacy Education , v. 10, n. 2, p. 1-10, 2018.
MATTHEWS, M. R. History, Philosophy and Science Teaching: New Perspectives . Springer, 2018. 351p.
O'BRIEN, T. C.; PALMER, R. P.; ALBARRACIN, D. Misplaced trust: When trust in science fosters belief in pseudoscience and the benefits of critical evaluation. Journal of Experimental Social Psychology , v. 98, p. 1-13, 2021.
REID, G.; NORRIS, S. P. Scientific media education in the classroom and beyond: a research agenda for the next decade. Cultural Studies of Science Education , v. 11, p. 147-166, 2016.
da SILVEIRA, V. C.; VIDEIRA, A. A. P. Como as ciências morrem? Os ataques ao conhecimento na era da pós-verdade. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 37, n. 3, p. 1041-1073, 2020.
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