UMA LEITURA BIOGRÁFICA DA CARTA-RESPOSTA DE BLAISE PASCAL A PADRE NOËL (1647)
Daniel De Medeiros Queiroz, André Ferrer Pinto Martins
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- História, filosofia e sociologia da ciência no ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UMA LEITURA BIOGRÁFICA DA CARTA-RESPOSTA DE BLAISE PASCAL A PADRE NOËL (1647)
## Daniel de Medeiros Queiroz , André Ferrer Pinto Martins 1 2
1 UFRN/Programa de Pós-Graduação em Educação, daniel.queiroz.017@ufrn.edu.br 2 UFRN/Programa de Pós-Graduação em Educação, aferrer34@yahoo.com.br
Palavras-chave : leitura biográfica; Blaise Pascal; Padre Noël.
## Resumo expandido
Nesta pesquisa de viés biográfico, exploramos contextualmente a cartaresposta de Blaise Pascal a Padre Noël, uma fonte primária datada de 29 de outubro de 1647. Pressupomos a indissociabilidade entre vida e obra, e objetivamos identificar características da personalidade do autor - identificação tal que colabore para o uso hodierno do gênero biográfico no ensino de física. Esta questão norteou nossa leitura biográfica: Que características da personalidade de Pascal são perceptíveis em sua carta-resposta ao reitor do Colégio de Clermont?
A primeira publicação de Blaise Pascal (1623-1662) foi intitulada Novas experiências sobre o vácuo , um folheto dedicado a seu pai Étienne Pascal em outubro de 1647. Então aos 24 anos, Pascal considerou seu folheto apenas um resumo ou, ainda, uma antecipação do tratado que desejava escrever. Nesse folheto, ele defendeu o vácuo na natureza 'e que ela não fugia dele com tanto horror quanto muitos imaginavam' - 'et qu'elle ne le fuyoit pas avec tant d'horreur que plusieurs se l'imaginent' (Pascal, 1872, p. 1). Esses muitos, segundo o jovem Pascal, viam-se forçados à 'prevenção', isto é, forçados a uma excessiva reverência à autoridade em sua época (Martins, 1989).
O padre jesuíta Étienne Noël (1581-1659), um representante dessa autoridade, não demorou a questionar a primeira publicação de Pascal. Outrora professor de René Descartes, esse padre reconheceu a oposição pascaliana à filosofia cartesiana, assim como às categorias aristotélicas de substância e de acidente. Na função de reitor do Colégio de Clermont, em Paris, Noël se serviu da última objeção descrita por Blaise Pascal ao fim de seu folheto: 'se a luz for um acidente [...], não é possível que ela se sustente no vácuo [...]; [...] ela preenche o espaço aparentemente vazio, se ela for uma substância' - 'V. Que la lumière étant un accident, ou une substance, il n'est pas possible qu'elle se soutienne dans le vide, si elle est un accident; et qu'elle remplisse l'espace vide en apparence, si elle est une substance' (Pascal, 1872, p. 8). Uma publicação póstuma de Louis Rougier esclarece a objeção que Pascal apresentou e que o padre, contra esse jovem pensador, fez voltar sem demora:
A última objeção afirma o seguinte: a luz é um acidente ou uma substância. Se for um acidente, não pode ser atribuído ao vazio que não é uma substância; se for uma substância, preenche o espaço vazio, que deixa de sê-lo. Para Noël, os raios de luz são compostos de corpúsculos luminosos, de modo que o espaço vazio iluminado é um espaço repleto de matéria (Rougier, 2010, p. 182-183).
A primeira carta de Padre Noël a Pascal não foi datada, mas é inequívoco afirmarmos sua escrita no mesmo mês da primeira publicação pascaliana. No início da carta-réplica, segunda carta de Étienne Noël, à qual Pascal não respondeu diretamente, lemos a admiração desse padre por receber a carta-resposta em tão pouco tempo - 'que em tão pouco tempo'; 'qu'en si peu de temps' -, ainda mais considerando a saúde fragilizada do autor - 'e incomodado por vossa saúde'; 'et incommodé de votre santé' (Pascal, 1872, p. 18).
Assim, sabemos que Blaise Pascal estava debilitado quando respondeu a Padre Noël. Pascal não teve sequer disposição para escrever de próprio punho. Ele ditou a carta e fez-se representar como um homem de saúde frágil, mas também um intelectual rigoroso, a quem não se pode imputar erros de forma leviana, sobretudo erros ortográficos. Quem redigiu a carta-resposta? Possivelmente, Jacqueline Pascal, a irmã mais nova do pensador, que o assistia.
Ele inicia essa carta-resposta afirmando a honra de receber a primeira carta de Padre Noël e que recebê-la o fez romper com a intenção de dar respostas às objeções apenas no tratado completo. Ora, se nem o irreverente autor de 24 anos aguardou para publicar tal tratado completo, seria razoável desejar que um padre e reitor de 66 anos o esperasse? Essa é uma expressão de incoerência, um predicado humano que contraria uma narrativa tão somente laudatória da vida de Pascal, mesmo que ele possa ser devidamente elogiado por sua vida e obra. A percepção de incoerência se adequa à escrita da vida que atenta para a crítica da ilusão biográfica (Bourdieu, 2005), uma ilusão que molda a vida humana com unicidade e coerência, e que negligencia as ambivalências que nos são tão próprias (Schwarcz, 2013).
A rigorosidade como característica da personalidade de Pascal se apresenta na ênfase que ele dá a aspectos metodológicos. Ele considera duas condições para o que designa 'julgamento decisivo': a afirmação ou a negação de uma proposição deve ocorrer ou (1) à luz de princípios ou axiomas ou (2) por meio da dedução de 'consequências infalíveis e necessárias' de princípios ou axiomas.
Após apresentar essas duas condições, Blaise Pascal recorre à antífrase como figura de pensamento ou, dito de outro modo, recorre a uma retórica de dissimulação que o caracteriza. 'A antífrase é um recurso típico do discurso irônico: dissimula-se o pensamento - e mesmo o sentimento - com a expectativa de que o destinatário os compreenda, ditos embora por meio de expressões que denotam o contrário' (Azeredo, 2018, p. 540).
Para Pascal, proposições que não satisfazem essas condições devem ser relegadas, embora sejam consideradas ora como 'visões', ora como 'capricho', ou 'fantasia', ou 'ideia' e, ainda, 'belo pensamento'. Como sobretudo a natureza da luz era desconhecida, ele tencionou que o padre percebesse que a afirmação de espaço vazio como um corpo era, a seu ver, no máximo um belo pensamento, senão uma fantasia. Esta era a proposição de Padre Noël, citada na carta-resposta: 'Digo que é um corpo, pois apresenta ações como de um corpo, que transmite luz com refração e reflexão, que atrasa o movimento de outro corpo;' - 'Je dis que c'est un corps, pusqu'il a les actions d'un corps, qu'il transmet la lumière avec réfraction et réflexion, qu'il apporte du retardemente au mouvement d'un autre corps;' (Pascal, 1872, p. 13).
Pascal ignora ativamente as categorias aristotélicas de substância e de acidente (propriedade de uma substância). Em lugar delas, decide-se livre tanto
quanto afirma que o padre é para conceber um pensamento. Pascal informa que seu pensamento é um princípio, mas que, como o de Noël, só é passível de prova quando a natureza da luz for conhecida: 'a luz se sustenta no vazio, e o movimento ocorre ali com o tempo, ou a luz penetra o espaço aparentemente vazio, e o movimento ocorre ali com o tempo; então, ele pode estar vazio de fato' - 'la lumière se soutient dans le vide, et le mouvement s'y fait avec temps: or la lumière pénètre l'espace vide en apparence, et le mouvement s'y fait avec temps; donc il peut être vide en effet' (idem, p. 14).
A retórica de dissimulação acompanha seu autor nos meados da cartaresposta. Ele considera que o padre discursa meras suposições e não apresenta provas. Porque Noël defende uma matéria sutil a preencher o espaço aparentemente vazio, Pascal, que havia recebido visitas de Descartes em 23 e 24 de setembro daquele ano, toma proveito para escrever contra o pensamento cartesiano, contra a concepção de matérias e qualidades ad hoc , sem provas.
Com uma pergunta retórica, Blaise Pascal insinua ser ridículo - 'ridicule' sustentar suposições sem provas. O que ele não percebeu, na carta-resposta, foi a invalidade de uma comparação que fez no tocante à discussão do vazio na natureza (Martins, 1989). Ele comparou o hoje nomeado experimento de Torricelli com esponjas comprimidas. Por outro lado, importa saber que, ao fim dessa carta, possíveis erros foram associados à indisposição de saúde do autor.
No atual ensino de física, é possível que seja bem-quista a discussão conceitual dessa carta. Mas, que importância teria a vida de Pascal em si? Propomos que a carta-resposta de Blaise Pascal a Padre Noël seja, quando pertinente, objeto de uma leitura biográfica no ensino superior de física, leitura que explore as características da personalidade do autor. Isso, a nosso ver, 'humaniza a matéria' (Matthews, 1995, p. 172). As ambivalências desse pensador devem servir para humanizá-lo.
## Referências
AZEREDO, J. C. Gramática Houaiss da língua portuguesa . 4. ed. São Paulo: PubliFolha/Instituto Houaiss, 2018.
BOURDIEU, P. A ilusão biográfica. In : AMADO, J.; FERREIRA, M. M. (org.). Usos e abusos da história oral . 7. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005, p. 183-191.
MARTINS, R. A. Tratados físicos de Blaise Pascal. Cadernos de História e Filosofia da Ciência . Campinas, v. 1, n. 3, p. 1-168, jan./dez. 1989.
MATTHEWS, M. R. História, filosofia e ensino de ciências: a tendência atual da reaproximação. Caderno Catarinense de Ensino de Física . Florianópolis, v. 12, n. 3, p. 164-214, dez. 1995.
PASCAL, B. Œvres complètes . Paris: L. Hachette, 1872. t. 3.
ROUGIER, L. La correspondance du père Noël et de Pascal. Philosophia Scientiæ . Paris, v. 14, n. 2, p. 182-194, out. 2010.
SCHWARCZ, L. M. Biografia como gênero e problema. História Social . Campinas, n. 24, p. 51-73, jan./jun. 2013.
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