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Um olhar sobre as perspectivas da Cosmologia Medieval através da literatura da Divina Comédia.

José França De Andrade, Tassiana Fernanda Genzini De Carvalho, João Eduardo Ramos, Claudio Mateus Da Silva

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
09/11/2023
Linha de pesquisa
História, filosofia e sociologia da ciência no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Um olhar sobre as perspectivas da Cosmologia Medieval através da literatura da Divina Comédia.

## José França de Andrade 1 , Tassiana Fernanda Genzini de Carvalho 2 , João Eduardo Ramos 3 , Claudio Mateus da Silva 4

1 Universidade Federal de Pernambuco, PPGECM, franca.andrade@ufpe.br 2 Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico do Agreste, tassiana.fgcarvalho@ufpe.br 3 Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico do Agreste, joao.framos@ufpe.br 4 Universidade Federal de Pernambuco, PPGECM, claudio.mateus@ufpe.br Palavras-chave : Divina Comédia; cosmologia medieval; ciência e cultura.

É bastante comum que, ao debatermos sobre ciências, especialmente quando tratamos da Física, tenhamos dificuldade em estabelecer conexões com outras áreas do conhecimento e criar uma ponte de interdisciplinaridade. Isso muitas vezes ocorre devido ao nosso ensino fragmentado e, em muitos casos, desconectado da história e da filosofia da ciência. Conforme apontado por Cachapuz et al. (2005), muitas vezes desenvolvemos a percepção de que a ciência é algo cultural e historicamente desligado da sociedade. Essa visão distorcida nos faz esquecer das dimensões da atividade científica e de seu impacto nos âmbitos social, cultural e ambiental.

O matemático e historiador polonês-britânico Jacob Bronowski (1998, apud ZANETIC, 2006a) já observava tais implicações entre a ciência e as artes e seus aspectos de similaridade por meio de uma reflexão na qual, apesar de trilharem caminhos diferentes, ambos os campos do conhecimento produzem e nos fornecem entendimento de maneira não mecânica. Trazendo a ideia de que o espírito da imaginação humana funciona como uma ponte entre esses dois campos, mesmo que o ato criativo em cada um deles seja realizado de maneira distinta.

Segundo Zanetic (2006b), a relação entre Física e Literatura pode ser compreendida como caminho em duas vias, destacando, em certas ocasiões, os aspectos científicos e sua influência na literatura, e, em outras, as possíveis previsões científicas provenientes de obras literárias diversas. Esses elementos podem frequentemente ser identificados em obras de ficção científica, que permeiam uma gama muito mais ampla do que apenas o público puramente científico. Sendo assim, podemos nos questionar: até que ponto podemos observar aspectos da cosmologia medieval por meio da literatura, neste caso específico, através da obra " Divina Comédia" de Dante Alighieri? E quão pertinente se faz essas observações para uma visão menos deformada sobre o que é Ciência, de acordo com as ideias de Cachapuz et al. (2005)? Implicando considerar a possibilidade de uma perspectiva menos elitista e individualista, que esteja interligada com outras áreas do conhecimento, compreendendo que a Ciência é, acima de tudo, um conhecimento contextualizado historicamente e filosoficamente, caracterizado por um crescimento não linear dos saberes. (CACHAPUZ et al., 2005)

A obra de Dante, inicialmente intitulada Commedia, e posteriormente chamada de La Divina Commedia, por Giovanni Boccaccio, é um poema épico com propósitos filosóficos, dividido em três partes, cada uma com 33 cantos, intituladas Inferno, Purgatório e Paraíso. Ao longo de toda a obra, observamos a presença das ideias cosmológicas aristotélicas-ptolomaicas, que eram aceitas pela Igreja Católica, à qual Dante era devoto.

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Essas ideias estão presentes tanto de forma sutil quanto explícita. As repetições dos círculos concêntricos, tanto no Inferno quanto no Paraíso, eram derivadas da concepção do universo medieval, que dividia o mundo em duas partes: o sublunar e o supralunar. O sublunar abrangia todas as substâncias sujeitas à corrupção, enquanto o supralunar, também conhecido como esfera celeste, era habitado apenas pelos astros, santos, anjos e Deus, emitindo fluidos invisíveis que influenciavam o mundo abaixo. Essas representações e ideias, influenciadas pelo Neoplatonismo, contribuíram para a concepção da quintessência, ou éter, que preenchia o espaço acima da esfera terrestre. Logo, no primeiro canto de sua obra, percebemos um elemento da visão cosmológica da época, em que o Sol é representado como um planeta, de acordo com a ótica aristotélica.

olhei pra alto e vi a sua vertente vestida já dos raios do planeta que certo guia por roda toda estrada a gente (ALIGHIERI, 1999, Canto I - Inferno, v. 16-18 - grifo nosso.)

Outro reflexo dessa visão se manifesta quando Dante foge de Lúcifer no Inferno. Segundo a teoria aristotélica da gravitação, acreditava-se que todas as coisas tinham seu lugar natural de origem, e o centro da Terra era considerado o ponto para o qual os objetos terrestres caíam, sendo visto como o centro da esfera celeste. Dante se apropria desses conceitos para justificar o fato de que Lúcifer não conseguia sair do centro da Terra, onde se encontrava o Inferno. Este era o local ao qual todo peso pertencia, também sendo considerado o centro do Universo. Portanto, sair desse ponto era considerado impossível para as entidades que dali fossem tidas como naturais. No entanto, Dante e Virgílio, seu guia na viagem, não pertenciam a esse lugar e, portanto, tinham a capacidade de sair.

Outra relação presente na obra diz respeito à passagem do Sol, na qual o texto se vale da ideia escolástica da cosmologia para explicar essa travessia. Na época em que a obra se situa, a Terra era compreendida como um globo solto, fixo e imóvel no espaço, cercado por terras e mares. Este globo era dividido em dois hemisférios, o superior (setentrional) e o inferior (austral). No hemisfério superior, o meio-dia, ou o ponto central, correspondia à cidade de Jerusalém, enquanto no hemisfério inferior, austral, localizava-se a montanha do Purgatório.

Portanto, a passagem do tempo, para Virgílio, era considerada trivial, uma vez que, se estava anoitecendo no hemisfério setentrional, estava amanhecendo no hemisfério austral. Isso ocorria de acordo com as ideias de Aristóteles e Ptolomeu, que consideravam a Terra como o centro do universo e o Sol girando ao seu redor. Tanto Dante quanto Virgílio estavam observando essa passagem do Sol no limite entre os dois hemisférios.

e este, que escada em

se lá anoitece, aqui já surge a aurora, seu pêlo nos deu, tal como estava está fincado agora.

Já havia chegado o Sol ao horizonte do céu onde, em seu curso, a elevação maior faz que Jerusalém confronte ; e a Noite, que anda em sua oposição (ALIGHIERI, 1999, Canto XXXIV - Inferno, v. 91-120 e Canto II - Purgatório, v. 1-4 - grifo nosso.)

Por fim, também podemos fazer uma relação entre um trecho que faz associação ao conceito de Motor imóvel proposto por Aristóteles, como a causa primária de todo movimento primordial do Universo.

À fantasia foi-me a intenção vencida; mas já a minha ânsia, e a vontade, volvê-las, fazia, qual roda igualmente movida, o Amor que move o Sol e as mais estrelas. (ALIGHIERI, 1999, Canto XXXIII - Paraíso, v. 142-145)

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Em um eco na História da Física podemos olhar para Descartes, no século XVI, na enunciação do que hoje relacionamos com o Princípio de Quantidade de Movimento. Princípio este no qual o filósofo utilizou uma argumentação religiosa, associando as ideias básicas das suas próprias com as concepções da cosmovisão e da filosofia de Dante em sua obra.

Deus, em sua onipotência, criou a matéria ao mesmo tempo que o movimento e o repouso de suas partes, e graças à sua cotidiana influência, Ele mantém tanta quantidade de movimento no Universo hoje quanto Ele colocou quando o criou. (DESCARTES, 1982, p. 36)

Desde sua publicação a 'Divina Comédia" tem sido não apenas uma fonte de interesse, mas também de inspiração e estudo para diversos autores de múltiplas áreas. Sendo uma das fontes originais mais acessíveis da cosmovisão medieval, apresentando não apenas essa visão, mas também um recorte contextual, histórico e cultural de sua época. Sua influência perdura até os dias atuais, permeando filmes, livros, peças de teatro, jogos e músicas.

No entanto, vale ressaltar que a importância dessa obra literária não reside na justificação ou apresentação de aspectos científicos. Em vez disso, ela oferece possibilidades de estabelecer relações de forma interdisciplinar com um conjunto de pensamentos históricos, científicos, sociais, naturais e filosóficos. Esses recortes nos proporcionam a oportunidade de contextualização e servem como base para a compreensão da progressão contínua do pensamento e do entendimento científico, este o qual está diretamente relacionado à natureza humana, social e cultural.

O auxílio da ficção, do romantismo e até mesmo do absurdismo em obras literárias, e consequentemente o seu desprendimento da realidade, pode auxiliarnos na formação de um pensamento mais complexo, partindo do que levou os autores a seguir aquela linha de pensamento. Ao mesmo tempo, é importante compreender que as produções literárias são fenômenos culturais, assim como as produções científicas. Isso evidencia que o conhecimento científico não é apenas mediado, mas também construído, demonstrando sua ligação direta em natureza histórica e filosófica. Dessa forma, os modelos literários e científicos apresentam paralelos, mesmo que possuam características distintas. Essa aproximação nos permite, sobretudo, contar com uma poderosa ferramenta para a compreensão interpretativa e uma aproximação da realidade. Com isso, cria-se uma visão não restrita e lúdica da Ciência por meio da literatura, proporcionando um caminho para a interdisciplinaridade e aproximando a construção do pensamento crítico científico, auxiliando também na desconstrução de visões distorcidas da ciência por meio da literacia científica.

## Referências

ALIGHIERI, Dante . A Divina Comédia: Inferno, Purgatório e Paraíso. Tradução e notas de Ítalo Eugênio Mauro. Em português e italiano (original). 5. ed. São Paulo: Editora 34, 2019. ISBN 978-85-7326-120-2.

CACHAPUZ, Antonio et al. Superação das visões deformadas da ciência e da tecnologia: um requisito essencial para a renovação da educação científica. 2005.

DESCARTES, René. Princípios de filosofia . Tradução S. Milliet. Obras Escolhidas. São Paulo: Difel, 1982.

ZANETIC, João. Física e literatura: construindo uma ponte entre as duas culturas. História, Ciências, Saúde-Manguinhos , v. 13, p. 55-70, 2006a.

ZANETIC, João. Física e Arte: uma ponte entre duas culturas. Proposições , v. 17, n. 1, p. 39-57, 2006b.

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