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O REVÓLVER FOTOGRÁFICO DE JULES JANSSEN E A CINEMATOGRAFIA ASTRONÔMICA

Maria Romênia Da Silva, André Ferrer Pinto Martins

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
09/11/2023
Linha de pesquisa
História, filosofia e sociologia da ciência no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O REVÓLVER FOTOGRÁFICO DE JULES JANSSEN E A CINEMATOGRAFIA ASTRONÔMICA

## Maria Romênia da Silva 1 , André Ferrer Pinto Martins 2

- 1 Universidade Federal do Rio Grande do Norte/Centro de Ciências Exatas e da Terra, romeniadsilva@gmail.com

2 Universidade Federal do Rio Grande do Norte/Departamento de Práticas Educacionais e Currículo/Centro de Educação, aferrer34@yahoo.com.br

Palavras-chave : Revólver fotográfico; trânsito de Vênus; cinematografia.

- O presente trabalho tem por objetivo descrever a importância histórica do 'revólver fotográfico' ou 'revólver astronômico' de Jules Janssen, que foi utilizado para fotografar o trânsito de Vênus em 1874, bem como, destacar a relação do revólver fotográfico com a cinematografia astronômica. Na ocasião do trânsito, em 09 de dezembro de 1874 (em Nagasaki, no Japão), o astrônomo brasileiro Francisco Antônio de Almeida Júnior foi o responsável por manusear o instrumento científico e, com esse dispositivo, foram obtidas imagens que permitiram visualizar em detalhes a passagem de Vênus em frente ao Sol (MOURÃO, 2004), fenômeno cuja análise propiciou calcular com maior precisão a paralaxe solar e, consequentemente, a distância entre a Terra e nossa estrela mais próxima.
- O revólver astronômico de Jules Janssen foi o instrumento protagonista na missão científica francesa. O instrumento de Janssen destinava-se a obter uma série sucessiva de fotografias perfeitamente discriminadas. Para registrar fotograficamente o trânsito de Vênus, cuja dificuldade maior residia na rapidez do movimento e, consequentemente, no pequeno intervalo de tempo em que os contatos visuais do planeta com a borda do Sol ocorriam, Janssen desenvolveu um aparelho que tirava fotografias (daguerreótipos, a princípio) sobrepostas a uma placa de vidro, em sequência, com intervalos de aproximadamente um segundo. De acordo com Tosi (2005), Janssen iniciou o projeto de construção de seu dispositivo em 1873, procurando uma forma de registro em placas daguerreotípicas que fosse automatizada de forma rápida e sequencial, sem a intervenção do observador.
- O dispositivo consistia em um mecanismo de relógio capaz de tirar 48 imagens em um daguerreótipo (vidro com emulsão sensível), em um intervalo de 72 segundos, técnica que, para a época, foi considerada revolucionária. O movimento rotatório do dispositivo que permitia a entrada da luz no telescópio, no setor da placa sensível, foi construído a partir do mecanismo do revólver Colt, razão pela qual o dispositivo de Janssen foi denominado "revólver fotográfico". O aparelho era simples. A luz do telescópio atingia dois discos giratórios: o primeiro, composto por 12 aberturas regularmente espaçadas, funcionava como um obturador, deixando a luz passar em intervalos regulares para um segundo disco, no qual ficava o material fotossensível (LAUNAY e HINGLEY, 2005).
- O dispositivo de Janssen, fixado ao solo, era apontado para um "heliostato", um espelho movido por um mecanismo de relógio para seguir o Sol. Um motor girava ambos os discos, sincronizadamente. O segundo disco girava a um quarto da velocidade do disco do obturador para evitar a sobreimpressão das imagens,

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enquanto outro dispositivo media o momento exato em que cada exposição era realizada (SICARD, 2006).

Analisando algumas fontes que descrevem a utilização do revólver fotográfico, percebemos que o episódio histórico que ocorreu no final do século XIX marcou uma estreita relação entre os estudos astronômicos e o início da sétima arte. De acordo com Launay e Hingley (2005), o dispositivo inventado por Janssen para registrar o trânsito de Vênus é o primeiro dispositivo prático utilizado para capturar fotografias sequenciais (técnica conhecida atualmente como cronofotografia), que, posteriormente, foi reconhecido como o precursor da câmera cinematográfica. Esse evento evidencia o diálogo da ciência com outras áreas do conhecimento, especialmente as práticas dos fotógrafos, cineastas e astrônomos (que projetaram e utilizaram esses instrumentos). Na Figura 1 temos o revólver fotográfico idealizado por Janssen e construído por Rédier. Esta invenção é considerada um dos protótipos do cinema atual.

Figura 1: Revólver fotográfico usado em Nagasaki em 1874. Fonte: Mourão (2004).

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A contribuição pioneira que Jules Janssen trouxe para o nascimento do cinema científico está intimamente ligada ao seu trabalho de pesquisa em astronomia, que assumiu uma forma de uso consciente de novas possibilidades oferecidas pela análise de movimento através de uma série de imagens fotográficas (TOSI, 2005). É importante destacar que o astrônomo Jules Janssen ressaltou a importância do desenvolvimento da fotografia e, em particular, o seu uso em aplicações científicas. Seu filme Passage de Vénus , atualmente, é classificado como um Documentário/Curta-metragem (ver Figura 2), constando de uma série de fotografias do trânsito de Vênus pelo Sol, obtidas em 1874. As fotos foram tiradas no Japão pelo astrônomo brasileiro Francisco Antônio de Almeida Júnior em colaboração com o francês Jules Janssen, usando seu 'revólver fotográfico'.

Figura 2: Passage de Vénus . Fonte: https://www.imdb.com/title/tt3155794/ De acordo com Oliveira (2006), duas décadas antes da exibição do primeiro

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filme,

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[...] o astrônomo francês Jules Janssen já usava um 'revólver fotográfico' para reproduzir o registro da trajetória do planeta Vênus. E fazia isso inspirado pela experiência do fotógrafo inglês, Eadweard Muybridge, que montara uma incrível sequência de fotografias da corrida de um cavalo, reproduzindo seu movimento em detalhes. Isso foi logo percebido como um grande recurso para estudo de fisiologia do movimento (OLIVEIRA, 2006, p.7).

Embora os resultados obtidos pela fotografia clássica e pelos revólveres usados em 1874 para o trânsito de Vênus fossem pouco conclusivos, Janssen havia concebido e utilizado o primeiro equipamento cinematográfico que, desde o início, destinar-se-ia a muitos outros usos posteriores: registro de fases sucessivas de eclipses totais ou parciais; monitoramento automático do disco solar; estudo do movimento de granulação solar; exame sistemático da região circunsolar para os trânsitos de hipotéticos planetas intra-mercurianos através do Sol; ou mesmo o estudo da mecânica fisiológica: a locomoção, o voo e vários movimentos dos animais. A partir de então, o caminho para a 'fotografia animada' foi aberto para Muybridge, Edison, Marey e os irmãos Lumière (LAUNAY, 2012).

Portanto, de acordo com Sicard (2006, p. 186),

Como um imaginário popular largamente difundido pelos jornais de divulgação científica em detrimento da própria imagem fotográfica, o revólver astronômico, erigido em mito, realiza um acto de solidariedade histórica. Já portador de ficções, será mais tarde considerado o antepassado do cinematógrafo, contribuindo então para enraizar os irmãos Lumiére em origens astronómicas.

Do ponto de vista do ensino de astronomia/física, o resgate desse episódio histórico, referente à criação e ao uso do 'revólver fotográfico', contribui para evidenciar a inserção da ciência na cultura geral e o diálogo de outras áreas (no caso, a cinematografia) com as práticas científicas.

## Referências

LAUNAY, Françoise; HINGLEY, Peter D. Jules Janssen's 'Revolver Photographique' and its British derivative, 'The Janssen Slide'. Journal for the History of Astronomy, Newbury Park , v. 36, n. 1, pp. 57-79. 2005.

LAUNAY, Françoise. The Astronomer Jules Janssen: A Globetrotter of Celestial Physics . New York, Dorcrecht, Heidelberg and London: Springer, 2012. p. 73-87.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. The Brazilian contribution to the observations of the transit of Venus. In: KURTZ, D. W. (ed.). Transit of Venus: New views of the solar system and galaxy. Proceedings IAU Colloquium . N. 196, Cambridge University Press: Reino Unido, 2004.

OLIVEIRA, Bernardo Jefferson de. Cinema e imaginário científico. História, Ciência, Saúde . Manguinhos, v. 13.supl., pp. 133-150. 2006.

SICARD, Monique. Modernidades: Jules Janssen,1874. In: SICARD, Monique. A Fábrica do Olhar : imagens de ciência e aparelhos de visão (século xv-xx). Lisboa Portugal: Edições 70, 2006. p. 171-186.

TOSI, V. Cinema before Cinema: The Origins of Scientific Cinematography . British Universities Film &amp; Video Council. Londres: Reino Unido. 2005.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.