A POPULARIZAÇÃO DA CIÊNCIA NOS ANOS 80 ATRAVÉS DOS VERSOS DO CORDEL
Josenildo Maria De Lima, Marcelo Gomes Germano
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- Divulgação científica e práticas educativas em espaços educativos formais, informais e não formais e o ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A POPULARIZAÇÃO DA CIÊNCIA NOS ANOS 80 ATRAVÉS DOS VERSOS DO CORDEL
## Josenildo Maria de Lima 1 , Marcelo Gomes Germano 2 .
1 Universidade Estadual da Paraíba-UEPB/PPGECM, josenildo@servidor.uepb.edu.br 2 Universidade Estadual da Paraíba-UEPB/PPGECM, mggermano24@servidor.uepb.edu.br
Palavras-chave : Cultura Popular; Divulgação Científica; Ensino de Física.
## Resumo Expandido
Há mais de uma década, é investigada pelos autores a adoção da literatura de cordel na popularização da ciência nos espaços destinados à educação formal, não formal ou informal. A presente pesquisa, que está em desenvolvimento no Doutorado Profissional em Ensino de Ciências e Matemática, concentra-se em desenvolver uma investigação para compreender os limites e as possibilidades da inserção do Cordel na sala de aula de Ciências (Física). Tomando por base a produção científica presente nos estudos de Zanetic (2006), Galvão (2010), Silva (2011), Reis (2018) e nos cordéis catalogados durante esta etapa do estudo.
Trata-se de uma metodologia de ensino voltada para discutir questões científicas, a evolução conceitual e aplicações de descobertas científicas, através da cultura popular, por meio da popularização desses temas presentes na Literatura de Cordel. Na fase atual, foram catalogados 35 folhetos de Cordel da Biblioteca de Obras Raras Átila Almeida da Universidade Estadual da Paraíba-UEPB 1 , que tratam de temáticas relacionadas à popularização da Ciência e da Astronomia, dos quais foram selecionados 02 para serem analisados e apresentados neste estudo.
Os cordéis foram digitalizados e convertidos em documento no formato PDF para posterior leitura e análise. Em seguida, foi efetuada a análise de dois cordéis como possíveis aliados do processo pedagógico e sobre a perspectiva da popularização da ciência, são eles: Apareceu o dono da lua: o maior clamor da humanidade do poeta Demóstenes de Oliveira (s/d) e Os costumes escandalosos e a loucura da ciência do poeta Hildemar de Araújo Costa (1981), conforme Figura 01.
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Figura 01: Cordéis Analisados - Acervo Biblioteca Átila Almeida - Fotos do Pesquisador
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O Cordel Apareceu o dono da lua: o maior clamor da humanidade , cuja capa foi feita a partir de uma gravura no desenho com estilo dos filmes de faroeste, com uma pessoa mascarada, em cima de um cavalo querendo roubar a lua com as mãos. Foi escrito pelo poeta Oliveira (s/d), e é composto por 32 estrofes, escritas em
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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física
setilhas 2 , que são estrofes compostas por 07 versos, com 07 sílabas poéticas em cada verso.
- O autor apresenta um trecho introdutório com o tema: 'o dono da Lua', na visão do poeta, os donos da Lua seriam os norte-americanos, chamados por ele de 'heróis americanos'. Além disso, defende que os norte-americanos passaram a ter o direito de explorar as riquezas do solo lunar, por serem os primeiros a pisarem na lua. Conforme apontado pelo poeta, após a chegada do homem à lua, muitas pessoas passaram a se declarar donas da lua. Apresenta o caso de um chileno que afirmava ser o dono da lua, e já na estrofe seguinte do cordel, o poeta Oliveira (s/d) apresenta indignação pela forma como a pessoa que nunca pisou na lua, a ter registrado em cartório.
Percebe-se que esse cordel além de narrar episódios, aparentemente, inventados pelo poeta, baseou-se em fatos históricos, dentre eles podemos citar a chegada do homem à lua e a existência de um homem que se tornou por meio do direito 'o dono da lua', utilizando-se de elementos jurídicos vigentes antes de haver legislação própria sobre o espaço e os corpos celestes, antes mesmo da lua ter sido pisada pelos homens da Terra. Deste modo, acostando-se em Galvão (2010, p.182) ao afirmar que 'Vários estudiosos identificam a literatura de cordel como um sistema paralelo e particular de jornalismo', pois em meio as estrofes poéticas é possível extrair fatos históricos que estiveram em evidência na época da produção dos folhetos de cordel.
- Já em Os costumes escandalosos e a loucura da ciência 3 , disponível nos acervos digitais do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, cuja capa foi feita em xilogravura e assinada por JRS, simbolizando uma nave espacial, em formato de um disco voador com duas janelas retangulares e três faróis circulares, como se estivesse pousando ou partindo da Terra. Esse cordel foi escrito pelo poeta Hildemar Costa (1981), é formado por 32 estrofes, escritas em setilhas, compostas por 07 versos cada estrofe, com 07 sílabas poéticas em cada verso.
- O folheto apresenta várias temáticas em torno do desenvolvimento e da efervescência científica dos anos 80. Dentre elas, discorre sobre o lançamento do primeiro Ônibus Espacial e o computador substituindo os homens no mercado de trabalho. Destaca-se que naquele ano ocorreu o nascimento do 1º bebê de proveta nos Estados Unidos, contribuindo para o imaginário do poeta e o levando a elaborar inúmeros questionamentos sobre os rumos da humanidade em meio a evolução da Ciência.
- O cordel dialoga sobre as prioridades de investimentos, tais como: a ida do homem à lua; e o nascimento de crianças de proveta; mostrando de um lado a fome do povo pobre e sem emprego e do outro lado o avanço das tecnologias. E de certa forma, culpando o computador pela retirada dos empregos dos operários e dos funcionários. Ao discorrer sobre o papel de um bom divulgador/popularizador da ciência, Reis (2018, p. 17) afirma que se deve mostrar: 'os princípios que eles descobrem, a maneira pela qual esses princípios se articulam com o sistema geral do conhecimento e, é lógico, as consequências de toda ordem que deles decorrem. '
http://acervosdigitais.cnfcp.gov.br/Literatura%20de%20Cordel%20-%20C0001%20a%20C7176/29707
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Ao analisar o segundo cordel é possível identificar a apresentação das consequências do progresso científico, levando o leitor/ouvinte a refletir sobre este investimento na ciência. O poeta apresenta ao público um compilado das descobertas científicas ocorridas no ano da publicação do folheto 1981, sendo um registro de como aquelas temáticas circulavam entre a população consumidora do cordel. Percebe-se a habilidade do poeta em mesclar informações e o seu ponto de vista a respeito de cada uma delas, infere-se que o autor defende, que é preciso refletir sobre como utilizar os recursos financeiros, que na visão dele haviam gasto muito dinheiro em coisas banais. Nota-se, que este cordel é um importante aliado do professor de Física para iniciar as aulas sobre os avanços da ciência.
No decorrer do cordel, o autor aborda o tema da energia nuclear, faz um paralelo com a poluição que pode ser causada pelas usinas nucleares e a possibilidade do uso da energia solar como uma solução mais viável para a humanidade. Segundo a previsão do poeta antes dos anos 2000, a energia solar seria acessível para a população. Este é um fato interessante, que pode desencadear uma pesquisa em sala de aula na educação básica sobre os custos da energia solar e o seu processo de barateamento e popularização para as pessoas comuns, como uma forma de verificar se as previsões poéticas estavam corretas.
Nota-se nos dois cordéis analisados que o Cordel possibilita uma articulação entre a cultura popular, os saberes tradicionais, os conhecimentos científicos e a vivência da relação entre Ciência, Arte e Cultura na sala de aula de Ciências, conforme foi verificado nos dois cordéis analisados. Dessa maneira, percebe-se que as estrofes do primeiro cordel são importantes aliadas para que o professor desenvolva uma atividade pedagógica interdisciplinar com os estudantes na disciplina de história e de ciências, iniciando com um debate, questionando os alunos se realmente a lua tem ou já teve um dono? E como ocorreu a chegada do homem até a lua? E discutir sobre os avanços da ciência e o seu legado social.
Com isso, o docente poderá explorar os recursos pedagógicos contidos no cordel, desafiando os alunos a concluírem a história, ou desenharem alguma passagem contada pelo poeta ou encenarem na sala. Essas são algumas possibilidades que podem ser desenvolvidas na escola partindo desse cordel. O segundo cordel é mais um exemplo de cordel aliado do processo de divulgação científica, nele o poeta popular é visto como um popularizador da ciência do seu tempo, apresentando diversas temáticas numa linguagem acessível ao público de diferentes níveis sociais.
Por fim, o cordel pedagógico é defendido como um aliado nos processos de ensino e também de aprendizagem das Ciências Naturais (Física) na Educação Básica, pois a Literatura de Cordel pode evidenciar a relação entre o conhecimento do senso comum e os saberes científicos por meio de sua linguagem simples e rica em melodia e enredos cativantes, e auxiliar também no desenvolvimento do leitor, como defende Zanetic (2006) ao aproximar as duas culturas por meio da literatura.
## Referências
COSTA, H. A, Os costumes escandalosos e a Loucura da Ciência , Cordel, 1981.
GALVÃO, A. M. O, Cordel: leitores e ouvintes , 2º ed. Belo Horizonte-MG. Autêntica Editora, 2010.
OLIVEIRA, D. Apareceu o dono da lua: o maior clamor da humanidade do poeta , Cordel, s/d.
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REIS, J. Divulgação da ciência, Ciência e Cultura. In: MASSARANI, L.; MONTEIRO, DE S. D. E. (Eds.). José Reis: reflexões sobre a divulgação científica . Rio de Janeiro-RJ: Fiocruz/COC, p. 15-20. 2018.
SILVA, G. F. Vertentes e evolução da literatura de cordel , 5ª Ed. Rio de JaneiroRJ, Editora Rovelle, 2011.
ZANETIC, J. Física e literatura: construindo uma ponte entre as duas culturas . História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 13, p. 55-70, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-59702006000500004. Acesso em: 10 jul. 2023.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.