A FRAGMENTAÇÃO E FATIAMENTO DO CURRÍCULO NO ''NOVO ENSINO MÉDIO" E A PROCESSUALIDADE E SISTEMATICIDADE DA FORMAÇÃO DOS CONCEITOS CIENTÍFICOS
Laura Francisco Vieira Da Silva, Marcos Moraes Calazans, Cassiano Rezende Pagliarini
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 09/11/2023
- Linha de pesquisa
- Ensino, aprendizagem e avaliação em física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A FRAGMENTAÇÃO E FATIAMENTO DO CURRÍCULO NO 'NOVO ENSINO MÉDIO' E A PROCESSUALIDADE E SISTEMATICIDADE DA FORMAÇÃO DOS CONCEITOS CIENTÍFICOS
Laura Francisco Vieira da Silva¹, Marcos Moraes Calazans², Cassiano Rezende Pagliarini³
- 1 Universidade Federal de Ouro Preto/DEFIS, laura.francisco@aluno.ufop.edu.br
- 2 Universidade Federal de Ouro Preto/DEFIS, calazans@ufop.edu.br
- 3 Universidade Federal de Ouro Preto/DEFIS, pagliarini@ufop.edu.br
Palavras-chave : Novo Ensino Médio; Fragmentação do Currículo; Formação de Conceitos.
## Resumo Expandido
Diversas pesquisas recentes analisaram o contexto de gênese do Novo Ensino Médio no Brasil. Segundo estas análises, o ensino médio passa a ser guiado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que tem como principal instrumento norteador os conceitos de competências e habilidades, e os itinerários formativos.
Esta perspectiva pedagógica é criticada na literatura acadêmica, demonstrando-se que promove a fragmentação do currículo e o aligeiramento da formação escolar com viés utilitarista, pragmático e imediatista. Segundo Fornari (2021), o conjunto de mudanças propostas é alinhado às diretrizes do Banco Mundial (BM) através do acordo de empréstimo entre o MEC e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, uma das cinco instituições financeiras que integram o grupo BM. Os recursos do empréstimo são destinados ao 'Projeto de Apoio à Implementação do Novo Ensino Médio' (BRASIL, 2021).
Para Vitorino, Neves e Silva (2022), a flexibilização do currículo é um dos argumentos mais frágeis apresentados em defesa do novo ensino médio, pois ocorre descaracterização do Ensino Médio como educação básica. Assim como a obrigação de escolha por itinerários formativos resulta no fatiamento do currículo.
A reforma do Ensino Médio, orientada pela pedagogia das competências, direciona o ensino de ciências de forma para que ocorra fragmentação dos conteúdos, descaracterizando a estrutura lógica do conhecimento científico e seu caráter crítico (BRANCO e ZANATTA, 2021).
Este trabalho constitui parte de uma pesquisa mais ampla ainda em desenvolvimento, que tem por objetivo principal analisar os impactos da reforma do ensino médio para o ensino de física em escolas públicas de uma cidade do estado de Minas Gerais. Neste relato de pesquisa discute-se a noção de sistema conceitual de Vigotski e suas implicações para o processo de ensino e aprendizagem de conceitos de física ensinados no ensino médio. Estes elementos da teoria histórico-cultural são utilizados como ferramentas para analisar criticamente como a concepção da Pedagogia das Competências, que orienta o Novo Ensino Médio e a BNCC, pode afetar o ensino de física.
Vigotski formula a noção de que os conceitos científicos se formam no interior da mente sempre articulados em um sistema conceitual. O autor destaca a natureza complexa e processual da aprendizagem que é entendida essencialmente
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como processo de formação de conceitos. O caráter processual deste está evidenciado em uma das teses centrais da teoria: a da evolução/desenvolvimento do significado das palavras no interior da mente da criança.
À medida que a criança se desenvolve, evoluem os significados das palavras passando das formas mais elementares e primitivas para generalizações de um tipo cada vez mais elevado, culminando o processo com a formação do conceito. Tal processo só pode atingir seu estágio mais desenvolvido, a formação do conceito propriamente, após percorrido um extenso caminho passando de estruturas de generalização mais simples às mais complexas.
A pura definição verbal é apenas o ponto de partida para o desenvolvimento dos conceitos científicos no pensamento infantil. Ou seja, conceitos científicos não são assimilados espontaneamente e em sua forma final mas, constituem um autêntico processo de desenvolvimento.
Em termos psicológicos, Vigotski (2001) caracteriza um conceito como um ato de generalização e a essência de seu desenvolvimento será o sistema de transição das funções psíquicas umas às outras. A cada estrutura de generalidade, há um conjunto de operações do pensamento que determinam a medida de generalidade dos conceitos. Quanto mais desenvolvida a respectiva estrutura, tanto mais elevadas serão as operações do pensamento, maior capacidade de generalização e sua operação de abstração.
Para materializar a complexidade das relações expressas nesse processo de generalização dos conceitos, Vigotski (2001, p. 365) utiliza o sistema de coordenadas geográficas, a longitude de um conceito é definida com base nos 'pólos do pensamento sumamente concreto e sumamente abstrato sobre o objeto', enquanto sua latitude representa 'a unidade do concreto e do abstrato em cada conceito dado'. Considerando este exemplo, o grau de generalidade de um conceito seria o local ocupado por este, dentre todos os elos possíveis diante das relações de generalidade que constituem esta malha.
O conceito de calor, por exemplo, é parte de um sistema de conceitos inter-relacionados com distintas relações de generalidade. O sistema conceitual em que está inserido contém suas múltiplas conexões com outros conceitos como energia, radiação, temperatura, atrito, etc., alguns dos quais são conceitos mais gerais e mais abstratos, de modo que a aprendizagem do conceito de calor requer um longo processo de atividades didáticas que contribuam para estabelecer as relações entre cada um dos conceitos correlatos, fixando suas relações de generalidade e preenchendo as lacunas das redes de sentidos que conformam o conceito em sua totalidade.
Diagrama 1 - Sistema conceitual estabelecido a partir do conceito de calor.
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Fonte: o autor.
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A perspectiva da pedagogia das competências se opõe ao caráter processual da formação de conceitos e, consequentemente, à sistematicidade das relações estabelecidas durante o processo de aprendizagem pois dá destaque ao pensamento pragmático e utilitarista, valorizando a aprendizagem de conhecimentos necessários à vida cotidiana.
Aqui, corroboramos com o pensamento de Pinheiro, Evangelista e Moradillo (2020), ao afirmarem a influência da ciência na sociedade e pela sociedade. O ensino de ciências pautado em interesses de organizações privadas como o caso do Banco Mundial, representa ruptura na criticidade do pensamento científico, afetando diretamente o ensino de física.
Os novos moldes estabelecidos para a educação representam a redução do ensino de física à simples ferramenta de manutenção dos interesses capitalistas. Retirando dos estudantes, principalmente das classes populares, a possibilidade de construção do saber científico elaborado. Não há espaço no novo Ensino Médio para conteúdos de física que não atendam às necessidades imediatas do mercado.
## Referências
BRANCO, Emerson Pereira; ZANATTA, Shalimar Calegari. BNCC e Reforma do Ensino Médio: implicações no ensino de Ciências e na formação do professor. RIS: Revista Insignare Scientia, v. 4, n. 3. 2021. ISSN 2595-4520. Disponível em: https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/RIS/article/view/12114.
BRASIL, Ministério da Educação. Acordo de Empréstimo nº 8812-BR e nº 8813-BR. Brasília, 2021. Disponível em:
https://www.gov.br/mec/pt-br/novo-ensino-medio/acordo-de-emprestimo.
FORNARI, Márcia; DEITOS, Roberto Antônio. O Banco Mundial e a Reforma do Ensino Médio no Governo Temer: uma análise das orientações e do financiamento externo. Revista Trabalho Necessário, v. 19, n. 39, p. 188-210, 27 maio de 2021. Disponível em: https://periodicos.uff.br/trabalhonecessario/article/view/47181.
PINHEIRO, Bárbara Carine Soares; EVANGELISTA, Neima Alice Menezes; MORADILLO, Edilson Fortuna de. A reforma do 'novo Ensino Médio': uma interpretação para o ensino de ciências com base na pedagogia histórico-crítica. Debates em Educação, [S. l.] , v. 12, n. 26, p. 242-260, 2020.Disponível em: https://www.seer.ufal.br/index.php/debateseducacao/article/view/7289
VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
VITORINO, Kíssila Neves Soares; NEVES, Beatriz de Araújo Rezende; SILVA, Cristiana Barcelos da. Construção da Reforma do Novo Ensino Médio no Cenário Educacional Brasileiro: fragilidades e incoerências. Confluências | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito, v. 24, n. 3, p. 52-71, 1 dez. 2022. Disponível em: https://periodicos.uff.br/confluencias/article/view/56008
VITORINO, Kíssila Neves Soares; NEVES, Beatriz de Araújo Rezende; SILVA, Cristiana Barcelos da. Construção da Reforma do Novo Ensino Médio no Cenário Educacional Brasileiro: fragilidades e incoerências. Confluências | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito, v. 24, n. 3, p. 52-71, 1 dez. 2022. Disponível em: https://periodicos.uff.br/confluencias/article/view/56008
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