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CONSTRUINDO SIGNIFICADOS SOBRE O CONCEITO DE ENERGIA: RESULTADOS DE UMA UNIDADE DE ENSINO INCLUSIVA APLICADA A ESTUDANTES SURDOS DO ENSINO MÉDIO EM TEMPOS DE PANDEMIA

Lucas Teixeira Picanço, Agostinho Serrano De Andrade Neto, Marlise Geller

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
09/11/2023
Linha de pesquisa
Equidade, inclusão, diversidade, direitos humanos e estudos culturais no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CONSTRUINDO SIGNIFICADOS SOBRE O CONCEITO DE ENERGIA: RESULTADOS DE UMA UNIDADE DE ENSINO INCLUSIVA APLICADA A ESTUDANTES SURDOS DO ENSINO MÉDIO EM TEMPOS DE PANDEMIA

Lucas Teixeira Picanço 1 , Agostinho Serrano de Andrade Neto 2 , Marlise Geller 3

- 1 Secretaria de Estado de Educação do Amazonas, lucas.t.picanco@gmail.com
- 2 Universidade Luterana do Brasil, Canoas, agostinho.serrano@ulbra.br
- 3 Universidade Luterana do Brasil, marlise.geller@ulbra.br

Palavras-chave : Educação dos surdos; Ensino de Física; Unidade de Ensino Inclusiva - UEI.

## Resumo expandido

Este resumo apresenta uma pesquisa de doutorado desenvolvida em uma escola especial da rede pública de ensino da cidade de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, que foi realizada em uma turma do primeiro ano do Ensino Médio, composta por seis estudantes surdos.

Tal pesquisa pode ser classificada como qualitativa, uma vez que buscou responder questões muito particulares, referentes a um contexto da Educação Especial, a educação de surdos e, como referencial metodológico adotou-se a perspectiva da Pesquisa Social Interpretativa de Rosenthal (2018). Assim, foi investigado o ensino de Física, de forma remota e presencial, durante a pandemia de Covid-19, bem como o impacto desta nos processos educacionais, mas principalmente buscou-se investigar a construção de significados do conceito de energia por estudantes surdos, durante o contexto pandêmico.

Para tanto, utilizou-se uma sequência didática desenvolvida para o ensino de Física para estudantes surdos, intitulada Unidade de Ensino Inclusiva (UEI), que abrangeu um total de 11 aulas, ministradas durante o período de agosto a outubro de 2021 para o 1º ano do ensino médio, no eixo temático Matéria e Energia. Essa abordagem representa uma ampliação das ideias de Unidades de Ensino Potencialmente Significativas de Moreira (2011) associada a Teoria da Mediação Cognitiva (TMC) (SOUZA, 2004; SOUZA et al., 2012), especialmente ao contemplar o desenvolvimento de estratégias pedagógicas que respeitem, em primeiro lugar, a identidade cultural dos estudantes surdos (RINALDI, 1997; QUADROS, 2006) a partir da implementação de múltiplos recursos de Tecnologia Assistiva (TA) para surdos elencados em uma UEI (PICANÇO; ANDRADE NETO; GELLER, 2022).

Com relação à organização da UEI, buscou-se verificar primeiramente o conhecimento prévio do estudante (MOREIRA, 2011) e foi proporcionado para o estudante quatro tipos de mediação cognitiva conforme o que foi proposto por Souza (2004): Psicofísica, Social, Cultural e Hipercultural.

Logo, na UEI, a mediação Psicofísica se deu por meio da execução de experimentos físicos (reais), e a mediação social ocorre na interação dinâmica entre

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os participantes da pesquisa. Já a mediação cultural é estabelecida por meio da análise de esportes (no caso aqui especificamente o Skate) ou na arte circense.

Ao passo que, é dado maior destaque a mediação Hipercultural, que na UEI, está presente na implementação das Tecnologias Assistivas (Digitais) e na realização de atividades em que os recursos tecnológicos são mais evidentes. É o caso da implementação das simulações do PhET colorado da lei Hooke e da 'Energia na pista de skate', além de animações construídas no Scratch, contendo exemplos de transformação de energia na queda de uma bola de boliche e na cama elástica.

Como principal descoberta, ressalta-se que os estudantes pesquisados tinham um conceito limitado a respeito do tema energia, antes da intervenção pedagógica, restringindo-o ao conceito de energia elétrica. Contudo, ao final do processo de ensino e aprendizagem, passaram a reconhecer, ainda que parcialmente, outras formas de energia e criaram sinais para denominar duas das formas mais exploradas na sequência didática.

E, com base nos resultados, verificou-se, in loco, que a UEI proporcionou uma oportunidade única de trabalhar com diferentes aspectos da formação dos estudantes pesquisados, mais especificamente os diferentes níveis de representação dos fenômenos físicos relacionados ao tema Energia Mecânica e sua conservação (PICANÇO; ANDRADE NETO; GELLER, 2021).

Os recursos utilizados na pesquisa foram, em sua grande maioria, adequados aos estudantes participantes, com exceção de três intimamente relacionados à comunicação, e destaca-se que as atividades, originalmente planejadas, tiveram que ser modificadas algumas vezes, por inúmeros motivos, entre eles, direta e indiretamente a própria pandemia de Covid-19. Inicialmente, planejou-se um teste piloto para 2020, mas, os acontecimentos registrados a partir de março desse ano, impediram que o teste piloto fosse realizado.

Contudo, tais desafios foram superados e tem-se indícios que corroboram a eficácia da abordagem adotada pela pesquisa, pois verificou-se que os estudantes interagiram com experimentos ao longo de toda a UEI, ressaltando o aspecto do nível sensório da representação dos fenômenos (PICANÇO; ANDRADE NETO; GELLER, 2021).

Percebeu-se, in loco, o quanto o ensino presencial é muito importante, pois o processo de ensino remoto aumentou exponencialmente as dificuldades e trouxe novas adversidades ao ensino de física para estudantes surdos. Teve-se esse diagnóstico na interação dinâmica entre os participantes desta pesquisa, sendo possível traçar um paralelo entre o engajamento dos estudantes durante as aulas remotas e nas aulas presenciais (PICANÇO; ANDRADE NETO; GELLER, 2023).

Nesse sentido, teve-se maior participação dos estudantes na modalidade presencial de ensino, ressaltando o aspecto social como muito importante na formação desses estudantes, seja pelo fim do isolamento linguístico imposto pelo distanciamento físico durante as aulas remotas, ou pelo feedback mais rápido entre professor e estudante, que ocorre de forma presencial.

A pesquisa, evidenciou ainda que o interesse dos estudantes aumentou ao terem contato com o ensino contextualizado, e optou-se por utilizar o Skate como um fator cultural para o ensino de Física, aproveitando a projeção desse esporte em sua estreia nas Olimpíadas de Tóquio - 2020 (evento realizado em 2021, em virtude

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da pandemia de covid-19), que culminou na implementação da UEI. As artes circenses foram igualmente utilizadas para trabalhar alguns conteúdos, já que demonstram, de forma mais expressiva, como o conhecimento físico está presente em muitas atividades humanas, e como se pode enriquecer o currículo de Física no Ensino Médio utilizando contextos próximos à realidade do estudante.

Constatou-se ainda a importância da mediação Hipercutural no ensino(SOUZA, 2004; SOUZA et al., 2012), pois ao longo da aplicação da UEI foi predominante a utilização de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), como slides com gifs animados, contendo animações de conceitos físicos (e. g. o trabalho de uma força), a utilização de simuladores, o uso do celular para auxiliar na escrita da língua portuguesa, a pesquisa na internet para mostrar a imagem de um local ou objeto que surgiu das dúvidas e inquietações dos estudantes.

Por fim, tem-se como perspectiva futura que se pretende desenvolver outras UEI para surdos, que contemplem outros conteúdos ligados à Física clássica e à Física moderna. Porém, deseja-se ir além. Almeja-se que a metodologia de ensino desenvolvida possa atender, de alguma forma, outros contextos educacionais, sejam eles da educação regular, especial e/ou inclusiva.

Essas duas modalidades de ensino, a Educação Especial e a Educação Inclusiva, são a principal perspectiva futura de investigação, pois as demandas desses contextos educacionais são mais urgentes, e pesquisas nessas áreas são sobretudo necessárias.

## Referências

MOREIRA, Marco Antônio. Unidades de Enseñanza Potencialmente Significativas - UEPS. Aprendizagem Significativa em Revista , Porto Alegre, v. 2, n. 1, p. 43-63, ago. 2011. Disponível em: http://www.if.ufrgs.br/asr/artigos/Artigo\_ID10/v1\_n2\_a2011.pdf. Acesso em: 1 jun. 2022.

PICANÇO, Lucas Teixeira; ANDRADE NETO, Agostinho Serrano; GELLER, Marlise. O Ensino de Física para Surdos: o estado da arte da pesquisa em educação. Revista Brasileira de Educação Especial , Bauru, v. 27, p. 391-410, jan. 2021a. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/198054702021v27e0123. Acesso em: 15 jul. 2022.

PICANÇO, Lucas Teixeira; ANDRADE NETO, Agostinho Serrano; GELLER, Marlise. Desafios, adversidades e lições para o ensino de Física para alunos surdos em tempos de pandemia de Covid-19. Revista Educação Especial , v. 36, n. 1, p. e24/1-24, 2023.

PICANÇO, Lucas Teixeira; ANDRADE NETO, Agostinho Serrano; GELLER, Marlise. A mediação cognitiva por meio de recursos digitais de Tecnologia Assistiva para estudantes surdos: realidade, expectativas e possibilidades. Revista Brasileira de Informática na Educação , v. 30, p. 50-72, mai. 2022. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5753/rbie.2022.2395. Acesso em: 15 jul. 2022.

QUADROS, Ronice Müller (Org.). Estudos surdos I . Petrópolis: Arara Azul, 2006.

RINALDI, Giuseppe (Org.). Educação Especial - A educação dos surdos-volume II-Série atualidades pedagógicas 4. Brasília: MEC; Secretaria de Educação Especial, 1997.

ROSENTHAL, Gabriele. Interpretive social research : An introduction. Universitätsverlag Göttingen, 2018.

SOUZA, Bruno Campello. Teoria da mediação cognitiva : os impactos cognitivos da hipercultura e da mediação digital. 2004. 282 f. Tese (Doutorado em Psicologia) - Curso de Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco - UFP, Recife, 2004. Cap. 6.

SOUZA, Bruno Campello; SILVA, Alexandre Stamford da; SILVA, Auristela Maria da; ROAZZI, Antonio; CARRILHO, Silvania Lúcia da S. Putting the cognitive mediation networks theory to the test: Evaluation of a framework for understanding the digital age. Computers In Human Behavior , v. 28, n. 6, p. 2320-2330, Nov. 2012. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1016/j.chb.2012.07.002. Acesso em: 19 fev. 2019.

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