INTEGRAÇÃO DO CINEMA AO ENSINO DE FÍSICA: da perspectiva instrumental à perspectiva da linguagem
Silmara Rodrigues Domingues, Aldo Aoyagui Gomes Pereira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 08/11/2023
- Linha de pesquisa
- Ensino, aprendizagem e avaliação em física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## INTEGRAÇÃO DO CINEMA AO ENSINO DE FÍSICA: da perspectiva instrumental à perspectiva da linguagem
Silmara Rodrigues Domingues¹, Aldo Aoyagui Gomes Pereira², *
¹ Instituto de Física Gleb Wataghin/Unicamp, silmara1945@gmail.com
² Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP)/PECIM-UNICAMP, apereira@ifsp.edu.br
Palavras-chave: Cinema; Ensino de Física; Livro de Didático.
## Resumo expandido
O cinema, desde a construção dos aparatos que o fazem a sétima arte em nossa sociedade, tem estreita ligação com os avanços científicos e tecnológicos do final do século XIX. Sua finalidade foi de atingir os objetivos da Ciência ao tentar observar e captar imagens em movimento, para adentrar ao campo da arte na construção de narrativas e formas de representar o mundo.
Ao analisar suas entradas em território nacional e investigar as primeiras iniciativas de criar um cinema próprio no Brasil, Santos (2013) nos conta que movimentos sociais e o movimento da Escola Nova influenciaram a criação de diversas filmotecas e culminaram no Decreto 2.910 de 1928, que instituía o uso do cinema como instrumento educativo e auxiliar do processo de ensino e aprendizagem (BONETTI, 2013). Com esses movimentos de integrar o cinema ao ambiente escolar, o Ministério da Educação e Saúde, como chamava-se à época, criou o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) em 1936, que teve, como um dos objetivos principais, a promoção de uma ampla educação científica.
Desde então, o cinema integrou-se à educação brasileira e, pelo menos no âmbito do Ensino de Física e da Educação em Ciências, com a característica de instrumento educacional para auxiliar o professor no processo educativo. No entanto, esse modo de olhar o cinema e entender sua integração ao Ensino de Física/Ciências encontra-se pautado principalmente em suas possibilidades enquanto mediador, instrumento e recurso tecnológico, características estas que iam ao encontro dos objetivos da época, mas se encontram descontextualizados das vivências e aspectos culturais dos estudantes do século XXI. Mesmo assim, revisões realizadas sobre as abordagens do cinema e de outros recursos audiovisuais indicam que seu uso ainda é incipiente e, na maioria das análises, possui característica instrumental, por exemplo, encontrado em Santos e Arroio (2009), Rezende Filho, Pereira e Vairo (2011), Freitas, Queiroz e Lacerda (2018), Domingues (2021) entre outros.
Como, então, pensar o cinema nas aulas de Física considerando-o para além de um instrumento de apoio à aprendizagem do conteúdo? Nesse contexto, este trabalho tem como objetivo apresentar aos professores e pesquisadores de Ensino de Física e Educação em Ciências pesquisas que discutem o cinema enquanto linguagem e como forma de discussão de aspectos sociocientíficos. Apresentamos
dois aspectos que as pesquisas recentes discutem ao falar sobre o cinema enquanto linguagem: a defesa de que a linguagem do cinema seja discutida nos processos de ensino e aprendizagem escolar, trazendo as convenções e regras claras da linguagem audiovisual; e a interpretação de narrativas, que permite ao estudante olhar para os aspectos históricos e sociocientíficos das produções cinematográficas.
A primeira forma pressupõe que o estudante, imerso em uma cultura audiovisual repleta de signos e significados produzidos por empresas e indústrias do mundo capitalista, precisa se envolver com processos educativos que discutam amplamente as regras e convenções da linguagem audiovisual, não sendo um mero receptor passivo das representações que aparecem cotidianamente diante dele. Para Fantin (2009, p. 209), 'Considerar o cinema como linguagem implica pensar nas regras e nas convenções de uma gramática de códigos e de elementos que produzem sentidos através do texto fílmico'. Essa visão é defendida também por Bueno e Silva (2018, p. 163) no contexto da Educação em Ciências, ao propor que o estudante '[...] não se torne apenas receptor do que lhe é transmitido, mas tenha a criticidade em construir um conhecimento elaborado, a partir daquilo que é exposto'.
Napolitano (2003, p. 30) defende que o cinema pode ser trabalhado como técnica ao discutir quatro pontos em sala de aula: 1. a filmagem: os materiais utilizados, os efeitos mecânicos, ópticos etc.; 2. os processos físico-químicos de obtenção de um filme; 3. a edição e a pós-produção: as montagens, os efeitos especiais, as sincronizações entre som-imagem etc.; 4. o marketing: a distribuição, exibição dos filmes etc. Para o Ensino de Física, que trabalha com documentários de ciências, essa compreensão dos mecanismos por trás das produções fílmicas é fundamental, para não gerar nos estudantes a impressão de que estão vendo 'uma representação fiel da realidade'. Cada documentário (assim como qualquer produção cinematográfica) possui um produtor, diretor, e é feito de recortes e montagens, sendo apenas um ponto de vista sobre determinado assunto.
A segunda forma de entender o cinema enquanto linguagem vai no mesmo sentido da compreensão do cinema enquanto representação de um ponto de vista, de uma ideologia, mas aborda sua integração em sala de aula de maneira distinta. Para Mello e Araujo Neto (2017, p. 148, os professores precisam ter claro que o cinema está repleto de '[...] implicações sociais, culturais, econômicas que envolvem o contexto de produção do filme e [faz-se necessário] analisar seu discurso de maneira crítica, motivando esta mesma postura em seus estudantes'. Em complemento, trazemos a visão de Coutinho (2006, p. 75), para quem o cinema pode se constituir em '[...] momentos de reflexão que transcendam os próprios filmes e incluam o olhar de cada um à narrativa que o diretor propôs e nos ofereceu, em imagens e sons'.
Esse olhar para o cinema como narrativa pode ser fundamental para trabalhar os aspectos sociocientíficos no Ensino de Física. Quais as visões de ciências e de cientistas que os produtores desejam apresentar ao público? Esta visão está de acordo com a Ciência enquanto prática social? Estas e outras questões estão sendo amplamente estudadas por pesquisadores do campo da Educação em Ciências, por exemplo Piassi e Pietrocola (2009), Fernandes, Lima e Aguiar Júnior (2021) e Queiroz e Rocha (2021).
Reforçamos, por fim, a necessidade de refletir sobre como o cinema pode apresentar vieses que, se não analisados de forma reflexiva nos processos educacionais em geral, podem influenciar os estudantes a terem uma visão distorcida sobre questões sociocientíficas em nossa sociedade. Trabalhar com o cinema
enquanto linguagem é fundamental para propiciar aos estudantes uma educação crítica plena, favorecendo sua compreensão sobre Ciência e o que significa fazer Ciência em nossa sociedade atual.
## Referências
BONETTI, M. de C. As imagens em movimento e sua contribuição para o ensino das ciências físicas no Brasil - 1800 a 1960 . Tese de Doutorado (Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências) - Instituto de Física, Instituto de Química, Instituto de Biociências, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 2013.
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DOMINGUES, S. R. Abordagens dos recursos audiovisuais em livros didáticos de física aprovados no PNLD 2018 . Dissertação de Mestrado (Programa de PósGraduação Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática) - Instituto de Física Gleb Wataghin, Unicamp, 2021.
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REZENDE FILHO, L. A. C. de; PEREIRA, M. V.; VAIRO, A. C. Recursos audiovisuais como temática de pesquisa em periódicos brasileiros de Educação em Ciências. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , Belo Horizonte, v. 11, n. 2, p. 183-204, 2011.
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