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CORPOS ELÉTRICOS: DISCUSSÃO DA ELETRICIDADE MEDICINAL NO ENSINO FUNDAMENTAL

Priscila Do Amaral, Aline Mazzarella, Andreia Guerra

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
08/11/2023
Linha de pesquisa
História, filosofia e sociologia da ciência no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CORPOS ELÉTRICOS: DISCUSSÃO DA ELETRICIDADE MEDICINAL NO ENSINO FUNDAMENTAL

## Priscila do Amaral 1,4 , Aline Mazzarella 2,4 , Andreia Guerra 3,4

- 1 Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro/SEEDUC-RJ, prisciladoamaralbio@gmail.com 2 Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Educação/CEFET-RJ,
- alinegcmazzarella@gmail.com
- 3
- Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Educação/CEFET-RJ, andreia.guerra96@gmail.com
- 4 Núcleo de Investigação em Ensino, História da Ciência e Cultura/NIEHCC

Palavras-chave : Eletricidade, Ensino fundamental, História Cultural da Ciência

## Resumo expandido

O presente trabalho consiste na apresentação de uma das partes de uma pesquisa desenvolvida com uma turma de ciências de nono ano do ensino fundamental, com o objetivo de discutir os efeitos da eletricidade no corpo humano. A escolha do tema surgiu por uma demanda, apresentada pelos estudantes (principalmente alunas) durante o desenvolvimento da pesquisa, em discutir o papel das mulheres na ciência e, encontramos neste período, alguns registros importantes a este respeito. O tema, com foco na eletricidade medicinal, foi trabalhado sob o viés da História Cultural da Ciência (HCC) que enxerga a ciência essencialmente como cultura (PIMENTEL, 2010) e através da metodologia de pesquisa-ação histórica (CARDINOT, MOURA, GUERRA, 2022). As aulas foram gravadas em áudio e os dados foram triangulados juntamente as anotações do diário de campo da professora-pesquisadora e com as produções dos estudantes durante as atividades de pesquisa. Os dados foram analisados através de uma abordagem qualitativa (ERICKSON, 2012).

A escola onde se realizou a pesquisa, está situada em um bairro popular, na Baixada Fluminense, onde a maioria da população é afrodescendente. As atividades realizadas durante a pesquisa consistiam em atividades individuais e em grupo, discussões coletivas e uso de imagens produzidas no período estudado.

Como próprio da metodologia de pesquisa escolhida, a professorapesquisadora levou em consideração, na elaboração das atividades, os comentários e as perguntas feitas pelos estudantes em sala de aula. Para esse tema em específico, as perguntas relacionadas ao cotidiano dos estudantes, a respeito do uso de energia elétrica em suas residências e como a eletricidade é produzida e chega até suas casas, foram destacadas. Também é importante ressaltar que a turma com a qual a pesquisa foi realizada se interessava pela presença feminina nos espaços de produção do conhecimento científico.

Dessa forma, para a primeira atividade, os estudantes foram separados em grupos, e cada grupo recebeu uma ilustração, de forma a discutirem entre si suas primeiras impressões sobre ela, antes de uma discussão coletiva com a turma e a professora-pesquisadora. Foram escolhidas ilustrações presentes nas descrições de experimentos científicos elaborados naquele contexto que trabalhassem a temática de eletricidade e corpos humanos.

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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física

Destacamos, aqui, três ilustrações e os debates subsequentes a elas. Quanto à imagem relativa aos experimentos de ressureição de Aldini ( Experimentos de Giovanni Aldini (1762-1834) , os estudantes se mostraram curiosos com a disposição dos corpos ilustrados, todos separados de suas cabeças. Os estudantes perguntaram a quem pertenciam àqueles corpos, ao que a professora-pesquisadora respondeu que eram, em sua maioria, corpos de pessoas condenadas à morte. Quanto ao experimento do menino voador ' Experimento do menino voador Stephen Gray (1666- 1736) ', os estudantes questionaram a origem do menino presente no experimento, servindo de cobaia . A professora-pesquisadora contou que as crianças participavam de experimentos públicos em troca de ajuda financeira, por serem pobres ou moradoras de orfanatos. A turma reagiu à essa informação com indignação, questionando se ninguém teria denunciado, sendo respondidos com o fato de que não havia, à época, proteção da infância como vemos na maioria dos países atualmente e que, mesmo no Brasil, o estatuto da criança e do adolescente são considerados recentes. A terceira ilustração que destacamos foi a do Beijo Elétrico, O Beijo Elétrico - Século XVIII '. que mostrava uma mulher sendo cobaia para o experimento de eletricidade, sendo interpretado pelos estudantes como um casal de namorados antes da explicação da professora-pesquisadora.

Para a elaboração das atividades seguintes, esses pontos destacados foram levados em consideração, como próprio da metodologia de pesquisa escolhida. Uma das atividades posteriores foi baseada na discussão da construção e funcionamento da garrafa de Leiden, de forma a introduzir o conceito de circuito elétrico (JARDIM, GUERRA, 2018), apresentando paralelos com aparelhos eletrônicos presentes na sala de aula.

A professora-pesquisadora trouxe novamente a imagem do Beijo Elétrico, contextualizando as palestras e exposições utilizadas para divulgar as ideias científicas e os experimentos realizados no século XVII e XVIII. Apresentou a República das Letras e as cartas trocadas por Benjamin Franklin (estadunidense) com pessoas da Europa, destacando que algumas foram trocadas com mulheres que não tiveram seus nomes destacados.

A partir a discussão surgida em sala de aula, foi discutido o papel dessas mulheres na produção do conhecimento científico no século XVIII, principalmente nas áreas da botânica e da eletricidade, o que possibilitou trazer alguns exemplos de mulheres que realizavam práticas como experimentos, traduções, correspondência e, mais do que isso, discutir as condições que permitiam a essas mulheres terem a possibilidade de acessar redes de contato e locais como universidades. Também foi importante discutir com os estudantes as restrições que estas mesmas mulheres sofriam ao desenvolver suas tarefas, como a ausência de seus nomes em trabalhos produzidos por seus pais, irmãos ou maridos.

Apresentamos os trabalhos de Luigi Galvani sobre a eletricidade animal e seus experimentos utilizando rãs para entender o efeito da eletricidade nos músculos, fazendo a comparação para os seres humanos e o papel de Lucia Galvani, sua esposa, destacando que há registros que ela participou da execução daqueles experimentos.

Entendemos que o tema da eletricidade medicinal gerou mobilização dentre os estudantes da turma, com questões sobre o cotidiano dos estudantes sendo trazidas a partir de discussões de estudos realizados no século XVIII. O papel da mulher na produção do conhecimento científico foi destacado, com as condições nas quais as mulheres realizavam práticas como experimentos e como estas mesmas mulheres sofriam ao desenvolver suas tarefas, tendo seus nomes apagados em

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detrimento dos nomes de seus pais, irmãos ou maridos. O uso de seres humanos vivos em experimentos sobre eletricidade, principalmente de crianças, também foi debatido, sendo possível fazer alusão a temas atuais.

A abordagem histórica através da História Cultural da Ciência, mostrou-se uma ferramenta importante para promover discussões a respeito da produção do conhecimento científico e reflexões dos estudantes sobre como essa construção é feita com invisibilidades e relações de poder. Além disso, as atividades de pesquisa permitiram dialogar com o contexto dos estudantes, que potencializaram discussões sobre suas realidades, questões de gênero e desigualdades sociais, conhecendo a complexidade e os limites presentes na produção de qualquer conhecimento e como esta produção não é feita a parte do contexto em que se encontra.

## Referências

AMARAL, P. O estudo do corpo humano à luz da História Cultural da Ciência: discutindo perspectivas para a educação em ciências no Ensino Fundamental II. Tese (Doutorado em Ciência, Tecnologia e Educação) - Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Educação, Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca. Rio de Janeiro, p. 227, 2021.

CARDINOT, D.; MOURA, C.; GUERRA, A. Challenging the 'Science from nowhere' perspective in the classroom. Science & Education. [S.I.] 2022. Disponível em < https://doi.org/10.1007/s11191-021-00311-1>

ERICKSON, F. Qualitative Research Methods for Science Education. In: FRASER, BJ; TOBIN, KG; MCROBBIE, CJ (orgs.) Second International Handbook Of Science Education. Springer, p.1451-1469, 2012.

JARDIM, W. T., GUERRA, A. Práticas científicas e difusão do conhecimento sobre eletricidade no século XVIII e início do XIX: possibilidades para uma abordagem histórica da pilha de volta na educação básica. Revista Brasileira de Ensino de Física 2018, v. 40, n. 3, 2018.

PIMENTEL, J. O qué es la História Cultural de la Ciencia? ARBOR Ciência, Pensamiento y Cultura CLXXXVI, n. 743, p. 417-424, 2010.

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