OS PROJETOS INTERNACIONAIS PARA O ENSINO DE FÍSICA E O FINANCIAMENTO ESTRANGEIRO PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA ENTRE AS DÉCADAS DE 1960 E 1970: UM OLHAR A PARTIR DAS ATAS DO PRIMEIRO SNEF
Lucas Bordini Manenti, Ivanilda Higa, Lucas Bordini Manenti, Ivanilda Higa
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 08/11/2023
- Linha de pesquisa
- Políticas públicas em educação e o ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## OS PROJETOS INTERNACIONAIS PARA O ENSINO DE FÍSICA E O FINANCIAMENTO ESTRANGEIRO PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA ENTRE AS DÉCADAS DE 1960 E 1970: UM OLHAR A PARTIR DAS ATAS DO PRIMEIRO SNEF
Lucas Bordini Manenti¹, Ivanilda Higa²
- ¹ Universidade Tecnológica Federal do Paraná/Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade, lucasbmanenti@gmail.com
² Universidade Federal do Paraná/DTPEN/PPGE/GEPCED-CN, ivanilda@ufpr.br
Palavras-chave
: SNEF; PSSC; MEC-USAID
O presente trabalho teve como objetivo compreender as relações entre os financiamentos estrangeiros para a educação brasileira, os acordos MEC-USAID no decorrer da décadas de 1960, os projetos internacionais para o ensino de física trazidos ao Brasil na mesma época, e como professores e pesquisadores em ensino de física lidavam com estas relações, por meio da análise de trabalhos publicados em eventos e periódicos da área, e da análise da Ata do primeiro Simpósio Nacional de Ensino de Física (I SNEF).
Em março de 1961 foi lançada formalmente a Aliança para o Progresso, um programa de cooperação que tinha como objetivo auxiliar financeiramente os países latino-americanos. Contudo, apesar do discurso oficial, o programa tinha preocupação em conter o avanço do comunismo no continente latino-americano (LOUREIRO, 2020). Por meio de fundações privadas (Fundação Ford, Fundação Rockfeller, entre outras) e de agências (Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional - USAID -, entre outras) do governo dos Estados Unidos da América (EUA), foram firmados vários acordos para subsidiar obras e programas de auxílio financeiro por todo o Brasil (LOUREIRO, 2020; ROMANELLI, 1985). Também em 1961 seria aprovada a Lei nº 4.024, a LDB de 61, que permitiu uma certa descentralização no currículo que seria adotado na educação básica brasileira (ROMANELLI, 1985). Já em 1964 ocorreria o golpe militar que, com suporte do governo estadunidense, permitiria a expansão destes acordos e a consolidação de uma forte relação de dependência econômica entre os dois países (MARINI, 2017). Foi neste contexto que o Brasil firmou vários acordos entre o Ministério da Educação (MEC) brasileiro e a USAID, os chamados acordos MEC-USAID (ALVES, 1968; ARAPIRACA, 1982; ROMANELLI, 1985), embora mesmo antes já houvesse relações sólidas entre o MEC e a USAID (ARAPIRACA, 1982). Os projetos internacionais para o ensino de física chegaram ao país neste período com a proposta de modernizar o ensino de física brasileiro e foram financiados com recursos internacionais e nacionais (BARRA; LORENZ, 1986; ROMANELLI, 1985).
Em geral, os artigos publicados sobre os projetos internacionais para o ensino de física (Physical Science Study Committee - PSSC -, Nuffield, Harvard) se concentram na análise do seu conteúdo pedagógico, sua aplicabilidade, suas concepções de ciência e suas implicações no ensino de física (QUEIROZ, 2016). Pouco se estudou sobre a influência destes projetos no planejamento educacional brasileiro e a intensificação da dependência brasileira para com os EUA no período
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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física
estudado. O trabalho aqui apresentado buscou trilhar alguns destes caminhos pouco explorados pelos pesquisadores brasileiros em ensino de física, por meio principalmente da análise da ata do I SNEF.
- O trabalho foi desenvolvido em duas partes. Na primeira, foi feita uma análise de literatura em trabalhos acadêmicos de ensino de física publicados em congressos e periódicos da área, que se propuseram a estudar o período compreendido entre as décadas de 1960 e 1970, ou os projetos nele desenvolvidos, como o PSSC, o Harvard, o Nuffield e o Introductory Physical Study (IPS). Buscouse menções ao fato de os projetos internacionais terem sido adotados num momento em que o Brasil assinalava formalmente sua dependência ao capitalismo internacional (MARINI, 2017). Na segunda parte desenvolveu-se uma análise documental (ANDRÉ; LUDKE, 1986) da ata do I SNEF, que contém a transcrição de todas as discussões que ocorreram no simpósio, com o objetivo de entender as discussões presentes na comunidade de ensino de física na época e compreender que relações e reflexões eram feitas entre os chamados acordos MEC-USAID e esses projetos introduzidos e aplicados no Brasil na época.
Em relação à revisão bibliográfica, percebeu-se que majoritariamente na área de pesquisa em ensino de física, a discussão em torno destes projetos internacionais se dá, quase sempre, no campo pedagógico e pouco se aborda todo o contexto político e socioeconômico envolvido para sua adoção no Brasil. Essa pouca conexão entre os acordos internacionais (MEC-USAID) e adoção dos projetos internacionais para o ensino de física, sugere que a comunidade brasileira de pesquisadores em ensino de física, de maneira geral, ainda não vislumbrou a necessidade de tais questionamentos (VARSAVSKY, 1976). Poucos são os trabalhos que, como os de Barra e Lorenz (1986), Krasilchik (1987), Chassot (2004), Garcia, Garcia e Higa (2007), Queiroz (2016), Hosoume e Queiroz (2016) e Demarchi e Nascimento (2020), exploram os contextos além do campo pedagógico dos projetos e geram mais questionamentos sobre as relações, nem sempre tão diretas, entre as fundações estadunidenses e o governo brasileiro nas décadas de 1960 e 1970. Apesar disso, os projetos internacionais para o ensino de física tiveram grande importância para o ensino de física brasileiro, pois mesmo que descontextualizados, geraram reflexões e movimentos para a criação de materiais nacionais, como o Projeto de Ensino de Física - PEF (GARCIA; GARCIA; HIGA, 2007).
Na análise das Atas do I SNEF, constatou-se que a maior parte dos trabalhos apresentados sobre o tema e as discussões ocorridas no evento se concentraram em aspectos pedagógicos, possibilidades de implementação e adequação de tais projetos ao contexto brasileiro. Houve poucas menções às relações sobre o contexto dependente do Brasil com relação aos Estados Unidos da América no que diz respeito à educação no período estudado, os acordos MEC-USAID e o contexto sociopolítico da época.
Desse modo, os pesquisadores de ensino de física atuais e os que estiveram presentes no primeiro SNEF não realizaram muitas análises que levassem em conta os contextos políticos e socioeconômicos da época em que os projetos internacionais de ensino de física chegaram ao Brasil.
Há que observar, finalmente, que talvez a falta de discursos e falas mais 'politizadas' e contestadoras possam ter se abrandado. É possível supor que os participantes tenham tido cuidado redobrado ao exporem suas opiniões e ideias,
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dado o contexto político em que o I SNEF foi realizado (o Brasil estava vivendo sob o regime militar e o AI-5 já estava em vigor), hipótese que pode ser estudada e aprofundada em trabalhos futuros.
## Referências
ALVES, M. M. Beabá dos MEC-USAID . Ed. Gernasa, Rio de Janeiro, 1968.
ANDRÉ, M. E. D.; LUDKE, M. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas . 1ª ed. EPU: São Paulo, 1986.
ARAPIRACA, J. O. A Usaid e a educação brasileira . São Paulo: Cortez/ Autores Associados, 1982
BARRA, V. M.; LORENZ, K. M. Produção de materiais didáticos de ciências no Brasil: Período 1950 a 1980. Ciência e Cultura, v. 38, n. 12, p. 1970-1983, dez. 1986.
CHASSOT, A. O Ensino de Ciências no começo da segunda metade do século da tecnologia. In: O currículo de ciências em debate. Campinas, SP: Papirus, 2004.
DEMARCHI, M. O.; NASCIMENTO, M. M. Cinquenta anos da área de Ensino de Física no Brasil: um estudo sobre a evolução/estagnação das suas linhas de pesquisa. In : ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, XVIII., 2020, Florianópolis. Anais [...]. Florianópolis: [ s. n. ], 2020.
GARCIA, N. M. D.; GARCIA, T. N. F. B; HIGA, I. O Projeto de Ensino de Física (PEF): um modo brasileiro de ensinar física da década de 1970. In : SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA, XVII., 2007, São Luís. Anais [...]. São Luis: [ s. n. ], 2007.
LOUREIRO, F. P. A Aliança Para o Progresso e o governo João Goulart (1961 -1964) : Ajuda econômica norte-americana a estados brasileiros e a desestabilização da democracia no Brasil pós-guerra. São Paulo: Editora Unesp, 2020.
KRASILCHIK, M. O professor e o currículo das ciências . São Paulo, EPU: EDUSP, 1987.
MARINI, R. M. Subdesenvolvimento e Revolução . 6ª ed. Florianópolis: Insular, 2017.
QUEIROZ, M. N. A. O ensino de física no Brasil nas décadas de 1960 e 1970: legislação, currículo e material didático. 2016. Tese (Doutorado em Ensino de Ciências) - Faculdade de Educação, Instituto de Física, Instituto de Química e Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.
QUEIROZ, M. N. A; HOSOUME, Y. Ensino de física no Brasil nas décadas de 1960- 1970 na perspectiva dos projetos inovadores PSSC, PEF e FAI. In : ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, XVI., 2016, NATAL. Anais [...]. NATAL: [ s. n. ], 2016.
ROMANELLI, O. O. História da Educação no Brasil. 8ª ed. Petrópolis: Vozes, 1985.
VARSAVSKY, O. Por uma política científica nacional . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
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