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PROFESSORES INTELECTUAIS TRANSFORMADORES E A EPISTEMOLOGIA FEMINISTA DO PONTO DE VISTA: APROXIMAÇÕES TEÓRICAS PARA O ENSINO DE FÍSICA

Jaqueline May Borsatto, Alisson Antonio Martins

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
08/11/2023
Linha de pesquisa
Equidade, inclusão, diversidade, direitos humanos e estudos culturais no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## PROFESSORES INTELECTUAIS TRANSFORMADORES E A EPISTEMOLOGIA FEMINISTA DO PONTO DE VISTA: APROXIMAÇÕES TEÓRICAS PARA O ENSINO DE FÍSICA

Jaqueline May Borsatto 1 , Alisson Antonio Martins 2

1 UTFPR/PPGFCET/GEPEF, jaquelineborsatto@utfpr.edu.br UTFPR/DAFIS/PPGFCET/GEPEF; UFPR/PPGE/NPPD, amartins@utfpr.edu.br

2

Palavras-chave : Epistemologia feminista, formação de professores, ensino de física.

As concepções epistemológicas estão na base das concepções educacionais, ou seja, a relação entre sujeito e objeto sustenta a forma de construção do conhecimento científico, expressando-se na organização curricular formal e no currículo em ação nas práticas educativas. O/a professor/professora é parte imprescindível na construção desse currículo, tanto formal quanto oculto, ao fazer escolhas do que vai ser abordado em sala de aula.

Historicamente, as estruturas e os sistemas de conhecimento excluíram, marginalizaram ou silenciaram as vozes e os saberes das mulheres. Neste contexto, ao se considerar as implicações das relações de gênero na ciência, a epistemologia feminista torna-se relevante no desenvolvimento de uma consciência crítica em relação à ciência, podendo constituir abordagens pedagógicas e métodos de ensino adotados pelos educadores.

Visando vincular uma epistemologia feminista no ensino de Física, destacando-se a função desempenhada pelas/aos professoras/professores, este ensaio teórico estabelece uma conexão entre a teoria do ponto de vista proposta por Sandra Harding e a perspectiva do/da professor/a como intelectual transformador/a defendida por Henry Giroux. Pondera-se que estas perspectivas teóricas representam potenciais para um ensino de Física crítico, reflexivo e transformador.

Na contemporaneidade, a racionalidade científica e tecnológica desempenha um papel importante, sendo utilizada para acumulação de bens e controle econômico, político e social (HARDING, 1986). No entanto, a produção do conhecimento tem sido dominada por um grupo de indivíduos privilegiados (homens brancos) que legitimam as práticas científicas consideradas como universais.

Nesse sentido, a epistemologia feminista fundamenta-se em considerar a influência das questões de gênero nas atividades epistêmicas, configurando as concepções de conhecimento, produções científicas e o desenvolvimento das pesquisas. Seu esforço inicial procura tornar visíveis as atividades e relações sociais das mulheres nas mais variadas áreas do conhecimento humano. Esta epistemologia empenha-se em elucidar e questionar preconceitos historicamente configurados e reforçados por um ideal de cientificidade, construídos a partir de estereótipos de masculinidade, tal qual os conceitos de razão e objetividade (KETZER, 2017).

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8 a 10 de novembro de 2023 - SNEF em Rede: Laços e Nós do Ensino de Física

A concepção de epistemologia do ponto de vista de Harding, tem como centralidade o uso emancipatório da ciência, mesmo que esta esteja envolvida em projetos diretamente masculinos. O movimento das mulheres fornece teoria para uma luta política com base moral e científica que pode transformar a perspectiva das mulheres em um 'ponto de vista'. Ou seja, por estarem em posição dominante na vida social, os homens podem estar propensos a desenvolver entendimentos parciais sobre a realidade em que se inserem, enquanto que a posição de subjugada da mulher propicia possibilidades de entendimentos mais completos. Deste modo, a teoria do ponto de vista de Harding assume o compromisso com a compreensão do mundo desde a perspectiva dos subjugados. Não há um compromisso meramente intelectual, mas, também social e político. As concepções de natureza e as relações sociais desenvolvidas pelas mulheres (não necessariamente provindas das mulheres cientistas, mas também de 'saberes subjugados") podem carregar possibilidades emancipatórias. A autora considera a possibilidade de transcendência das divisões e dualismos para eliminação do poder (HARDING, 1986; 1993).

A categoria de professores/as como intelectuais transformadores de Giroux (1987), trabalha com a diversidade dos estudantes, desenvolvendo cultura e tradições emancipatórias, empregando o discurso da autocrítica. A escola torna-se um espaço de disputa, com uma luta a respeito das relações de poder. Esses profissionais desenvolvem os estudantes como agentes críticos, que problematizam o conhecimento e tornam o conhecimento significativo e emancipatório, para superar as injustiças e mudarem a si próprios. Essa linguagem da possibilidade não considera o aluno isolado, mas, em conjunto, com suas particularidades, suas várias características culturais, de classe, raça e sexo, dando voz ativa em suas experiências de aprendizagem. (GIROUX, 1987; 1997).

As perspectivas teóricas defendidas por Harding e Giroux consideram o conhecimento como uma ferramenta de emancipação. No contexto do Ensino de Física, estas perspectivas contribuiriam para a construção de um ambiente contra-hegemônico, que desafia a lógica de dominação e se torna um espaço de resistência à imposições arbitrárias. Atualmente, a Física e outras áreas das ciências da natureza e das engenharias são, predominantemente, masculinas, expressando uma racionalidade técnica orientada para interesses específicos. Portanto, o Ensino de Física fundamentado na epistemologia feminista coloca em questão o conhecimento científico a ser transposto para os estudantes e as relações sociais fortemente marcadas pela presença de estereótipos e de concepções sexistas.

Persiste uma realidade em que a Física ensinada em nossas escolas ainda se apresenta com resquícios positivistas. Em seu conteudismo, ela contém um racionalismo extremo de base matemática; toma a observação como referência para a construção teórica; e possui essência empirista: considera a comprovação do conhecimento pela experimentação, desconsiderando a historicidade em sua produção. O racionalismo e o empirismo entrelaçados no positivismo atribuem o progresso social à expansão do conhecimento e do controle científico da sociedade (CLAUDINO, 2020). Em decorrência, os/as estudantes estão habituados/as a serem receptores/as de conhecimento, de tomarem decisões influenciadas por notas, em uma ação instrumentalizadora que, por vezes, reproduz os saberes e ideologias de práticas pedagógicas tradicionais. Os/As estudantes aprendem que o/a professor/a é a autoridade na sala de aula, que está subordinado/a à exigências da equipe diretiva e da mesma forma, sustenta-se e reproduz-se, a estrutura da sociedade, conservando as hierarquias de poder.

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Portanto, uma contextualização se faz necessária, visto que, os conhecimentos não são objetivos e absolutos, mas constructos sócio-históricos, feitos por seres humanos que incorporam atitudes coletivas nos aspectos de sua organização. Nesse sentido é importante que os/as docentes, apoiados na intelectualidade transformadora formem os/as estudantes para interpretar o modo criticamente e, assim, possam mudar quando necessário (GIROUX, 1997).

A partir da perspectiva do ponto de vista, não se apoia que se desfaça de um currículo de Física baseado em descobertas e revoluções científicas, abdicando-se dos conteúdos que explicam os fenômenos naturais, sustentando-se a utilização desses saberes para uma finalidade de emancipação, mesmo que estes tenham sido produzidos em sua maioria por homens. Pois, de acordo com Harding (1986), essa corrente epistemológica não nega a existência da ciência e um conhecimento para explicação da realidade, contudo, espera-se que este conhecimento possa se comprometer em transformar a sociedade, aplicando para a promoção de um mundo livre de opressão e exploração.

As leis da mecânica, a teoria da gravitação universal, a composição da luz, os fundamentos do eletromagnetismo, os desdobramentos da Física Moderna, entre outros fenômenos estudados pela Física, podem se constituir em um arcabouço de informações a serem trabalhadas na solução de problemas em que se relacionam com a realidade social, inclusive, em questões relacionadas à igualdade de gênero. Os campos pesquisados (e ainda em investigação) das ciências da natureza não se isentam de suas relações e aplicações nos agrupamentos sociais humanos.

No contexto educacional, os/as estudantes, instigados pelo/pela professor/professora intectual transformador/a podem desenvolver papel ativo na tomada de decisão consciente, articulando relações que contribuam para uma sociedade mais igualitária. A transcendência do gênero na educação científica, a partir do ponto de vista feminista (enquanto posição subjugada) permite um compromisso social, político e intelectual na promoção da equidade de gênero, transformando as divisões e os correspondentes dualismos em força para enfrentamento do patriarcado.

## Referências

CLAUDINO, Osmundo R. Ciência, docência e aprendizagem: itinerário epistemológico. Anais do V Congresso Nacional de Pesquisa e Ensino de Ciências . Campina Grande: Editora Realiza LTDA, v. 1. p. 1-12, 2020.

GIROUX, Henry. A escola crítica e a política cultural. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1987.

GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem . Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

HARDING, Sandra. A instabilidade das categorias analíticas na teoria feminista. Revista Estudos Feministas , Rio de Janeiro, v.1, n.1, p.7-32, 1993.

HARDING, Sandra. The Science Question in Feminism. Ithaca: Cornell Univ. Press,1986.

KETZER, Patrícia. Como pensar uma Epistemologia Feminista? Surgimento, repercussões e problematizações. Argumentos: Revista de Filosofia , v.9, p. 95-106, 2017.

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