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A evolução da concepção dialética do Espaço na Revolução Científica do século XVII

Gabriella Pinheiro Tardelli, Marcos Moraes Calazans, Cassiano Rezende Pagliarini, Augusto Cesar Lobo

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXV
Ano
2023
Data
08/11/2023
Linha de pesquisa
História, filosofia e sociologia da ciência no ensino de física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A EVOLUÇÃO DA CONCEPÇÃO DIALÉTICA DO ESPAÇO NA REVOLUÇÃO CIENTÍFICA DO SÉCULO XVII

Gabriella Pinheiro Tardelli , Marcos Moraes Calazans , 1 2 Cassiano Rezende Pagliarini , Augusto Cesar Lobo 3 4

- 1 Universidade Federal de Ouro Preto/graduanda em Física, gabriella.tardelli@aluno.ufop.edu.br
- 2 Universidade Federal de Ouro Preto/Departamento de Física/ICEB, calazans@ufop.edu.br
- 3 Universidade Federal de Ouro Preto/Departamento de Física/ICEB, pagliarini@ufop.edu.br
- 4 Universidade Federal de Ouro Preto/Departamento de Física/ICEB, lobo@ufop.edu.br

Palavras-chave : Materialismo dialético; Espaço-tempo; Revolução científica do século XVII;

## Resumo expandido

Na primeira metade do século XX, com a descoberta da teoria da relatividade, a ontologia moderna sofreu uma profunda reviravolta trazendo a noção de espaçotempo: uma geometria quadrimensional desenvolvida por Minkowski que possui estrutura absoluta subjacente à relatividade do espaço e do tempo individualmente (DISALLE, 2006). Nela espaço e tempo não são entidades absolutas e independentes uma da outra, mas formam um todo indivisível, uma unidade de partes que se interrelacionam. Paralelamente, uma nova geometria foi desenvolvida estabelecendo-se o espaço não-euclidiano curvo e tratando o antigo espaço plano euclidiano como um caso particular da nova generalização. Esta moderna teoria do espaço-tempo, amplamente discutida na física contemporânea, tem levantado debates filosóficoontológicos sobre a natureza do espaço. Na concepção dialética de mundo, os objetos e fenômenos estão em constante movimento, interrelação e interdependência mútua. Espaço e matéria, espaço e tempo, movimento e repouso, matéria e energia, etc., são unidades de contrários interdependentes. Em oposição, na visão que se convencionou na gênese da metafísica tradicional as coisas e fenômenos são vistos como estáticos e isolados uns dos outros, como separadas em 'caixinhas', como nas categorias aristotélicas que classificam todas as coisas e as diferenciam umas das outras. O presente trabalho apresenta discussão sobre a evolução da concepção dialética de espaço no pensamento científico e filosófico no contexto da revolução científica do século XVII. Por meio de uma pesquisa de natureza teórico-bibliográfica foram confrontadas as visões de espaço do período com a reflexão teórica acerca da concepção dialética na filosofia natural. Os resultados da pesquisa contribuem para elevar a compreensão de pesquisadores e professores, bem como instrumentalizar o debate na área de história e filosofia da ciência acerca da evolução do conceito de espaço no período especificado. Jammer (2009) apresenta uma síntese da evolução do conceito de espaço desde a Grécia Antiga até os dias de hoje. Segundo o autor, para os primeiros atomistas gregos, espaço e matéria eram coisas mutuamente excludentes, o espaço era complementar à matéria e limitado por ela, ou seja, o espaço era apenas o espaço vazio. Durante todo o período que vai da Antiguidade até o Renascimento predominou em parte importante de pensadores a identificação da geometria com a astronomia (DISALLE, 2006; JAMMER, 2009), ou seja, de que a astronomia era 'a geometria dos céus' (BURTT, 1983, p. 35). Tal identificação tinha como pano de fundo a dificuldade de abstração da ideia de espaço como representação e conceito do espaço concreto. A abstração do espaço como espaço ideal onde se dão as operações geométricas foi produto de um largo processo que começou com Euclides, mas que só alcançou seu apogeu com a revolução científica

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do século XVII (BURTT, 1983). A gênese da moderna concepção newtoniana de espaço, contínuo, isotrópico, homogêneo e infinito, é um tema recorrente na história e filosofia da ciência (KOYRÉ, 2006; JAMMER, 2009; BURTT, 1983; GRANT, 1981; DISALLE, 2006). Grant (1981) fornece uma descrição das principais ideias sobre o espaço formuladas entre os séculos XIV e XVIII. O autor analisa as influências das ideias e argumentos escolásticos nas interpretações do espaço propostas pelos pensadores revolucionários do século XVII. Diversas pesquisas discutem as bases filosóficas das concepções de espaço defendida por Newton (BURTT, 1983; DISALLE, 2002; JAMMER, 2009), Descartes (BURTT, 1983, JAMMER, 2009) e outros. Embora diversos cientistas e filósofos como Descartes e Leibniz adotaram relativamente a dialética na construção de suas teorias, a moderna concepção dialética da natureza e do espaço é sistematizada apenas no século XIX por Hegel (1995; 2016) e por Engels (1976; 2015). Atualmente, é incorporada apenas no domínio do espaço 'social' (LEFEBVRE, 1991), no campo da sociologia, deixando a interpretação filosófica sobre a moderna concepção de espaço físico no campo da metafísica. A evolução do pensamento dialético na história ganhou sua formulação mais elaborada com o materialismo dialético. Com ele a contradição ganhou caráter de lei fundamental e geral que rege os processos da natureza e da sociedade (ENGELS, 2015). A luta entre os contrários é o motor propulsor de todo o desenvolvimento, todo movimento. Neste sentido, e do ponto de vista do materialismo dialético, o movimento assume um caráter geral, não de um mero estado ou propriedade da matéria, nem da noção restrita de movimento mecânico, mas a própria forma da existência da matéria (ENGELS, 1976, p. 41). Ou seja, o movimento da matéria é sua transformação contínua e incessante sendo o espaço e tempo para o materialismo dialético, portanto, formas objetivas indissociáveis de existência da matéria. Pois, se a matéria é inconcebível sem o movimento, o movimento da matéria se dá sempre no espaço e no tempo. Hegel havia sistematizado antes de Marx e Engels o pensamento dialético atribuindo ao movimento e ao espaço e ao tempo o caráter de uma unidade dialética. Na concepção dialética, o espaço vazio divorciado da matéria é mera abstração lógica ou matemática, fruto da atividade do nosso pensamento. Através de influentes pensadores, como Henry More, a visão metafísica impregnou a noção de Newton sobre o espaço. Segundo Newton, o espaço pode ser separado da matéria. O espaço absoluto newtoniano conserva suas propriedades absolutas precisamente porque existe independentemente da matéria (HESSEN, 1984). O espaço contém os objetos do mundo como uma espécie de recipiente e, portanto, a relação que guarda com os objetos é a mesma que um recipiente tem com aquilo que contém, ou seja, uma existência autônoma. Portanto, a existência do espaço independentemente da matéria se dá como coisas que não se interrelacionam a não ser por relação de exclusão mútua. Neste sentido, a visão de Descartes foi relativamente menos metafísica que a de Newton, pois ele concebia uma identificação do espaço com a matéria. A mecânica cartesiana antecedeu a newtoniana e foi influente tanto no continente (França e Alemanha) quanto na Inglaterra. Mesmo após a morte de Newton a mecânica newtoniana sofreu tenaz resistência dos cartesianos. Uma vez que Descartes negava a existência do vazio, para ele o espaço era um plenum dotado de extensão no qual o movimento era comunicado às partes pelo impacto imediato. Os corpos celestes nadavam sem alternativas em um infinito éter (BURTT, 1983). Nas cartas enviadas a Descartes, More colocou-se em viva oposição ao atomismo grego antigo e à identificação cartesiana entre espaço e matéria. Ao seu ver, ambos conduziam ao materialismo e ao ateísmo. Contudo, Descartes não aceitou os argumentos de More contra a

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identificação entre espaço e matéria. A visão dialética de mundo também encontrou no pensamento cartesiano relativa expressão no que diz respeito à conexão mútua entre os fenômenos. A física da época circunscreveu quase que completamente toda causalidade à causalidade mecânica. Contudo, essa tendência se mostrou mais forte em Newton que em Descartes em virtude de a influência das concepções metafísicas ser mais forte no pensamento do cientista inglês. Para Descartes, que antecipa a discussão de princípios de conservação, a invariância da quantidade total de movimento que existe no universo era um princípio fundamental que unificava as diferentes áreas das ciências da natureza. 'A virtude ou a potência de se mover a si mesmo, que se encontra em um corpo, pode muito bem passar, toda ou em parte, a um outro e, assim, deixar de estar no primeiro, mas não pode deixar de existir inteiramente no mundo' (DESCARTES, 2009). Contudo a identificação cartesiana entre matéria e espaço não logrou maiores resultados na explicação do mundo físico em virtude de sua concepção de matéria despojada de qualidades. Ao relacionar matéria com objetos geométricos, Descartes esvazia o conceito filosófico de matéria atribuindo a esta um único atributo, sua extensão. Embora este erro não levasse Descartes às mesmas conclusões que Newton, o conduziu a diminuir o potencial explicativo de sua teoria perdendo lugar para a mecânica newtoniana.

## Referências

BURTT, Edwin A. As bases metafísicas da ciência moderna . Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1983.

DESCARTES, René. O mundo (ou Tratado da luz) e O homem . 1ª Ed. Campinas: Editora Unicamp, 2009.

DISALLE, Robert. Newton's philosophical analysis of space and time. In I. Bernard Cohen & George E. Smith (eds.), The Cambridge Companion to Newton . Cambridge University Press, p. 33-56, 2002.

DISALLE, Robert. Understanding Space-Time : The Philosophical Development of Physics from Newton to Einstein. New York: Cambridge University Press, 2006.

ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

ENGELS, Friedrich. Anti-Duhring . São Paulo: Boitempo. 2015.

GRANT, Edward. Much Ado about Nothing : Theories of Space and Vacuum from the Middle Ages to Scientific Revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Ciência da lógica 1 : A doutrina do ser. Petrópolis: Editora Vozes, 2016.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Enciclopédia das Ciências Filosóficas - em compêndio (1830), v. II - A Filosofia da Natureza. São Paulo: Edições Loyola, 1995.

HESSEN, Boris. As raízes sociais e econômicas dos 'Principia' de Newton. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 6, n. 1, p. 37-55, 1984.

JAMMER, Max. Conceitos de espaço : a história das teorias do espaço na física. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.

KOYRÉ, Alexandre. Do Mundo Fechado ao Universo Infinito . Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

LEFEBVRE, Henry. The Production of Space . Oxford: Basil Blackwell, 1991.

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