EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA CONTRA A DESINFORMAÇÃO E PSEUDOCIÊNCIA
Rafaelle Da Silva Souza
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXV
- Ano
- 2023
- Data
- 08/11/2023
- Linha de pesquisa
- Divulgação científica e práticas educativas em espaços educativos formais, informais e não formais e o ensino de física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA CONTRA A DESINFORMAÇÃO E PSEUDOCIÊNCIA
## Rafaelle da Silva Souza
Palavras-chave : Educação científica; desinformação; pseudociência.
A pseudociência engloba teorias, metodologias, crenças, práticas ou produtos que não atendem aos requisitos das metodologias científicas que sistematizam os diferentes campos da pesquisa científica, porém são apresentados como se seu funcionamento de fato se baseasse na ciência. Esses serviços carecem de evidências verificáveis e plausibilidade e, geralmente, proclamam que sua eficácia foi avaliada por estudos credenciados, porém, não passam de uma tentativa de enganar o público-alvo do dito serviço (ALLCHIN, 2004; MOLINA, 2015).
A sociedade, sem ter o conhecimento necessário para discernir o que é e o que não é científico, é atraída, inevitavelmente, por ideias distorcidas ou que abusam dos jargões científicos, além das que apresentam forte apelo emocional. Conforme aponta Alves-Brito et al. (2020, p. 1602), há 'circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelo à emoção e à crença pessoal', ou seja, um discurso em que se destaque fatos, evidências, razão, perde espaço para a percepção subjetiva (opinião, crenças pessoais, emoções), 'sintetizando uma estratégia de desvalorização dos fatos em prol de interesses pessoais, ou de grupos'.
Para que as pseudociências não enganem o público, é essencial que a população seja educada cientificamente. Faltam estímulos para a educação científica e, em Física, essa questão é ainda mais expressiva. São poucas as práticas que destacam os distintos procedimentos, padrões, técnicas experimentais, computacionais e matemáticas que estão imbricadas nas práticas científicas dos mais diversos campos da ciência (MASSONI et al., 2018).
De maneira geral, os argumentos subjacentes à educação científica são que a população tenha domínio sobre um conhecimento científico mínimo que a instrumentalize a participar de forma consciente de debates que envolvam a inserção da ciência, tecnologia e inovação na realidade social. Faz-se necessário tornar temas atuais conhecidos em termos científicos pela população geral, pois muitos deles ainda estão em desenvolvimento e a sociedade geral precisa ser autônoma o suficiente para debatê-los no mundo contemporâneo e identificar as práticas charlatãs.
Neste contexto, escolhe-se a área do conhecimento intrínseca às pesquisas em física moderna e contemporânea (FMC) em razão da percepção que a compreensão popular da ciência tem sido alvo de apropriações equivocadas e distorções, em especial, quanto ao emprego do termo quântico. Tornou-se um conteúdo de importância indiscutível para compor um leque de informações que devem conduzir a sociedade para uma efetiva educação científica com legitimidade cultural e social (ROSA, 2019; SCHOLZ et al., 2020).
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Entre outras coisas, na área da Mecânica Quântica (MQ), é importante que os cidadãos saibam se defender do uso inadequado desse conhecimento pelos charlatães. Um dos aspectos que merece destaque é a aproximação de conceitos da FMC do cidadão devido a sua presença importante na tecnologia, na sociedade e na cultura. Esta inserção de conteúdos científicos é um problema antigo dentro da comunidade de ensino de ciências e que ainda parece não ter tido uma solução adequada para uma eficaz educação científica.
No caso do termo quântico, houve uma acentuada extrapolação dos muros da academia e centros de pesquisa. Uma simples busca no Google pode mostrar que existem cerca de 1,5 milhão de resultados (somados) para medicina, cura ou terapia quântica, mas não se limita a estes termos, a lista é crescente. Por essa razão, as discussões sobre apropriações indevidas e misticismo quântico gerou diversos trabalhos.
A exemplo, Paulo e Moreira (2011) discutem sobre a necessidade de adaptação da linguagem utilizada em textos sobre a MQ para pessoas leigas. Podese também citar Pinto e Zanetic (1999), que há décadas refletiam sobre a necessidade da inserção da física moderna, em especial a física quântica, no ensino médio; além de Cruz e Cruz (2009), que acreditam que essa inserção deve acontecer para possibilitar o cumprimento efetivo da alfabetização científica, dando à sociedade as ferramentas necessárias para agir com criticidade frente ao misticismo. Atualmente, Pigozzo (2021) desenvolveu uma investigação para analisar o misticismo quântico e quais conhecimentos são apropriados por essas práticas, compreendendo, também, como a comunidade acadêmica lida e se posiciona frente a esse fenômeno. Esses trabalhos tentaram delinear as necessidades educacionais e propor caminhos para alcançar um objetivo comum: um ensino de ciências significativo dentro e fora da escola.
Para o ensino de MQ, há consenso da importância e da necessidade de seus conteúdos serem mais claramente discutidos, de modo que o leitor comum consiga minimamente compreender a natureza a nível atômico, bem como as aplicações e avanços em diversos contextos da eletrônica moderna. Busca-se mostrar que é um ramo da física composto por conhecimentos sistematizados, enquanto a pseudociência se apropria deles, não segue uma metodologia coerente e utiliza da credibilidade depositada na ciência para fins comerciais e lucrativos.
Na literatura especializada há uma série de trabalhos que argumentam para uma aprendizagem mais conceitual e histórica, vários artigos científicos destacam as bases experimentais e discutem temas relevantes como interferência, difração e dualidade onda-partícula, que são fundamentais e merecem grande atenção em uma unidade de ensino. Os saberes científicos, estabelecidos socialmente há décadas, que envolvem a produção de conhecimentos, parecem ter sido negados por uma lógica promovida de que os saberes místicos e os científicos podem ser equiparados, colocando-os dentro de um mesmo patamar de valoração.
No contexto do charlatanismo quântico, observa-se um processo de validação científica com argumentos centrados em frases dos principais autores da física quântica, ou seja, argumento de autoridade. Em outros casos, observa-se discursos com relatos de experiências bem sucedidas ligados à teoria sem contextualizar sua natureza ontológica. Não são expostos os pressupostos, as correntes de pensamento, seu desenvolvimento histórico e interpretação que demarcam a estrutura dessa teoria.
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Desse modo, as práticas charlatãs são, sem dúvida, um fenômeno social que merece ser analisado pela sua penetração social e pelas suas consequências. Neste ponto, estas apropriações se colocam como objeto do ensino de ciências. Deve-se questionar se o cidadão está minimamente preparado para reconhecer, no meio de tudo isso, assuntos como o charlatanismo quântico, os perigos associados a ele e conceitos básicos da ciência. A presença de uma acentuada educação científica facilita esse processo.
Neste trabalho, argui-se a insuficiência de pesquisas que invistam na divulgação científica para a sociedade em geral, e defende-se a ideia de que é necessário se ir para além dos muros da academia e das escolas para se promover o conteúdo conceitual da física. Para tanto, utiliza-se como estudo de caso a FMC e, em particular, a MQ, discutindo possibilidades para a aproximação desses conhecimentos no saber diário das pessoas. Busca-se promover uma reflexão sobre as principais problemáticas e apresentar possíveis soluções para as questões que estão em pauta no Brasil e no mundo.
## Referências
ALVES-BRITO, A.; MASSONI, N. T. e GUIMARÃES, R. R. Subjetividades da comunicação científica: a educação e a divulgação científicas no Brasil têm sido estremecidas em tempos de pós-verdade? . Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v. 37, n. 3, p. 1598-1627, dez. 2020.
ALLCHIN, Douglas. Pseudohistory and pseudoscience. Science & Education , v. 13, n. 3, p. 179-195, 2004.
CRUZ, F. F. S.; CRUZ, S. M. S. Pode o ambiente cultural e social definir o conteúdo escolar de física: o caso da mecânica quântica. In: VII ENPEC, Encontro Nacional em Pesquisa em Educação em Ciências, Florianópolis, 2009. Atas [...]. Florianópolis: UFSC, 2009.
MASSONI, N. T., MOREIRA, M. A. e SILVA, M. T. X. Revisitando a noção de 'Método Científico'. Revista Thema , 15(3), p. 905-926; 2018).
MOLINA, Rafael García. Pseudociencia en el mundo contemporáneo. Alambique: Didáctica de las ciencias experimentales , v. 81, p. 25-33, 2015.
PAULO, I. J. C.; MOREIRA, M. A. O problema da linguagem e o ensino da mecânica quântica no nível médio. Ciência & Educação , v. 17, n. 2, p. 421-434, 2011.
PINTO, A. C.; ZANETIC, J. É possível levar a física quântica para o ensino médio? Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 16, n. 1, p. 7-34, abr. 1999.
PIGOZZO, D. Do místico ao quântico: O emaranhamento de cosmovisões no desenvolvimento da Física Moderna e Contemporânea. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Dissertação: Porto Alegre, 2021.
ROSA, L.F.M. Explorando a inserção de tópicos de física quântica em uma escola estadual: um estudo sob a luz da perspectiva sociocultural. Dissertação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre (2019).
SCHOLZ, Ruediger; WESSNIGK, Susanne; WEBER, Kim-Alessandro. A classical to quantum transition via key experiments. European Journal of Physics , v. 41, n. 5, p. 055304, 2020.
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